Finalistas, Iga e Coco carregam importantes bandeiras
Por Mario Sérgio Cruz
junho 3, 2022 às 11:35 pm

Swiatek venceu os dois duelos anteriores contra Gauff, em Roma no ano passado e Miami neste ano (Foto: Jimmie48/WTA)

Protagonistas da final de Roland Garros, Iga Swiatek e Coco Gauff se enfrentam neste sábado, às 10h (de Brasília) pelo título do segundo Grand Slam da temporada. A polonesa com 21 anos recém-completados e a norte-americana de apenas 18 têm personalidades fortes e são conscientes sobre o que acontece fora das quadras, carregando bandeiras importantes a cada declaração.

Ao longo das campanhas em Paris e demais semanas no circuito, foi possível acompanhá-las falando sobre saúde mental e pressões externas. Elas tiveram posições firmes contra o racismo, a violência nos Estados Unidos e a guerra na Ucrânia. A preocupação constante com a Covid-19, o incentivo à leitura, aos estudos e às mulheres no topo também fizeram parte das entrevistas. Apesar de muito jovens, as duas finalistas são completamente integradas à sociedade, e não vivendo apenas numa ‘bolha’ do esporte que praticam, atuando como excelentes exemplos para as novas gerações.

Saúde mental
Líder do ranking e campeã do Grand Slam francês em 2020, Swiatek sempre colocou em evidência o tema da saúde mental no esporte. A polonesa que costuma viajar pelo circuito acompanhada da psicóloga esportiva Daria Abramowicz e sempre valoriza o trabalho dela na equipe. Ano passado, durante o WTA 1000 de Indian Wells, anunciou que doaria o prêmio do torneio para organizações que trabalhem com o tema.

Decidi doar meu prêmio em dinheiro em Indian Wells para alguma organização sem fins lucrativos, já que hoje é o Dia Mundial da Saúde Mental. Para mim, sempre foi importante usar esse tipo de ajuda”, disse em entrevista coletiva. “Não acho que já seja a hora de começar uma fundação ou algo assim, porque ainda preciso me concentrar no tênis, mas posso fazer algumas ações menores e talvez ir passo a passo para aprender como fazer esse tipo de coisa. Senti que seria um bom momento para fazer isso por causa do dia que temos hoje”.

Pressão pelo número 1 e comparações com Serena
Invicta há 34 jogos no circuito e vencedora dos cinco últimos torneios que disputou (Doha, Indian Wells, Miami, Stuttgart e Roma), Swiatek tem lidado muito bem com o favoritismo e a condição de número 1 do mundo. “Eu precisava de tempo para aprender como lidar com isso corretamente, e como usar a sequência de vitórias ou o ranking para pressionar as minhas oponentes. Sinto que estou aprendendo a usar isso de maneira positiva. No ano passado, quando eu subia no ranking, parecia que era algo me pressionava. Desta vez é totalmente diferente. Estou muito feliz que minha equipe e eu trabalhamos duro para mudar minha mentalidade em relação a isso”.

Já Coco Gauff foi comparada à Serena Williams desde a infância e diz que que por muito tempo “caía na armadilha” dessas frases de efeito. “Desde que entrei no circuito, ou mesmo quando eu tinha 8 anos, as pessoas diziam que eu era a próxima Serena e acho que realmente caí na armadilha de acreditar nisso. Eu estava num ponto em que, mesmo quando conseguia grandes resultados, não ficava tão feliz porque sentia que era uma obrigação. Acho que até o ano passado eu estava muito focada em tentar atender às expectativas das outras pessoas. Agora estou realmente curtindo o momento, nas vitórias e derrotas”, avaliou a norte-americana, que ainda não perdeu sets no torneio e também está na final de duplas, ao lado de Jessica Pegula.

Guerra na Ucrânia

Swiatek usa uma fita com as cores da bandeira ucraniana em todos os jogos desde o início da guerra.

