TenisBrasil - Tenis.Com Chiquinho
Next Gen brilha e 2 do big 3 tropeçam em Londres
Por Chiquinho Leite Moreira
novembro 11, 2019 às 10:59 pm

Nasceu uma nova estrela no Next Gen de Milão, o italiano Jannik Sinner. Com apenas 18 anos, recém completados, brilhou em quadra, mas ainda sem a mesma intensidade de outros jovens tenistas dos tempos de Boris Becker, Mats Wilander ou Maria Sharapova, que levaram troféus de Grand Slam na adolescência. Mas também não dá para menosprezar o enorme talento deste tenista italiano, dono de uma frieza e personalidade admiráveis.

Apesar do bem vindo aparecimento de Sinner, a pergunta que sempre se coloca é quem vai ser o primeiro a conquistar um Grand Slam, enquanto o ‘Big 3″ estiver em ação. Londres nestes primeiros dias apresentou dois resultados que frustram a maioria dos torcedores. Mas criam novas perspectivas para a modalidade. Dominic Thiem derrotou Roger Federer e Alexander Zverev bateu, com categoria, Rafael Nadal.

Mais uma vez sem menosprezar o novo, confesso que não lembro de ver Federer tão irregular e também Nadal com tantos erros. É claro que ambos podem se recuperar na competição, mas terão de reencontrar-se com o melhor nível técnico.

Apesar da derrota destes dois ídolos, este Finals está repleto de atrações. Novak Djokovic precisa chegar a decisão do título para ter chance de terminar o ano na liderança do ranking mundial. Esta 50a. edição conta pela primeira vez com oito tenistas europeus de diferentes países. Quatro jogadores têm menos de 23 anos: Stefano Tsitsipas, com 21, Alexander Zverev, 22, e Matteo Berrettini e Daniel Medvedev estão com com 23.

E o inusitado este ano não só pegou Federer e Nadal. Também Tsitsipas comemorou a primeira vitória sobre Medvedev tirando um retrospecto que estava engasgado na garganta do grego. Afinal, não é segredo para ninguém que estes dois tenistas quase saíram no braço no torneio de Miami.

Vale lembrar – Séries de derrotas para um mesmo adversário, como esta de Tsitsipas para |Medvedev sempre nos leva a recordar um dos fatos mais hilariantes da história do tênis. Aconteceu no Masters de Nova York de 1979, que foi jogado em janeiro de 80. O boa praça e talentoso Vitas Gerulaitis estava entre os 8 melhores da temporada. Fez uma campanha incrível, inclusive com vitória sobre John McEnroe no round robin. Classificou-se como primeiro do seu grupo e na semifinal cruzaria com o segundo colocado do grupo liderado por Bjorn Borg, o norte-americano Jimmy Connors. Um detalhe marcava este encontro. Gerulaitis vinha de 16 derrotas seguidas para “Jimbo” apelido de Connors. Mas o norte-americano de origem lituana vivia numa semana mágica e, finalmente, venceu. Enfático entrou para a conferência de imprensa após o jogo e disparou uma das mais criativas frases já ouvidas no tênis.

“Let that be a lesson to you all”, disse Gerulaitis com uma garrafa de champanhe em uma das mãos. “Nobody beats Vitas Gerulaitis 17 times in a row”.

Talvez vitimado pelo campanhe e comemoração, Gerulaitis perdeu o título do Masters para Borg por duplo 6/2. Mas jamais deixou a fama de playboy do tênis. Desfilava nos torneios com um Rolls-Royce amarelo e lutou contra as drogas, até ter um final trágico. A história conta que morreu por causa de um vazamento de gás no apartamento.

 

Drama e emoçāo marcam o 19. Grand Slam de Nadal
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 9, 2019 às 4:01 am

O choro emocionado de Rafael Nadal ao final do jogo revelou que se trata de um ser humano. Afinal, o que ele fez em quadra nesta decisāo do US Open mostra que este tenista tem poderes de um super homem em quadra. O 19, troféu de Grand Slam conquistado na mais energética atmosfera do tênis mundial pode ser considerado como o mais dramático de toda sua brilhante carreira.

