Notícias | Dia a dia
'Motivação não depende de patrocínio', diz Teliana
10/03/2017 às 06h55

Após os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, Teliana foi uma das muitas atletas a perder patrocinadores

Foto: JAM Media
por Mário Sérgio Cruz

Principal nome do tênis feminino nacional nas últimas duas décadas, Teliana Pereira concedeu uma longa entrevista ao TenisBrasil durante sua participação no Circuito Feminino Future de Tênis, em São Paulo, em que abordou temas sobre sua temporada, a carreira, o circuito da WTA, o momento atual do tênis brasileiro e seus planos para o futuro.

Neste trecho da conversa, Teliana avaliou a participação brasileira no Zonal Americano da Fed Cup, que aconteceu no mês de fevereiro em Metepec, no México. Com duas estreantes na equipe, Carolina Meligeni Alves e Luisa Stefani, o Brasil venceu dois dos cinco confrontos que fez durante a semana e diante de uma chave muito forte com Colômbia e Argentina, só escapou do descenso após superar a Bolívia no último dia.

A ex-número 43 e atual 184ª do ranking voltou a falar sobre a pressão que colocou sobre si mesma diante dos resultados que não apareciam no ano passado e comentou sobre o delicado momento de perda de patrocínios após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. "Eu imaginava que depois das Olimpíadas muita coisa fosse acabar, então já estava preparada para isso", disse a pernambucana que atualmente conta com os patrocínios da Elemídia, Wilson, Optimum Nutrition e Estácio.

Teliana ainda destaca o bom momento vivido por Beatriz Haddad Maia, de apenas 20 anos e que é a nova número 1 do Brasil, ao ocupar o 180º lugar. Bia que terminou o ano passado vencendo dois torneios nos Estados Unidos e adiou o início da atual temporada por lesão tende a subir no ranking já que tem pontos de um título recente em Clare, na Austrália, a serem incluídos em sua contagem.

Confira a entrevista com Teliana Pereira.

Você jogou a Fed Cup com uma equipe bem nova, com duas meninas estreantes. Além disso, lá no México tem toda questão da altitude e da bola murcha. Como foi a experiência?
São condições difíceis porque a gente joga com altitude e bola sem pressão e acho que isso não favorece às meninas que estavam lá. Eu e a Gabriela somos jogadoras de saibro, a Carol Meligeni também. A Luisa era a única que prefere quadra rápida. Mas eu estava super preparada porque já vinha de um ritmo bom e a gente teve um pouquinho de azar. A gente caiu no grupo mais difícil e acabou ficando em uma situação muito complicada, mas foi tudo muito no detalhe.

Acho que a gente acabou pecando e poderia ter vencido no primeiro confronto contra a Colômbia. Ali era o confronto que fez a gente ficar na situação que a gente ficou, chegando ao último dia lutando para não ser rebaixado. Eu já conheço bem as meninas, a Gabriela e a Carol, pude conhecer a Luisa que é uma menina muito nova e que está jogando muito bem. Foi divertido apesar de a gente não conseguir o resultado que a gente almejava.

Exigiu muito do seu físico ter feito tantos jogos num curto espaço de tempo, já que todos os dias você jogava simples e duplas?
Exigiu um pouco porque faz tempo que eu não jogo simples e duplas, eu quase não tenho jogado duplas, mas vou te falar que foi bom porque ganhei ritmo. Eu senti um pouquinho naquele último confronto, senti dor no joelho, mas sabia que as outras meninas tinham total condição de ganhar e eu fiquei bem tranquila.

Como você vê o momento da Bia agora?
O problema que atrapalhou muito a Bia foram as lesões. Quando ela estava em um momento bom, ela se machucava, mas ela tem um potencial imenso. Já falei isso várias vezes, ela pode jogar entre as cem melhores e tudo depende dela e do corpinho dela. Mas pelo que a gente conversou, ela vem se preparando bem e está entendendo o quanto é importante essa preparação do corpo dela. Acho que ela tem um futuro brilhante.