Swiatek tem usado uma fita com as cores da bandeira da Ucrânia em todos os jogos desde o início da invasão do território ucraniano pela Rússia em fevereiro. País vizinho à zona de conflitos, a Polônia recebeu muitos refugiados e a número 1 do mundo expressa várias vezes o apoio ao povo ucraniano. Ela também falou sobre o fato de muitos jogadores terem parado de prestar solidariedade, apesar de a guerra continuar até hoje.

“Eu sei que muitos jogadores usavam as fitas no início da guerra, quando todo o barulho era um pouco mais alto. Percebi que alguns tiraram, o que para mim é muito estranho porque a guerra continua e ainda há pessoas sofrendo. Vou usar até que a situação melhore. Eu não entendo… Quero dizer, eu entendo, sim. É também como a mídia funciona, um assunto fica em evidência e depois sai um pouco. Espero que os jogadores ainda sejam solidários”, comentou logo após o título do WTA 1000 de Roma.

“Com a minha família está tudo bem. Com certeza a guerra está afetando um pouco a Polônia. É algo que não pude experimentar com eles, porque estou viajando durante o circuito. Eu estava nos Estados Unidos quando a guerra começou”, explica a atual líder do ranking, invicta há 34 jogos no circuito. “Mas sei que o povo polonês está apoiando. Eu também vou apoiar em breve e fazer alguma iniciativa. Esse também é meu objetivo. Eu sei que tenho falado sobre isso há muito tempo, mas posso torná-lo oficial agora. Com certeza, quero mostrar meu apoio ao povo ucraniano, como todo os poloneses estão fazendo em suas casas”.

Racismo e violência nos Estados Unidos

No mesmo dia em que garantiu vaga na final de Roland Garros, a sua primeira em um Grand Slam de simples, Coco Gauff aproveitou a oportunidade para protestar contra a violência armada, especialmente após recentes casos de tiroteios em escolas. “Acordei esta manhã e vi que havia outro tiroteio. Isso é uma loucura. Sei que o assunto está recebendo mais atenção agora, mas é isso tem sido um problema há muito tempo, e acho que precisa haver alguma reforma. Acho que agora que eu fiz 18 anos, estou tentando me educar em certas situações, porque tenho o direito de votar e quero usar isso com sabedoria”.

“Quando as pessoas falam que esporte e política não devem se misturar, lembro que não serei uma atleta para sempre. Haverá um momento em que vou parar de jogar. Então é claro que eu me importo com esses tópicos. Acho que os esportes dão a você uma plataforma para talvez fazer essa mensagem chegar a mais pessoas”, comenta a tenista, que tem total respaldo da família e da equipe para realizar essas ações. “Minha equipe ao meu redor sabe que se eu quiser dizer alguma coisa, eu vou dizer. E os meus pais sempre me incentivam desde que eu era mais jovem. Meu pai dizia que eu posso mudar o mundo com a minha raquete. Ele não quis dizer isso apenas no sentido de jogar tênis”.

Gauff sempre se sentiu confortável para se posicionar sobre temas relevantes. Foi assim em 2020, com os protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos após a morte de George Floyd. “É triste que eu esteja protestando pela mesma causa que a minha avó teve que protestar há 50 anos”, disse na época. Passei toda a semana conversando com amigos que não são negros, tentando educá-los sobre como eles poderiam ajudar o movimento. Vocês precisam usar suas vozes. Não importa o tamanho e o alcance de suas plataformas. Como o Martin Luther King disse: ‘O silêncio das pessoas boas é pior que a brutalidade das pessoas ruins'”.