Nāo é novidade para ninguém que a torcida em Nova York é uma das mais participativas. E, mais uma vez, teve influência neste duelo entre Nadal e Daniil Medvedev. Depois de um inicio de jogo bem estudado, com quebras e cuidadosas trocas de bolas, o tenista espanhol se impôs e abriu a cômoda vantagem de 2 sets a 0. Tudo parecia caminhar para um jogo sem grandes emoções e vitória das mais tranquilas para o espanhol.

Só que Medvedev pode ser definido como o mais rápido dos que parecem lento. Dá para entender? Ele deixa a impressão de que não vai chegar na bola, aparenta que não esta nem ai e, de repente, começa uma sequência matadora de bolas, capaz de superar qualquer adversário. Nadal, com toda sua forca, viu sim o perigo bem de perto.

Para incrementar ainda mais esta dramaticidade, a torcida queria jogo. Os americanos comecaram a gritar pelo nome do russo. Mas o espanhol não se deixou abater. Soube reconquistar a sua plateia. Em certo momento dirigiu-se diretamente ao público, chamando a todos para incentivá-lo em quadra.

O resultado foi um jogo memorável, com quase cinco horas de duraçāo em que não dava para tirar o olho de uma só jogada sequer. E quem lamentou as precoces eliminações de Roger Federer ou Novak Djokovic, entre outros, deve ter se sentido recompensado pelo valor de cada ponto disputado por Medvedev. Um jogo digno do termo espetacular.

 

Nadal e Medvedev fazem a final de dois melhores do ano
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 7, 2019 às 3:10 am

Se Rafael Nadal é o jogador que mais pontos acumulou no ano, Daniil Medvedev é o tenista que mais vitórias alcançou na temporada: 50, sendo 37 nas quadras duras. Isso acaba dando um tom de decisão entre favoritos, especialmente depois das eliminações de Novak Djokovic e Roger Federer. O espanhol luta pelo 19. Grand Slam, chegaria próximo dos 20 do suíço, e afastaria-se dos 16 do sérvio. O russo nunca havia passado de umas oitavas de final de um evento desta categoria e agora pode levantar o troféu mais pesado de sua vida.

Medvedev é a atual sensação do tênis, apesar de boa parte da torcida, especialmente a novaiorquina não curtir muito isso. Neste verão do hemisfério norte, ele é o jogador de maior sucesso. Chegou as finais de Washington e Montreal e ganhou o primeiro ATP 1000 em território americano, nas quadras de Cincinnati.

O incrível sucesso de Medvedev não está apenas ligado aos seus resultados. Mas também ao seu comportamento. Nestes dias em Nova York não soube lidar com o público e por pouco não se transforma em vilão do Grand Slam americano. Recebeu até o conselho de um colega, que disse: seria melhor Medvedev falar com a raquete, como fazem Federer e Nadal.

O russo, porém, redimiu-se numa bem articulada entrevista coletiva. Revelou que estes envolvimentos em polêmicas fazem parte de um aprendizado. E contou uma experiência importante para todos os tenistas, em especial aos mais jovens como ele. Falou que nos dias de hoje admite ser derrotado por ter jogado pior, mas jamais por ter perdido a cabeça, ou o foco na partida. Sem dúvida este ingrediente será dos mais necessários para quem terá pela frente o mais forte mentalmente jogador do circuito.

Esta característica de Nadal comprovou-se na semifinal diante de Matteo Berrettini. O italiano teve muitas e boas chances de ganhar o primeiro set. Se tivesse conseguido, o jogo muito provavelmente seria equilibrado e fatalmente longo. Mas em busca de seu quarto troféu do US Open, Nadal fez o jogo parecer fácil e em três sets garantiu presenca na 27a final de Grand Slam de sua carreira.

