Saída de Osaka reacende debate sobre saúde mental no tênis
Por Mario Sérgio Cruz
junho 1, 2021 às 2:31 pm
Osaka anunciou a desistência de Roland Garros por complicações relacionadas à sua saúde mental. (Foto: Corinne Dubreuil/FFT)

Osaka anunciou a desistência de Roland Garros por complicações relacionadas à sua saúde mental. (Foto: Corinne Dubreuil/FFT)

O anúncio da desistência de Naomi Osaka em Roland Garros e, mais importante, a afirmação de que a japonesa sofre com crises de depressão reacendem as discussões a respeito da saúde mental no tênis e no esporte de alto rendimento. Isso envolve não apenas o ambiente super competitivo do circuito, como também as obrigações a que as jogadoras são submetidas, especialmente as do top 10.

Osaka havia anunciado na quarta-feira passada que não participaria das entrevistas coletivas durante Roland Garros. No comunicado, dizia que o objetivo era preservar sua saúde mental. Ela se queixava de algumas perguntas que a faziam duvidar de si mesma e de seu potencial. Também afirma que o modelo utilizado pela organização dos torneios era arcaico e que aceitaria pagar eventuais multas que lhe fossem impostas. O tom da declaração acabou pegando mal também se considerado o fato de Osaka ser a atleta mais bem paga da atualidade.

“Muitas vezes senti que as pessoas não se importam com a saúde mental dos atletas e isso soa muito verdadeiro sempre que vejo uma coletiva de imprensa ou participo de uma”, divulgou Osaka, em suas redes sociais. “Frequentemente nos sentamos lá e recebemos perguntas que já foram feitas várias vezes antes ou perguntas que colocam dúvidas em nossas mentes e eu simplesmente não vou me sujeitar a pessoas que duvidam de mim. Assisti a muitos clipes de atletas arrasados na sala de imprensa depois de uma derrota e sei que vocês também”.

“Não dar entrevistas não é nada pessoal contra a organização do torneio ou contra alguns jornalistas, que já me entrevistaram desde que eu era jovem, e tenho um relacionamento amigável com a maioria deles. No entanto, se as organizações pensam que podem simplesmente continuar dizendo, “dê a entrevista ou você será multada”, e continuar a ignorar a saúde mental dos atletas que são a peça central de sua cooperação, então só tenho que rir”, acrescentou a japonesa. “Espero que o valor considerável que for multada por isso vá para uma instituição de caridade que cuide da saúde mental”.

A reação à notícia foi imediata. A falta de clareza em alguns pontos do anúncio acabou causando um efeito contrário sobre a japonesa de 23 anos. Se a ideia, inicialmente, seria se blindar de situações que tirassem seu foco do tênis, o teor do primeiro comunicado emitido por ela ampliou a repercussão do caso. Tanto é que Osaka chegou a entrar em contato com o diretor do torneio Guy Forget e com o presidente da Federação Francesa de Tênis, Gilles Moretton, reafirmando que não estava fazendo um ataque aos profissionais da imprensa ou à organização de Roland Garros e que se comprometeria a discutir o assunto com dirigentes após o torneio.

“A respeito da minha posição sobre as entrevistas durante Roland Garros eu gostaria de explicar que não tenho nada contra o torneio ou contra os profissionais de imprensa. Mas sim contra um sistema que obriga os jogadores a participarem de entrevistas coletivas em situações em que eles estão sofrendo por conta da saúde mental”, escreveu Osaka. “Acredito que esse modelo é arcaico e precisa de reformas. Depois do torneio, quero trabalhar junto com o circuito e com as entidades que comandam o esporte para pensar em uma melhor solução para mudar esse sistema. Infelizmente isso aconteceu durante Roland Garros, mas é apenas uma coincidência e não é nada pessoal. Tenho muito respeito pelo evento e agradeço a vocês pelos esforços por realizar a competição este ano”.

Dúvidas sobre o desempenho no saibro
A decisão foi motivada especialmente porque Osaka não se sentia confortável em responder perguntas sobre seu histórico negativo em competições no saibro. Vencedora de quatro Grand Slam, dois Australian Open e dois US Open, a atual número 2 do mundo jamais havia passado da terceira rodada de Roland Garros. No início do ano, logo após a conquista em Melbourne, ela e o treinador Wim Fissette afirmaram que tinham planos para reverter esse quadro e apresentar um bom tênis no piso.

