Iga pensa grande e tem motivos para isso
Por Mario Sérgio Cruz
março 21, 2022 às 10:09 pm

Swiatek conquistou dois WTA 1000 seguidos e é a nova número 2 do mundo (Foto: BNP Paribas Open)

Não há jogadora em melhor momento no circuito do que Iga Swiatek. Campeã dos dois primeiros WTA 1000 da temporada, em Doha e Indian Wells, a polonesa venceu onze jogos seguidos atuando só torneios grandes e escalou o ranking. Ela iniciou 2022 na nona colocação e já aparece na vice-liderança, atrás apenas de Ashleigh Barty, que está sem jogar desde o título do Australian Open.

Logo depois de conquistar na Califórnia seu quinto título no circuito e o terceiro WTA 1000, a jovem jogadora de 20 anos já deixou o recado: Quer ser a nova número 1 do mundo. E ela tem motivos para acreditar nisso, já que está conseguindo evoluir em nível de tênis e também no equilíbrio emocional.

A jovem tenista que surgiu no circuito batendo forte na bola, mas também exibindo um jogo inteligente e capaz de buscar variações quando atuava no saibro, vai se tornando cada vez mais completa. Ela sabe quando tem que ser mais agressiva e comandar os pontos ou quando tem que tirar o peso da bola e esperar pelos erros da adversária, como aconteceu na final do último domingo, com muito vento em quadra. A versão 2022 de Iga é capaz de jogar de diferentes formas, o que a ajuda a se sair bem no piso duro. Também é capaz de reverter situações adversas no placar e vencer adversárias contra quem o retrospecto era muito negativo.

“Quero ir mais alto porque sinto que conseguir o número 1 está cada vez mais perto”, disse Swiatek após a vitória sobre a grega Maria Sakkari por 6/4 e 6/1 na final de Indian Wells. “Com certeza, a Ash é uma das jogadoras que eu me inspiro. E vai ser uma experiência muito legal competir contra ela, que é uma das jogadoras mais completas da o circuito. Ela mostrou muita força mental e acho que vai ser muito emocionante disputar a liderança”.

A disputa pelo número 1 deve se intensificar nas próximas semanas. Apesar de a diferença hoje estar na casa de 2.200 pontos, Barty vai perder os mil de Miami do ano passado, enquanto a polonesa defende só 65 pontos, da terceira rodada de 2021. Já no início da temporada de saibro, a australiana tem quartas em Charleston, título de Stuttgart e vice-campeonato em Madri a defender, enquanto Swiatek defende o troféu de Roma e as oitavas de final em Madri. Talvez haja um confronto direto em Roland Garros, Grand Slam que as duas já venceram.

Swiatek disputou 23 jogos na temporada e venceu 20. Antes de suas 11 vitórias seguidas em WTA 1000, alcançou duas semifinais, em Adelaide e no Australian Open. Suas algozes foram Barty e Danielle Collins, campeã e vice do primeiro Grand Slam do ano. Sua única semana ruim foi em Dubai, onde perdeu na segunda rodada para a letã Jelena Ostapenko. Ainda assim, a polonesa chegou a ter um match-point, e a letã terminaria a semana com o título do torneio.

Novo técnico e jogo mais agressivo
Um dos fatores que contribuíram para a grande fase de Swiatek neste início de temporada foi uma mudança na equipe, e consequentemente em seu estilo de jogo. Ela se torna mais agressiva, especialmente nas devoluções de saque, e isso tem trazido bons resultados nas quadras de piso duro. Depois de encerrar uma parceria de cinco temporadas com Piotr Sierzputowski, técnico que a levou aos três primeiros títulos na carreira, incluindo dois troféus importantes no saibro, Roland Garros em 2020 e Roma no ano passado, Swiatek contratou Tomasz Wiktorowski, ex-técnico de Agnieszka Radwanska, e está feliz com os resultados.

