Barty dá exemplo até na hora de se despedir do tênis
Por Mario Sérgio Cruz
março 23, 2022 às 11:36 pm

O anúncio feito por Ashleigh Barty, que decidiu encerrar sua carreira profissional nesta quarta-feira, surpreendeu a todos no mundo do tênis. Com apenas 25 anos, número 1 do mundo, e atual campeã de Wimbledon e do Australian Open, Barty teria totais condições de seguir competindo e acumulando conquistas. Ao mesmo tempo, quem acompanha a carreira e as declarações da australiana compreende perfeitamente os motivos que a levaram a tomar essa decisão.

Numa era que muitas das principais estrelas do tênis perseguem títulos e recordes o tempo todo, mesmo que para isso seja preciso sacrificar suas melhores condições físicas e psicológicas, Barty encarava o tênis com leveza, mas sem nunca deixar de lado seu absoluto profissionalismo e amor pelo esporte. Estabeleceu para si mesma as metas de ser a número 1 do mundo e conquistar os títulos de Wimbledon e do Australian Open. Ela cumpriu todos os objetivos e foi além, venceu três Grand Slam em simples, mais um nas duplas, e acumulou 121 semanas na liderança do ranking (que serão atingidas após o WTA 1000 de Miami). Sentiu, então, que é a hora de buscar novos ares.

No ano passado, Barty fez um grande sacrifício pelo tênis. Por conta do rígido controle da pandemia feito na Austrália, aceitou passar seis meses viajando. Foi assim desde o início de março até o US Open em setembro. Ela não poderia voltar para casa nas semanas sem competição, porque ficaria sujeita a uma quarentena de 15 dias, e disse ainda que não havia sequer estabelecido uma base fixa de treinamento. Quando conquistou Wimbledon, voltava de lesão no quadril e considerou o título um milagre. Após o último Grand Slam do ano, decidiu encerrar a temporada mais cedo, sem jogar em Indian Wells e nem o WTA Finals. A prioridade era se recuperar a parte física e mental para chegar voando na Austrália. E o final foi feliz.

A decisão de Barty é corajosa e não estamos acostumados a lidar com ela. Ainda mais em um período em que as carreiras no esporte são mais longas e os ídolos atravessam diferentes gerações, desafiando o próprio corpo e os limites por muito mais que uma década. Via de regra, as despedidas vêm acompanhadas de lesões e tratamentos muitos longos, seguidas por eventuais quedas de rendimento e eliminações precoces. Além das declarações com a voz embargada. A australiana mostra que é possível fazer diferente.

Barty, aliás, foi uma campeã que jogava diferente. Em um circuito que vinha sendo dominado por jogadoras cada vez mais altas e que tentavam se impor batendo muito forte na bola dos dois lados, a australiana encantou ao apresentar um estilo de jogo completo e versátil, capaz de utilizar com eficiência diferentes tipos de saque, executar drop-shots e slices com maestria e sua excelente atuação junto à rede. Sempre muito querida por suas colegas de circuito, Barty era uma inspiração para muitas tenistas. também por ser uma pessoa de ótimo trato, bastante respeitosa com jogadoras de diferentes gerações e com todos nos ambientes dos torneios. E isso inclui também os jornalistas.

Postura exemplar também nas entrevistas
A número 1 do mundo não se furtava a responder perguntas sobre temas de dentro ou fora da quadra. Falava de forma franca sobre planos de jogo e estratégias adotadas depois das vitórias, sem necessidade de esconder o jogo. Falava sempre na terceira pessoa. Todas as conquistas eram do time. Sua parceria com o técnico Craig Tyzzer foi vitoriosa e duradoura.

Nas derrotas, sempre dava o devido crédito às adversárias e até mesmo defendia as rivais em questões polêmicas. Quando perdeu para Karolina Muchova no Australian Open de 2021, foi perguntada se os pedidos de atendimento médico da tcheca interferiram no resultado. A australiana não apenas refutou a ideia, como se lembrou que ela própria já havia precisado do recurso em outras ocasiões e fez questão de valorizar a atuação de sua algoz.