Mais uma vez Nadal segue como favorito. Mas como disse o ex-campeão americano John McEnroe, se existe alguém na atualidade a ameaçar o big 3, este é Daniil Medvedev.

O que esperar dessas semifinais masculinas do US Open
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 5, 2019 às 10:47 am

O US Open de 2019 apresenta uma das semifinais mais inesperadas dos últimos tempos. Dos quatro jogadores que ainda sonham com o título, apenas Rafael Nadal tem troféus de Grand Slam. Mas será que dá para contar com novas surpresas? Pelo que o espanhol vem jogando até agora vai ser difícil. Com uma campanha sem sets perdidos (com exceção para Cilic, estava em quadra nesse jogo, mas peço desculpas por deixar escapar, escrevi já na madrugada, depois de uma longa jornada, depois da partida contra Diego Schawtzman)… errata.

Dos quatro semifinalistas – Nadal vs Matteo Berretini e Daniil Medvedev vs Grigor Dimitrov – não dá para negar que, em teoria, o espanhol teve um caminho mais fácil. Ou, pelo menos, fez parecer tranquilo, dado a sua capacidade técnica  e experiência. Apesar de todo esforço de Diego Schawtzman, o obstáculo  mais difícil para o espanhol teria sido Marin Cilic. Mas ele passou com tranquilidade, apesar de ter perdido um set.

Matteo Berrettini vive um sonho. O tenista italiano tem talento. Nas transmissões do BandSport tive a oportunidade de conhecer seu jogo. Bate pesado e tem um saque dos mais poderosos. Comprovou toda sua força  nas quadras de Flushing Meadows. Passou por adversários difíceis como Richard Gasquet, Andrey Rublev e, em especial, Gael Monfils.

A outra semifinal coloca frente à frente dois vilões, pode-se dizer assim. Grigor Dimitrov por ter eliminado o preferido da torcida, Roger Federer, e Daniil Medvedev por sua polêmica  história  com os novaiorquinos,

O caso de Dimitrov é bem curioso. Quando ele se colocou a frente e deixou claro que poderia vencer o jogo diante de Federer, boa parte do público abandonou as arquibancadas. Afinal, queriam ver a permanência do suíço na competição. Mas quem seguiu foi o búlgaro, que vem passando por uma bela transformação. Desde que trocou de treinador e começou  a trabalhar com Radek Stepanek deu um outro rumo a sua carreira. O resultado disso veio numa campanha incrível em Nova York. Em seu caminho até a semifinal superou Alex de Minaur e, é claro, Roger Federer num jogo em que esteve impecável.

Medvedev, nos corredores do US Open, é apontado como a mais provavel surpresa. Dizem que quer o público  queira ou não, ele é o futuro do tênis. E o futuro pode vir agora neste domingo. O russo vem realizando uma temporada das mais brilhantes. Fez finais em Washington e Montreal e conquistou o primeiro 1000 da carreira em Cincinnati. Apesar de reclamar de problemas físicos, Medvedev não engana ninguém, Em Nova York voltou a jogar bem, tendo eliminado inclusive Stan Wawrinka.

Assim uma história  já conhecida, ou uma nova, poderá’ ser contada neste fim de semana em Nova York.

Arthur Ashe: onde as coisas acontecem
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 4, 2019 às 5:35 am

Se Nova York é conhecida como a  cidade que nunca dorme, o Arthur ashe é onde as coisas acontecem no tênis. A sessão noturna é sempre eletrizante, com uma atmosfera impressionante e festiva participação da torcida. Nesse cenário, a derrota de Roger Federer para Grigor Dimotrov foi um verdadeiro anti clima. Tudo estava preparado para mais uma festa ao suíço que deixou a quadra ainda ovacionado, apesar do resultado.

Em menos de dez minutos, Federer apresentou-se para a entrevista coletiva. Foi uma correria e tanto. Afinal, normalmente os tenistas demoram muito, entre banho e massagens. Mas desta vez, esteve em ação o velho apelido de Fedex. Logo tratou de explicar que sentiu as costas e as coisas pareciam cada vez piores para ele. Mesmo assim garantiu ter dado tudo o que tinha e que teve suas chances no quarto set.