“Ela é uma pessoa que se move naturalmente na quadra. Basta ver a maneira como ela se movimenta, a forma como ela gera potência e como ela pode construir os pontos. Há muitas coisas que me fazem acreditar que ela possa ter um bom desempenho no saibro. Mas ela precisa de jogos, de confiança nessas partidas e de um determinado plano de jogo”, relembra o treinador de 40 anos ao WTA Insider. “Se Naomi joga em quadra dura, tenta um winner de forehand e erra, ela pensa: ‘Ok, da próxima vez eu vou acertar’. Mas talvez nesses outros pisos ela pensará, ‘Oh, talvez eu devesse ter batido com um pouco mais de margem’ ou ‘talvez eu devesse ter feito isso’, então é fácil começar a duvidar”.

Acontece que Osaka desistiu de jogar em Stuttgart e perdeu cedo nos WTA 1000 de Madri e Roma. As dúvidas apareceram. Naquelas duas semanas, respondeu a uma série de perguntas sobre seu desempenho no saibro. As transcrições estão disponíveis na íntegra e é possível notar um tom respeitoso das duas partes. Mas apesar de a japonesa ter desenvolvido bem o assunto, ninguém está na pele ou na cabeça dela para saber o que ela realmente sentia enquanto respondia aos jornalistas.

“Não tenho certeza de como as outras jogadoras jogam, mas estou aprendendo que no saibro não posso me dar ao luxo de não rebater todas as bolas, porque isso automaticamente me tira do ataque e me coloca na defensiva”, analisou depois da derrota para Karolina Muchova em Madri. “E talvez se eu começar a me movimentar melhor eu possa arriscar começar a jogar na defesa, mas a partir de agora acho que devo ser agressiva. Quando eu estava jogando com ela no primeiro set, obviamente senti que estava me movendo de um lado para o outro, especialmente em certas bolas onde eu senti que poderia ter batido na bola um pouco mais forte. Talvez na quadra de saibro, claro que não sou uma jogadora especialista no piso, é um pouco mais importante bater na bola quando você pode”.

Outras jogadoras tiveram que comentar sobre assunto delicado
Outro efeito dentro do circuito aconteceu nas entrevistas coletivas anteriores ao torneio de Roland Garros. Jogadoras como a número 1 do mundo Ashleigh Barty e a atual campeã Iga Swiatek foram perguntadas sobre o relacionamento com a imprensa e sobre a situação de Osaka.

“Na minha opinião, falar com imprensa faz parte do trabalho. Nós sabemos disso quando nos tornamos jogadoras de tênis profissionais. Eu realmente não posso comentar sobre o que Naomi está sentindo ou as decisões que ela toma”, disse Barty, que chegou a treinar com Osaka durante Roland Garros. “Às vezes, as entrevistas são difíceis, mas também não é algo que me incomoda. Eu nunca tive problemas respondendo às perguntas ou sendo completamente honesta com vocês. Então eu tento deixar o clima mais leve e me divertir um pouco com vocês”, comenta a atual líder do ranking. “Para mim é um pouco diferente, mas não posso comentar sobre o que ela está passando. Então suponho devam perguntar isso para ela na próxima vez que conversarem com ela”.

“Falar com a imprensa depois de uma derrota não é a coisa mais agradável de se fazer. Mas é bom encontrar o equilíbrio. É bom estar ciente disso, porque às vezes estamos no centro das atenções e todos estão olhando para nós. Pode ser difícil, mas sinto que com o devido apoio, ainda é parte do nosso trabalho”, comentou Swiatek. “Eu sinto que a mídia também é muito importante porque vocês estão nos dando uma plataforma para falarmos sobre nossas vidas e nossa perspectiva. E também é importante porque nem todo mundo é um atleta profissional e nem todo mundo sabe com o que estamos lidando. É bom falar sobre isso”.

A polonesa de 20 anos também conta que aprendeu a conviver desde muito cedo com a expectativa de vinda da imprensa. “Desde que eu era muito nova, com 13 ou 14 anos, tínhamos alguns meios de comunicação poloneses que estavam sempre interessados em falar comigo. Passo a passo fui obtendo cada vez mais experiência e eu estava aprendendo a ter um bom relacionamento com a mídia. Acho que o processo deve ser o mesmo para todo jogador de tênis, porque quando você está entre três primeiros em seu país como um juvenil, provavelmente já começa a existir algumas expectativas de fora e você está apenas aprendendo a lidar com isso”.

Estreia em Paris, multa e ameaça de suspensão
Osaka estreou em Paris no domingo pela manhã, escalada para o jogo de abertura da quadra Philippe Chatrier, a principal do complexo parisiense, e confirmou o favoritismo contra a romena Patricia Maria Tig, 63ª do ranking, por 6/3 e 7/6 (7-4) e só falou rapidamente, e visivelmente desconfortável, com ex-jogador francês Fabrice Santoro ainda na quadra.

