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Com Pigossi, Wimbledon terá 17 estreantes em Slam
Por Mario Sérgio Cruz
junho 24, 2022 às 11:18 pm

Laura Pigossi fará sua primeira aparição em uma chave principal de Grand Slam (Foto: Reprodução/Instagram)

Segunda melhor brasileira no ranking da WTA, Laura Pigossi disputará sua primeira chave principal de Grand Slam em Wimbledon. A edição de 2022 do torneio terá 17 tenistas estreantes em Grand Slam, sendo 10 homens e sete mulheres, com muitas histórias que merecem ser contadas.

Pigossi, de 27 anos e 124ª do ranking, alcançou nesta temporada sua primeira final de WTA 250, nas quadras de saibro de Bogotá, e chegou a disputar os qualis do Australian Open e de Roland Garros. Medalhista de bronze nas duplas dos Jogos Olímpicos de Tóquio ao lado de Luísa Stefani, a paulistana de 27 anos teve resultados consistentes no segundo semestre de 2021 para se firmar no top 200 e deu um novo salto no ranking após a ótima campanha na Colômbia.

Com o veto aos tenistas da Rússia e de Belarus, Pigossi era a apenas a quinta na lista de espera quando houve o fechamento das inscrições e teve sua vaga confirmada na manhã do último sábado, após a desistência da ex-número 1 Naomi Osaka. Com isso, ela se junta a Beatriz Haddad Maia e o Brasil volta a ter duas jogadoras em uma chave de Grand Slam pela primeira vez desde 1989 em Roland Garros.

O sorteio desta sexta-feira colocou Pigossi para estrear contra a eslovaca Kristina Kucova, que tem o incomum estilo de jogo em que executa o forehand com as duas mãos. Se vencer, pode enfrentar uma rival experiente, a croata Petra Martic ou a norte-americana Shelby Rogers. A oitava cabeça de chave Jessica Pegula está no mesmo setor da chave, podendo cruzar o caminho da brasileira na terceira rodada.

“Estou muito feliz por jogar minha primeira chave principal de Grand Slam. É um sonho que tenho desde pequena. Com certeza foi fruto de muito trabalho. Por mais que não estejam jogando russas e nem bielorrussas, sinto que faço parte de onde estou, não é pelo fato delas não estarem que eu não mereça. Estou muito feliz, é até difícil colocar em palavras”, disse Laura Pigossi, ao saber da confirmação de sua vaga.

A número 2 do Brasil também lembrou do tempo de juvenil quando disputou o torneio britânico. “Por coincidência, também foi o primeiro Slam que joguei como juvenil. Sempre foi um torneio especial para mim. É bem tradicional e eu sempre amei esse charme que ele tem”, comenta a tenista, que não conseguiu disputar torneios preparatórios na grama este ano.

Jovem polonesa conviveu com a depressão e joga 1º Slam

Além de Laura Pigossi, outras seis mulheres disputarão o primeiro Grand Slam da carreira em Wimbledon, as convidadas britânicas Sonay Kartal e Yuriko Miyazaki, a japonesa Mai Hontama, a norte-americana Catherine Harrison, a suíça Ylena In-Albon e também a jovem polonesa de 20 anos Maja Chwalinska.

A história de Chwalinska merece destaque. A canhota polonesa é contemporânea da atual número 1 do mundo Iga Swiatek. Jogando juntas, elas foram campeãs da Copa Billie Jean King Júnior em 2016 e também foram finalistas do torneio juvenil do Australian Open no ano seguinte. A atual 172ª do ranking passou por um qualificatório com três rodadas para garantir vaga na chave, tendo superado na fase final a ex-top 10 Coco Vandeweghe por 3/6, 6/3 e 6/4.

Fora das quadras, Chwalinska conviveu com a depressão por mais de dois anos e chegou a anunciar no ano passado que precisaria parar de jogar para cuidar da saúde mental. “Em 2019 comecei a me sentir mal. Primeiro na quadra, mas depois fora dela, e isso me levou à depressão. Algo que eu mais gostava de repente se tornou uma fonte de sofrimento. Associei o tênis à pressão e ao estresse, e cheguei ao ponto em que não conseguia mais treinar. Decidi fazer uma pausa e não sabia se voltaria. Mas pude contar com pessoas ao meu redor que sempre me apoiavam e não me pressionavam. Quando voltei, muitas jogadoras vieram falar comigo porque elas também estavam com dificuldades. Por isso é tão importante falar sobre isso”.

Dez estreantes na chave masculina

A chave masculina terá dez estreantes em Grand Slam, o belga Zizou Bergs, os britânicos Ryan Peniston e Alastair Gray, o francês Hugo Grenier, os suíços Marc-Andrea Huesler e Alexander Ritschard, o holandês Tim van Rijthoven, o eslovaco Lukas Klein, o espanhol Nicola Kuhn e o italiano Andrea Vavassori.

