Retorno de Osaka valoriza o tênis nas Olimpíadas
Por Mario Sérgio Cruz
julho 23, 2021 às 10:32 pm

Primeira tenista na história a acender a pira olímpica, Osaka atrai diferentes olhares para a modalidade

Não haveria melhor ocasião para que Naomi Osaka voltasse a brilhar que não fosse os Jogos Olímpicos de Tóquio. Escolhida para acender a pira olímpica nesta sexta-feira, a japonesa de 23 anos se tornou a primeira tenista a protagonizar o ato em toda a história dos Jogos. Seu retorno às competições faz do tênis um dos esportes mais valorizados em Tóquio e atrai olhares que ‘furam a bolha’ da modalidade. As atenções voltadas para a japonesa ainda subvertem a ideia de um Torneio Olímpico esvaziado após as ausências de nomes como as irmãs Venus e Serena Williams, Roger Federer e Rafael Nadal.

Todos estão curiosos para saber em que nível Osaka voltará às quadras. E além disso, ouvir o que ela tem a dizer. A Olimpíada de Tóquio é sua primeira competição desde a japonesa revelou sofrer com crises de depressão e que ficaria um tempo longe das quadras para cuidar de saúde mental. Com isso, abandonou a disputa de Roland Garros antes de atuar pela segunda rodada e sequer disputou Wimbledon na breve temporada de grama do circuito. Tudo isso, em meio à polêmica sobre obrigatoriedade das entrevistas coletivas nos torneios.

Nesse intervalo de quase dois meses longe das competições, Osaka publicou um artigo na revista norte-americana Time, em que reiterou suas posições. A atual número 2 do mundo reforça que nunca teve problemas com os profissionais de imprensa, mas que o formato adotado pelo circuito precisa de mudanças. “O problema nunca foi a imprensa, mas sim com o formato tradicional das entrevistas coletivas. Vou repetir: eu amo a imprensa, sempre gostei de um relacionamento incrível com a mídia e já dei inúmeras entrevistas mais detalhadas e individuais. Mas não amo as entrevistas coletivas”.

“Com exceção às superestrelas, que estão por no circuito há muito mais tempo do que eu (Novak, Roger, Rafa e Serena), penso que dediquei mais tempo à imprensa do que muitos outros jogadores nos últimos anos. Sempre tento responder com sinceridade e de coração. Nunca tive media-training”, argumentou a vencedora de quatro títulos de Grand Slam.

“Na minha opinião (e não estou falando em nome dos outros tenistas), o formato de entrevistas coletivas está desgastado e carece muito de uma atualização. Acredito que podemos torná-lo melhor, mais interessante e mais agradável para os dois lados. A maioria dos jornalistas que cobrem o circuito não concorda, e uma das principais preocupações era que eu pudesse abrir um precedente perigoso. Mas que eu saiba, ninguém no tênis deixou de dar uma entrevista desde então. A intenção nunca foi inspirar revolta, mas sim olhar criticamente nosso local de trabalho e perguntar se podemos fazer melhor”.

O caminho de Osaka nas Olimpíadas de Tóquio

A estreia de Osaka em Tóquio será contra a chinesa Saisai Zheng, 52ª do ranking. As duas asiáticas já se enfrentaram três vezes pelo circuito profissional, com duas vitórias da japonesa. Caso vença sua partida de estreia, a japonesa pode enfrentar a suíça Viktorija Golubic ou a jovem colombiana de 19 anos Maria Camila Osorio.

A holandesa Kiki Bertens, cabeça 16, que está em sua última temporada no circuito pode cruzar o caminho de Osaka nas oitavas. Ainda mais perigosa é a polonesa Iga Swiatek, campeã de Roland Garros no ano passado e número 8 do mundo, que está no mesmo quadrante. Swiatek estreia contra a alemã Mona Barthel e tem como cabeça de chave mais próxima a belga Elise Mertens.

