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Nick Kyrgios: rebelde ou herói?
Por Chiquinho Leite Moreira
agosto 15, 2019 às 2:07 pm

7681AFB7-7CB8-4ECF-A1A6-5A11AF8D103FDesde a conquista do ATP 500 de Washington, até a eliminação no Masters 1000 de Cincinnati, Nick Kyrgios passou de ‘gênio encantador’ a ‘talento desperdiçado’. Viveu momentos de herói ao perguntar a torcedores onde deveria sacar, até se revelar em rebelde ao cuspir em direção ao juiz de cadeira Fergus Murphy.

Não há dúvidas de que a genialidade de Kyrgios, a plasticidade de seu jogo e criatividade são ingredientes suficientes para atrair um bom público. Organizadores de torneios o colocam como grande atração, escalando seus jogos para quadras importantes em horários nobres. O resultado, porém, é imprevisível. O show pode se transformar num drama, numa tragédia, um espetáculo de horror, como deixar a quadra, seguir ao corredor dos vestiários com o objetivo de destruir duas raquetes.

O jogo de Kyrgios é primoroso, legal de se ver. Mas até onde vai a ‘licença poética’ de seu comportamento? Em Cincy, ele procurou um vilão. Direcionou duras ofensas ao juiz de cadeira, que ao meu ver foi até complacente. Só que ao final da história o herói foi Karen Khachanov, que alguém muito bem escreveu que o russo já reservou um lugar no céu, depois desse jogo.

Para muitos, jogadores como Kyrgios fazem bem ao tênis. Ouvi dizer também que ele joga tênis por dinheiro. Mas do jeito que vem acumulando multas, corre o risco de prejuízos. Em certa época o tênis teve também o seu ‘bad boy’. Era o explosivo John McEnroe. Ele era um show em quadra, só que isso custou caro. Chegou a cumprir meses de suspensão e levou multas pesadas. Mas o norte-americano jamais jogou só pelo dinheiro. Vem de família rica. Filho de diplomata nasceu em Wiesbaden, na Alemanha. E, certa vez, quando esteve no Brasil, para a disputa do Rio Champions, McEnroe reconheceu que suas atitudes intempestivas eram resultados de uma infância de garoto mimado.

Será que Nick Kyrgios pode se dar ao mesmo luxo? A resposta talvez possa vir de uma das melhores biografias que Hollywood já produziu: Patton rebelde ou herói. O filme retrata que o brilhante general George S. Patton foi do céu ao inferno, em razão de seu comportamento intempestivo.

 

Djokovic: o comedor de grama
Por Chiquinho Leite Moreira
julho 15, 2019 às 6:44 pm
A saborosa grama de Wimbledon

A saborosa grama de Wimbledon

Nada na vida de Novak Djokovic foi fácil. Desde os bombardeios da OTAN ainda quando era criança, a severidade de seu pai, que não admitia uma derrota sem um castigo, ao difícil período de formação na Alemanha, na academia de Niki Pilic, até a antipatia que carrega por uma boa parte do mundo do tênis. Enfim, desde cedo comeu grama, mas nenhuma com o sabor tão agradável como a da quadra central do All England Club.

Até mesmo na heroica vitória em Wimbledon seu sucesso é combatido. Mais especificamente agora pelos números. Há quem conteste a legitimidade da vitória do sérvio. Afinal, Roger Federer aplicou 25 aces contra 10; cometeu seis duplas faltas x nove; conseguiu 94 winners contra 54; e o suíço ainda venceu 218 pontos, 14 a mais que seu rival. Para contemplar esse cenário, Djokovic jogou por quase cinco horas, com torcida contra.

Ora, mas o que é o barulho de uma torcida contra para quem aos nove anos de idade refugiou-se na casa de uma tia durante os bombardeios da OTAN, numa das mais violentas guerras da história da humanidade.

A adversidade faz parte da formação da personalidade de Novak Djokovic. Alguém com esta história, certamente, pode ser interpretado com antipatia em suas decisões. É duro em suas opiniões e arregimentou um exército de inimigos. Basta lembrar o irônico twitter de Nick Kyrgios, pedindo o favor para Federer vencer a final de domingo. Mas, aparentemente, sem traumas ele vai levando a vida. Uma prova recente foi a convocação do croata Goran Ivanisevic para fazer parte de seu staff. Sofreu críticas, especialmente da mídia sérvia.

