Tag Archives: Roland Garros

Saída de Osaka reacende debate sobre saúde mental no tênis
Por Mario Sérgio Cruz
junho 1, 2021 às 2:31 pm
Osaka anunciou a desistência de Roland Garros por complicações relacionadas à sua saúde mental. (Foto: Corinne Dubreuil/FFT)

Osaka anunciou a desistência de Roland Garros por complicações relacionadas à sua saúde mental. (Foto: Corinne Dubreuil/FFT)

O anúncio da desistência de Naomi Osaka em Roland Garros e, mais importante, a afirmação de que a japonesa sofre com crises de depressão reacendem as discussões a respeito da saúde mental no tênis e no esporte de alto rendimento. Isso envolve não apenas o ambiente super competitivo do circuito, como também as obrigações a que as jogadoras são submetidas, especialmente as do top 10.

Osaka havia anunciado na quarta-feira passada que não participaria das entrevistas coletivas durante Roland Garros. No comunicado, dizia que o objetivo era preservar sua saúde mental. Ela se queixava de algumas perguntas que a faziam duvidar de si mesma e de seu potencial. Também afirma que o modelo utilizado pela organização dos torneios era arcaico e que aceitaria pagar eventuais multas que lhe fossem impostas. O tom da declaração acabou pegando mal também se considerado o fato de Osaka ser a atleta mais bem paga da atualidade.

“Muitas vezes senti que as pessoas não se importam com a saúde mental dos atletas e isso soa muito verdadeiro sempre que vejo uma coletiva de imprensa ou participo de uma”, divulgou Osaka, em suas redes sociais. “Frequentemente nos sentamos lá e recebemos perguntas que já foram feitas várias vezes antes ou perguntas que colocam dúvidas em nossas mentes e eu simplesmente não vou me sujeitar a pessoas que duvidam de mim. Assisti a muitos clipes de atletas arrasados na sala de imprensa depois de uma derrota e sei que vocês também”.

“Não dar entrevistas não é nada pessoal contra a organização do torneio ou contra alguns jornalistas, que já me entrevistaram desde que eu era jovem, e tenho um relacionamento amigável com a maioria deles. No entanto, se as organizações pensam que podem simplesmente continuar dizendo, “dê a entrevista ou você será multada”, e continuar a ignorar a saúde mental dos atletas que são a peça central de sua cooperação, então só tenho que rir”, acrescentou a japonesa. “Espero que o valor considerável que for multada por isso vá para uma instituição de caridade que cuide da saúde mental”.

A reação à notícia foi imediata. A falta de clareza em alguns pontos do anúncio acabou causando um efeito contrário sobre a japonesa de 23 anos. Se a ideia, inicialmente, seria se blindar de situações que tirassem seu foco do tênis, o teor do primeiro comunicado emitido por ela ampliou a repercussão do caso. Tanto é que Osaka chegou a entrar em contato com o diretor do torneio Guy Forget e com o presidente da Federação Francesa de Tênis, Gilles Moretton, reafirmando que não estava fazendo um ataque aos profissionais da imprensa ou à organização de Roland Garros e que se comprometeria a discutir o assunto com dirigentes após o torneio.

“A respeito da minha posição sobre as entrevistas durante Roland Garros eu gostaria de explicar que não tenho nada contra o torneio ou contra os profissionais de imprensa. Mas sim contra um sistema que obriga os jogadores a participarem de entrevistas coletivas em situações em que eles estão sofrendo por conta da saúde mental”, escreveu Osaka. “Acredito que esse modelo é arcaico e precisa de reformas. Depois do torneio, quero trabalhar junto com o circuito e com as entidades que comandam o esporte para pensar em uma melhor solução para mudar esse sistema. Infelizmente isso aconteceu durante Roland Garros, mas é apenas uma coincidência e não é nada pessoal. Tenho muito respeito pelo evento e agradeço a vocês pelos esforços por realizar a competição este ano”.

Dúvidas sobre o desempenho no saibro
A decisão foi motivada especialmente porque Osaka não se sentia confortável em responder perguntas sobre seu histórico negativo em competições no saibro. Vencedora de quatro Grand Slam, dois Australian Open e dois US Open, a atual número 2 do mundo jamais havia passado da terceira rodada de Roland Garros. No início do ano, logo após a conquista em Melbourne, ela e o treinador Wim Fissette afirmaram que tinham planos para reverter esse quadro e apresentar um bom tênis no piso.