Federer esteve calmo e elegante, como de costume. Só não gostou quando o assunto foi ter deixado escapar mais uma chace de ganhar um Grand Slam e se ainda tinha esperanças de aumentar o seu número  de troféus dessa categoria. O suíço respondeu apenas que, se a lesão não for grave, vai manter o seu calendário, com torneios na Ásia, Basileia, Paris e Londres.

Só que há um detalhe nessa história toda. Pelo fato de ter acontecido na Arthur Ashe não se trata apenas de uma derrota. A repercussão promete ser grande. E um mundo de especulações deve tomar conta do atual cenário.

Para ser mais claro no que representa um fato acontecido na Arthur Ashe, pode-se tomar como exemplo as famosas imitações de Novak Djokovic. O sérvio já havia feito os trejeitos de Rafael Nada, de Roger Federer ou de Maria Sharapova em outras ocasiões. Mas o munto do tênis  só tomou conhecimento, depois dele ter se apresentado numa sessão noturna do US Open.

Os exemplos da tremenda repercussão do US Open pode ser lembrado com um fato bem recente. O surpreendente russo Daniil Medvedev está enrolado com suas dúbias declarações. Ele não sabe pedir desculpas de uma forma clara e contundente e também não se sabe qual será a reação do público em seu próximo jogo.

Mas como o US Open conhece muito mais heróis do que viloes, não restam dúvidas de que a cena mais marcante, repleta e emoção, amizade e espírito esportivo veio de Naomi Osaka. Afinal, como não lembrar se sua atitude com Coco Gauf, numa lição de humanidade? É isso mesmo, as coisas acontecem no Arthur Ashe, na cidade que nunca dorme.

O 21. a gente não esquece
Por Chiquinho Leite Moreira
setembro 1, 2019 às 3:26 pm

#PartiuNYC. Já faz um bom  tempo que não frequento o US Open. A minha primeira vez foi em 1987. Vinha com a estrela brilhando depois de um acontecimento nos Jogos Pan Americanos de Indianápolis, nos Estados Unidos. É que as finais de tênis e basquete estavam marcadas para o mesmo dia. Resistindo a muita pressão fui para o basquete, perdi a cobertura do feminino, mas sobrou a turma que conhecia muito bem, em diversas viagens acompanhando o Sírio, o Monte Líbano e a Seleção Brasileira. Cobri a medalha de ouro do time de Oscar, Marcel e bela Cia.

Cheguei ao US Open tênis já em andamento. E superada a barreira do primeiro credenciamento, voltei nos anos seguintes até 2012, com alguns intervalos e agora chego a minha 21. cobertura do torneio. Não conheço ainda a nova cara de Flushing Meadows, com a Arthur Ashe coberta, a nova Louis Amstrong e o fim da então Grand Stand. Mas conheço a cara velha do que era chamado de Centro Nacional de Tênis, hoje Billie Jean King.

Até o ano de 1997, o principal estádio era o Louis Amstrong. Também gigante: tinha capacidade para 21 mil pessoas. A sala de imprensa ficava lá em cima, no último anel, junto as cabines de transmissão de TV e as nuvens. Eramos pouco mais de 300 jornalistas internacionais, contra os mais de 1,5 mil dos dias de hoje. A gente sentava em banquinhos, desses de bar, e à frente uma bancada apertada.