Poucas vezes, Novak Djokovic refere-se a sua infância, aos anos dos conflitos da antiga Yugoslávia, mas certa vez revelou seu mais forte sentimento ao declarar: “a guerra é a pior coisa que um ser humano pode viver”.

Com uma experiência dessas, Novak Djokovic caminha diante de tudo e de todos para uma história de sucesso. Ao salvar dois match points e vencer o jogo no tie break do quinto set, ele colocou novos números no tênis masculino: 20 Slams para Federer; 18, para Rafael Nadal; e 16 dele. Algo inimaginável lá pelos anos de 2002, quando Pete Sampras chegou a 14 troféus de Grand Slam, o que pareceria ser um recorde inigualável.

Hoje, Novak Djokovic coloca novos desafios e mostra força e determinação para passar de terceiro maior vencedor de Slams para primeiro. Afinal, quem pode duvidar da capacidade deste tenista sérvio?

 

 

 

Título de Halle mantém privilégio de Federer em Wimbledon
Por Chiquinho Leite Moreira
junho 25, 2019 às 4:09 pm

Longe de insinuar que o melhor de todos os tempo, Roger Federer, não seja digno de privilégios, mas o fato de mais uma vez o All England Club não respeitar o ranking da ATP para designar seus cabeças de chave merece uma reflexão. O tênis mudou. E uma prova disso está nas marcas de desgaste das quadras de grama. Em outros tempos, o pisoteio dos jogadores demarcava uma triângulo saindo da linha de base e fechando junto à rede. Agora não. O que significa que jogadores de fundo são eficientes nesta superfície.

Engana-se quem pensa que o critério de designação de cabeças de chave em Wimbledon sempre existiu. O tradicional torneio londrino já passou por diversas formas. Por curiosidade em 1924, quatro representantes de diferentes nações eram distribuídos nos diversos quartos da chave. Em 1927 isso mudou e os cabeças eram selecionados por suas habilidades, independente de onde vieram.

E vejam só que interessante: desde 1927 apenas dois jogadores que não eram cabeças de chave venceram o torneio masculino de Wimbledon. Foram eles Boris Becker em 1985 e Goran Ivanisevic em 2001.

Só em 2002 surgiu o uso do ranking da grama, que é baseado em dar créditos adicionais aos resultados dos jogadores nesta superfície. São dados 100% de pontos a mais para os resultados na grama dos últimos 12 meses e 75% para os 12 meses anteriores. E foi assim, que Federer com o título de Halle subiu de 3. para o 2. cabeça este ano.

Este critério também colocou Kevin Anderson entre os quatro primeiros cabeças, deixando Dominic Thiem em quinto, o que faz muita diferença. Rafael Nadal, rebaixado de dois para três, reclamou durante sua preparação em Maiorca, na Espanha. Mas preferiu não polemizar, revelando que se sente forte para buscar seu terceiro título no All England Club. Federer também evitou discussões. Disse em Halle que sempre que venceu o torneio alemão chegou bem a Wimbledon e o mais importante é que está livre de lesões.

Mas nem sempre foi assim, com os jogadores aceitando as regras e pronto. No ano de 2002, quando prevaleceu o ranking da grama, vários jogadores importantes e bem colocados na ATP boicotaram Wimbledon, especialmente os espanhóis. E, por ironia do destino, o torneio desse ano apresentou resultados p´ra lá de surpreendentes. Federer perdeu na estreia para o então qualifyier Mario Ancic. O sete vezes campeão Pete Sampras caiu na segunda rodada diante do suíço George Bastl. E um total de 17 cabeças de chave não passaram das quartas de final. E a decisão foi entre dois tenistas que não marcavam a quadra de forma triangular, com o australiano Lleyton Hewitt vencendo o argentino David Nalbandian.

 

Dozen Rafa revela seus segredos em Roland Garros
Por Chiquinho Leite Moreira
junho 10, 2019 às 8:01 pm

Um post do tenista Celso Sacomandi trouxe a resposta a uma pergunta que gostaria de ter feito a Rafael Nadal. Qual seria o segredo, a fórmula,  para vencer em Roland Garros? A postagem diz “I don’t go to practice everyday to practice. I go to practice to learn something”. Ou seja, a busca pela perfeição é constante, jamais se acomoda e revela a humildade que sempre se pode aprender algo novo.

