O sonho olímpico
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 3, 2013 às 10:40 pm

Acredito que muitos dos que andam por aqui neste espaço – se não todos – sabem muito bem que a formação de um tenista profissional é peculiar. Diferente de outras modalidades. Não basta formar uma equipe e treinar. É imprescindível a participação nos circuitos da ATP e WTA e, mais do que isso, sucesso numa profissão em que o funil é verdadeiramente apertado.

Li um release do Guga Kuerten lamentando o fim do Projeto Olímpico. Não posso me ater às questões burocráticas, uso de verbas pela CBT etc e tal, pois como se sabe o tênis é peculiar e, por exemplo, viagens de tenistas nem sempre podem ser programadas como a de uma equipe de basquete, de vôlei, ou de futebol. Assim é mesmo de se lamentar o fim do apoio e, mais uma vez, tenho de concordar com o nosso tricampeão de Roland Garros.

Muita gente fala da excelência na formação de jogadores em locais como a academia de Nick Bollettieri. O espaço e a técnica usadas pela dupla Guga e Larri Passos, em Camboriú, é adquada ao tênis, à formação do atleta e o caminho certo para chegar ao profissionalismo com sucesso.

A palavra sucesso tem uma outra importância fundamental. Pois é claro que o Brasil terá um representante no torneio olímpico de tênis do Rio 2016. Por sermos o país sede, no uso dos wild cards pela ITF existe um critério geográfico que contempla o espírito dos Jogos em ter grande abrangência mundial e contribuir para o desenvolvimento do esporte. Assim, se o Brasil não tiver ninguém bem classificado para garantir lugar na chave, ganhará uma vaga para um jogador sem bom ranking, assim como pode acontecer com algum tenista de uma nação sem grande tradição na modalidade. Mas se quisermos ter um competidor em condições de brigar por medalha o fim do programa olímpico pode determinar o fim de um sonho também.

Só para lembrar, ou ilustrar, no torneio olímpico classificam-se os 56 primeiros dos rankings da ATP e WTA, com máximo de quatro jogadores por país. Hoje nos temos o Thomaz Bellucci nesta condição. Para 2016, as perspectivas são incertas.

O início da carreira profissional de um tenista está longe de ser simples e fácil. Acredito até que o tamanho do sacrifício determina o tamanho do sucesso. Sei de um cartão postal enviado por Guga a sua mãe Alice, em que ele contava alguma coisa assim… “hoje não deu para comer bem… estávamos sem dinheiro, mas as coisas irão melhorar”. Ora, isso está muito distante do glamour que muitos pensam fazer parte do dia a dia do tenista. A passagem de avião não é luxo. É ferramenta de trabalho. Não há como alcançar a posição de numero 56 do ranking sem viagens, trocas de vôos inesperadas, busca de alternativas para jogar um torneio ou outro, na briga pelos pontos do ranking.

Não sei qual será o futuro do tênis brasileiro até 2016. Mas uma coisa tenho como certa… este trabalho estava em boas mãos com a dupla Guga e Larri.


Comentários
  1. Henrique Farinha

    Chiquinho, essa confusão com as passagens me parece um mal-entendido que não foi devidamente gerenciado. Em primeiro lugar, ninguém pode colocar a honra de Guga e Larri em discussão, como vi muitos em diversos blogs questionando. Pensar que eles sujariam as mão, e ainda por cima por tão pouco, é um tremendo absurdo!! Depois, porque todos sabem que há razões de sobra para jogadores mudarem passagens (estavam no quali e conseguiram entrar direto na chave principal, perderam na 1a rodada e receberam convite para outro torneio, defesa de pontos etc.). Parece-me mais que essa característica inusitada do tênis não foi esclarecida de imediato, antes da assinatura do termo, e, portanto, não houve inclusão de previsão para tais situações. E, aí, como não houve previsão de exceção, prevalece a obrigatoriedade de licitação para aquisição das passagens. Penso que uma boa gestão política, aliada ao esclarecimento público da CBT sobre o assunto e as dúvidas levantadas pelo MInistério Público e Polícia Federal, poderiam resolver a questão, evitando tudo isso, não? Abs!