“Ela é uma pessoa que se move naturalmente na quadra. Basta ver a maneira como ela se movimenta, a forma como ela gera potência e como ela pode construir os pontos. Há muitas coisas que me fazem acreditar que ela possa ter um bom desempenho no saibro. Mas ela precisa de jogos, de confiança nessas partidas e de um determinado plano de jogo”, relembra o treinador de 40 anos ao WTA Insider. “Se Naomi joga em quadra dura, tenta um winner de forehand e erra, ela pensa: ‘Ok, da próxima vez eu vou acertar’. Mas talvez nesses outros pisos ela pensará, ‘Oh, talvez eu devesse ter batido com um pouco mais de margem’ ou ‘talvez eu devesse ter feito isso’, então é fácil começar a duvidar”.

Acontece que Osaka desistiu de jogar em Stuttgart e perdeu cedo nos WTA 1000 de Madri e Roma. As dúvidas apareceram. Naquelas duas semanas, respondeu a uma série de perguntas sobre seu desempenho no saibro. As transcrições estão disponíveis na íntegra e é possível notar um tom respeitoso das duas partes. Mas apesar de a japonesa ter desenvolvido bem o assunto, ninguém está na pele ou na cabeça dela para saber o que ela realmente sentia enquanto respondia aos jornalistas.

“Não tenho certeza de como as outras jogadoras jogam, mas estou aprendendo que no saibro não posso me dar ao luxo de não rebater todas as bolas, porque isso automaticamente me tira do ataque e me coloca na defensiva”, analisou depois da derrota para Karolina Muchova em Madri. “E talvez se eu começar a me movimentar melhor eu possa arriscar começar a jogar na defesa, mas a partir de agora acho que devo ser agressiva. Quando eu estava jogando com ela no primeiro set, obviamente senti que estava me movendo de um lado para o outro, especialmente em certas bolas onde eu senti que poderia ter batido na bola um pouco mais forte. Talvez na quadra de saibro, claro que não sou uma jogadora especialista no piso, é um pouco mais importante bater na bola quando você pode”.

Outras jogadoras tiveram que comentar sobre assunto delicado
Outro efeito dentro do circuito aconteceu nas entrevistas coletivas anteriores ao torneio de Roland Garros. Jogadoras como a número 1 do mundo Ashleigh Barty e a atual campeã Iga Swiatek foram perguntadas sobre o relacionamento com a imprensa e sobre a situação de Osaka.

“Na minha opinião, falar com imprensa faz parte do trabalho. Nós sabemos disso quando nos tornamos jogadoras de tênis profissionais. Eu realmente não posso comentar sobre o que Naomi está sentindo ou as decisões que ela toma”, disse Barty, que chegou a treinar com Osaka durante Roland Garros. “Às vezes, as entrevistas são difíceis, mas também não é algo que me incomoda. Eu nunca tive problemas respondendo às perguntas ou sendo completamente honesta com vocês. Então eu tento deixar o clima mais leve e me divertir um pouco com vocês”, comenta a atual líder do ranking. “Para mim é um pouco diferente, mas não posso comentar sobre o que ela está passando. Então suponho devam perguntar isso para ela na próxima vez que conversarem com ela”.

“Falar com a imprensa depois de uma derrota não é a coisa mais agradável de se fazer. Mas é bom encontrar o equilíbrio. É bom estar ciente disso, porque às vezes estamos no centro das atenções e todos estão olhando para nós. Pode ser difícil, mas sinto que com o devido apoio, ainda é parte do nosso trabalho”, comentou Swiatek. “Eu sinto que a mídia também é muito importante porque vocês estão nos dando uma plataforma para falarmos sobre nossas vidas e nossa perspectiva. E também é importante porque nem todo mundo é um atleta profissional e nem todo mundo sabe com o que estamos lidando. É bom falar sobre isso”.

A polonesa de 20 anos também conta que aprendeu a conviver desde muito cedo com a expectativa de vinda da imprensa. “Desde que eu era muito nova, com 13 ou 14 anos, tínhamos alguns meios de comunicação poloneses que estavam sempre interessados em falar comigo. Passo a passo fui obtendo cada vez mais experiência e eu estava aprendendo a ter um bom relacionamento com a mídia. Acho que o processo deve ser o mesmo para todo jogador de tênis, porque quando você está entre três primeiros em seu país como um juvenil, provavelmente já começa a existir algumas expectativas de fora e você está apenas aprendendo a lidar com isso”.