A questão de saber usar um treino para elevar o nível e estar de mente aberta para captar tudo que pode ser tirado de uma prática marca a carreira de grandes esportistas. Li em um dos livros de Novak Djokovic um curioso episódio. Em certa época de sua formação como tenista, o sérvio viajou a Alemanha para um período de treinamento na academia de Niki Pilic, um ex-tenista da antiga Yugoslávia, que havia treinado Boris Becker. Entre outras atividades ele teria diariamente 45 minutos com o head pro. Esperto o menino Nole chegava bem antes do início da sessão. Fazia o aquecimento e na hora do início do treino já estava pronto e, assim, ele conta, não perdia um minuto sequer do pouco tempo que tinha diante de Pilic.

Certa vez viajei ao Balneário de Camboriú para acompanhar uma pré-temporada de Guga Kuerten, na academia de Larri Passos. Na hora dos treinos em quadra notei o alto nível de concentração do tenista brasileiro. Acostumado a vê-lo descontraído, nessas horas era uma pessoa séria, sisuda, muda. Repetia os golpes com intensidade, sem se distrair com o que acontecia ao seu lado. Entre seus ‘sparring’ estavam bons tenistas, alguns juvenis, e o que se via era que nenhum deles conseguia manter o nível de atenção por tanto tempo. Ora ou outra abandonavam a quadra para alguma coisa, enquanto Guga só parava para se hidratar, tomar uma água.

Vindo de encontro a isso, ouvi nesta segunda feira após o 12. título do espanhol em Paris, uma entrevista do Tio Tony. Ele com sua experiência agora também na formação de novos tenistas na academia Rafa Nadal, enfatizou a capacidade de concentração do seu sobrinho e ex-pupilo. Comparou que o estudo não rende sem a necessária concentração. E revelou que o maior campeão de Roland Garros de todos os tempo é uma pessoa que não se distrai, não perde a concentração constantemente. Tem foco. Está sempre em busca do melhor e buscando o aperfeiçoamento para cada golpe.

Tudo isso, aliado a uma tremenda garra e uma técnica única faz de Rafael Nadal este grande campeão. E toda essa história me leva a uma frase do golfista Tiger Wood: “quando mais eu treino, mais eu tenho sorte”.

Que venha Roland Garros…
Por Chiquinho Leite Moreira
maio 20, 2019 às 6:30 pm

Com o título do Master 1000 de Roma, aos 45 do segundo tempo, em cima de Novak Djokovic, Rafael Nadal reassume, com unanimidade, o topo da lista dos favoritos para Roland Garros. Aliás, tenho dúvidas de que alguém tenha mesmo tirado o espanhol desta condição. Mas é claro que este ano o torneio parece estar bem mais aberto.

Pelo que vi na mídia internacional, os três primeiros do atual ranking do saibro são Nadal, Djokovic e Dominic Thiem. Esta semana dois grandes nomes da terra batida estão em ação no ATP de Genebra, como Alex Zverev e Stan Wawrinka. Sem contar com a volta de Roger Federer ao Aberto da França.

O momento, porém, é de se perguntar se Rafa Nadal vai levantar pela 12a. vez a Taça dos Mosqueteiros. O espanhol tem na prateleira de sua casa uma série de troféus repetidos. São 11 de Monte Carlo e Barcelona; 9, agora, de Roma; e 5 de Madri. No Foro Itálico levantou o primeiro campeonato do ano, mas vale muito mais pelo estágio em que este título veio.

Não há dúvidas de que Nadal é o maior competidor do esporte e a vitória em Roma, com alguns pneus pelo caminho, colocam ainda mais ênfase no que pode acontecer em Paris nas próximas semanas.

Roland Garros também chega este ano com algumas novidades. A Philippe Chatrier está remodelada e a promessa é que em 2020 poderá ter o teto retrátil. Alguns de meus colegas contam ainda que a nova quadra, Simonne Mathieu está exuberante em meio a uma estufa e muita vegetação em um novo recanto do complexo.