No ano passado, quando as todas as entrevistas nos torneios da WTA aconteciam em formato virtual, por conta da fase mais restritiva da pandemia, pude participar de algumas entrevistas coletivas de Barty ao longo da temporada. Além das já habituais declarações pós-jogo, houve um pouco mais de abertura nas semanas de Stuttgart e Cincinnati, torneios em que ela foi campeã e pôde responder perguntas sobre outros temas conforme avançava na chave.

Na primeira ocasião, comentou sobre a difícil escolha de calendário que a obrigava a viajar o tempo todo. Falou também sobre ter recebido a vacina da Covid-19 durante o WTA 500 de Charleston, para proteger a si mesma e todos da equipe, mas com a preocupação também de não estar furando a fila de ninguém que precisasse mais do que ela naquele local.

Já na segunda entrevista, a tenista de ascendência aborígene falou sobre seu trabalho social de fomento ao tênis nas comunidades de nativos australianos. Por diversas vezes, ela expressou orgulho de suas origens e a admiração pela conterrânea Evonne Goolagong. Quando foi campeã de Wimbledon, escolheu um vestido que lembra o modelo utilizado por sua maior inspiração no esporte.

É possível se despedir com final feliz
Barty dá exemplo de que as despedidas não precisam ser acompanhadas de dores e da tristeza dos fãs. Seu último ato dentro da quadra, foi conquistando o Australian Open de forma brilhante, sem perder sets, e encerrando um jejum de 44 anos sem os títulos das jogadoras da casa. Na Rod Laver Arena, atuou diante do público de seu país, dos melhores amigos, e de suas principais referências, a grande amiga e parceira de duplas Casey Dellacqua, a inspiração e ex-número 1 do mundo Evonne Goolagong e a lenda do tênis Rod Laver. O cenário de festa não poderia ser melhor. Ainda mais para uma tenista que sempre valorizou muito a história do esporte que pratica.

Foi também a maneira perfeita de encerrar a trajetória de uma tenista que já havia passado por uma primeira despedida das quadras. Considerada um prodígio do esporte desde que conquistou o título juvenil de Wimbledon com apenas 15 anos, Barty conviveu desde muito cedo com a pressão e expectativas. No final daquele mesmo de 2011, ela também venceu um playoff contra jogadoras profissionais de seu país e conquistou, por méritos próprios, um convite para a chave principal do Australian Open. Não faltaram convites e oportunidades para a australiana, que se destacou primeiro nas duplas e jogou três finais de Grand Slam em 2013. Mas no ano seguinte, decidiu parar com o tênis e dedicar-se ao críquete. Nas palavras dela, considerava-se uma “vítima do próprio sucesso”.

A australiana voltaria ao tênis em 2016, aos 20 anos, disputando os torneios do menor nível profissional e recusou convites para torneios maiores para não queimar etapas. Escalou todos os degraus até chegar ao número 1 em junho de 2019, chegou a ser ultrapassada por Naomi Osaka por quatro semanas, mas logo retomou a posição para não sair mais de lá até o fim da carreira.

 


Comentários
  1. Rodrigo Carreiro

    Ótimo texto! Barry fica como um exemplo impecável de comportamento dentro e fora das quadras. Ruim apenas pra nós, que ficamos sem ver até onde o talento poderia levá-la. Mas ela tá pensando em aproveitar a vida e não em perseguir recordes. É muito bom poder testemunhar isso.

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  2. Rossini Santiago

    Muito boa esta história da Barty. Além de ter um jogo vistoso e cheio de recursos, demonstra que possui desejos de uma pessoa comum, como estar com a família e morar num mesmo local. Lógico que essa maneira equilibrada de ver a vida se refletia num jogo que não era só espancar a bolinha, tipo Sabalenka.
    Chego a ficar feliz com a aposentadoria dela, primeiro porque demonstra que quem decide a vida dela é ela e não o que ela se tornou para o tênis. Ao negar continuar jogando simplesmente porque poderia ganhar vários Slam, ela quebra o rolo compressor midiático e de mercado que é feito em cima de uma tenista top num país para lá de tradicional no tênis. A WTA faz as homenagens, mas sabemos bem que essa decisão não agrada executivos, patrocinadores e promotores de torneios. No final, é ela que decide sobre sua vida e riscou bem nítida essa linha no chão. Isto é admirável neste mundo viciado em “celebridades”.

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