Título de Bia traz impacto valioso para nova geração
Por Mario Sérgio Cruz
junho 13, 2022 às 11:28 am

Em semana perfeita, Bia foi campeã de simples e duplas no WTA 250 de Nottingham (Foto: LTA)

Em um domingo histórico para o tênis brasileiro, Beatriz Haddad Maia foi campeã de simples e duplas do WTA 250 de Nottingham. Aos 26 anos, ela conquistou maior título de sua carreira de simples e o primeiro na elite do circuito. Jogando duplas, ao lado da experiente Shuai Zhang, número 4 do mundo na modalidade, chegou ao quarto troféu da carreira e o segundo na temporada. Bia fez história com sua semana perfeita e pode inspirar muito as novas gerações de nosso tênis feminino.

Já nesta segunda-feira, Bia também alcançou os melhores rankings da carreira nas duas modalidades, assumindo o 32º lugar em simples e a 27ª posição nas duplas. Ela também já tem a terceira melhor marca de uma brasileira no ranking de simples, ficando atrás da 31ª posição de Niege Dias em 1988 e do 29º lugar da lendária Maria Esther Bueno em 1976. Cabe sempre a explicação de que o ranking da WTA foi instituído em 1975, já na fase final da carreira da Bailarina do Tênis, vencedora de sete títulos de Grand Slam em simples e 19 em todas as categorias. Maria Esther era também a última brasileira a vencer um torneio profissional de simples na grama, em 1968.

A excelente fase vivida por Bia e também por outras brasileiras no circuito -e aí temos que lembrar da medalha olímpica de Luísa Stefani e Laura Pigossi, das conquistas de duplas de Stefani no circuito, da recente final de simples de Pigossi no WTA de Bogotá, e também do crescimento de jogadoras como Carol Meligeni, Ingrid Martins e Rebeca Pereira- traz um impacto muito valioso para as jogadoras mais jovens, que terão a possibilidade de conviver com suas referências.

O Brasil ficou sem sem uma representante em chave principal de Grand Slam desde Andrea Vieira em 1993 até 2013, com Teliana Pereira. A pernambucana, que viria a conquistar dois WTA no ano de 2015 em Bogotá e Florianópolis, foi a primeira a derrubar os vários “desde 89″ que nossas jogadoras vêm superando nesses últimos anos. Teliana foi a primeira no top 100, a primeira a jogar um Slam, a primeira a conseguir uma vitória, e também a primeira a vencer torneios da elite do circuito depois de muito tempo. Ela recolocou o país no mapa do tênis feminino. Com Bia, o Brasil voltou a comemorar vitórias contra tenistas do top 10. Além de outras várias as situações em que você tem que voltar mais de 30 anos no tempo para encontrar um paralelo.

Agora, não. As meninas mais novas estão acompanhando de perto e vendo que é possível. E quando você tem exemplos no circuito atual, com a realidade e necessidades de hoje, é uma referência muito mais palpável do que pensar no tênis de 30 anos atrás. O esporte era outro e o mundo era outro. É possível também assistir a todos os jogos de uma campanha de título, como aconteceu nesta semana, em que vimos Bia vencer Qiang Wang, Yuriko Miyazaki, Maria Sakkari, Tereza Martincova e Alison Riske.

Formação para novas jogadoras

Quando está no Brasil, durante poucas semanas do ano, Bia tem base de treinamento em São Paulo e tem a companhia de jovens jogadoras como Olivia Carneiro, de 15 anos, e que acabou de jogar o torneio juvenil de Roland Garros, Ana Candiotto, de 18, que jogou o Australian Open juvenil no começo da temporada, e de Victoria Barros, que recentemente participou da campanha que classificou o Brasil para o Mundial de 14 anos. Para essas e outras meninas, ter uma top 100 (e agora top 40) por perto é uma experiência super positiva. Você consegue conviver com alguém que está disputando os maiores torneios do mundo e enfrentando as melhores jogadoras, e absorve o que é feito em termos de jogo e de preparação para chegar nesse nível. É muito enriquecedor.

Logicamente, o nosso trabalho de base ainda precisa melhorar. O Brasil atualmente tem apenas uma menina próxima do top 100 do ranking juvenil e as presenças em Grand Slam da categoria ainda são esporádicas. Quando chegamos a torneios como Mundial de 16 anos, Banana Bowl ou Brasil Juniors Cup (antiga Copa Gerdau) de 18, elas ainda têm dificuldade. Mas é um quadro que a gente pode começar a reverter conforme essas meninas forem convivendo com as melhores do país, sentindo a bola delas e vendo o que elas fazem dentro e fora da quadra.

Cabe até mesmo o debate sobre mudança de estilos de jogo, já que gente ainda forma meninas que jogam bem atrás da linha e não pegam tantas bolas na subida, o que está cada vez mais distante da realidade de um circuito cada vez mais focado nas quadras duras e onde até mesmo as campeãs de grandes torneios no saibro já não jogam mais assim há muito tempo. Nossos técnicos também podem aprender muito tendo uma jogadora desse nível por perto.