Entre eles, o resultado mais expressivo foi de Tim van Rijthoven, campeão do ATP 250 de ‘s-Hertogenbosch, superando o então número 2 do mundo Daniil Medvedev na final. Antes da semana perfeita na Holanda, ele sequer tinha vitórias em nível ATP, e ele ainda conseguiu bater dois top 10, já que também eliminou Felix Auger-Aliassime na semifinal. A campanha rendeu a ele um convite na chave principal. “Ganhar um título de ATP significa muito para mim, e ganhar em casa é ainda mais especial. A torcida foi incrível! Nunca pensei que ganharia o torneio. Eu queria talvez surpreender algum favorito, mas eliminar grandes jogadores e ganhar o título é simplesmente incrível”, disse Van Rijthoven após a surpreendente conquista na grama.

O belga Zizou Bergs foi outro jogador que recebeu convite após um bom resultado na grama. O jovem de 23 anos foi campeão do challenger de Ilkley, saindo do quali e vencendo sete jogos seguidos no piso. Ele bateu na final o ex-top 10 Jack Sock. Bergs também chama atenção ocasionalmente nas redes sociais por seus trick-shots em quadra, jogador muito talentoso e que vale a pena ser assistido de vez em quando.

Peniston tratou de um câncer quando pequeno
O britânico Ryan Peniston, de 26 anos e 147º do ranking, foi outro destaque da temporada de grama. Ele chamou atenção ao derrotar o número 5 do mundo Casper Ruud e chegar às quartas de final do ATP 500 de Queen’s, mas antes fez quartas nos challengers de Surbiton e Nottingham, e nesta semana repetiu a dose no ATP de Eastbourne.

Ryan Peniston chegou a derrotar o top 5 Casper Ruud em Queen’s

Quando tinha apenas um ano, ele foi diagnosticado com rabdomiossarcoma, um tipo câncer de tecidos moles encontrado em crianças. O britânico passou por uma cirurgia para remover um tumor antes de passar por um extenso período de quimioterapia. “Não me lembro de nada quando era mais jovem e mesmo quando era criança não sabia muito sobre a situação. Foi apenas nos últimos 10 anos que me interessei mais e pedi aos meus pais que me dissessem”, disse ao site da ATP.

“Isso mudou muito minha perspectiva [sobre a vida]”, disse Peniston. “Quando estou tendo um dia difícil com alguma coisa ou me aborrecendo com algo pequeno, eu meio que me lembro de que eu literalmente poderia não estar aqui há 25 anos”, acrescentou o canhoto de 1,83m. “A quimioterapia afetou meu crescimento. Eu era muito pequeno até os 14 ou 15 anos, era quase 30 centímetros menor que alguns dos meus amigos. Por isso, tive desenvolver algumas habilidades que talvez outros jogadores não estivessem trabalhando como a movimentação e as táticas. Isso me ajudou muito e quando comecei a crescer um pouco mais”.

Como a medalha pode mudar formação de nossas tenistas
Por Mario Sérgio Cruz
julho 31, 2021 às 4:08 pm
Luísa Stefani e Laura Pigossi deram a primeira medalha olímpica da história do tênis brasileiro. (Foto Kopatsch/Sato/Sidorjak)

Luísa Stefani e Laura Pigossi deram a primeira medalha olímpica da história do tênis brasileiro. (Foto Kopatsch/Sato/Sidorjak)

A primeira medalha olímpica na história do tênis brasileiro pode dar início a uma mudança na maneira como o esporte é praticado no país, especialmente para as nossas meninas e mulheres. Muito além do discurso da maior exposição e o consequente aumento de pessoas interessadas na modalidade, o bronze Luísa Stefani e Laura Pigossi em Tóquio deixa uma lição a respeito da formação de nossas jogadoras. É possível ter um ganho técnico significativo ao ver como essas meninas jogam no alto nível.

O que se viu em Tóquio são jogadoras que buscam um tênis mais moderno e condizente com o que é jogado na elite do circuito. Mas quando visitamos um torneio juvenil ou profissional, costumeiramente vemos as brasileiras e demais sul-americanas muito atrás da linha de base, usando bolas mais altas e tendo que se defender muito a cada ponto. É um modelo adotado devido ao grandes número de quadras de saibro no país. Mas que não faz mais sentido para quem pensa no alto nível. Em primeiro lugar, porque o circuito é cada vez mais focado nas quadras duras, e segundo porque mesmo as campeãs de grandes torneios no saibro já não jogam mais assim há muito tempo.