Estreia em Paris, multa e ameaça de suspensão
Osaka estreou em Paris no domingo pela manhã, escalada para o jogo de abertura da quadra Philippe Chatrier, a principal do complexo parisiense, e confirmou o favoritismo contra a romena Patricia Maria Tig, 63ª do ranking, por 6/3 e 7/6 (7-4) e só falou rapidamente, e visivelmente desconfortável, com ex-jogador francês Fabrice Santoro ainda na quadra.

Como já era esperado, ela não concedeu a entrevista coletiva obrigatória e foi multada em US$ 15 mil pela organização do torneio. É um procedimento padrão e já aconteceu com outros tenistas durante os Grand Slam, ainda mais depois de derrotas. No entanto, esse anúncio estava no meio de um longo comunicado emitido em nome dos quatro torneios do Grand Slam. A carta dizia que Osaka não respondeu às tentativas de contato e não teria colaborado com as formas de contornar a situação e encontrar uma solução mais viável para os dois lados.

“Após a falta de engajamento de Naomi Osaka, que hoje optou por não honrar suas obrigações contratuais com a mídia, o árbitro geral de Roland Garros, portanto, aplicou-lhe uma multa de US$ 15 mil, de acordo com o artigo III H. do Código de Conduta. O Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e o US Open escreveram em conjunto para ela para verificar seu bem-estar e oferecer apoio, sublinhar seu compromisso com o bem-estar de todos os atletas e sugerir diálogo sobre as questões. Ela também foi lembrada de suas obrigações, as consequências de não cumpri-las e que as regras devem ser aplicadas igualmente a todos os jogadores”, diz a nota oficial.

A japonesa foi ainda advertida de que novas violações ao código de conduta poderiam causar sanções mais graves, como a desclassificação do torneio e suspensão dos próximos torneios do Grand Slam. Tudo isso amparado por artigos do regulamento do Board dos Grand Slam. O comunicado ainda dizia que as regras devem ser igualmente aplicadas a todos no torneio, independentemente da estatura e dos feitos de cada jogador.

“Queremos sublinhar que existem regras para garantir que todos os jogadores sejam tratados exatamente da mesma forma, independentemente da sua estatura, crenças ou realizações. Como esporte, não há nada mais importante do que garantir que nenhum jogador tenha uma vantagem injusta sobre outro”, acrescenta o comunicado. “Todos os Grand Slams permanecem comprometidos em revisar e discutir continuamente as oportunidades, junto com os circuitos e com os jogadores, para melhorar todos os aspectos da experiência do atleta, incluindo a relação com a mídia. Mas consideramos que isso só é alcançado por meio de discussões respeitosas e construtivas”.

Declarações da irmã tornaram a situação ainda mais grave
Já no final do domingo, com a rodada encerrada em Paris, a polêmica ganhou mais um capítulo. Mari Osaka, irmã mais velha de Naomi e ex-tenista profissional, publicou na rede social Reddit algumas explicações sobre a decisão da jogadora. Mari confirmou que o motivo da recusa a participar de entrevistas coletivas eram os questionamentos sobre o desempenho de Osaka no saibro e que isso teria abalado sua confiança antes de Roland Garros. Diante desse cenário, a decisão foi se blindar ao máximo desse tipo de situação. Mas cabe a interpretação se ela não estaria atribuindo só à imprensa a pressão que sofria a partir de diversas fontes, inclusive da própria família.

“Naomi mencionou para mim antes do torneio que um membro da família veio até ela e comentou que ela é péssima no saibro. Em cada entrevista coletiva, ela é lembrada que tem um histórico ruim no saibro. Quando ela perdeu na primeira rodada em Roma, não estava bem mentalmente. Sua confiança foi completamente abalada e eu acho que as observações e opiniões de todos subiram à sua cabeça e ela mesma acreditava que era péssima no saibro. Isso não é verdade e ela sabe que, para se sair bem e ter uma chance de ganhar Roland Garros, ela terá que acreditar que pode. Esse é o primeiro passo que qualquer atleta precisa fazer, acreditar em si mesmo”, comenta a ex-jogadora profissional.