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    1. Chiquinho Leite Moreira

      Henrique concordo plenamente com vc. E foi exatamente isso que procurei demonstrar nesta coluna. Julguei que o assunto necessatia de um esclarecimento colocando fatos que fazem parte especificamente do tênis, que vc conhece tão bem.
      abs
      Chiquinho

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    2. Luiz

      Henrique,

      A burocracia destes projetos é tamanha que fica impossível chegar a um ponto em comum se não houver compreensão por parte das autoridades; bastava um simples contato com o Bolettieri ou com a Federação Americana de Tênis para entender que a coisa é assim. Se tivéssemos o rigor desta análise para as obras de Olimpíadas e Copa não teríamos os eventos, o estádio em Brasília dobrou de preço e o dinheiro foi liberado e tá tudo certo, como explicar isso? Dobrou de preço! Cadê a CGU? Estamos falando de bilhão e não de milhão e para isso o dinheiro é liberado?

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      1. Henrique Farinha

        Luiz, vc tem razão. A discussão é sempre política e há interesses que se sobrepõem às questões meramente esportivas. Na minha experiência com contratos públicos, se isso fosse devidamente esclarecido de início, com a elaboração de um aditivo prevendo tais situações, nada disso ocorreria. Aí, aproveitam a situação para discutir a gestão da CBT e outros aspectos que não têm nada a ver com o caso, pois claramente essa atitude não teve a intenção de lesar o erário público, muito menos se pode sequer cogitar a ideia de que Guga e Larri sujariam as mãos por tão pouco. É pena que um projeto importante como esse tenha tal desfecho. Não era suficiente para garantir bons resultados de forma sustentada, pois faltam projetos de massificação em escolas e equipamentos públicos, porém trazia esperança a muitos jovens que estão despontando agora. Abs!

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  2. renne bueno

    Chiquinho e Henrique,

    apesar de ser um direito nosso, estamos muito longe em imaginar eficiência de gestão pública, em qualquer aspecto e sob qualquer gestor público. Utópico, infelizmente. Nem perca tempo sonhando com isso, use seus sonhos para outras coisas e evite nervosismo e infarto cedo.
    De forma simples, é possível comprar passagens sem custo de remarcações, por uma tarifa um pouco maior. Agora, alegar imprevisibilidade e remarcações de passagens aéreas para um projeto olímpico é ridículo mesmo, só aqui no Brasil. Daqui a pouco alegariam compra de excesso de saibro para as quadras de treino como motivo para suspender projeto olímpico. Estamos trocando Larri e Guga, pelo Ministro dos Esportes e seus companheiros para gestão esportiva, parece pegadinha do Malandro, né?
    Lembra do legado olímpico do Pan? Hoje temos o Velódromo destruído, complexo aquatico Maria L. está as moscas e despejaram a CBN de lá, o Engenhão sem comentários, e o parque tenístico não vou nem comentar, para parar por aqui.

    Brasileiro mantém a cultura do futebol apenas, isso não vai mudar na nossa geração. Quiçá dos nossos filhos, infelizmente.

    Um amigo meu sempre diz que brasileiro não é um povo pacífico, mas é um povo muito fácil de ser enganado pela ignorância abundante.
    Triste, mas é vero! Que venham dias melhores.

    Renne Bueno

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      1. Henrique Farinha

        Renne, a tarifa mais alta evita multas por remarcações, mas não o pagamento por eventual diferença de tarifas. Uma passagem comprada um mês antes, por exemplo, custa x, e ao ser trocada poucos dias antes por outra, passa a custar quase, ou mesmo 2x. Assim sendo, mesmo a compra numa tarifa “flex” não evita esse tipo de problema. O que resolveria seria prever isso antecipadamente no próprio termo ou num aditivo. Abs!

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  3. augusto fiães

    Chiquinho, na boa…enquanto formarmos “ratos de saibro”, sem sair do país cedo, não acredito. Guga foi sorte…talento puro que Deus colocou aqui…
    A base tem que ser feita fora, na minha opinião. É mais fácil lá. Além o nível, que é outro. Temos muitos Futures e Chalengers aqui,mas jogamos uns contra os outros…tudo no saibro…quando nossos tenistas vão para os Estados Unidos, dá até pena!!! O mundo treina nos Estados Unidos!!! Vc vê um grande tenista top 100 Sul Africano na tv e de repente o comentarista fala: “treinou nos Estads Unidos”…uma Russa que joga muito…”treinou nos Estados Unidos”…um japonês fera…”trteinou nos Estados Unidos”…fora os americanos mesmos, que apesar de não terem um Sampras atualmente, têm 5 ou 6 top 100 fora os Bryans e as Wiliams…só se compara com Espanha, que forma em casa “ratos de saibro competitivos de verdade” e Argentina…nem a Austrália se salva atualmente!!!
    Nosso programa Olímpico deveria ser tirar os nossos atletas daqui para treinar nos Estados Unidos antes de se acostumarem com o nível “Chalenger de segunda linha” sul-americano e ser tarde demais.
    Simnôzinho Malta: Tô certo ou tô errado?!