Pelo vidro dava para acompanhar os jogos da Central, sem precisar deixar seu posto. E num dos mais marcantes episódios dessa minha história aprendi que para ganhar um Grand Slam não basta ser um grande tenista, talentoso e eficiente, mas também é necessário ser um bom artista. Pete Sampras estava em ação diante de Alex Corretja. O americano vinha em nítida desvantagem, empurrado às cordas. Peter estava a dois pontos de perder o jogo. Aparentava estar fisicamente abatido. Deu um primeiro saque muito fraco. A bola saiu mais de um metro. Se fizesse a dupla falta daria match point ao espanhol. E, meio cambaleando, foi até o fundo quadra e vomitou. Criou um clima dramático na Amstrong. Dava para ouvir a respiração ofegante de todos. Sampras caminha lentamente para a posição de serviço e, de repente, como um milagre, aplica um ace a mais de 200 km/h. Corretja surpreendido, tomou um susto, afinal já dava o jogo como ganho, mas perdeu o ponto e o duelo.

É de se admirar a confiança de Sampras em seu saque. Só tinha um tiro para disparar. Criou uma cena, comprovou a tese de Andre Agassi, de que ele era um artista em quadra, e mais uma vez conquistou o título do US Open. Depois de um tempo, ao trabalhar na tradução técnica do livro “Mente de Campeão”, biografia muito bem escrita pelo meu colega Peter Bodo, a história contada fala de uma doença familiar de Sampras, originária do Mediterrâneo e o tenista americano é de ascendência grega.

Neste clima de memórias, estes o Facebook colocou-me uma lembrança para compartilhar. Trata-se de mais uma história do US Open. E resolvi copiar abaixo para quem tiver curiosidade do primeiro tenista a bater bola na Arthur Ashe: o brasileiro Gustavo Kuerten…

20 ANOS DO MAIOR DO MUNDO – Um twitter da Diana Gabanyi remeteu-me a boas lembranças. Aliás fiquei até um pouco surpreso – talvez assustado – ao me dar conta que já se passaram 20 anos da inauguração do maior palco do tênis mundial, o estádio Arthur Ashe.

Lembro que Gustavo Guga Kuerten foi o primeiro tenista a treinar no então novo estádio. Inesquecível a imagem de quando entramos no vestiário, o campeão de Roland Garros daquele ano vislumbrou um lindo armário reservado a ele. Seus olhos brilharam quando viu a plaquinha com seu nome, no vestiário novinho em folha.

Na época andava atrás do Guga. Desde que havia vencido em Paris não o abandonava em nenhum torneio, com exceção do ATP de Bologna, na semana seguinte a Roland Garros, pois tive de voltar ao Brasil por alguns dias. Fomos para Nottingham, Wimbledon, Gstaad, Kitzbuehel, Stuttgart, Montreal, Cincinnati, até cairmos no simpático ATP de Long Island.

Esse percurso vale até um parêntese. Certa vez contei em entrevista ao Alexandre Cossenza que por um período deixei de cobrir propriamente o tênis para seguir o Guga. Era imperativo. A editoria do Estadão queria tudo sobre o campeão de Roland Garros, na rádio Transamérica tênis era sinônimo de Guga. Lembro até que em 1997 em Roland Garros, o espaço destinado para a campeã do feminino Iva Majoli foi de umas dez linhas no máximo. Isso causou certo desconforto no meio do tênis brasileiro. Só que aprendi com alguns dos excelentes editores que tive no jornalismo é que somos vendedores de notícias. Temos de entregar o que o público quer comprar. Não se trata, porém, de falta de reconhecimento ao trabalho e as conquistas de outros.

De volta a Long Island, Guga e Larri Passos – por que não também eu? – estávamos naquela fase de adaptação aos novos tempos. O catarinense sempre gostou das coisas simples e foi hospedar-se em uma casa de família. Assim que chegamos ao aeroporto John Kennedy, o pessoal de Long Island estava nos esperando e seguimos de carro até nossos destinos. Aliás, agradeço a carona he he he. No trajeto até a casa onde Guga e Larri ficariam – depois me levaram a um hotel – perguntei o nome do cara que estava dirigindo. O engraçadinho do tenista falou ao meu ouvido: Jeff… Jeff.