Como já era esperado, ela não concedeu a entrevista coletiva obrigatória e foi multada em US$ 15 mil pela organização do torneio. É um procedimento padrão e já aconteceu com outros tenistas durante os Grand Slam, ainda mais depois de derrotas. No entanto, esse anúncio estava no meio de um longo comunicado emitido em nome dos quatro torneios do Grand Slam. A carta dizia que Osaka não respondeu às tentativas de contato e não teria colaborado com as formas de contornar a situação e encontrar uma solução mais viável para os dois lados.

“Após a falta de engajamento de Naomi Osaka, que hoje optou por não honrar suas obrigações contratuais com a mídia, o árbitro geral de Roland Garros, portanto, aplicou-lhe uma multa de US$ 15 mil, de acordo com o artigo III H. do Código de Conduta. O Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e o US Open escreveram em conjunto para ela para verificar seu bem-estar e oferecer apoio, sublinhar seu compromisso com o bem-estar de todos os atletas e sugerir diálogo sobre as questões. Ela também foi lembrada de suas obrigações, as consequências de não cumpri-las e que as regras devem ser aplicadas igualmente a todos os jogadores”, diz a nota oficial.

A japonesa foi ainda advertida de que novas violações ao código de conduta poderiam causar sanções mais graves, como a desclassificação do torneio e suspensão dos próximos torneios do Grand Slam. Tudo isso amparado por artigos do regulamento do Board dos Grand Slam. O comunicado ainda dizia que as regras devem ser igualmente aplicadas a todos no torneio, independentemente da estatura e dos feitos de cada jogador.

“Queremos sublinhar que existem regras para garantir que todos os jogadores sejam tratados exatamente da mesma forma, independentemente da sua estatura, crenças ou realizações. Como esporte, não há nada mais importante do que garantir que nenhum jogador tenha uma vantagem injusta sobre outro”, acrescenta o comunicado. “Todos os Grand Slams permanecem comprometidos em revisar e discutir continuamente as oportunidades, junto com os circuitos e com os jogadores, para melhorar todos os aspectos da experiência do atleta, incluindo a relação com a mídia. Mas consideramos que isso só é alcançado por meio de discussões respeitosas e construtivas”.

Declarações da irmã tornaram a situação ainda mais grave
Já no final do domingo, com a rodada encerrada em Paris, a polêmica ganhou mais um capítulo. Mari Osaka, irmã mais velha de Naomi e ex-tenista profissional, publicou na rede social Reddit algumas explicações sobre a decisão da jogadora. Mari confirmou que o motivo da recusa a participar de entrevistas coletivas eram os questionamentos sobre o desempenho de Osaka no saibro e que isso teria abalado sua confiança antes de Roland Garros. Diante desse cenário, a decisão foi se blindar ao máximo desse tipo de situação. Mas cabe a interpretação se ela não estaria atribuindo só à imprensa a pressão que sofria a partir de diversas fontes, inclusive da própria família.

“Naomi mencionou para mim antes do torneio que um membro da família veio até ela e comentou que ela é péssima no saibro. Em cada entrevista coletiva, ela é lembrada que tem um histórico ruim no saibro. Quando ela perdeu na primeira rodada em Roma, não estava bem mentalmente. Sua confiança foi completamente abalada e eu acho que as observações e opiniões de todos subiram à sua cabeça e ela mesma acreditava que era péssima no saibro. Isso não é verdade e ela sabe que, para se sair bem e ter uma chance de ganhar Roland Garros, ela terá que acreditar que pode. Esse é o primeiro passo que qualquer atleta precisa fazer, acreditar em si mesmo”, comenta a ex-jogadora profissional.

“Portanto, sua solução foi bloquear tudo. Nada de falar com pessoas que vão colocar dúvidas em sua mente. Ela está protegendo sua mente, por isso que falou em ‘saúde mental’. Muitas pessoas são exigentes com este termo pensando que você precisa ter depressão ou algum tipo de transtorno para poder usar o termo saúde mental”, acrescentou Mari, argumentando a escolha pelo termo utilizado pela irmã mais nova.

Mari Osaka, que encerrou sua carreira profissional no início da temporada aos 24 anos, apagou a publicação horas depois e ainda se disse triste por sentir que havia piorado ainda mais a situação ao expor ainda mais a irmã. O depoimento reforçava a tese de que a recusa a participar de entrevistas poderia ser visto como algo estratégico e que afetaria o âmbito esportivo da competição, visto que as demais jogadoras continuavam dando entrevistas e comentando sobre um assunto que é delicado.

