Baez e Rune traçam caminhos distintos até títulos inéditos
Por Mario Sérgio Cruz
maio 2, 2022 às 12:40 am

Baez escalou o ranking jogando challengers no saibro e confirmou a evolução quando começou a entrar em torneios maiores (Foto: Millennium Estoril Open)

Vencedores dos torneios ATP 250 disputados na última semana, em quadras de saibro na Europa, Sebastian Baez e Holger Rune acumulam algumas coincidências. Ambos ex-líderes do ranking mundial juvenil, o argentino e o dinamarquês chegaram às suas primeiras conquistas na elite do circuito no mesmo dia. Eles estarão bem próximos no ranking da ATP, Baez será 40º do mundo e Rune no 45º lugar e têm estatísticas parecidas no tênis profissional. Mas trilharam caminhos distintos até os troféus deste domingo e que acentuam a diferença entre ser um jovem promissor europeu ou sul-americano.

Baez, de 21 anos, conquistou o ATP 250 do Estoril em Portugal depois de vencer a final contra o norte-americano Frances Tiafoe por 6/3 e 6/2. O título consolida a evolução consistente que o jovem jogador argentino trilhou nas quadras de saibro nos últimos anos. Novo integrante do top 40, Baez tem 18 vitórias em nível ATP, sendo 13 no saibro. O argentino tem ainda seis títulos de challenger, com 49 vitórias neste nível e venceu cinco torneios no circuito da ITF.

Baez escalou o ranking jogando challengers no saibro
No início de 2021, Baez aparecia apenas no 309º lugar do ranking da ATP. Ele organizou seu calendário priorizando challengers no saibro, atuando neste nível e neste piso durante praticamente um ano inteiro. A estratégia deu resultado. O argentino venceu seis torneios (dois em Santiago, um em Concepcion, além de Buenos Aires, Campinas e Zagreb), ficou com mais três vices, e terminou o ano no top 100, ocupando o 97º lugar.

Havia dúvidas sobre como ele reagiria em dois novos cenários: Atuar no piso duro e enfrentar adversários de primeira linha. As primeiras impressões de Baez nas quadras sintéticas foram positivas, durante o Next Gen ATP Finals em Milão, no fim do ano passado. A evolução continuou neste ano, com boas campanhas na gira australiana. E a consolidação de Baez como um candidato a ir longe nos torneios veio em seu piso favorito: Oitavas no Rio Open, vindo do quali, quartas em Córdoba, final em Santiago e agora o título no Estoril.

“Estou apenas entrando no circuito. Jogar com rivais que via pela TV é raro, mas eu me apoiei no meu time e tentei dar o meu melhor”, disse Baez após a conquista em Portugal. “Quero curtir e continuar trabalhando para alcançar o máximo que posso. Tenho que continuar sonhando e continuar ao lado das pessoas que mais amo. É o que me impulsiona a seguir em frente”.

Na transição saindo do tênis juvenil, recebeu oito convites, sendo o primeiro de nível ATP apenas neste ano em Buenos Aires. Seus quatro primeiros convites como tenista profissional foram para qualis de future na Argentina em 2016. Só em 2017 e 2019, ele teve oportunidades em challengers em Buenos Aires, sem conseguir avançar uma rodada sequer. E apenas na atual temporada, já aos 21 anos recebeu um convite para uma chave de ATP, também na capital argentina.

Convites ajudaram Rune a ganhar experiência no alto nível

Rune recebeu convites e conviveu com a elite do circuito desde muito novo (Foto: BMW Open)


O processo de formação de Holger Rune foi diferente. Campeão juvenil de Roland Garros em 2019 e líder do ranking mundial da categoria no mesmo ano, o dinamarquês já havia tido a oportunidade de treinar com Patrick Mouratoglou e recebeu uma série de convites em torneios de primeira linha.