“Portanto, sua solução foi bloquear tudo. Nada de falar com pessoas que vão colocar dúvidas em sua mente. Ela está protegendo sua mente, por isso que falou em ‘saúde mental’. Muitas pessoas são exigentes com este termo pensando que você precisa ter depressão ou algum tipo de transtorno para poder usar o termo saúde mental”, acrescentou Mari, argumentando a escolha pelo termo utilizado pela irmã mais nova.

Mari Osaka, que encerrou sua carreira profissional no início da temporada aos 24 anos, apagou a publicação horas depois e ainda se disse triste por sentir que havia piorado ainda mais a situação ao expor ainda mais a irmã. O depoimento reforçava a tese de que a recusa a participar de entrevistas poderia ser visto como algo estratégico e que afetaria o âmbito esportivo da competição, visto que as demais jogadoras continuavam dando entrevistas e comentando sobre um assunto que é delicado.

Desistência, depressão e pedidos de desculpa
Em meio a toda ebulição do assunto, coube a Naomi Osaka colocar um ponto final na discussão na última segunda-feira. Com um novo comunicado, em linguagem mais clara e franca, anunciou que estava desistindo de Roland Garros para que o mundo do tênis pudesse se concentrar apenas no que acontece em quadra. Confirmou que sofre com a depressão, algo que havia sido negado pela irmã no dia anterior, desde a conquista de seu primeiro Grand Slam no US Open. Também pediu desculpas aos profissionais da imprensa, especialmente os de veículos especializados em tênis e que acompanham sua carreira há mais tempo, e à organização do torneio. Comprometeu-se novamente a discutir o assunto com dirigentes do tênis para tornar o ambiente do circuito mais saudável para jogadores, imprensa e fãs.

“Acho que a melhor coisa a fazer é desistir do torneio, assim todo mundo pode voltar a focar no tênis. Eu nunca quis ser uma distração e aceito que a minha mensagem poderia ter sido mais clara. Mais importante, eu nunca exagerei em usar termo ‘saúde mental’. A verdade é que eu tenho sofrido com longas crises de depressão desde o US Open de 2018 e tive muita dificuldade para lidar com isso”.

“Os jornalistas que cobrem tênis sempre foram educados comigo e eu gostaria de pedir desculpas a todos os bons jornalistas que eu possa ter machucado. Eu não sou uma pessoa que gosta de falar em público e fico muito ansiosa quando tenho que falar com a imprensa internacional. Eu fico muito nervosa e estressada enquanto tento dar as melhores respostas possíveis”.

“Então aqui em Paris, eu estava me sentindo muito ansiosa e vulnerável e pensei que a melhor forma de cuidar de mim seria não participar das entrevistas coletivas. Eu anunciei isso com antecedência, porque acredito que as regras estão datadas e que precisamos chamar atenção para isso. De forma particular, eu peço desculpas para a organização do torneio e disse que gostaria de conversar com eles depois do torneio, já que o ambiente dos Grand Slam é muito intenso”.

Mesmo com alguns recentes avanços conquistados pelo Conselho das Jogadoras nos últimos anos, o regulamento da WTA exige grande comprometimento das jogadoras, especialmente para as top 10, que precisam estar em praticamente todos os grandes eventos do calendário. Quem não cumpre, arca com a pontuação zerada naquele evento, e não pode substituí-la por outro torneio de sua preferência. Já quem segue a agenda à risca é recompensada financeiramente pela entidade, a meu ver, uma ideia melhor do que multar aquelas que não possam cumprir esses requisitos. Jogadoras com mais de 34 anos ficam isentas de algumas dessas obrigações.

Thiem e Gauff já sofreram com a saúde mental
Osaka não é a única tenista a sofrer com problemas relacionados à saúde mental na atualidade. No mês de abril, o austríaco Dominic Thiem falou ao jornal Der Standard sobre a dificuldade para estabelecer novas metas depois de ter conquistado o US Open do ano passado. “Quando você passa a vida inteira perseguindo um objetivo e condiciona tudo para isso, as coisas deixam de ser as mesmas depois que você atinge essa meta. Isto é normal. O problema é que no tênis tudo passa muito rápido e não desacelera. Quando ganhei o US Open, estava eufórico. Os resultados continuaram bons, e eu cheguei à decisão do ATP Finals. Mas na minha preparação para esta temporada, caí em um buraco. Veremos se consigo sair. Não sei, espero que sim”.