“Ele me convenceu a mudar minha abordagem em relação ao meu tênis. Estou sendo mais agressiva e adorando isso. No começo eu não estava realmente convencida, mas agora quero dizer muito obrigada a ele por me mostrar essa perspectiva diferente”, disse Swiatek, na entrevista coletiva após a final de Doha. Já em Indian Wells, voltou a falar sobre o trabalho recém-iniciado com seu novo treinador e a mudança de mentalidade. “Estou muito feliz por equilibrar a agressividade e o controle. Essa é a coisa mais importante no tênis, porque posso bater muito forte na bola, mas tenho que escolher os momentos certos. E antes eu não sentia que estava escolhendo os momentos certos. Acho que isso também vem com um pouco de experiência. Então parece que tenho mais opções e mais habilidades”.

A polonesa manteve as outras duas pessoas do time, o preparador físico Maciej Ryszczuk e a psicóloga Daria Abramowicz. Ela prefere trabalhar com pessoas de seu próprio país, que acompanharam de perto a repercussão da conquista de seu primeiro Grand Slam, no saibro de Roland Garros em 2020. “Toda a minha equipe é da Polônia, então é muito conveniente e não há diferenças culturais. É mais fácil de se comunicar. O Tomasz sabe o que aconteceu depois que eu ganhei Roland Garros e entendeu o hype que estava lá. Foi uma conquista muito grande na Polônia. E acho que é mais fácil para ele entender minha situação, por causa disso. Acho que para eu ter um treinador de outro país, talvez eu tenha que ter mais experiência. Mas eu não quero mudar de treinador, honestamente, então espero que dê certo com Tomasz por muitos anos”.

Polonesa começou a trabalhar com Tomasz Wiktorowski e sente que evoluiu no piso duro (Foto: Jimmie48/WTA)

Melhora nas quadras duras
Dois dos primeiros três títulos de Swiatek foram conquistados no saibro. Depois de vencer o Grand Slam francês, ela também foi campeã no WTA 1000 de Roma no ano passado. Agora, a polonesa já se sente mais confortável e competitiva também nas quadras duras. “Dois anos atrás, sentia que não conseguiria fazer o meu jogo na quadra dura. Eu estava sempre me adaptando ao que as minhas adversárias estavam fazendo. Agora é diferente porque sinto que realmente me desenvolvi e posso jogar mais em quadra dura e posso ser mais livre. Estou bastante orgulhosa disso”, comentou durante o Australian Open.

Quando foi campeã em Doha, reconheceu que a evolução no piso duro veio antes do esperado. “Eu não esperava ter um nível tão alto na quadra dura. Sempre me considerei, como as pessoas realmente diziam, uma jogadora de saibro. Eu estava melhorando em quadra dura, mas com certeza nesta temporada meu progresso foi muito mais rápido. É muito bom ter esse tipo de jogo em que você não tem problemas em manter o ritmo e em permanecer agressiva. Eu realmente amo isso, porque está dando me muita confiança dentro e fora da quadra. Isso está tornando a minha vida em quadra mais fácil”.

Maior poder de reação
A campanha de Swiatek em Indian Wells começou com jogos duros. Ela buscou três viradas seguidas nas partidas contra a ucraniana Anhelina Kalinina, a dinamarquesa Clara Tauson e a alemã Angelique Kerber. Só então, passou a vencer seus jogos com maior tranquilidade, dominando a partida das quartas contra Madison Keys e superando também em sets diretos Simona Halep e Maria Sakkari nas rodadas decisivas. A polonesa também já havia mostrado poder de reação na Austrália, virando jogos contra Sorana Cirstea nas oitavas e Kaia Kanepi nas quartas. 

“Estou muito orgulhosa de mim mesma, porque virar o jogo depois de perder o primeiro set é uma coisa nova para mim”, disse Swiatek, durante o Australian Open “Essas duas partidas me mostraram que mesmo em momentos difíceis eu posso voltar para o jogo e que eu tenho habilidades para vencer partidas mesmo quando elas são muito duras. Eu não tenho uma boa estatística em termos de virar o jogo depois de perder o primeiro set. Mas é esse tipo de resultado me dá muita confiança para o futuro”.