Gosto do estilo francês, o que não é novidade para ninguém que me conhece. E, por isso, faço questão de lembrar que Simonne Mathieu não só empresta seu nome a esta nova quadra como campeã de Roland Garros de 1938 e 39, mas também pela sua forte participação na resistência francesa durante a Segunda Grande Guerra.

Em função desta cultura, da tradição e importância do torneio de Roland Garros estranhei um pouco as afirmações do australiano Nick Kyrgios. Ele esteve no All England Club, no SW-19 de Londres, treinando com Andy Murray. Postou fotos das lindas quadras de grama e enfatizou que Wimbledon é o maior torneio do mundo. Alertou que não está ansioso para ir a Roland Garros e terminou: ‘o Aberto da França é péssimo comparado a este lugar’, referindo-se a Wimbledon. E fico me perguntando por que fazer essa menção neste momento? O que teria a ganhar? As mídias sociais são bem legais, mas é preciso saber usá-las…. vocês não acham?

 

 

 

Novos campeões agitam a temporada de saibro
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 29, 2019 às 1:38 pm

Os títulos de Fabio Foginini, em Monte Carlo, e Dominic Thiem em Barcelona colocam um ingrediente bem apimentado na atual temporada europeia de saibro. Mas, antes de qualquer conclusão, é preciso deixar claro uma verdade: tanto Rafael Nadal, como Novak Djokovic são jogadores que, de repente, voltam ao melhor nível e começam a levantar troféus e troféus.

Não resta dúvida, porém, que novas caras agitam ainda mais este lindo período do circuito da ATP. E um detalhe que colabora para colorir ainda mais a Primavera europeia está na volta de Roger Federer aos torneios da quadra batida. Madri, considerada a superfície mais rápida destas competições, ganha ênfase com a presença do suíço.

Thiem chega muito forte. Este ano, o austríaco já ganhou dois títulos em diferentes superfícies. Em Indian Wells bateu Federer na final. E, em Barcelona, atropelou Rafael Nadal. Costumo dizer que existem três grandes desafios quando se desafia o tenista espanhol. O primeiro é vencê-lo; o segundo é superá-lo no saibro; e o terceiro é batê-lo jogando em casa. E Thiem alcançou os três estágios.

Apesar da excelente fase, Dominic Thiem ainda não fala em Roland Garros. É, lógico, pois o pior que poderia fazer neste momento é acrescentar uma grande dose de pressão e cobrança. Mas não se pode esquecer que ele já esteve na final de Paris. Perdeu o título de forma categórica para Nadal.

Nesses casos, gosto de relembrar um fato que aconteceu justamente em Roland Garros, que comprova a tese de que chegar a uma final de Slam, seja com quem for, pode sim revelar um novo campeão. Certo ano, a alemã Steffi Graf dominava o circuito feminino. Na decisão teria pela frente uma jovem jogadora espanhola, meio cheinha, aparentemente sem grandes recursos, mas que que tinha passado por grandes desafios nas duas semanas do torneio. A presença de Arantxa Sanches num duelo com Steffi causou até um certo mal estar na imprensa espanhola. Os mais chegados comentavam comigo que estavam receosos de um vexame, como um duplo 6/0. Mas, de repente, a espanholinha (como a chamava na época) venceu e sem deixar dúvidas de sua capacidade.

Portanto, os títulos de Fognini e Thiem deixam a perspectiva de que muito ainda está para acontecer nestes próximos torneios do saibro que culminam com Roland Garros.

 

RF: só faltam 8 para igualar Jimbo
Por Chiquinho Leite Moreira
abril 1, 2019 às 5:58 pm

Tem muita gente que gosta de dizer que “Roger Federer nem suou a camisa para vencer”. Mas, desta vez, nem sequer amarrotou o colarinho ao estilo Charlie Sheen, do seriado ‘two and a half men’. Esteve impecável para garantir o título de Miami, o 101. da carreira e ficar a apenas oito de igualar a marca de Jimmy Connors, conhecido ao seu tempo como “Jimbo”.

Nos últimos jogos em Miami dá para acrescentar que Roger Federer nem precisou trocar a camisa. Ganhou de Kevin Andersson por 60 e 64, superou Denis Shapovalov por 62 e 64 e na final bateu o grandalhão John Isner por 61 e 64. Não despenteou o cabelo, como nos filmes do ‘Superman’.