A promessa norte-americana Coco Gauff, de apenas 17 anos e já 25ª do ranking, falou no ano passado ao podcast Behind the Racquet que tinha dúvidas se queria seguir jogando tênis. “Entre 2017 e 2018, eu estava tentando descobrir se era realmente isso que eu queria. Sempre tive bons resultados, então não era esse o problema. Eu simplesmente sentia que não estava mais gostando do esporte. Lembro de acordar e não querer treinar”, relatou. “Por cerca de um ano fiquei realmente deprimida. Quando você está nessa situação, não vê o lado positivo das coisas com muita frequência. Mas eu saí disso mais forte e me conhecendo melhor do que nunca”.

O assunto repercutiu tão negativamente que os pais da jogadora tiveram que vir a público e negaram que ela tenha sido diagnosticada com depressão, como a publicação dava a entender. Em entrevista por telefone para o New York Times, o pai Corey Gauff, disse que a palavra depressão não era a mais adequada para descrever os problemas emocionais de sua filha. “Eu sabia que essa seria a palavra escolhida, mas ela nunca esteve clinicamente deprimida, nunca foi diagnosticada com depressão, nunca ouviu alguém falar que ela tinha depressão e nem toma remédios para isso”, afirmou. “Isso é apenas a pressão pessoal que uma criança exerce sobre si mesma conforme amadurece”.

A mãe, Candi, explicou que o período de instabilidade emocional da filha começou quando ela tinha apenas 13 anos e perdeu a final do torneio juvenil do US Open de 2017. Na época, Gauff enfrentava adversárias até cinco anos mais velhas e se sentia isolada, porque as outras meninas não aceitavam perder para alguém tão nova. “Ela sentia muita solidão nos torneios, o que leva à tristeza, e por um período de tempo ela ficou infeliz. Não quero dizer a palavra ‘ciúme’, mas havia um espírito de ‘Por que essa menina está ganhando?’ Então ela ficava isolada”.

Apoio de Serena e o futuro de Osaka
Serena Williams, uma das principais fontes de inspiração para a japonesa, também se manifestou, prestando apoio e solidariedade. Disse ainda que já esteve nessa situação, mas que cada pessoa lida com isso de forma diferente. “A única coisa que eu posso dizer é que eu sinto muito pela Naomi e gostaria de poder dar um abraço nela, porque eu sei como é. Já estive nessa situação. Temos personalidades diferentes e somos pessoas diferentes. Nem todos são iguais. E cada pessoa lida com as coisas de forma diferente. Temos que deixá-la lidar com isso da maneira que ela quiser, da melhor maneira como ela pensa que pode. É a única coisa eu posso dizer. Acho que ela está fazendo o melhor que pode”, disse Serena na última segunda-feira.

“Eu também estive nessa posição. E tive oportunidades de falar com as pessoas, e meio que tirar do meu peito as coisas que não posso necessariamente falar com ninguém da minha família ou com alguém que eu conheço. Para mim é importante ter consciência e dar esse passo. Sei que é muito difícil passar por esses momentos, mas isso me fez mais forte”, acrescenta a experiente jogadora de 39 anos.

O presidente da Federação Francesa também se manifestou: “Em primeiro lugar, sentimos muito e estamos tristes por Naomi Osaka. Sua saída do torneio de Roland Garros é lamentável. Desejamos a ela o melhor, a mais rápida recuperação possível e esperamos tê-la em nosso torneio no próximo ano”, disse Moretton. O dirigente também afirma que os órgãos de controle do tênis vão discutir meios de tornar o ambiente do circuito mais saudável para os atletas e demais profissionais envolvidos. “Como todos os Grand Slam, assim como a WTA, a ATP e a ITF, continuamos muito comprometidos com o bem-estar de todos os atletas e em melhorar continuamente todos os aspectos da experiência dos jogadores em nosso torneio, incluindo o trabalho com a mídia, como sempre nos esforçamos para fazer” .