Nos dias em que se seguiram em Long Island convivemos bastante com Jeff, que, na realidade, se chamava Robert. Guga estava zoando comigo. E o resultado é que naquele ano e por muitos outros, sempre em que me encontrava este pessoal – incluindo uma senhora miss May – todos seguiram zoando me chamando de Jeff… Jeff, com aquele conhecido sorriso irônico.

Mesmo neste clima descontraído, Larri Passos não deixava de lado a seriedade ao trabalho. O torneio de Long Island era jogado num condomínio conhecido por Hamptoms. Muito próximo a Flushing Meadows. Foi aí que o treinador teve a ideia de aproveitar um dia sem jogos para ir treinar no novo estádio do US Open. Avisou o pessoal da USTA e lá fomos nos. Embora estivesse vazio, com apenas alguns operários nos retoques finais, a experiência foi importante para relaxar o campeão de Roland Garros, que em poucos dias estaria jogando no maior palco do tênis, que comemorou os 20 anos de existência com uma linda festa e show de Shania Twain.

Nick Kyrgios: rebelde ou herói?
Por Chiquinho Leite Moreira
agosto 15, 2019 às 2:07 pm

7681AFB7-7CB8-4ECF-A1A6-5A11AF8D103FDesde a conquista do ATP 500 de Washington, até a eliminação no Masters 1000 de Cincinnati, Nick Kyrgios passou de ‘gênio encantador’ a ‘talento desperdiçado’. Viveu momentos de herói ao perguntar a torcedores onde deveria sacar, até se revelar em rebelde ao cuspir em direção ao juiz de cadeira Fergus Murphy.

Não há dúvidas de que a genialidade de Kyrgios, a plasticidade de seu jogo e criatividade são ingredientes suficientes para atrair um bom público. Organizadores de torneios o colocam como grande atração, escalando seus jogos para quadras importantes em horários nobres. O resultado, porém, é imprevisível. O show pode se transformar num drama, numa tragédia, um espetáculo de horror, como deixar a quadra, seguir ao corredor dos vestiários com o objetivo de destruir duas raquetes.

O jogo de Kyrgios é primoroso, legal de se ver. Mas até onde vai a ‘licença poética’ de seu comportamento? Em Cincy, ele procurou um vilão. Direcionou duras ofensas ao juiz de cadeira, que ao meu ver foi até complacente. Só que ao final da história o herói foi Karen Khachanov, que alguém muito bem escreveu que o russo já reservou um lugar no céu, depois desse jogo.

Para muitos, jogadores como Kyrgios fazem bem ao tênis. Ouvi dizer também que ele joga tênis por dinheiro. Mas do jeito que vem acumulando multas, corre o risco de prejuízos. Em certa época o tênis teve também o seu ‘bad boy’. Era o explosivo John McEnroe. Ele era um show em quadra, só que isso custou caro. Chegou a cumprir meses de suspensão e levou multas pesadas. Mas o norte-americano jamais jogou só pelo dinheiro. Vem de família rica. Filho de diplomata nasceu em Wiesbaden, na Alemanha. E, certa vez, quando esteve no Brasil, para a disputa do Rio Champions, McEnroe reconheceu que suas atitudes intempestivas eram resultados de uma infância de garoto mimado.

Será que Nick Kyrgios pode se dar ao mesmo luxo? A resposta talvez possa vir de uma das melhores biografias que Hollywood já produziu: Patton rebelde ou herói. O filme retrata que o brilhante general George S. Patton foi do céu ao inferno, em razão de seu comportamento intempestivo.

 

Djokovic: o comedor de grama
Por Chiquinho Leite Moreira
julho 15, 2019 às 6:44 pm
A saborosa grama de Wimbledon

A saborosa grama de Wimbledon

Nada na vida de Novak Djokovic foi fácil. Desde os bombardeios da OTAN ainda quando era criança, a severidade de seu pai, que não admitia uma derrota sem um castigo, ao difícil período de formação na Alemanha, na academia de Niki Pilic, até a antipatia que carrega por uma boa parte do mundo do tênis. Enfim, desde cedo comeu grama, mas nenhuma com o sabor tão agradável como a da quadra central do All England Club.