No mesmo lado da chave estão Elina Svitolina e Karolina Pliskova, possíveis adversárias em uma eventual semifinal olímpica, que já a colocaria na disputa por medalhas. O setor também tem nomes como Maria Sakkari e Jennifer Brady. Já o outro lado da chave é liderado pela número 1 do mundo e campeã de Wimbledon Ashleigh Barty e tem outras fortes candidatas como a campeã de Roland Garros Barbora Krejcikova e a terceira colocada do ranking Aryna Sabalenka.

Japonesa já começa a transcender o esporte
Osaka caminha para ser uma daquelas figuras que transcendem o esporte que pratica. Negra e filha do imigrante haitiano Leonard François, ela sofreu na pele com o racismo dentro do próprio país. Isso se manifestava desde a desconfiança de colegas japonesas no esporte, ou até mesmo às declarações abertamente preconceituosas, como a de uma dupla de comediantes que sugeriu em 2019 que a jogadora usasse água sanitária na pele. Sua família, também composta pela mãe, Tamaki, e pela irmã mais velha, Mari, se mudou para os Estados Unidos quando as meninas ainda eram crianças e a inspiração para que Naomi e Mari jogassem tênis veio após o pai assistir a uma partida entre as irmãs Venus e Serena Williams pela TV.

Voz atuante na luta antirracista, Osaka participou dos protestos em dois casos com de violência policial contra homens negros nos Estados Unidos que ganharam repercussão nacional no ano passado, as mortes de George Floyd no mês de maio em Minneapolis e de Jacob Blake em Kenosha, Wisconsin, no mês de agosto. A tenista chegou a anunciar que não entraria em quadra por uma rodada do WTA 1000 de Cincinnati após a morte de Blake, seguindo um protesto adotado por diferentes ligas esportivas norte-americanas, e a organização do torneio paralisou a competição por um dia. No US Open, utilizou sete máscaras com os nomes de personalidades negras que foram mortas por policiais ou por crimes de ódio, ampliando a repercussão sobre todos esses casos. Familiares dessas vítimas estiveram em contato com a tenista e apoiaram a iniciativa.

A combinação entre grandes resultados em quadra e sua postura firme em questões de interesse social atrai o interesse de patrocinadores, que buscam em vincular suas marcas a uma atleta de tamanha influência para as novas gerações. Segundo o estudo da revista norte-americana ForbesOsaka é a atleta mais bem paga do mundo. No período de 12 meses analisado pelo levantamento, ela recebeu US$ 37,4 milhões. Desse valor, US$ 3,4 milhões são de premiações de torneios, enquanto outros US$ 34 milhões são de contratos de patrocínio.

Apoio no debate sobre a saúde mental
Já às vésperas de Roland Garros, em meio à polêmica sobre a obrigatoriedade das entrevistas, reacendeu o debate sobre discutir a saúde mental no esporte de alto rendimento. Em seu artigo para a Time, ela agradeceu às mensagens de apoio que recebeu de atletas de diferentes modalidades, personalidades, e também de pessoas anônimas, mas que também sofriam dos mesmos problemas que ela. “Ficou evidente para mim que literalmente todo mundo sofre de problemas relacionados à saúde mental ou conhece alguém que sofre. O número de mensagens que recebi de um grande número de pessoas confirma isso”, afirma a tenista de 23 anos.

“Quero agradecer a todos que me apoiaram. São muitos para citar, mas quero começar com minha família e amigos, que têm sido incríveis. Não há nada mais importante do que esses relacionamentos. Também quero agradecer a todas as personalidades que me incentivaram e ofereceram palavras tão amáveis: Michelle Obama, Michael Phelps, Steph Curry, Novak Djokovic, Meghan Markle, para citar alguns. Além disso, sou eternamente grata a todos os meus parceiros. Embora não esteja surpresa, ao escolher propositalmente patrocinadores que são liberais, empáticos e progressistas. Sou extremamente grata. Michael Phelps me disse que, ao falar sobre isso, posso estar salvando uma vida. Se isso for verdade, então valeu a pena”.


Comentários
  1. Periferia

    Vamos torcer para a jovem aguentar a pressão…que será enorme…
    O que não falta são pessoas para desconstrui-la…não como tenista…mas como indivíduo.

    Reply
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