E para conseguir viradas, é preciso estar bem preparada nos aspecto físico e mental do jogo, outros pontos que ela tem trabalhado com sucesso. A vitória sobre Kanepi na Austrália, em partida de 3h01 de duração, serve como exemplo. “Sei que estou fisicamente bem preparada e esperava que ela estivesse mais cansada no final. Na verdade, eu queria prolongar alguns pontos, para deixá-la mais cansada, porque, na verdade, confio muito em mim em termos de minha forma física”, revelou a polonesa de 20 anos, que também teve um bom trabalho de controle emocional. “Então, essa partida mostrou que é inteligente confiar em mim mesma nesse assunto. Fico feliz por encontrar soluções e realmente pensar mais na quadra sobre o que mudar no jogo. Sinto que é parte do trabalho que estamos fazendo com Daria [Abramowicz, sua psicóloga] para controlar minhas emoções e talvez focar em encontrar soluções”.

Adaptação às adversárias e nova mentalidade
Os últimos dois pontos a destacar sobre a evolução de Swiatek são a melhor adaptação aos estilos de jogo das adversárias e os ajustes em sua mentalidade. Até então, ela muitas vezes entrava como franco-atiradora, sem nada a perder. Agora, consolidada nas primeiras posições, precisa aprender a jogar como favorita e candidata a mais títulos importantes.

Só neste começo de ano, já são duas vitórias contra Maria Sakkari, adversária para quem havia perdido três vezes no ano passado. Também igualou os retrospectos negativos que tinha contra Simona Halep e Aryna Sabalenka. A vitória sobre Halep na última sexta-feira foi simbólica. Embora tenha sido a segunda em quatro jogos contra a romena, serve para exemplificar essa mudança de patamar.

“Nas minhas primeiras partidas contra a Simona, eu sempre sentia que não tinha nada a perder, porque eu não era a favorita. Mas agora o meu ranking é mais alto e eu venho jogando muito bem. Eu precisava ajustar a minha mentalidade para entrar em quadra”, avaliou a polonesa, que já havia derrotado Halep na campanha para o título de Roland Garros, mas perdido para a romena na Austrália no ano passado.

Mesmo quando eu joguei contra ela na Austrália, foi logo depois que eu ganhei Roland Garros, eu ainda me sentia como zebra. Era só o meu segundo torneio depois de vencer um Grand Slam, então basicamente eu ainda não me sentia como se já estivesse no top 10. Mas agora é um pouco diferente e sinto que tenho muito mais experiência, mas com isso também crescem as expectativas. Não sei se está mais fácil de lidar com isso. Honestamente, acho que foi um pouco mais difícil, mas também tenho que me acostumar a não ser mais a zebra. Então, eu queria mostrar o que eu aprendi”.

 


Comentários
  1. Rafael

    Realmente a polonesa joga demais. Talvez, até mais que a Barty, pois sua bola é mais pesada. Cabe à Iga dosar mais o.jogo e ser mais estratégica ckmo a australiana. Mestre, você acredita que a Iga roube o n. 1. do mundo?? E no masculino, o aue esperar??

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    1. Sergio Ribeiro

      Sem dúvidas Iga tem tudo pra incomodar a excelente N 1 do Mundo . Mas calma aí parceiro. BARTY tem TODOS os golpes do Tênis em seu Arsenal. Inclusive Slices e Voleios bem acima das demais . Como está somente com 25 e já e’ a Sétima da história em número de semanas no Topo , ainda há uma boa distância. E pra completar a Australiana sabe dosar seu calendário como ninguém. Abs!

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  2. Othon

    Desde Roland Garros 2020, na época uma surpresa, torço pela evolução de Iga. Que continue bem sucedida em sua bela trajetória!

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  3. Marcelo Takahashi dos Reis

    Essa menina vai longe. Além de melhorar tecnicamente, ela vem trabalhando muito bem o psicológico e pode ser um diferencial ao enfrentar principalmente jogadoras de estilo agressivo.
    Lembrando que ela foi campeã em RG sem perder um único set. A última tenista a realizar tal feito havia sido Justine Henin em 2007.
    Acho que está surgindo uma “Nadal de saias”

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