Tênis e WTA ganham muito com a rivalidade entre Iga e Emma
Por Mario Sérgio Cruz
abril 23, 2022 às 12:45 am

Swiatek e Raducanu se enfrentaram pela primeira vez nesta sexta-feira em Stuttgart (Foto: Jimmie48/WTA)

O confronto entre Iga Swiatek e Emma Raducanu foi o destaque na rodada das quartas de final do WTA 500 de Stuttgart. Ambas muito jovens e já campeãs de Grand Slam, elas se enfrentaram pela primeira vez nesta sexta-feira. Líder do ranking mundial e vivendo a melhor fase da carreira, Swiatek confirmou o favoritismo e venceu por duplo 6/4, marcando sua 21ª vitória consecutiva no circuito.

Já Raducanu, que fez seu melhor torneio na temporada, também deixou boas impressões e vai aos poucos reencontrando seu alto nível de tênis. E isso é uma ótima notícia, pensando em cada vez mais confrontos entre elas no futuro e em uma sadia rivalidade que pode ser muito benéfica para o circuito feminino e para o tênis de um modo geral.

Como foi a partida desta sexta-feira
Em quadra, o duelo entre Swiatek e Raducanu já começou com uma quebra a favor da polonesa logo no game de abertura. Ela usou devoluções no corpo e jogou próxima da linha de base, mandando nos pontos, até que a britânica cometesse seus primeiros erros. Depois disso, Raducanu passou a confirmar os games de serviço sem tantos riscos, em geral apostando em saques abertos, mas ficou atrás no placar o tempo todo, já que Swiatek só perdeu três pontos no saque em todo o set.

Aos poucos, Swiatek pegou o tempo das devoluções também para os saques abertos de Raducanu e passou a atacar as paralelas com o forehand. Já havia forçado um game mais longo no fim do primeiro set e conseguiu uma quebra no início do segundo. A britânica devolveu a quebra, mas voltaria a perder o saque na sequência. Raducanu pediu tempo médico de três minutos fora da quadra por um desconforto no quadril. A britânica chegou a ter um break-point no oitavo game, mas não conseguiu buscar o empate. A número 1 do mundo ainda escapou de um 15-40 quando sacava para o jogo, mas definiu a partida em seu serviço.

Tênis quer renovar sua audiência
Swiatek, de 20 anos, e Raducanu, de 19, têm grande potencial para atrair espectadores mais jovens para o tênis. Renovar a audiência do esporte é uma preocupação de dirigentes, tanto que uma série da Netflix com os bastidores do circuito mundial está sendo produzida nos mesmos moldes da premiada produção Drive to Survive, responsável por atrair o interesse de um público mais jovem para as corridas de Fórmula 1, além de fazer com que os fãs conhecessem mais e se interessassem por diferentes pilotos do grid.

Em uma era com um volume enorme de informação circulando, escolher um atleta para torcer pode levar em consideração variáveis que vão além dos resultados e estilos de jogo. Cada vez mais as pessoas vão ter como se identificar com um ídolo por sua personalidade, atitudes, estilos de vida e causas que defende. Uma relação ídolo e fã que tende a ficar cada vez mais forte.

Há ainda clara identificação pela idade que pode fazer os mais jovens torcerem por elas, e que acontece em diferentes gerações do esporte, além do fato de que alguns nomes que fizeram sucesso no passado recente estarem na reta final da carreira, fazendo com que os fãs mais antigos comecem a procurar novos nomes para torcer e continuar se emocionando com o tênis. São dois processos naturais e que muitos fãs de tênis já passaram por isso.

Personalidades parecidas, caminhos distintos
Pensando nas personalidades das duas jogadoras, há alguns traços em comum. Raducanu sempre se dedicou muito aos estudos e falava sobre a busca pelas notas mais altas no colégio durante sua campanha de destaque até as oitavas de final de Wimbledon no ano passado. Com pai romeno e mãe chinesa, aprender as duas línguas, mas sobre a cultura desses dois países. Quando disputou um WTA 250 na Romênia no fim do ano passado, já como campeã de Grand Slam, foi tratada como jogadora local pelos fãs e organizadores do evento.

Swiatek é uma devoradora de livros, fã de clássicos da literatura, mas também do Rock N’ Roll dos anos 80. A polonesa, que tem um trabalho de longo prazo com a psicóloga esportiva Daria Abramowicz, também levanta a bandeira da saúde mental no esporte e na vida, já arrecadou dinheiro para organizações que tratam do assunto e fala abertamente sobre o tema sempre que é perguntada. Já na atual temporada, após o início da guerra na Ucrânia, solidarizou-se de forma pública com as vítimas da guerra no país vizinho ao seu. Sinais de empatia e maturidade.