Osaka segue inscrita para jogar na grama de Berlim daqui a duas semanas, e depois em Wimbledon. Seu calendário no segundo semestre também prevê os Jogos Olímpicos de Tóquio e a disputa do US Open. Mas a princípio, a japonesa diz que quer passar um tempo fora das quadras e dos holofotes. “Vou passar um tempo fora das quadras agora, mas quando for a hora certa, eu gostaria de discutir maneiras de tornar as coisas melhores para as jogadores, para a imprensa e para os fãs. Espero que todos estejam bem e seguros. Amo a todos vocês”.

Por ora, o mais importante é que receba todo o apoio que for possível e necessário para suportar essa situação e se sentir amparada. Um dia ela vai voltar às quadras, jogar seu ótimo tênis, e expor suas posições com mais segurança. Cabe a todos nós no momento respeitarmos o tempo dela.

Pausa no circuito adia os planos dos juvenis brasileiros
Por Mario Sérgio Cruz
abril 15, 2020 às 7:13 am
Natan Rodrigues e Gustavo Heide estavam no top 20 do ranking e garantidos em Roland Garros e Wimbledon (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

Natan Rodrigues e Gustavo Heide estavam no top 20 do ranking e garantidos em Roland Garros e Wimbledon (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

O bom início de temporada para os brasileiros que disputam o circuito mundial juvenil foi interrompido de maneira abrupta pela pandemia da Covid-19. Jogadores como Natan Rodrigues, Gustavo Heide e Pedro Boscardin vinham de resultados positivos nos primeiros meses do ano e já estariam no início da preparação para Roland Garros e Wimbledon, mas esses planos terão que ser adiados.

As disputas em Paris foram remarcadas para o segundo semestre e o Grand Slam francês acontecerá entre 20 de setembro e 4 de outubro. Já o torneio de Wimbledon não será realizado em 2020, dada a dificuldade que os organizadores teriam para deixar as quadras de grama em boas condições de jogo em outra época do ano que não fosse o verão do hemisfério Norte.

A estimativa da Federação Internacional de Tênis (ITF) é que mais 900 torneios de todos níveis tenham sido cancelados por conta do risco de transmissão do novo coronavírus. As decisões dos circuitos profissionais da ATP e da WTA de suspenderem todas competições até 13 de julho, com possibilidade de prolongar ainda mais o período de paralisação, foram acompanhadas pela ITF e por federações nacionais ou continentais.

Roland Garros adiado, Wimbledon cancelado

O baiano Natan Rodrigues é o sétimo do ranking juvenil (Foto Marcello Zambrana/CBT)

O baiano Natan Rodrigues é o sétimo do ranking juvenil (Foto Marcello Zambrana/CBT)

Brasileiro mais bem colocado no ranking mundial juvenil, o baiano Natan Rodrigues aparece na sétima posição na lista da ITF. O jogador que completou 18 anos em fevereiro já estaria garantido nos dois próximos Grand Slam e poderia atuar no saibro parisiense pela primeira vez, já que estava se recuperando de uma cirurgia no apêndice durante a edição passada do torneio.

“Como já sou 7 do mundo na ITF, eu estaria garantido e seria cabeça de chave. Fico um pouco triste, mas não tem o que fazer. É aceitar e seguir a diante. Ainda tenho mais dois Grand Slam”, disse Natan Rodrigues, que começou a temporada com um título na Costa Rica e ainda foi finalista do Banana Bowl em Criciúma e do Sul-Americano Individual em Brasília.

“Acho que seria mais triste se cancelassem Roland Garros, porque eu nunca joguei lá. Eu fiz uma cirurgia no ano passado e não pude jogar. Mas como eu falei, tem que seguir em frente e continuar treinando para estar preparado quando voltar”, relembrou o jovem baiano, que já disputou Wimbledon e US Open como juvenil no ano passado.

Heide iria treinar na Espanha

O paulista Gustavo Heide faria um período de treinos na Espanha, mas cancelou os planos (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

O paulista Gustavo Heide faria um período de treinos na Espanha, mas cancelou os planos (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

Gustavo Heide foi campeão do Sul-Americano e aparece na 16ª posição do ranking juvenil. Ao contrário de Natan Rodrigues, o paulista jogou Roland Garros no ano passado depois de ter vencido uma seletiva nacional em Santa Catarina e um triangular em Paris contra adversários da China e da Índia. Na época, ele ainda ocupava o 139º lugar do ranking e, por isso, não se classificou para Wimbledon.

