Juvenis brasileiros priorizam futures na transição
Por Mario Sérgio Cruz
março 7, 2018 às 8:09 pm

Diante da mudança nas regras do circuito profissional no ano que vem, quando será criado um circuito de transição e os torneios de nível future de US$ 15 mil não darão mais a dar pontos no ranking da ATP, alguns dos principais jogadores juvenis brasileiros sinalizam que devem priorizar as competições profissionais já no segundo semestre deste ano. Os atletas nacionais que estão na última ou penúltima temporada das competições de base também pretendem já iniciar rapidamente o longo caminho dos futures, sem passar por uma transição no tênis universitário norte-americano que já atraiu nomes como Gabriel Décamps, Lucas Koelle e Luisa Stefani nos últimos anos.

“Por enquanto o meu foco é entrar no profissional, a começar pelos futures e seguir evoluindo. A transição é bem difícil, principalmente para nós brasileiros. A gente já teve muito juvenil top, mas a transição é um ponto mais difícil. Então acho essa etapa a mais importante a partir de agora”, disse o paulista de 17 anos Mateus Alves, treinado pelo ex-top 100 Thiago Alves.

“A gente já está conversando sobre calendário e sobre misturar os torneios juvenis com profissionais. Este ano a gente já vai montar uma programação de jogar mais futures a partir de agora e mesclar com os ITFs. Fiquei sabendo dessa mudança que vai ter para o ano que vem e a gente ainda não sabe como vai ser essa mudança, o que ela vai afetar e o que vai trazer de bom, mas espero que tudo isso seja bem feito e ajude a gente do juvenil a ir para o profissional”, complementou o jovem paulista, que ainda poderá jogar torneios juvenis em 2019.

“Meu sonho sempre foi jogar como profissional mesmo. Eu nunca fui muito atraído pela ideia de jogar pela faculdade no College, então eu vou seguir no ano que vem nos futures e challengers em busca do sonho que eu sempre tive”, comentou o brasiliense Gilbert Klier Junior, que completa 18 anos em maio e treina na Tennis Route do Rio de Janeiro.

Para o pernambucano de 17 anos João Lucas Reis e o paulista Matheus Pucinelli, um ano mais novo, que treinam juntos em Barueri, a mudança na regra pode facilitar a entrada dos jovens nos torneios profissionais já que o ranking juvenil servirá como base para incluir nomes nas chaves principais. “É bem nova essa regra e acho que ela vai ajudar um pouco os juvenis em transição, mas a gente ainda não conversou muito [com os técnicos] sobre isso. Acho que mais para o final do ano a gente vai acabar sabendo mais e jogar alguns futures também”, disse Reis, que reitera o desejo de seguir a carreira como tenista profissional. “O desejo é seguir no profissional e jogar nos torneios futures”.

João Lucas Reis vem de dois bons resultados no Banana Bowl e em Porto Alegre (Foto: Matheus Joffre/CBT)

João Lucas Reis vem de dois bons resultados no Banana Bowl e em Porto Alegre (Foto: Matheus Joffre/CBT)

Pucinelli, que ainda terá mais um ano de juvenil pela frente, deve ter um calendário parecido com o de seus parceiros de treino. Além dele e de Reis, o também paulista Igor Gimenez treina junto com eles no Instituto Tênis e todos têm ranking juvenil próximo. “Para esse ano, o calendário deve ser mais parecido. Não deve mudar tanto, mas para o ano que vem vou mesclar bastante os torneios profissionais com os juvenis com o ranking juvenil ajudando para entrar”.

Até mesmo para o catarinense Pedro Boscardin Dias, jogador que completou 15 anos em janeiro e ainda luta pelo primeiro ponto na ITF, a intenção de seguir para os torneios profissionais é prioridade. “Para mim a ideia é seguir direto para o profissional sem passar pela transição nos Estados Unidos”.

Nas entrevistas feitas durante a disputa da Copa Paineiras, torneio exclusivamente sul-americano e de nível GB1 para o circuito de 18 anos da ITF, os jovens jogadores brasileiros falaram sobre o quanto esse torneio é decisivo para a definição do calendário. Nos últimos dois anos, Felipe Meligeni Alves e Thiago Wild venceram a competição continental e, com os 180 pontos conquistados, deram um salto no ranking juvenil e puderam já antecipar as vagas nas chaves principais de Roland Garros e Wimbledon.

“Este é um G1 com bônus e dá bastante ponto e te aproxima do corte do ranking para alguns torneios. É claro que um torneio desse vai modificar bastante o meu calendário, independente se eu for bem ou se eu for mal, porque ele define para quais torneios eu vou viajar. Então se eu for bem, é um calendário, e se eu for mal é outro. Então com certeza alguns pensam nisso aqui”, avaliou Klier, que só pôde começar a temporada há duas semanas, no Banana Bowl, por conta de uma lesão no joelho.

“Seria muito importante ir bem nesse torneio para já estar com os pontos na média para conseguir jogar os Grand Slam e começar a jogar os futures. Mas independente disso, acho que este ano eu já vou fazer um bom calendário de futures no segundo semestre”, explicou o tenista brasiliense que está no último ano como juvenil.