Igualar ou estabelecer um novo recorde de números de títulos conquistados é uma questão de tempo. E aos 37 anos, o tempo é uma das coisas mais valiosas para o tenista suíço. Capacidade para ir ainda mais longe na carreira, não há como duvidar. Afinal com dois títulos em 2019 é o líder no ranking da temporada, deixando Novak Djokovic, em segundo; e Rafael Nadal, em terceiro. Sem contar que também supera dois dignos representantes da Nex Gen: Stefano Tsitsipas e Dominic Thiem.

A longevidade de Federer e uma consequente quebra de um novo recorde vai estar ligado a manutenção de seu atual ritmo e performance. Enquanto estiver ganhando e sem ‘suar a camisa’, ou seja, enfrentando dificuldades físicas, lesões etc, é claro, que o suíço vai continuar fazendo o que gosta: jogar tênis e bem.

Aliado a tudo isso, o momento de Federer ainda é animador. A temporada europeia de quadras de saibro esta para começar e ele vai poder jogar sem pressões. Afinal, não defende sequer um ponto nesta série de torneios que culmina em Paris, em Roland Garros.

Apesar de o saibro ser mais exigente para suas pernas, Federer ainda terá um bom período para descansar, treinar, adaptar seu jogo e seguir em busca de vitórias. Além disso, seu calendário na chamada terra batida não será assim como o de outros jogadores especialistas na superfície. Selecionou bem os torneios e pronto.

Para o público e amantes do tênis este período que se aproxima promete ser eletrizante com a participação de Federer na temporada europeia de saibro. O circuito passa por lindas cidades, tem muito charme e muito pra acontecer…

Next Gen brilha, mas ainda sonha com Slam
Por Chiquinho Leite Moreira
março 18, 2019 às 5:55 pm

O mais velho da nova geração, o austríaco Dominic Thiem conquistou o título mais importante de sua carreira ao derrotar o melhor de todos os tempos, Roger Federer, numa final emocionante em Indian Wells. Na mesma quadra, a jovem canadense, de origem romena, Bianca Andreescu, com apenas 18 anos ganhou de Angelike Kerber para celebrar também um troféu dos mais pesados no circuito mundial.

Sem dúvida, o novo brilhou no último fim de semana. E esta geração é p’ra lá de bem vinda. Mas para não escorregar, acho prematuro ainda dizer que estas conquistas em Indian Wells marcam mudanças definitivas. Recentemente, o genial John McEnroe usou uma frase emblemática “chancing of the guard” para celebrar a chegada de uma nova e talentosa geração. Disse o ex-tenista norte-americano e hoje comentarista de tevê, que estes novos nomes iriam ‘breaking trought’, romper todos os obstáculos nesta atual temporada. E as vitórias estão mesmo chegando.

Sem exagerar, porém, no conservadorismo falta ainda um troféu do Grand Slam para esta nova geração e só então a troca se concretizará. E tudo pode acontecer. O próprio Thiem esteve na final de Roland Garros do ano passado. É claro que perdeu para Rafael Nadal sem oferecer muita resistência. Mas chegar a uma decisão de Slam e uma porta aberta para o sucesso absoluto. E estes novos estão cada vez mais perto.

Nestas situações, como a do Thiem diante de Nadal, sempre lembro de um episódio que aconteceu em Roland Garros, há muitos anos. A espanholinha Arantxa Sanchez desafiaria na final a poderosa Steffi Graf. Meus colegas jornalistas espanhóis estavam receosos de um grande vexame na Philippe Chatrier. Mas ao final, Arantxa acreditou no impossível e saiu de quadra com a taça de campeã.

Não há como negar que temos o privilégio de estarmos diante de alguns dos maiores nomes da história do tênis. E sem querer parecer esnobe tive a oportunidade de ver de perto jogadores como Ivan Lend, John McEnroe, Mats Wilander, Stefan Edberg, Jimmy Connors, Andre Agassi, Andrés Gomes, Pete Sampras, Gustavo Kuerten, Magnus Norman, Marat Safin e até mesmo Bjorn Borg, mas estarmos diante de Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic entre vários outros talentos. Não dá para reclamar. Assim como também acredito que ninguém irá ficar insatisfeito com o s que estão surgindo.

