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O 21. a gente não esquece
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 1, 2019 às 3:26 pm

#PartiuNYC. Já faz um bom  tempo que não frequento o US Open. A minha primeira vez foi em 1987. Vinha com a estrela brilhando depois de um acontecimento nos Jogos Pan Americanos de Indianápolis, nos Estados Unidos. É que as finais de tênis e basquete estavam marcadas para o mesmo dia. Resistindo a muita pressão fui para o basquete, perdi a cobertura do feminino, mas sobrou a turma que conhecia muito bem, em diversas viagens acompanhando o Sírio, o Monte Líbano e a Seleção Brasileira. Cobri a medalha de ouro do time de Oscar, Marcel e bela Cia.

Cheguei ao US Open tênis já em andamento. E superada a barreira do primeiro credenciamento, voltei nos anos seguintes até 2012, com alguns intervalos e agora chego a minha 21. cobertura do torneio. Não conheço ainda a nova cara de Flushing Meadows, com a Arthur Ashe coberta, a nova Louis Amstrong e o fim da então Grand Stand. Mas conheço a cara velha do que era chamado de Centro Nacional de Tênis, hoje Billie Jean King.

Até o ano de 1997, o principal estádio era o Louis Amstrong. Também gigante: tinha capacidade para 21 mil pessoas. A sala de imprensa ficava lá em cima, no último anel, junto as cabines de transmissão de TV e as nuvens. Eramos pouco mais de 300 jornalistas internacionais, contra os mais de 1,5 mil dos dias de hoje. A gente sentava em banquinhos, desses de bar, e à frente uma bancada apertada.

Pelo vidro dava para acompanhar os jogos da Central, sem precisar deixar seu posto. E num dos mais marcantes episódios dessa minha história aprendi que para ganhar um Grand Slam não basta ser um grande tenista, talentoso e eficiente, mas também é necessário ser um bom artista. Pete Sampras estava em ação diante de Alex Corretja. O americano vinha em nítida desvantagem, empurrado às cordas. Peter estava a dois pontos de perder o jogo. Aparentava estar fisicamente abatido. Deu um primeiro saque muito fraco. A bola saiu mais de um metro. Se fizesse a dupla falta daria match point ao espanhol. E, meio cambaleando, foi até o fundo quadra e vomitou. Criou um clima dramático na Amstrong. Dava para ouvir a respiração ofegante de todos. Sampras caminha lentamente para a posição de serviço e, de repente, como um milagre, aplica um ace a mais de 200 km/h. Corretja surpreendido, tomou um susto, afinal já dava o jogo como ganho, mas perdeu o ponto e o duelo.

É de se admirar a confiança de Sampras em seu saque. Só tinha um tiro para disparar. Criou uma cena, comprovou a tese de Andre Agassi, de que ele era um artista em quadra, e mais uma vez conquistou o título do US Open. Depois de um tempo, ao trabalhar na tradução técnica do livro “Mente de Campeão”, biografia muito bem escrita pelo meu colega Peter Bodo, a história contada fala de uma doença familiar de Sampras, originária do Mediterrâneo e o tenista americano é de ascendência grega.

Neste clima de memórias, estes o Facebook colocou-me uma lembrança para compartilhar. Trata-se de mais uma história do US Open. E resolvi copiar abaixo para quem tiver curiosidade do primeiro tenista a bater bola na Arthur Ashe: o brasileiro Gustavo Kuerten…

20 ANOS DO MAIOR DO MUNDO – Um twitter da Diana Gabanyi remeteu-me a boas lembranças. Aliás fiquei até um pouco surpreso – talvez assustado – ao me dar conta que já se passaram 20 anos da inauguração do maior palco do tênis mundial, o estádio Arthur Ashe.

Lembro que Gustavo Guga Kuerten foi o primeiro tenista a treinar no então novo estádio. Inesquecível a imagem de quando entramos no vestiário, o campeão de Roland Garros daquele ano vislumbrou um lindo armário reservado a ele. Seus olhos brilharam quando viu a plaquinha com seu nome, no vestiário novinho em folha.

Na época andava atrás do Guga. Desde que havia vencido em Paris não o abandonava em nenhum torneio, com exceção do ATP de Bologna, na semana seguinte a Roland Garros, pois tive de voltar ao Brasil por alguns dias. Fomos para Nottingham, Wimbledon, Gstaad, Kitzbuehel, Stuttgart, Montreal, Cincinnati, até cairmos no simpático ATP de Long Island.

Esse percurso vale até um parêntese. Certa vez contei em entrevista ao Alexandre Cossenza que por um período deixei de cobrir propriamente o tênis para seguir o Guga. Era imperativo. A editoria do Estadão queria tudo sobre o campeão de Roland Garros, na rádio Transamérica tênis era sinônimo de Guga. Lembro até que em 1997 em Roland Garros, o espaço destinado para a campeã do feminino Iva Majoli foi de umas dez linhas no máximo. Isso causou certo desconforto no meio do tênis brasileiro. Só que aprendi com alguns dos excelentes editores que tive no jornalismo é que somos vendedores de notícias. Temos de entregar o que o público quer comprar. Não se trata, porém, de falta de reconhecimento ao trabalho e as conquistas de outros.

De volta a Long Island, Guga e Larri Passos – por que não também eu? – estávamos naquela fase de adaptação aos novos tempos. O catarinense sempre gostou das coisas simples e foi hospedar-se em uma casa de família. Assim que chegamos ao aeroporto John Kennedy, o pessoal de Long Island estava nos esperando e seguimos de carro até nossos destinos. Aliás, agradeço a carona he he he. No trajeto até a casa onde Guga e Larri ficariam – depois me levaram a um hotel – perguntei o nome do cara que estava dirigindo. O engraçadinho do tenista falou ao meu ouvido: Jeff… Jeff.

Nos dias em que se seguiram em Long Island convivemos bastante com Jeff, que, na realidade, se chamava Robert. Guga estava zoando comigo. E o resultado é que naquele ano e por muitos outros, sempre em que me encontrava este pessoal – incluindo uma senhora miss May – todos seguiram zoando me chamando de Jeff… Jeff, com aquele conhecido sorriso irônico.

Mesmo neste clima descontraído, Larri Passos não deixava de lado a seriedade ao trabalho. O torneio de Long Island era jogado num condomínio conhecido por Hamptoms. Muito próximo a Flushing Meadows. Foi aí que o treinador teve a ideia de aproveitar um dia sem jogos para ir treinar no novo estádio do US Open. Avisou o pessoal da USTA e lá fomos nos. Embora estivesse vazio, com apenas alguns operários nos retoques finais, a experiência foi importante para relaxar o campeão de Roland Garros, que em poucos dias estaria jogando no maior palco do tênis, que comemorou os 20 anos de existência com uma linda festa e show de Shania Twain.


Comentários
  1. SBF Prado Lima

    Uma ótima experiência de vida, Chiquinho.

    Valeu por comentar sobre a simplicidade do Guga e o profissionalismo do atleta e técnico. Pessoas com o objetivo de avançar sem a necessidade “terceiro-mundista” de aparecer. Exemplo dos dois pilares mais importantes: trabalho e disciplina.

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  2. Fernando Calazans Xavier

    Esse é o Grande Chiquinho
    Maior Jornalista de Tênis no Brasil e grande amigo
    Fico feliz de vc voltar às suas viagens
    Grande Abraço

    Responder
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