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Guga 20 anos: A atuação de gala e o beijo no troféu
08/06/2017 às 00h00

Em 8 de junho de 1997, Gustavo Kuerten conquistou o primeiro de seus três títulos de Roland Garros.

Foto: Arquivo
por Mário Sérgio Cruz

Em 8 de junho de 1997, Gustavo Kuerten entrava na quadra Philippe Chatrier para disputar uma improvável final de Roland Garros. O jovem catarinense, que tinha apenas com 20 anos e 66º do ranking, jamais havia chegado ao último dia de um torneio na elite do circuito mundial e possuía apenas dois títulos de nível challenger na carreira. Seu adversário, Sergi Bruguera, era bem experiente em decisões. Então número 19 do mundo, o espanhol era bicampeão de Roland Garros nos anos de 1993 e 1994 e já tinha 14 títulos de ATP no currículo. 

Chamado de "Rei do Saibro" na época, Bruguera não repetia os mesmos números que o levaram ao quarto lugar do ranking mundial três anos antes e aos dois títulos em Paris. O catalão de 26 anos já amargava um jejum de títulos de mais de duas temporadas e havia perdido as finais no carpete de Milão e no piso duro de Miami naquele ano. Ainda assim, ele deu mostras de seu melhor tênis na capital francesa, chegando a derrotar o então número 2 do mundo Michael Chang nas oitavas de final e vindo de uma boa vitória sobre o australiano Patrick Rafter na semifinal.

Guga vinha embalado no torneio e já havia passado por campeões de Roland Garros, o austríaco Thomas Muster na terceira rodada e o russo Yevgeny Kafelnikov nas quartas de final. Muster e Kafelnikov eram, aliás, os dois últimos a conquistar o Grand Slam francês. Ainda que a temporada do catarinense fosse de altos e baixos, ele ainda havia obtido outros dois feitos antes de Paris: Em fevereiro, venceu o ex-número 1 Andre Agassi em Memphis. Já no mês seguinte, conquistou sua primeira vitória contra top 10 ao superar o sul-africano Wayne Ferreira em Indian Wells.

Depois de conseguir vitórias apertadas durante a campanha, com três jogos seguidos indo ao quinto set e mais dois decididos em quatro parciais, Guga teve sua melhor atuação na caminhada para o primeiro título e derrubou o bicampeão em sets diretos, com parciais de 6/3, 6/4 e 6/2, em apenas 1h50 de partida. Foi o segundo jogo mais curto do catarinense em Paris, ficando atrás apenas da estreia contra o tcheco Slava Dosedel, decidida em 1h35.

Diante de um rival muito sólido do fundo de quadra, mas dono de um estilo de jogo mais conservador, Guga manteve a tática de partidas anteriores e impôs um tênis agressivo para vencer o set inicial. A perda da primeira parcial não abalaria o bicampeão, que vinha de três viradas seguidas no torneio, mas fez com que Bruguera ligasse o sinal de alerta e mudasse um pouco o estilo de jogar.

O espanhol partia para a definição dos pontos em mais oportunidades no segundo set, impondo golpes de maior profundidade, e equilibrou as acões. Com o placar empatado por 4/4, Bruguera teve dois break points, mas a tática incomum para seu estilo de jogo custou-lhe a perda de pontos importantes e Guga não apenas confirmou o saque, como também quebrou no game seguinte para ampliar a vantagem.

Em depoimento a Luis Colombini para sua autobiografia Guga, um brasileiro (Sextante, 2014, p. 201), o tricampeão de Roland Garros relata que entrou em quadra extremamente sereno e que, a cada momento, aumentava a certeza de que o título seria seu. A sensação ficou cada vez maior após a quebra no quinto game do terceiro set. Guga definiria o confronto dois games mais tarde para receber as ovações de mais de 15 mil torcedores que presenciavam o momento histórico para o tênis brasileiro.

"E já que eu ia ser campeão, quis desempenhar como campeão. À vontade, relaxado, inspirado, solto e afiado, comecei a exibir meu melhor tênis, com tudo funcionando melhor do que o planejado. Me inspirei ainda mais e, durante vinte minutos, o espetáculo, que já era lindo, ficou magnífico".

Veja os melhores momentos da final entre Guga e Bruguera.

Instantes depois da partida, Guga falou à televisão francesa e dedicou a conquista ao irmão Rafael e ao técnico Larri Passos. "Desde que cheguei aqui, meu técnico e meu irmão estiveram junto comigo e me ajudaram em tudo que eu precisava", afirmou à epoca. "Acho que mais do que um título para mim, é um título para eles. Tudo o que conquistei eu tenho que dedicar ao meu técnico, que é uma pessoa muito importante para mim".

Depois de receber o troféu mãos do sueco Bjorn Borg, então recordista de títulos em Roland Garros, com seis conquistas, Guga discursou durante a cerimônia de premiação. "Falar é a parte mais difícil, eu prefiro muito mais jogar. Foi a primeira vez que eu estive em uma final e logo em Roland Garros, é inacreditável".

"Não esperava que isso fosse acontecer aqui. Estou muito feliz e gostaria de parabenizar o Sergi por sua grande campanha no torneio. Também gostaria de agradecer à presença de estrelas do tênis, que vieram aqui hoje. Foi um prazer conquistar o troféu diante de vocês", disse emocionado, diante do próprio Borg e do argentino Guillermo Vilas, que também participava da cerimônia de premiação.

"Meu agradecimento especial vai para minha família, por todo apoio que eles me deram e ao povo brasileiro. E, em especial, ao meu pai, amigo e técnico. Eu amo você", completou Guga, novamente agradecendo a Larri pela histórica conquista em Paris antes de beijar o troféu de seu primeiro Grand Slam.

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