ESPÍRITO DE DAVIS – Alguns jogadores tem o chamado espírito de Davis. É aquela determinação especial de lutar em equipe por um objetivo comum. Deixar de lado os interesses e peculiaridades do Tour da ATP e realmente vestir a camisa.

Sem essa unidade de propósito é muito difícil um time fazer sucesso. E um dos tenistas brasileiros que têm este espírito, este é, sem dúvida, o novo campeão da Davis, Jaime Oncins. Defendeu as cores do Brasil em diversas oportunidades e sabe o que é preciso para tirar o melhor de cada um em nome de uma competição.

É claro que a Davis sofre hoje profundas alterações em seu formato. Seu futuro é incerto, mas ainda assim, a indicação de Oncins para liderar o time brasileiro pode nos levar a entender melhor o que é este tão importante estado de espírito quando se defende uma nação.

 

A liderança política de Djokovic
Por Chiquinho Leite Moreira
março 12, 2019 às 8:59 pm

Não é só no ranking mundial que Novak Djokovic quer a liderança. Ele agora busca também ter domínio sobre o futuro do tênis masculino. Por isso – como contei no último blog postado em 28 de janeiro – desde o Aberto da Austrália, o tenista sérvio estava articulando a saída de Chris Kermode da presidência da ATP e conseguiu.

Este recente anúncio do fim do contrato de Kermode com a ATP para dezembro deste ano, causou um clima tenso entre os jogadores. Roger Federer, que já ocupou o cargo atual de Djokovic como presidente do ‘players council’ sentiu-se traído e achou que deveria ser consultado. Segundo o jornalista suíço, René Stauffer, Djokovic só tentou contato um dia depois de a decisão ter sido tomada. “O Federer tem muitas perguntas em aberto a fazer”, contou Stauffer.

Rafael Nadal embora tenha afirmado que gostaria de ficar longe das questões políticas do esporte também não gostou da decisão de finalizar o contrato de Kermode. O espanhol estranhou não ter sido consultado e usou uma interessante figura para expressar sua indignação. “Meu celular não tocou uma única vez com chamada de Novak, nem mesmo recebi qualquer mensagem de texto”. Ele ainda afirma que não seria necessário ser ouvido em pequenos detalhes, assuntos sem muita representatividade, mas uma demissão de um presidente da ATP considerou ser algo grande e merecedor de toda atenção.

Não é de hoje que Novak Djokovic e Chris Kermode estão em atrito. O sérvio tem um temperamento forte. Não gosta de ouvir uma ordem ou orientação sem poder contestar. É o seu jeito de ser, e o que incomoda a tanta gente.

O MOTIVO  – A raiz destes problemas está no fato de um dos pontos cruciais é de os jogadores sempre lutarem por melhores prêmios, além, é claro, de melhores condições profissionais, como calendário etc e tal. Mas o motivo chave é que dentro do ‘board da ATP’ os que pagam os prêmios e os que recebem e querem um prêmio maior estão sob o mesmo guarda chuva.

O board é formando por três representantes dos jogadores e três representantes dos torneios. Assim, em certos assuntos, a estrutura da ATP trabalha contra os jogadores, o que para um associação de classe não parece mesmo ser o melhor sistema.

Pressionados pelo presidente do council, Novak Djokovic, os três representantes dos jogadores no board não deram voto a favor de Kermode. O atual presidente precisaria de quatro indicações para manter no cargo pelo terceiro contrato seguido de três anos de duração cada.

Entre manter-se fiel a Kermode ou ao presidentes do ‘players council esses três representantes preferiram ficar com Djokovic. Aliás, um fato interessante é que este grupo não necessariamente conta com integrantes de forte formação nas quadras de tênis, como fica fácil analisar ao se conhecer os nomes: David Egdes é executivo do Tennis Channel; Alex Iglot, diretor de comunicações da Sportradar; e o mais ligado à raquete é Justin Gilmestob, ex-tenista norte-americano e hoje comentarista de tevê.