Até mesmo na heroica vitória em Wimbledon seu sucesso é combatido. Mais especificamente agora pelos números. Há quem conteste a legitimidade da vitória do sérvio. Afinal, Roger Federer aplicou 25 aces contra 10; cometeu seis duplas faltas x nove; conseguiu 94 winners contra 54; e o suíço ainda venceu 218 pontos, 14 a mais que seu rival. Para contemplar esse cenário, Djokovic jogou por quase cinco horas, com torcida contra.

Ora, mas o que é o barulho de uma torcida contra para quem aos nove anos de idade refugiou-se na casa de uma tia durante os bombardeios da OTAN, numa das mais violentas guerras da história da humanidade.

A adversidade faz parte da formação da personalidade de Novak Djokovic. Alguém com esta história, certamente, pode ser interpretado com antipatia em suas decisões. É duro em suas opiniões e arregimentou um exército de inimigos. Basta lembrar o irônico twitter de Nick Kyrgios, pedindo o favor para Federer vencer a final de domingo. Mas, aparentemente, sem traumas ele vai levando a vida. Uma prova recente foi a convocação do croata Goran Ivanisevic para fazer parte de seu staff. Sofreu críticas, especialmente da mídia sérvia.

Poucas vezes, Novak Djokovic refere-se a sua infância, aos anos dos conflitos da antiga Yugoslávia, mas certa vez revelou seu mais forte sentimento ao declarar: “a guerra é a pior coisa que um ser humano pode viver”.

Com uma experiência dessas, Novak Djokovic caminha diante de tudo e de todos para uma história de sucesso. Ao salvar dois match points e vencer o jogo no tie break do quinto set, ele colocou novos números no tênis masculino: 20 Slams para Federer; 18, para Rafael Nadal; e 16 dele. Algo inimaginável lá pelos anos de 2002, quando Pete Sampras chegou a 14 troféus de Grand Slam, o que pareceria ser um recorde inigualável.

Hoje, Novak Djokovic coloca novos desafios e mostra força e determinação para passar de terceiro maior vencedor de Slams para primeiro. Afinal, quem pode duvidar da capacidade deste tenista sérvio?

 

 

 

Título de Halle mantém privilégio de Federer em Wimbledon
Por Chiquinho Leite Moreira
junho 25, 2019 às 4:09 pm

Longe de insinuar que o melhor de todos os tempo, Roger Federer, não seja digno de privilégios, mas o fato de mais uma vez o All England Club não respeitar o ranking da ATP para designar seus cabeças de chave merece uma reflexão. O tênis mudou. E uma prova disso está nas marcas de desgaste das quadras de grama. Em outros tempos, o pisoteio dos jogadores demarcava uma triângulo saindo da linha de base e fechando junto à rede. Agora não. O que significa que jogadores de fundo são eficientes nesta superfície.

Engana-se quem pensa que o critério de designação de cabeças de chave em Wimbledon sempre existiu. O tradicional torneio londrino já passou por diversas formas. Por curiosidade em 1924, quatro representantes de diferentes nações eram distribuídos nos diversos quartos da chave. Em 1927 isso mudou e os cabeças eram selecionados por suas habilidades, independente de onde vieram.

E vejam só que interessante: desde 1927 apenas dois jogadores que não eram cabeças de chave venceram o torneio masculino de Wimbledon. Foram eles Boris Becker em 1985 e Goran Ivanisevic em 2001.

Só em 2002 surgiu o uso do ranking da grama, que é baseado em dar créditos adicionais aos resultados dos jogadores nesta superfície. São dados 100% de pontos a mais para os resultados na grama dos últimos 12 meses e 75% para os 12 meses anteriores. E foi assim, que Federer com o título de Halle subiu de 3. para o 2. cabeça este ano.