O brasiliense Gilbert Klier Júnior teve que iniciar sua temporada mais tarde por conta de lesão (Foto: Matheus Joffre/CBT)

O brasiliense Gilbert Klier Júnior teve que iniciar sua temporada mais tarde por conta de lesão (Foto: Matheus Joffre/CBT)

“No meu caso, os torneios que eu joguei antes já me ajudaram nesse aspecto. Com os torneios que eu fiz antes acho que eu já garanti a entrada em Roland Garros e Wimbledon, mas esse GB1 só com jogadores aqui da América do Sul acaba sendo um torneio bom para pontuar, mas também é duro e requer bastante esforço”, explicou Reis, que está no 32º lugar no ranking mundial juvenil da ITF.

“Acho que o torneio é importante nessa parte da pontuação e por ser o último torneio da gira. Porque diferencia jogar o quali ou chave dos Grand Slam”, avaliou Pucinelli. “A Gerdau (Campeonato Internacional Juvenil de Porto Alegre) e o GB1 são muito importantes no calendário para a gente que é daqui do Brasil. Aqui só tem os sul-americanos e fica melhor ainda para jogar e pontuar. Sim, a gente pensa bastante nisso, mas o mais importante é entrar na quadra e fazer o trabalho bem feito”, complementou Alves.

Reis comemorou o nível técnico apresentado no início de temporada. O pernambucano disputou a chave juvenil do Australian Open e equilibrou as ações contra o segundo favorito sérvio Marko Miladinovic. Depois, engatou três bons resultados seguidos em ITFs no saibro sul-americano, com semifinal em Assunção e quartas tanto no Banana Bowl quanto no Juvenil de Porto Alegre.

“Na Austrália eu fiz um jogo bem duro com o cabeça 2, foi um bom torneio e depois desses torneios eu consegui uma boa constância nos jogos. Acho que venho jogando meu melhor tênis nesses torneios e espero continuar assim”, explicou o jogador de 17 anos que está de volta ao Paineiras, clube onde foi semifinalista de um future no ano passado. “Gosto bastante de jogar aqui, as quadras são boas. É bom que esse GB1 seja aqui no Brasil este ano. Estou bem confiante para essa semana aqui no Paineiras de novo”.

Alves não foi à Austrália e começou o ano jogando no piso duro da Costa Rica, onde foi vice-campeão. Depois, o paulista voltou ao saibro e chegou às quartas tanto no Equador quanto no Juvenil de Porto Alegre. Os resultados renderam boa evolução no ranking para o atual 34º lugar. “Acho que foi uma gira bem produtiva. Fiz ótimos torneios no começo do ano, na Costa Rica, Colômbia e Equador. Consegui uma semifinal, final e quartas. Na Costa Rica era piso duro e tinha bastante diferença de clima e condições de jogo. Consegui me adaptar bem em todos esses e isso deu uma alavancada no ranking e agora na Copa Gerdau, fiz jogos bem duros, ganhei de um cara que era 13 do mundo [o americano Drew Baird] e acabei perdendo nas quartas para o japonês [Naoki Tajima], que eu tive match point, mas mesmo assim serviu bastante de aprendizado”.

Mateus Alves treina com o ex-top 100 Thiago Alves e tenta usar de sua altura para ter um bom saque e um tênis agressivo (Foto: Srdjan Stevanovic/ITF)

Mateus Alves treina com o ex-top 100 Thiago Alves e tenta usar de sua altura para ter um bom saque e um tênis agressivo (Foto: Srdjan Stevanovic/ITF)

O jogador de 1,93m está ciente de que seu estilo de jogo pode trazer uma vantagem no futuro, já que muitos dos principais jovens destaques do circuito apostam em bons saques e estilo agressivo. Ele inclusive cita o chileno Nicolas Jarry, jogador de 22 anos e que foi semifinalista do Rio Open e vice do Brasil Open, como um de seus modelos. “Sempre fui maior que o pessoal da minha idade e isso sempre me trouxe bastante vantagem, principalmente no saque que é um ponto mais forte meu. O saque e a direita. Agora o Nicolas Jarry foi bem nos ATPs. Ele é alto como eu, tem um jogo bem agressivo e é um cara muito bom para eu me espelhar. É um cara novo, que está despontando agora e a maneira de jogo dele, indo para a frente é uma maneira que eu tenho que jogar também”.

O pupilo de Thiago Alves também comentou sobre a experiência de treinar com um jogador que terminou recentemente a carreira no circuito. “Ele é um cara que mostra bem os caminhos. Já foi bom juvenil e vivenciou toda essa careira de profissional, então ele já passou por tudo o que eu estou passando agora e sabe me orientar bastante sobre onde vou jogar e como vou jogar. Então ele tá me passando bastante experiência”.

Para Klier, apesar da lesão e da pré-temporada reduzida, o balanço dos três primeiros torneios do ano foi positivo. “Meu primeiro torneio foi o Banana, mas foi uma gira muito boa para mim. Eu ia para a Austrália, mas machuquei o joelho e não pude ir. Não tive muito bem uma pré-temporada, porque eu fiquei um mês e meio sem sair da cama, machucado, mas dentro do possível foi um bom começo de ano. Fiz duas ou três semanas intensas e fui para o Banana. Joguei super bem, ganhei de bons jogadores, mas acabei não avançando mais por causa de problemas físicos. Eu estava com muita câimbra e abandonei nas oitavas. Na Gerdau também fiz um torneio muito bom e perdi para o japonês Tajima que vinha jogando muito bem. Faltou pouco, mas agora estou bem melhor”.


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