O grupo dos representantes dos torneios sempre esteve ligado em ter os jogadores nas mãos para assuntos financeiros e patrocínios. São ex-agentes como Herwig Straka, que cuidou por um bom período da carreira do ex-número 1 do mundo, o austríaco Thomas Muster. Outro integrante, Gabin Forbes, pertenceu a uma das maiores agências de atletas do mundo, a IMG, enquanto Charles Smith, é da Juss Event, um companhia chinesa responsável pela produção e organização de grandes eventos esportivos.

Ora, com tanta gente assim por perto, dá bem para entender a preocupação de Novak Djokovic com o futuro do esporte. Mas isso não justifica o fato de não ouvir mais atentamente nomes como os de Roger Federer e Rafael Nadal. Não agiu certo, afinal, quem pode garantir que essa decisão de afastar Kermode será a melhor para a ATP?

Djokovic: ser perfeccionista não significa ser chato
Por Chiquinho Leite Moreira
janeiro 28, 2019 às 2:24 pm

Não há nada que Rafael Nadal tenha feito nesta final, que Novak Djokovic não tenha sido melhor. Nesse tom, por incrível que seja, o tenista sérvio fez tudo parecer muito fácil nessa decisão do Aberto da Austrália. Isso é resultado de um trabalho árduo e o perfeccionismo demonstrado pelo campeão.

Sempre Djokovic busca pelo melhor. Mesmo que isso signifique alguns tropeços, desencontros e decisões longe das ideais. Não há muito tempo, o sérvio mexeu drasticamente em seu staff, até voltar a tranquilidade do trabalho com Marian Vajda. Passou por momentos difíceis e de inconformismo. Na sua volta ao circuito não conseguia jogar o seu melhor tênis. Sofreu pela falta de paciência, até chegar ao nível que demonstrou em Melbourne.

Para chegar a esse ponto, Novak Djokovic demonstrou seu lado mais exigente. E na busca da perfeição, muitos interpretam que o tenista sérvio é chato, antipático. Mas, ao meu ver, é necessário entender os critérios por ele utilizados.

A fama de um jogador antipático nos bastidores surgiu por conta do pessoal da própria ATP e até mesmo da ITF. É que dentro de seus critérios, Djokovic não se revela um bajulador e nem aceita todas as normas. E, por isso, há rumores que o atual número 1 do mundo está em briga com Chris Kermode e quer tirá-lo da presidência da associação de tenistas.

Já conhecia a fama de antipático – e até estava convencido disso, confesso – quando estive pela primeira vez em contato com Djokovic. Este encontro aconteceu na despedida de Gustavo Guga Kuerten do torneio de Miami. O sérvio tinha sido surpreendido logo na estreia da competição e aceitou o convite para a celebração do brasileiro em uma churrascaria da cidade. Djokovic foi de ônibus, ao lado de um montão de gente, e esteve na festa com simpatia, carinho com todos e simplicidade.

Certa vez, em Roland Garros, tinha uma entrevista exclusiva com Djokovic. Nesse dia, Guga tinha acompanhado o jogo do sérvio na tribuna Presidencial da Philippe Chatrier. Iniciei a conversa falando deste fato e ao perceber que se tratava de uma entrevista a brasileiro abriu um largo sorriso e confessou que Kuerten merece todo o respeito e privilégios concedidos a ele em Paris. O papo estava fluindo de forma agradável, quando entrei na parte técnica perguntando de suas perspectivas no torneio etc e tal. Neste momento o agente da ITF interrompeu e disse que meu tempo tinha acabado. Djokovic, mais uma vez não cumpriu as normas, olhou feio para o lado e deixou que eu terminasse o meu trabalho com tranquilidade.

Não satisfeito, o agente de comunicações da ITF procurou-me horas depois para dar uma bronca, que eu não poderia ter ficado tanto tempo na entrevista e coisas assim. Ao final, confessou que Djokovic o havia também repreendido. E, é claro, deixou a entender que na sua interpretação o tenista sérvio não era dos mais fáceis no tratamento.

Apesar de tantas informações em contrário, não vejo como não entender os posicionamentos de Djokovic e estou convencido, agora com opinião própria, que o sérvio não só faz muito bem ao tênis mundial, como também é simpático. E isto pode ser visto, mais uma vez, num pedaço da entrevista coletiva do campeão do Aberto da Austrália, quando faz uma ironia das mais engraçadas com o jornalista italiano Ubaldo Scanagatta. O trecho está nas mídias sociais.