Nos primeiros dois meses após o título de Roland Garros como juvenil, Rune foi convidado para quatro challengers, em Blois, Amersfoort, Manerbio e Istambul. Antes disso, só havia disputado uma partida como profissional, na Copa Davis de 2018. O dinamarquês aproveitou algumas dessas chances, avançou rodadas em dois desses quatro torneios e somou seus primeiros pontos.

A primeira oportunidade em um torneio da ATP veio ainda aos 16 anos, com ele ocupando apenas o 1.019º lugar no ranking profissional, mas recebendo um convite para o quali de Auckland em 2020. Durante a paralisação do circuito na fase mais restritiva da pandemia, também participou de exibições pela Europa com jogadores mais experimentados na elite do circuito.

Quando o circuito foi retomado no segundo semestre de 2020, Rune jogou torneios menores, mas com a experiência de quem já enfrentou adversários muito mais fortes. Venceu três eventos da ITF e escalou o ranking até o 474º lugar. Já no ano de 2021, o dinamarquês ganhou mais um ITF e venceu seus quatro primeiros challengers na Itália, em Biella, San Marino, Verona e Bérgmo. Mas chama atenção também a quantidade de convites para torneios da ATP.

Rune foi indicado por organizadores dos torneios de Buenos Aires, Santiago, Marbella, Monte Carlo, Barcelona, Bastad, Umag e Indian Wells. O dinamarquês soube aproveitar suas oportunidades, treinou e jogou com os melhores desde cedo. Experimentou a rotina da elite do circuito e lapidou seu jogo em torneios grandes. Quando havia necessidade de buscar pontos em competições menores, conseguia se impor. Ao todo, já tem 19 convites na carreira.

Nesta semana em Munique, venceu a primeira contra top 10, superando o número 3 do mundo Alexander Zverev nas oitavas. Ele não se deixou abalar pela vitória expressiva e jogou como favorito contra Emil Ruusuvuori nas quartas e Oscar Otte na semi. A final contra Botic van de Zandschulp foi abreviada. O holandês sentiu dores no peito e dificuldades para respirar, e com isso a partida só durou sete games.

“Essa é provavelmente a pior maneira de vencer uma final. Eu esperava um jogo duro e ele vinha muito forte no torneio, mas aconteceu alguma coisa com ele. Desejo tudo de bom na recuperação e espero vê-lo em quadra em breve”, disse Rune, que não perdeu sets no torneio. “Mas se eu pensar na semana que eu tive, estou super feliz, joguei um tênis incrível e consegui o meu primeiro título aqui em Munique diante de um estádio lotado. Eu não poderia querer mais do que isso”.

Rune está com 19 anos e tem agora 20 vitórias no circuito da ATP, sendo 11 no saibro e nove no piso duro. O dinamarquês já venceu cinco torneios de nível challenger, um deles este ano, com 46 vitórias na carreira. Já nos eventos da ITF, acumula quatro títulos. Ele é o novo 45º do mundo com a atualização do ranking.

 


Comentários
  1. Rossini Santiago

    Sua coluna é muito boa, meu caro. Muito informativa e bem estruturada. Vale a pena a aguardar as novas postagens suas.

    Reply
  2. Rossini Santiago

    Pena nem o Baez nem o Rune estarem em Madrid. Às vezes ocorre isto na véspera nos Masters: tenistas em bom ritmo faturam um primeiro título num 250, mas não entram direto na chave do Masters nem puderam jogar o quali. Enquanto isso alguns em má fase, com resultados “antigos”, lá estão: Karatsev, Krajinovic, Sonego

    Reply
  3. Mitzi

    Mário, parabéns pelo texto elucidativo, você realmente destrinchou muito bem o início de carreira dos dois até o título. Agora realmente eu tenho noção das dificuldades que um tenista sul americano tem para chegar à elite do tênis mundial. E o argentino conseguiu, e recebendo apenas um convite para jogar na chave principal de um torneio ATP !

    Reply
Deixe uma resposta para Rossini Santiago Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Comentário

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>