Mais atenção ao tênis feminino e torneios no país
A grande fase também pode atrai a atenção de um novo perfil de público, independentemente se irão se tornar novos praticantes ou não. Para quem cobre o circuito com frequência, já é possível verificar o aumento do interesse em acompanhar os resultados e histórias das jogadoras. Há também um maior alcance nas redes sociais. Mais pessoas nos perguntam sobre quais são os próximos torneios das meninas e querem tirar dúvidas sobre as particularidades do circuito.

Talvez no curto ou médio prazo, isso também traga até mais interesse para o tênis feminino de um modo geral, e não apenas sobre as brasileiras. Isso seria uma mina de ouro para a WTA, ainda mais no circuito atual com mulheres de perfis bastante diversos disputando as primeiras posições. É possível agradar diferentes públicos e aumentar a base de fãs de diferentes jogadoras, um cenário ideal para atrair grandes eventos.

A própria Bia já falou recentemente a TenisBrasil sobre o desejo de poder voltar a disputar um WTA no país, o que não acontece desde 2016. E na América do Sul, o único 250 do calendário é o torneio de Bogotá, no saibro. “Acho fundamental ter mais torneios aqui. Eu sei o quanto é difícil, eu sei o quanto é caro, e que não é fácil fazer tênis na América do Sul. A gente não tem os mesmos recursos e não tem a mesmas estruturas. Mas se a gente consegue fazer para homem, a gente consegue fazer para mulher. Isso para mim é muito claro”, disse em entrevista durante o WTA de Monterrey, em fevereiro deste ano, no México. “A nossa parte, como tenistas, treinadores e todas as pessoas envolvidas no tênis feminino, a gente está fazendo. Algumas outras coisas não estão no nosso controle. Eu vou seguir trabalhando para expor o tênis brasileiro feminino lá fora e, quem sabe, a gente ter mais oportunidades de realizar torneios. Mas acho que a gente merece. A gente está num momento que a América do Sul merece, especialmente o Brasil”.

Ela também destaca o intercâmbio possibilitado por mais torneios no Brasil e na América do Sul seria um fator determinante para o desenvolvimento e evolução das jovens jogadoras. “Acredito que isso seja fundamental para a formação das meninas, para elas terem contato com as melhores jogadoras. Também seria bom para os treinadores poderem ver o trabalho uns dos outros. A gente sempre fala disso. Essa é a dificuldade e deficiência na formação, mas é muito difícil quando se tem tudo longe. Tudo é em dólar ou em euro. Tudo é muito caro. É difícil ter acesso. Eu que sou brasileira, passei na temporada passada só 15 dias no Brasil. Para a gente que joga o circuito já é difícil. Imagina para quem sonha em chegar onde a gente está”.

A formação de tenistas no país ainda é muito focada no circuito masculino. E se as oportunidades de intercâmbio e recursos para nossos tenistas já não são muitas, para as meninas são menos ainda. Não por acaso, o Brasil coloca quase todo ano dois ou três jogadores em chaves juvenis de Grand Slam e nas primeiras posições do ranking da categoria, com merecido destaque. Já entre as meninas, foram poucas as que tiveram essas oportunidades de disputar grandes torneios desde o juvenil. Bia, Laura e Luísa felizmente puderam vivenciar esse ambiente do alto nível desde muito novas. A esperança é de que cada vez mais meninas tenham essas mesmas chances e cresçam no circuito.


Comentários
  1. Neuton Costa Batista

    A formação de tenistas no Brasil, tanto feminino quanto masculino, é focada no “salve-se quem puder”, ou seja. Cada um que goste do esporte que se vire para aprender e se desenvolver. 95% dos tenistas vivem até os 17 só de PAIStrocínio. CBT só faz alguma “besteirinha” para uns poucos “tenistas amigos” que conseguiram se destacar.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Destinação de recursos de Federações e Confederação é só um dos pontos em que muitas vezes a formação acaba priorizando o masculino. Isso vai desde a designação dos técnicos nos centros de treinamento, passa pelo número de torneios promovidos no país (tem muito mais masculino, em diferentes níveis, do que feminino aqui) e chega até as oportunidades de intercâmbio.

      Um exemplo que dá para ver toda semana é que sempre tem alguns meninos do juvenil que treinam em academias americanas disputando os torneios de lá ou no México e América Central. E quando não estão competindo, estão de sparring dos profissionais de primeira linha. Raramente tem uma menina nessas chaves, às vezes entram as que vieram do Universitário, mas é muito difícil. Não é por acaso que a gente sempre coloca dois ou três meninos nos Slam juvenil, e no feminino dificilmente tem uma.

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