Numa entrevista para o próprio TenisBrasil no ano passado, você disse que tinha colocado muita pressão sobre si mesma e sentia que aquilo estava te prejudicando. Como você tem trabalhando nesse ponto? Ainda em cima disso, você teve alguns jogos que escaparam no detalhe, tanto ano passado como este ano, fale um pouquinho sobre isso.
Na verdade no ano passado, se a gente for ver, quase todos os jogos que eu perdi foram no detalhe. Eu não joguei mal no ano passado, acho que joguei bem e vinha treinando super bem, mas o que acontece é que você se sente bem, mas não o suficiente para conseguir as vitórias. Isso acaba pesando bastante e foi o que aconteceu comigo. Eu sempre fui uma pessoa que sempre me cobrei bastante, sempre quis dar o meu melhor e o meu máximo e isso me prejudicou demais. Primeiro que eu cheguei muito rápido no topo, em 2015 eu ganhei dois WTA e, do nada, eu acordei e era 50 do mundo. Acho que não tive maturidade para lidar com isso. Foi um pouquinho difícil apesar de eu ter pessoas muito boas ao meu lado, não foi o suficiente. Acho que falando em jogo, eu joguei super bem.

Todos os torneios que eu joguei foram torneios grandes, eu joguei os maiores torneios do mundo e não tinha moleza. O tênis é detalhe, é muito mental, e eu sempre pecava na parte mental. Eu sempre acabava chegando perto e perdendo e aquilo foi me colocando para baixo até chegar a um momento que eu simplesmente não queria mais, que foi onde eu decidi que iria encerrar meu ano antes para esfriar minha cabeça.

Este ano você tem duas questões delicadas, que são essa volta aos torneios menores e também a perda de alguns patrocínios. O quanto isso de frustra, mas ao mesmo tempo o quanto você tenta tirar de motivação a partir dessa adversidade?
Vou ser bem sincera com você, estou acostumada com essas coisas. Acho que no Brasil, infelizmente, as coisas não são pensadas a longo prazo. Eu imaginava que depois das Olimpíadas muita coisa fosse acabar, então já estava preparada para isso. Sinceramente, isso já me decepcionou mais, mas hoje eu sei como as coisas funcionam e não me aborreço mais. A minha motivação não depende disso, mas sim de dar o meu máximo e alcançar os meus objetivos. Se eu for depender de patrocínio para me motivar, fica difícil jogar tênis aqui no Brasil.

Quando você joga os torneios aqui no Brasil, você chega a ajudar alguma menina? Porque querendo ou não você tem uma condição melhor que a dessas meninas que estão jogando aqui. As meninas chegam a pedir algum tipo de ajuda para você?
Não isso não acontece. Na verdade eu troco muita ideia com a Gabriela, com a Carol, com a Paula... A gente conversa sobre o que cada uma tem, como fez para jogar, porque todo mundo sabe que o tênis é um esporte muito caro. Você precisa ter dinheiro para investir na sua carreira, mas você só começa a ganhar dinheiro depois de muito tempo, se conseguir, se você chegar ao top 100.

Eu sei das dificuldades delas e, voltando àquela outra pergunta, é claro que eu me decepciono com o fato de ter diminuído o dinheiro por mim e muito mais pelas meninas que estão vindo, porque elas precisam de condições para poder viajar e levar o técnico. Eu sei a importância que tem viajar com meu técnico e elas infelizmente não vão ter isso. É lamentável e acho que isso influencia muito no tênis feminino brasileiro que nunca teve uma grande visibilidade e deve ter ainda menos.

 

CONFIRA TODOS OS TRECHOS DA ENTREVISTA

Teliana celebra jogar sem dor e realização do irmão
'Motivação não depende de patrocínio', diz Teliana
Teliana apoia esforço de jogadoras contra ameaças

Comentários
Raquete novo
Mundo Tênis