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    1. Chiquinho Leite Moreira

      Augusto um bom ponto de vista o seu . Tb vejo as coisas assim Mas nunca eh demais lembrar que no saibro aprende se aa base do tenis: ground strokes , voleios – poucos , reconheco- mas a formacao na rerra sinda eh a mais solida em minha humilde opiniao. Federer comecou na terra e um dia prometo contar pq o cimento cresceu como a superficie mais jogada. A historia mistura mercantilismo com popularidade. Uma formula esplendida.
      abs
      Chiquinho

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    2. Chiquinho Leite Moreira

      Augusto é o que sempre falo… jogar tênis profissionalmente exige viajar, mas isso tem um preço.
      abs
      Chiquinho

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  4. Luiz

    Chiquinho,
    Não esperava algo diferente! Não há vontade de fazer as coisas certas aqui no Brasil só há vontade de se dar bem, essa coisa de Copa e Olimpíadas serve apenas para fazer o dinheiro(muito) girar e desaparecer e o mais importante é construir estádios(pelo dobro do preço) e gastar muito de forma que seja possível desviar dinheiro. Essa decisão de cortar o projeto em função de divergências de gastos é uma grande piada pois não houve divergência e aumento de gastos em TUDO que se fez e se fará em termos de obras para a Copa? O dinheiro deixou de sair? Você já viu quanto os Governos estaduais estão gastando em compra de ingressos para a Copa das Confederações??? Sim os governos estão comprando ingressos para distribuir aos amigos! Como eu escrevi ao Henrique, bastava apenas uma consulta com o Bolletieri ou com alguma Federação de Tenis(Americana, Francesa, Australiana etc) para entender que a coisa funciona desta forma. Nossas estradas, estádios, obras, Metrô, pontes custam o dobro e nada acontece…. Chiquino as pessoas aqui não querem fazer dar certo, querem tirar o seu; não consigo visualizar nenhum projeto esportivo SÉRIO que pode dar certo com dinheiro público porque este dinheiro tem sempre destinos mais “interessantes”. Para as ‘autoridades” o trabalho competente do Larri e do Guga, assim como o de outros profissionais no esporte não tem a menor importância.

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  5. Walter Guimaraes

    Só queria questionar o que a CBT fez com R$ 2.018.865,30 que recebeu do convênio nº 755461, no dia 22 de agosto de 2011 para: organizar um programa de treinamento multidisciplinar visando a preparação de atletas para as Olimpíadas do Rio 2016 . Será que já acabou este recurso??? Onde foi usado??? Isso me assusta…

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  6. MARILIENSE

    O que representa a Copa Davis na vida de um tenista e na vida de um povo amante do tênis. Fazendo uma analogia com o que representa o futebol para nós brasileiros, a Davis é a manifestação maior de orgulho de um povo que se mobiliza para as batalhas de seus heróis onde o titulo representará a consagração definitiva do pais no esporte da raquete. A sensação segundo tenistas que já ganharam a competição é de uma aura indescritível de grandiosidade de ser amado pelo povo de seu pais.
    Só pra citar 3 exemplos de grandes campeões que tiveram suas carreiras alavancadas para a consagração e se tornaram heróis nacionais em seus países após vencerem essa competição: Bjorn Borg,Novak Djokovic e o maior vencedor das Copas Davis dos tempos atuais, o ainda invicto Rafael Nadal.

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  7. MARILIENSE

    Boa noite Chiquinho!
    A Copa Davis e a medalha de ouro olímpica individual são dois títulos valiosos que farão falta na galeria de troféus de Roger Federer. São troféus importantes que representam o grau máximo de patriotismo em que os tenistas deixam em segundo plano o apego pelo individualismo por uma causa maior e mais nobre…o seu país
    O que voce acha ?

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    1. Chiquinho Leite Moreira

      Eu acho que vc tem razão, mas não sei se a esta altura do campeonato Federer esteja focado nisso.
      abs
      Chiquinho

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  8. MARILIENSE

    Acredito que a Suiça de Federer e Wrawrinka em tese, tem condições de ganhar uma Copa Davis nos próximos anos. Os dois tenistas são tops da ATP há muito tempo e se garantirem todas as vitórias simples de sua equipe então a Suiça será a campeã. Entretanto,porém e todavia como estamos acostumado a acompanhar essa competição, o espírito de superação,de doação, de amor ao país, que uma Davis exige, parecem ser sacrifícios demais para os suíços Federer e Wrawrinka, que são grandes tenistas mas longe de ser grandes guerreiros.

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