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Alcaraz acumula façanhas e deixa lições ao circuito
Por Mario Sérgio Cruz
março 19, 2022 às 1:16 am

Alcaraz é o mais jovem semifinalista de Indian Wells desde 1988 e chegará ao top 15 do ranking com apenas 18 anos (Foto: Peter Staples/ATP Tour)

Jogador mais jovem no top 100 do ranking, Carlos Alcaraz tem acumulado façanhas neste início de temporada. Em 13 jogos disputados em 2022, o espanhol de 18 anos perdeu apenas um, a batalha de cinco sets contra Matteo Berrettini na terceira rodada do Australian Open. Nesses primeiros três meses do ano, já conquistou o maior título da carreira no Rio Open e faz sua melhor campanha em Masters 1000 ao atingir a semifinal de Indian Wells. Ele já é o mais jovem semifinalista do torneio desde Andre Agassi em 1988.

A sequência de bons resultados aparece no ranking. Alcaraz iniciou a temporada na 32ª posição e tinha como meta chegar ao top 15. Esse objetivo está muito próximo de ser alcançado. E dá para sonhar com top 10. Antes do torneio de Indian Wells, sua distância para o décimo colocado, o italiano Jannik Sinner, era de pouco mais de 1.400 pontos. O espanhol tem garantidos mais 360 pontos pela campanha na Califórnia, pode dobrar esse valor com mais uma vitória e até fazer mil pontos em caso de título. Já Sinner, que parou nas oitavas em Indian Wells, fez só 90 pontos no torneio.

Alcaraz não defende pontos no segundo Masters 1000 da temporada, em Miami, e nem no terceiro, em Monte Carlo. Durante a temporada de saibro, só tem a somar em torneios grandes como Roma e Barcelona e defende pontuações modestas de terceira rodada, em Madri e Roland Garros. É de se esperar que ele faça campanhas ainda melhores que as do ano passado, por ser mais experiente e entrar como cabeça de chave. Nesse cenário, uma chegada ao grupo dos dez melhores é muito provável, a menos que ele sofra com lesões ou tenha uma queda repentina de rendimento.

O jovem espanhol também tem deixado lições ao circuito. Uma vitória por 6/2 e 6/0 contra um top 15 consolidado como Roberto Bautista Agut ou o fato de ter levado o top 10 Berrettini ao tiebreak do quinto set em Melbourne são recados claros sobre o quanto será difícil eliminá-lo de um torneio. Apesar de toda sua formação espanhola e de muita solidez do fundo de quadra, que renderam suas primeiras conquistas no saibro em torneios juvenis e também no nível challenger, Alcaraz é um jogador para todos os pisos.

O pupilo do ex-número 1 Juan Carlos Ferrero é capaz de jogar um tênis moderno, agressivo, atuando em cima das linhas e comandando os pontos com um forehand muito potente. Também exibe um rico arsenal de golpes. Seus drop-shots fizeram sucesso durante o Rio Open e as jogadas de efeito e os reflexos rápidos junto à rede encantam a torcida em Indian Wells.

Duelo com Nadal na semifinal de Indian Wells
Na semifinal deste sábado, por volta de 19h, desafia o ídolo Rafael Nadal em um duelo de gerações do tênis espanhol. Será o segundo encontro entre eles. O primeiro foi no Masters 1000 de Madri do ano passado, no dia em que Alcaraz comemorava seu aniversário de 18 anos, e Nadal venceu com as tranquilas parciais de 6/1 e 6/2. O cenário atual prevê um duelo de maior equilíbrio, por mais que Nadal faça o melhor início de temporada da carreira aos 35 anos, com 19 vitórias seguidas. O campeão de 21 títulos de Grand Slam segue sendo favorito, mas a diferença hoje é muito menor do que a de dez meses atrás.

“É difícil jogar contra o Rafa, mas ao mesmo tempo vou curtir o momento e aproveitar a partida”, disse Alcaraz, depois de garantir seu lugar na semifinal. “Não é todo dia que você joga contra o seu ídolo. Mas estou focado agora para jogar o meu melhor contra ele e poder aproveitar minhas chances. Lembro que em Madri, eu estava muito nervoso. Mas agora eu já treinei com ele algumas vezes e sei mais como jogar contra ele. Acho que agora vai ser um pouco diferente nesta partida. Obviamente ele pode me destruir de novo, mas não sei o que vai acontecer”.

Nada de ‘Novo Nadal’
As comparações entre Alcaraz e Nadal podem ser muito frequentes e até o patrocinador comum entre os dois contribuiu indiretamente para isso, quando destinou camisetas regatas para o jovem espanhol usar na Austrália e no Rio de Janeiro. Alcaraz tem Nadal como um ídolo e um modelo a seguir por sua disciplina e espírito de luta e competitividade em quadra. Os estilos de jogo e execução dos golpes já não são tão parecidos, por mais que Nadal já tenha declarado diversas vezes que prefere condições mais rápidas quando joga na quadra dura para poder começar a controlar os pontos com o primeiro forehand depois do saque. Mas não acho certo chamá-lo de “Novo Nadal”.

Aliás, existem casos notórios de jogadores que receberam essa alcunha e não conseguiram cumprir as expectativas. Um nome bastante conhecido é o de Javier Martí, hoje com 30 anos, e que foi comparado a Nadal por seus resultados em torneios de nível challenger. Martí, que chegou ao 170º lugar do ranking, migrou para a carreira de treinador e chegou a trabalhar com Paula Badosa. No ano passado, pude perguntar a Badosa em uma entrevista coletiva durante Roland Garros sobre o quanto o trabalho com Martí a ajudava a lidar com a pressão as expectativas.

“Acho que ele está me ajudando muito a lidar com isso. Ele sabe o que é ter expectativas quando você é muito jovem e muito bom jogador, com um futuro brilhante pela frente. Acho que tivemos situações muito semelhantes quando éramos mais jovens”, disse Badosa a TenisBrasil. “Mentalmente foi um pouco difícil para mim lidar com isso, mas eu acho que gerenciei tudo muito bem e acho que ele tem um papel incrível, que tem me ajudado todos os dias”, comenta a espanhola, que atualmente treina com outro técnico, o também espanhol Jorge García.

Outro caso é o de Carlos Boluda, chamado de “Novo Nadal” por conta de feitos no circuito juvenil entre 2006 e 2007. Ele parou de jogar no início do ano passado, aos 27 anos, sem nunca ter chegado ao top 200. Ele revelou em entrevista ao site Punto de Break que o fim da carreira foi uma experiência libertadora.

“Passei um momento terrível. Precisei da ajuda de uma psicóloga. Talvez por toda a pressão que tive na carreira, pelas lesões, por todo o esforço que fiz para chegar ao 254º lugar”, comentou Boluda. “Tudo se juntou e eu desabei. Não sentia vontade de nada, nem de sair de casa. Dar este passo foi uma libertação”