Jovens e filhas de imigrantes, Fernandez e Raducanu protagonizam final histórica
Por Mario Sérgio Cruz
setembro 10, 2021 às 11:27 pm

Emma Raducanu, de 18 anos, disputa apenas o segundo Grand Slam da carreira e já está na final (Foto: Darren Carroll/USTA)

A final feminina do US Open é histórica por diferentes motivos. Leylah Fernandez, de 19 anos, e Emma Raducanu, 18, fazem um confronto da nova geração neste sábado, a partir das 17h (de Brasília). Nova York não assistia a uma final entre duas jogadoras tão jovens desde 1999, quando Serena Williams tinha 17 anos e superou Martina Hingis, 18, na decisão. Outro ponto em comum entre Fernandez e Raducanu está o fato de ambas serem filhas de imigrantes com heranças multiculturais.

Nascida em Montréal em setembro de 2002, Leylah Fernandez tem pai equatoriano e avós maternos das Filipinas. O pai, Jorge Fernandez, é também seu treinador, dividindo as funções com Romain Deridder. Já Raducanu tem pai romeno e mãe chinesa. Curiosamente, nasceu em Toronto, no Canadá, em novembro de 2002, mas sua família se mudou para Londres quando a filha única do casal tinha apenas dois anos. Toda a formação de Raducanu como tenista, incluindo o suporte médico, financeiro e de preparação física, foi fruto de um trabalho da Lawn Tennis Association, que desenvolve a modalidade no Reino Unido.

“Acho que ter uma mãe chinesa me fez aprender desde muito jovem a trabalhar duro e ter disciplina. Quando eu era mais jovem, eu me inspirava muito em Na Li, porque ela era muito competitiva. Ela tinha armas extremamente boas, ótimos movimentos e boa mentalidade, mas sua força interior e confiança realmente se destacaram para mim. Lembro-me de vê-la jogar com Schiavone na final de Roland Garros. Foi definitivamente uma partida longa e difícil. Mas a quantidade de força mental e resiliência que ela mostrou, naquele dia ainda fica na minha cabeça hoje”, disse Raducanu sobre sua fonte de inspiração.

A tenista ainda mantém um vínculo muito forte com a Romênia e tem a número 3 do mundo Simona Halep como fonte de inspiração. “Meu pai é romeno de Bucareste e a minha avó, Mamiya, ainda mora lá. Eu volto algumas vezes por ano e fico com ela. É muito bom. Eu amo a comida romena, e a comida da minha avó também é especial. Tenho muitos laços com Bucareste”, comentou durante o torneio de Wimbledon. Admiro muito a Simona Halep, pela movimentação dela e também a forma como ela luta e compete. Em algumas das situações do jogo, eu penso em competir da mesma forma que algumas jogadoras como a Halep fazem”.

Já Fernandez fica surpresa com a receptividade que o tênis está tendo nas Filipinas, apesar de não saber muito sobre a cultura do país. “Estou muito feliz em saber que todos nas Filipinas estão torcendo por mim e me apoiando. Infelizmente eu não sei muito sobre a cultura filipina, mas eu sei que minha família faz pratos incríveis. Espero que, quando eu voltar para o Canadá e visitá-los, façam um prato filipino especial. E mal posso esperar para aprender mais sobre a cultura no futuro”.

Duelo entre elas apenas no juvenil

Apesar da pouca diferença de idade, Fernandez e Raducanu nunca se enfrentaram pelo circuito profissional. Mas já tiveram um confronto pelo torneio juvenil de Wimbledon em 2018 e a britânica, então com 15 anos, levou a melhor. Esta é a primeira vez que o US Open tem uma final entre duas jogadoras que não são cabeças de chave. Raducanu é a número 150 do mundo e veio do quali, enquanto Fernandez é 73ª colocada. Ambas vão subir bastante no ranking, a canadense está saltando para o 27º lugar e pode ser a 19ª se for campeã, enquanto a britânica está indo para a 32ª posição, podendo alcançar o 24º posto em caso de título.