Entre as explicações para isso está a falta de técnicos conectados com a elite do tênis feminino profissional. Temos a ótima Roberta Burzagli, capitã da equipe brasileira na Copa Billie Jean King e que chegou a viajar o circuito e acompanhar juvenis estrangeiras nos torneios do Grand Slam. Mas ela não pode ser a única. A formação de tenistas no Brasil ainda é muito focada no circuito masculino. Isso vai desde a designação dos técnicos nos centros de treinamento, passa pelo número de torneios promovidos no país (cenário que tem mudado nos últimos anos) e chega até a destinação de repasses de projetos olímpicos. Se as oportunidades de intercâmbio e recursos para nossos tenistas já não são muitas, para as meninas é menos ainda.

Não por acaso, o Brasil ficou entre 1989 e 2013 sem ter uma jogadora no top 100 do ranking. Ou até 2014 sem uma representante numa chave principal de Grand Slam. Ou até 2015 sem uma campeã de WTA. Coube à pernambucana Teliana Pereira derrubar todas essas escritas durante a década passada, ainda com um jogo típico de saibro sul-americano. Brilhantemente chegou ao seu limite, o 43º lugar do ranking e dois títulos em seu piso favorito, mas mostrou que o caminho era possível. A atual número 1 do Brasil em simples, Beatriz Haddad, chegou a ser 58ª do mundo e vai seguindo essa rota, já com um tênis mais moderno. Aos 25 anos, tem potencial enorme para ir além.

Também não é por acaso que todo ano o Brasil coloque dois ou três jogadores em chaves juvenis de Grand Slam e nas primeiras posições do ranking da categoria. A participação dos meninos é frequente, e muitas vezes com merecido destaque. Já entre as meninas, foram poucas as que tiveram essas oportunidades em Grand Slam. Bia, Laura e Stefani felizmente puderam vivenciar esse ambiente do alto nível desde muito novas. A esperança é de que mais meninas tenham essas mesmas chances e cresçam no circuito.

Vaga conquistada de última hora

Stefani e Pigossi conquistaram a vaga olímpica de última hora, confirmada apenas no dia 16 de julho, uma semana antes da abertura dos Jogos de Tóquio. Brasileira mais bem colocada no ranking de duplas, Luísa Stefani é atual 23ª colocada e poderia ter garantido sua classificação direta se estivesse no top 10 logo após Roland Garros. Como não foi possível, a chance estaria estaria no ranking combinado entre as duas jogadoras. A escolha da Confederação Brasileira de Tênis (CBT) foi de inscrevê-la junto com Pigossi, (então 190ª colocada e atual 188ª), e esperar por desistências, que de fato aconteceram. Destaque também para o rápido entrosamento da parceria, que disputou apenas três torneios lado a lado, o último no confronto contra a Alemanha na Fed Cup do ano passado.

Caminhos distintos e evolução no exterior
Apesar de ambas terem sido juvenis de destaque, as medalhistas de bronze trilharam caminhos distintos e tiveram grande parte de suas formações fora do Brasil. Luísa Stefani, de 23 anos e nascida em São Paulo, teve grande parte de sua formação como tenista nos Estados Unidos. A família se mudou para a Flórida em 2011, quando ela tinha apenas 14 anos, para que Luísa e o irmão Arthur tivessem mais oportunidades no esporte e pudessem também desenvolver a língua inglesa. 

Também paulista, Laura Pigossi está com 26 anos e se mudou para a Espanha há cinco temporadas, trocando a equipe inteira, disposta a dar um salto qualitativo em seu nível de tênis. A nítida evolução de Pigossi no piso duro era vista quando a jogadora, apenas 326ª no ranking de simples, conseguia ser agressiva nas devoluções e sustentar ralis de fundo com jogadoras que estão na primeira prateleira do circuito individual, como Karolina Pliskova, Marketa Vondrousova e Jessica Pegula. Também mostrou alto nível para jogar no piso duro quando foi escolhida para defender o Brasil no confronto da Copa Billie Jean King contra a Polônia, em abril, e teve grandes atuações, com uma vitória e uma derrota nos detalhes contra rivais melhor colocadas. Na atual temporada, tem 22 vitórias em simples, sendo 21 em quadras sintéticas, e só uma no saibro.

Já Stefani, que treina na Saddlebrook Academy e jogou o circuito universitário por Pepperdine, tem se destacado no circuito de duplas nos últimos anos, especialmente ao lado da norte-americana Hayley Carter. Juntas, elas venceram dois torneios da WTA, em Tashkent (2019) e Lexington (2020) e disputaram outras seis finais. Só em 2021, já decidiram os WTA 500 de Abu Dhabi e Adelaide e também o WTA 1000 de Miami.