Este critério também colocou Kevin Anderson entre os quatro primeiros cabeças, deixando Dominic Thiem em quinto, o que faz muita diferença. Rafael Nadal, rebaixado de dois para três, reclamou durante sua preparação em Maiorca, na Espanha. Mas preferiu não polemizar, revelando que se sente forte para buscar seu terceiro título no All England Club. Federer também evitou discussões. Disse em Halle que sempre que venceu o torneio alemão chegou bem a Wimbledon e o mais importante é que está livre de lesões.

Mas nem sempre foi assim, com os jogadores aceitando as regras e pronto. No ano de 2002, quando prevaleceu o ranking da grama, vários jogadores importantes e bem colocados na ATP boicotaram Wimbledon, especialmente os espanhóis. E, por ironia do destino, o torneio desse ano apresentou resultados p´ra lá de surpreendentes. Federer perdeu na estreia para o então qualifyier Mario Ancic. O sete vezes campeão Pete Sampras caiu na segunda rodada diante do suíço George Bastl. E um total de 17 cabeças de chave não passaram das quartas de final. E a decisão foi entre dois tenistas que não marcavam a quadra de forma triangular, com o australiano Lleyton Hewitt vencendo o argentino David Nalbandian.

 

Dozen Rafa revela seus segredos em Roland Garros
Por Chiquinho Leite Moreira
junho 10, 2019 às 8:01 pm

Um post do tenista Celso Sacomandi trouxe a resposta a uma pergunta que gostaria de ter feito a Rafael Nadal. Qual seria o segredo, a fórmula,  para vencer em Roland Garros? A postagem diz “I don’t go to practice everyday to practice. I go to practice to learn something”. Ou seja, a busca pela perfeição é constante, jamais se acomoda e revela a humildade que sempre se pode aprender algo novo.

A questão de saber usar um treino para elevar o nível e estar de mente aberta para captar tudo que pode ser tirado de uma prática marca a carreira de grandes esportistas. Li em um dos livros de Novak Djokovic um curioso episódio. Em certa época de sua formação como tenista, o sérvio viajou a Alemanha para um período de treinamento na academia de Niki Pilic, um ex-tenista da antiga Yugoslávia, que havia treinado Boris Becker. Entre outras atividades ele teria diariamente 45 minutos com o head pro. Esperto o menino Nole chegava bem antes do início da sessão. Fazia o aquecimento e na hora do início do treino já estava pronto e, assim, ele conta, não perdia um minuto sequer do pouco tempo que tinha diante de Pilic.

Certa vez viajei ao Balneário de Camboriú para acompanhar uma pré-temporada de Guga Kuerten, na academia de Larri Passos. Na hora dos treinos em quadra notei o alto nível de concentração do tenista brasileiro. Acostumado a vê-lo descontraído, nessas horas era uma pessoa séria, sisuda, muda. Repetia os golpes com intensidade, sem se distrair com o que acontecia ao seu lado. Entre seus ‘sparring’ estavam bons tenistas, alguns juvenis, e o que se via era que nenhum deles conseguia manter o nível de atenção por tanto tempo. Ora ou outra abandonavam a quadra para alguma coisa, enquanto Guga só parava para se hidratar, tomar uma água.

Vindo de encontro a isso, ouvi nesta segunda feira após o 12. título do espanhol em Paris, uma entrevista do Tio Tony. Ele com sua experiência agora também na formação de novos tenistas na academia Rafa Nadal, enfatizou a capacidade de concentração do seu sobrinho e ex-pupilo. Comparou que o estudo não rende sem a necessária concentração. E revelou que o maior campeão de Roland Garros de todos os tempo é uma pessoa que não se distrai, não perde a concentração constantemente. Tem foco. Está sempre em busca do melhor e buscando o aperfeiçoamento para cada golpe.

Tudo isso, aliado a uma tremenda garra e uma técnica única faz de Rafael Nadal este grande campeão. E toda essa história me leva a uma frase do golfista Tiger Wood: “quando mais eu treino, mais eu tenho sorte”.