Raducanu tenta encerrar jejum britânico, Fernandez pode repetir Andreescu
Primeira jogadora vinda do qualificatório a disputar uma final de Grand Slam na Era Aberta, Raducanu é também a segunda tenista de fora do top 100 a chegar à decisão do US Open. Ela disputa apenas seu segundo Slam como profissional, repetindo o feito de Pam Shriver no US Open de 1978 ao atingir a final. Além disso, pode se tornar a primeira britânica a vencer um Grand Slam desde Virginia Wade, na grama de Wimbledon em 1977. Wade também foi a única britânica a vencer o US Open na Era Aberta, em 1968.

Já a história do tênis canadense no US Open é mais recente. Ao chegar à final, Leylah Fernandez se coloca em posição de repetir o feito de Bianca Andreescu em 2019. Há dois anos, Andreescu derrotou Serena Williams na final para conquistar seu primeiro e até hoje único título de Grand Slam. Curiosamente, ela tinha a mesma idade que sua compatriota. Outra canadense a disputar uma final de Slam recentemente foi Eugenie Bouchard, vice na grama de Wimbledon em 2014.

Com três jogos a mais, Raducanu passou menos tempo em quadra
Ainda sem perder sets no torneio, Raducanu venceu nove jogos seguidos em Nova York. E curiosamente, passou menos tempo em quadra do que Fernandez, que vem de quatro batalhas seguidas em três sets. A britânica acumula 7h42 em quadra durante a chave principal e mais 3h52 do quali. Com isso, tem 11h34 de tempo acumulado em quadra durante o torneio. Já Fernandez, que derrubou as campeãs do US Open Naomi Osaka e Angelique Kerber, a número 5 do mundo Elina Svitolina e a vice-líder do ranking Aryna Sabalenka, ficou em quadra por 12h45.

Quanto vale o título do US Open?
O prêmio em dinheiro para a campeã do US Open é de US$ 2,5 milhões, além de 2 mil pontos no ranking mundial da WTA. A vice-campeã recebe US$ 1,25 milhão e 1.300 pontos no ranking. Fernandez acumulou na carreira uma premiação de US$ 786.772, tendo conquistado um título de WTA no início deste ano em Monterrey e alcançado o 66º lugar do ranking. Já Raducanu, que não era nem top 300 há dois meses, quando recebeu convite em Wimbledon e chegou às oitavas, acumulou na carreira um prêmio de US$ 303.376.

Expectativas para a final de sábado
Raducanu acredita que o fato de ser uma jogadora jovem e sem precisar lidar com tanta pressão a ajudou na campanha até a final do US Open. “Honestamente, quando você é jovem, pode jogar completamente livre. Mas tenho certeza que quando for mais velha ou tiver mais experiência, acho que a situação vai virar e algumas jogadoras ainda mais jovens aparecerão. Mas agora estou apenas pensando no meu plano de jogo, como executá-lo. Isso foi o que me colocou nesta situação e é o que estou fazendo muito bem no momento”.

Já Fernandez se lembrou das vezes em que duvidaram de seu potencial. “Acho que muita gente duvidou de mim, da minha família e dos meus sonhos. Eles ficavam dizendo não, que eu não seria uma jogadora profissional, que deveria parar e apenas focar nos estudos. Lembro-me de uma professora que me disse para parar de jogar tênis, porque eu nunca iria conseguir, e deveria apenas me concentrar na escola”.

“Sabe de uma coisa, estou feliz que ela me disse isso, porque todos os dias tenho essa frase na minha cabeça e isso me faz querer continuar avançando, para provar à ela que posso alcançar tudo que eu sonhei. Mas isso é basicamente apenas a ponta do iceberg. Há muito mais coisas pelas quais passamos como família. Acho que agora posso dizer que fiz um ótimo trabalho na realização dos meus sonhos”.

Algoz de grandes nomes do circuito, ela se sente muito bem no Arthur Ashe Stadium e tem entretido o público. “Acho que tenho feito coisas incríveis. Estou apenas me divertindo, tentando produzir algo para o público aproveitar. Estou feliz que tudo o que estou fazendo na quadra, os fãs estão adorando e eu também estou adorando. Diremos que é um momento mágico”.


Comentários
    1. Mario Sérgio Cruz

      Já foi corrigido. Quem chegou à final em 1978, apenas no segundo Grand Slam foi a Pam Shriver. Monica Seles chegou em 1990, no quarto Slam da carreira.

      Reply
Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Comentário

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>