Seu técnico, o indiano Sanjay Singh, treinou o exímio duplista Leander Paes e falou a TenisBrasil no ano passado sobre a versatilidade de Stefani. “Ela é uma jogadora difícil de enfrentar. Ninguém consegue dar uma passada quando ela está na rede. As jogadoras não fazem ideia de como fazer. Ela define os pontos muito rápido e as adversárias se assustam com ela na rede. Então se ela tiver uma boa parceira, que saca e joga bem do fundo de quadra, ela toma conta de toda a rede. É como um cheetah“, explicou o treinador.

Brasileiras derrubaram favoritas

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A caminhada olímpica das brasileiras em Tóquio começou com uma vitória por 7/6 (7-3) e 6/4 sobre as canadenses Gabriela Dabrowski e Sharon Fichman, cabeças de chave 7 do torneio. Curiosamente, Dabrowski será parceira de Stefani no segundo semestre. Veio os confronto das oitavas contra as tchecas Marketa Vondrousova e Karolina Pliskova, duas tenistas que priorizam o jogo de simples e vivem ótimo momento. Tanto é que Vondrousova foi medalhista de prata em Tóquio e Pliskova chegou à final de Wimbledon há três semanas. As brasileiras salvaram quatro match points para vencer por 2/6, 6/4 e 13-11.

A vaga nas quartas já garantia a Stefani e Pigossi a melhor campanha da história do tênis feminino brasileiro em Jogos Olímpicos. Havia a missão de enfrentar Bethanie Mattek-Sands, uma lenda do jogo de duplas, com cinco títulos de Grand Slam na modalidade, além de mais um Slam e um ouro olímpico nas duplas mistas, e sua parceira Jessica Pegula. As brasileiras novamente começaram atrás, mas venceram as norte-americanas por 1/6, 6/3 e 10-6.

A semifinal foi o único revés das brasileiras que perderam para as suíças Belinda Bencic e Viktorija Golubic, que venceram por 7/5 e 6/3, sendo que Stefani e Pigossi chegaram a liderar o set inicial por 4/0 e tiveram um set point. “No momento estamos bem frustradas, mas vamos falar com nossos técnicos para ver onde podemos melhorar e dar a volta por cima. Temos que lembrar a semana que fizemos e onde estamos”, afirmou Pigossi, logo após a partida. Stefani completou: “É mudar a cabeça para não cometer os mesmos erros. Dá para xingar e lamentar por umas duas horas, mas depois a gente volta com a cabeça pronta”.

Bronze contra finalistas de WimbledonE7nJmNbVIAA3PjrNa disputa pelo bronze, havia mais uma dupla favorita pela frente. As brasileiras enfrentaram as russas Elena Vesnina e Veronika Kudermetova, finalistas de Wimbledon recentemente. Vesnina é outra ex-número 1 do mundo em duplas e tem três títulos de Grand Slam. A parceria do Comitê Olímpico Russo venceu o primeiro set, aproveitando-se de um ótimo início de partida e de um momento de maior tensão das brasileiras.

Com mais confiança e mudanças no jogo, a partida mudou. Pigossi estava cada vez mais à vontade do fundo de quadra, trocando bola com Kudermetova e devolvendo firme. Isso embalou Stefani, que já abandonava a tática de tentar os lobs para responder os saques da rivais e também exercia pressão. Após um 6/4 para cada lado nos dois sets regulares, a decisão ficou para o match tiebeak, em que as russas abriram vantagem no início e chegaram a ter quatro match points quando venciam por 9-5, mas Stefani e Pigossi foram brilhantes nos momentos de maior pressão e conseguiram vencer seis pontos seguidos para virar o jogo e fazer história.

“Ainda não caiu a ficha do quanto isso é importante. Entramos na competição de última hora, aos 45 do segundo tempo, e fizemos valer a pena. Aproveitamos cada momento, cada partida, para representar o tênis brasileiro da melhor maneira e estamos muito felizes de trazer a medalha para casa”, comemorou Luisa Stefani após a partida. Pigossi emendou: “Nós nunca deixamos de acreditar que podíamos. Desde que recebemos a confirmação da classificação, sabíamos que poderíamos jogar de igual para igual contra todas que estão aqui. A derrota na semifinal foi muito dura, mas tivemos forças para reorganizar, juntar energias e defender as cores do Brasil da melhor maneira”.

Stefani também espera que a conquista também motive uma nova geração de jogadoras. “Não há nada mais importante do que representar o Brasil. É uma conquista brilhante. Talvez nos traga mais jogadoras no Brasil e motive mais meninas a jogar tênis. Isso é o que é maravilhoso no esporte: quero ver o esporte brasileiro crescer, para que sejamos mais importantes no cenário dos esportes, especialmente para as meninas”.