As trajetórias no esporte, entretanto, são distintas. Swiatek já se destacava nas competições juvenis há , primeiro com o título da Polônia na Fed Cup Júnior em 2016 e também com a conquista do torneio juvenil de Wimbledon em 2018. Naquele mesmo ano, terminaria a temporada no 174º lugar do ranking profissional, mas já entraria no top 50 na temporada seguinte. Seu grande salto, entretanto, foi com o título de Roland Garros em 2020, que a colocou na disputa pelas primeiras posições do ranking.

Já Raducanu era apenas a 150ª do mundo quando foi campeã do US Open e disputava só o Grand Slam da carreira. Até por isso, sabe que a polonesa tem muito mais experiência no alto nível, apesar da pouca diferença de idade. “Iga já joga tênis em tempo integral há anos”, disse a britânica ao site da WTA. “Ela estava no ITF Tour e estava no WTA Tour. Eu fiquei sem jogar durante 18 meses, enquanto estava estudando para os meus exames e não joguei tantos torneios. Eu estava treinando três vezes uma semana por 10 horas por semana no ano passado. Então é só agora que estou construindo robustez e jogando partidas semana após semana. Você não pode comparar as jornadas porque tivemos caminhos diferentes. Desde que ela venceu o Slam, ela se saiu muito bem e permaneceu consistente. Não tenho certeza de quando isso acontecerá para mim, mas tenho certeza que vou chegar lá.”

Interesse de grandes marcas e mais compromissos


As duas jogadoras também atraem o interesse de marcas importantes, inclusive no segmento de luxo, e que investem em peso no tênis. Raducanu é embaixadora de grifes como a DiorTiffany & Co. e recentemente também fechou parceria com a montadora Porsche, principal patrocinadora do torneio de Stuttgart e uma das maiores parceiras da WTA. Swiatek conta com apoio da Rolex e também da Red Bull, além de levar no uniforme a marca de seguradora polonesa PZU.

Com o interesse de tantas empresas de grande porte, há também a necessidade de administrar bem os compromissos extra-quadra. Swiatek abordou o assunto em recente entrevista ao site da WTA no fim do ano passado. “Estou conversando com a equipe que gerencia a minha carreira para que eu possa descansar mais quando estou em casa. Então, talvez no próximo ano eu consiga marcar todas as sessões de fotos e eventos com patrocinadores em blocos. Este ano, eu não pude fazer isso porque tudo era novo para nós e as parcerias são muito recentes. Então, agora, nos conhecemos melhor e acho que será mais fácil fazer isso”.

Com a chegada ao topo do ranking, a nova número 1 sabe que a preparação é cada vez mais importante. “No começo quando eu queria trabalhar com um psicólogo pensando nas coisas que estão acontecendo na quadra. Mas depois eu percebi que tudo que está acontecendo na minha vida realmente influencia no meu desempenho. Também achei muito bom trabalhar com a Daria. Eu me sinto muito confortável e que realmente posso confiar nela. Então, percebi que se eu também posso ter mais confiança fora da quadra, tenho uma saúde mental melhor e me se sinto mais calma na vida e satisfeita. Então, agora estamos trabalhando em tudo”.

Osaka e Andreescu também são ótimas opções
Outras duas campeãs de Grand Slam têm grande potencial para atrair o interesse de uma nova geração de fãs e construir rivalidades que vão trazer ainda mais olhares para o tênis. Naomi Osaka é um pouco mais velha, com 24 anos, mas tem quatro títulos de Slam no circuito e liderou o ranking, além de ser voz atuante nas lutas contra o racismo e a violência policial, e também pela causa da saúde mental no esporte. A japonesa é hoje a atleta mais bem paga do mundo, também com apoio de várias marcas de peso.

Bianca Andreescu, de 21 anos e vencedora do US Open em 2021, passou um ano sem jogar por conta de uma grave lesão no joelho e se afastou das competições por mais sete meses para cuidar da mente. A canadense reconhece que pensou em largar o tênis, mas decidiu voltar e carregar a missão de utilizar o tênis para ajudar a construir um mundo melhor.

A renovação do tênis feminino está em ótimas mãos, com jogadoras campeãs em quadra e que se expressam muito bem fora dela. Resta torcer para que esses confrontos se repitam cada vez mais e para que dirigentes e promotores do esporte saibam utilizar as personagens para ações positivas, sem sobrecarregá-las.


Comentários
  1. Fernando Ortiz

    Ótimo artigo. Positivo, construtivo e baseado em fatos. Demonstra amor pelo esporte e respeito pelos jogadores como atletas e pessoas, com sua qualidades positivas específicas.

    Reply
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