“Quando eu fiquei sabendo que Wimbledon foi cancelado, eu fiquei triste. Era o Grand Slam que eu tinha mais vontade de jogar. Nunca joguei na grama, então acho que seria uma experiência incrível”, afirmou o Heide. “Todo mundo fala que é o Grand Slam mais legal de ir, porque é bem diferente dos outros”.

“É o meu último ano no juvenil, mas eu fico pensando que tomara que eu consiga jogar em Wimbledon no futuro. É uma motivação a mais para eu poder chegar ali entre os melhores”, acrescentou o jovem paulista, que completou 18 anos em fevereiro e está em sua última temporada no circuito juvenil.

O cancelamento das competições também fez Heide desmarcar um período de treinos na Espanha, que faria ao lado do técnico brasileiro Tiago Leivas. “Recebi essa notícia em uma sexta-feira, se não me engano. No sábado, eu iria jogar o quali para o challenger de Olímpia, que acabou sendo cancelado. E no fim-de-semana seguinte eu iria para a Espanha, para treinar por duas semanas. Depois, voltaria para e jogar os futures que teriam em abril [quatro torneios aconteceriam nas cidades de Recife, Curitiba, Brasília e Piracicaba]. Já estava programado e eu estava animado para os treinos na Espanha. Mas, infelizmente, deu no que deu. Tomara que tudo isso passe logo e a gente possa voltar para as quadras”.

Boscardin foca na transição

O catarinense Pedro Boscardin ainda pode jogar o circuito juvenil no ano que vem (Foto: Luiz Candido/CBT)

O catarinense Pedro Boscardin ainda pode jogar o circuito juvenil no ano que vem (Foto: Luiz Candido/CBT)

Já o catarinense Pedro Boscardin, número 52 do ranking mundial juvenil, está com 17 anos e tem a chance de disputar seus primeiros Grand Slam na próxima temporada. Até por isso, quando o circuito voltar, ele busca motivação na transição para a carreira profissional. “Não é só desses grandes torneios que a gente vive. Também estou com bastante vontade de jogar os torneios profissionais, como os challengers e futures, então não preciso ficar pensando só nos Grand Slam do juvenil. Já consigo ter uma motivação bem grande com o profissional”.

“Acho que como todo tenista, eu fiquei chateado por não poder jogar, mas a gente está vendo a cada dia que foi a decisão correta. E isso faz parte do circuito. Todo mundo está nessa situação e todo mundo tem que seguir trabalhando duro. É claro que não dá para manter o mesmo ritmo de treinos, mas manter a forma física já é super bom”, explicou o catarinense, que disputou finais na Costa Rica e Colômbia e jogaria o challenger de Olímpia.

Mudança nas rotinas de treinos e estudos

Por conta das regras de isolamento social, a rotina de treinamento também foi bastante afetada. Entre os três jogadores consultados, apenas Boscardin ainda consegue treinar em quadra. Já Heide e Natan apostam na preparação física. “Quando eu recebi a notícia, a gente parou por uma semaninha. E depois disso, já voltei a fazer trabalho físico. O tênis eu consigo treinar dia sim, dia não, tomando bastante cuidado nessa questão de onde tocar para manter pelo menos um pouquinho do contato com a bola”, disse Boscardin.

“Na quadra não tem como, por enquanto. Está um pouco difícil”, relatou Natan Rodrigues. “O que eu tenho feito são os treinos físicos em casa”. Situação parecida vive Heide. “Para manter minha rotina, estou treinando o físico em casa. Eu falo com a minha equipe e eles me passam os exercícios”.

Os três jovens jogadores também falaram sobre suas rotinas de estudo em tempos de quarentena. Natan concluiu o Ensino Médio no fim de 2019 e pretende ingressar em uma faculdade em breve, enquanto Heide precisou interromper os estudos no ano passado para se dedicar ao tênis. Um ano mais jovem que eles, Boscardin aproveita o período sem viagens e competições para finalizar o colégio. “Eu já estudo à distância desde o primeiro ano do Ensino Médio. Então, no último ano, é praticamente a mesma coisa”, afirmou. “Mas agora eu tenho mais tempo para estudar e estou dando uma antecipada para, quando voltar ao normal, eu já ter terminado ou estar bem mais adiantado”.