Incentivo à leitura, aos estudos e às mulheres
A educação também é um tema frequente nas conversas com as duas finalistas de Roland Garros. Gauff, por exemplo, comemorou também sua formatura escolar durante Roland Garros. “Muitos jogadores, em geral, acham que o tênis é a coisa mais importante do mundo. Mas não é. Então, conseguir meu diploma significou muito para mim”, disse Gauff, que foi parabenizada até mesmo pela ex-primeira dama Michelle Obama nas redes sociais. “Estou surpresa e não esperava nada disso. Quando vi que recebi uma mensagem da Michelle Obama, eu pensei: ‘Oh, o que eu fiz?’, mas não era sobre o tênis, era sobre minha educação. Acho que significou ainda mais para mim o fato de ela ter postado sobre isso”.

Já Swiatek é sempre vista carregando livros durante os torneios. Apesar da preferência por clássicos da literatura internacional, está atualmente com “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas, a polonesa também busca livros de não-ficção. Recentemente, concluiu: “21 lições para o Século XXI”: “Estou tentando ler algo que não seja ficção para me educar um pouco mais. O último livro foi difícil de digerir porque é basicamente sobre o propósito da vida. O autor provoca algumas ideias que eu nem pensei. Vou ler também o outro livro dele, então vou ver o que tiro desse também”.

A número 1 do mundo também defendeu mudanças na programação de Roland Garros para que mais jogos femininos sejam marcados para o horário nobre, contestando a posição de Amelie Mauresmo, diretora do torneio. “É um pouco decepcionante e surpreendente, porque ela também fez parte da WTA. Do meu ponto de vista, é mais conveniente jogar no horário normal, mas com certeza eu também quero entreter e mostrar meu melhor tênis em cada partida”, afirmou.

“A decisão é dos dirigentes e temos que aceitar isso. Mas, sim, quero que meu tênis seja entretenimento também. E sempre disse que nos meus momentos mais difíceis, tento me lembrar que eu também jogo para as pessoas que estão assistindo. Acho que o tênis feminino tem muitas vantagens. Alguns podem dizer que é muito imprevisível e que as meninas não são tão consistentes. Mas, por outro lado, isso também pode ser algo atraente para mais pessoas.

E a pandemia ainda não acabou
Swiatek também foi perguntada sobre a preocupação com a Covid-19 depois que a número 2 do mundo Barbora Krejcikova, campeã em simples e duplas no ano passado, que foi diagnosticada com a doença e teve que se retirar do torneio. A tcheca já havia perdido na disputa individual, mas não teve condição de defender o título de duplas em Paris.

“Todas as rotinas em termos de uso de máscaras mudaram nos torneios, então agora estamos mais relaxados, mas ainda assim, eu sei que o vírus pode estar ‘voando’ por aí. Mas, estou vacinada e estou me cuidando. Sinto que minha imunidade está boa. Eu me sinto muito sortuda por não ter nenhuma história assim desde o início da pandemia”.

Admiração mútua entre as finalistas
A pouca diferença de idade faz com que as duas finalistas se conheçam há bastante tempo. E a admiração é mútua. “Eu conheço a Iga desde que ela tinha o ranking mais baixo, e agora ela é a número 1. E a única que mudou nela é o nível de tênis”, disse Gauff. “Mas nos bastidores, ela é muito legal quanto acho que vocês podem ver isso nas coletivas de imprensa. Eu acho isso muito importante e raro de se ver, então eu definitivamente a parabenizo por esse aspecto. Estou muito feliz em enfrentá-la especificamente, eu sempre quis jogar contra ela em uma final. Desde o juvenil, sabia que isso poderia acontecer eventualmente. Só não pensei que fosse acontecer tão cedo”.

Swiatek celebra o bom momento de sua jovem rival, ainda mais por todas as pressões e expectativas que acompanharam Gauff desde o início de sua trajetória no tênis. “Com certeza, estou muito feliz que ela está indo bem, porque ela também teve uma enorme pressão em sua vida. Deve ter sido difícil. Tenho certeza de que ela precisou ser muito forte para chegar até aqui. Pelo que vejo na quadra, ela está se desenvolvendo a cada ano basicamente. E às vezes esqueço que ela tem 18 anos. Ela está sendo muito consistente e é muito bom vê-la progredindo”.


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