Desistência, depressão e pedidos de desculpa
Em meio a toda ebulição do assunto, coube a Naomi Osaka colocar um ponto final na discussão na última segunda-feira. Com um novo comunicado, em linguagem mais clara e franca, anunciou que estava desistindo de Roland Garros para que o mundo do tênis pudesse se concentrar apenas no que acontece em quadra. Confirmou que sofre com a depressão, algo que havia sido negado pela irmã no dia anterior, desde a conquista de seu primeiro Grand Slam no US Open. Também pediu desculpas aos profissionais da imprensa, especialmente os de veículos especializados em tênis e que acompanham sua carreira há mais tempo, e à organização do torneio. Comprometeu-se novamente a discutir o assunto com dirigentes do tênis para tornar o ambiente do circuito mais saudável para jogadores, imprensa e fãs.

“Acho que a melhor coisa a fazer é desistir do torneio, assim todo mundo pode voltar a focar no tênis. Eu nunca quis ser uma distração e aceito que a minha mensagem poderia ter sido mais clara. Mais importante, eu nunca exagerei em usar termo ‘saúde mental’. A verdade é que eu tenho sofrido com longas crises de depressão desde o US Open de 2018 e tive muita dificuldade para lidar com isso”.

“Os jornalistas que cobrem tênis sempre foram educados comigo e eu gostaria de pedir desculpas a todos os bons jornalistas que eu possa ter machucado. Eu não sou uma pessoa que gosta de falar em público e fico muito ansiosa quando tenho que falar com a imprensa internacional. Eu fico muito nervosa e estressada enquanto tento dar as melhores respostas possíveis”.

“Então aqui em Paris, eu estava me sentindo muito ansiosa e vulnerável e pensei que a melhor forma de cuidar de mim seria não participar das entrevistas coletivas. Eu anunciei isso com antecedência, porque acredito que as regras estão datadas e que precisamos chamar atenção para isso. De forma particular, eu peço desculpas para a organização do torneio e disse que gostaria de conversar com eles depois do torneio, já que o ambiente dos Grand Slam é muito intenso”.

Mesmo com alguns recentes avanços conquistados pelo Conselho das Jogadoras nos últimos anos, o regulamento da WTA exige grande comprometimento das jogadoras, especialmente para as top 10, que precisam estar em praticamente todos os grandes eventos do calendário. Quem não cumpre, arca com a pontuação zerada naquele evento, e não pode substituí-la por outro torneio de sua preferência. Já quem segue a agenda à risca é recompensada financeiramente pela entidade, a meu ver, uma ideia melhor do que multar aquelas que não possam cumprir esses requisitos. Jogadoras com mais de 34 anos ficam isentas de algumas dessas obrigações.

Thiem e Gauff já sofreram com a saúde mental
Osaka não é a única tenista a sofrer com problemas relacionados à saúde mental na atualidade. No mês de abril, o austríaco Dominic Thiem falou ao jornal Der Standard sobre a dificuldade para estabelecer novas metas depois de ter conquistado o US Open do ano passado. “Quando você passa a vida inteira perseguindo um objetivo e condiciona tudo para isso, as coisas deixam de ser as mesmas depois que você atinge essa meta. Isto é normal. O problema é que no tênis tudo passa muito rápido e não desacelera. Quando ganhei o US Open, estava eufórico. Os resultados continuaram bons, e eu cheguei à decisão do ATP Finals. Mas na minha preparação para esta temporada, caí em um buraco. Veremos se consigo sair. Não sei, espero que sim”.

A promessa norte-americana Coco Gauff, de apenas 17 anos e já 25ª do ranking, falou no ano passado ao podcast Behind the Racquet que tinha dúvidas se queria seguir jogando tênis. “Entre 2017 e 2018, eu estava tentando descobrir se era realmente isso que eu queria. Sempre tive bons resultados, então não era esse o problema. Eu simplesmente sentia que não estava mais gostando do esporte. Lembro de acordar e não querer treinar”, relatou. “Por cerca de um ano fiquei realmente deprimida. Quando você está nessa situação, não vê o lado positivo das coisas com muita frequência. Mas eu saí disso mais forte e me conhecendo melhor do que nunca”.

O assunto repercutiu tão negativamente que os pais da jogadora tiveram que vir a público e negaram que ela tenha sido diagnosticada com depressão, como a publicação dava a entender. Em entrevista por telefone para o New York Times, o pai Corey Gauff, disse que a palavra depressão não era a mais adequada para descrever os problemas emocionais de sua filha. “Eu sabia que essa seria a palavra escolhida, mas ela nunca esteve clinicamente deprimida, nunca foi diagnosticada com depressão, nunca ouviu alguém falar que ela tinha depressão e nem toma remédios para isso”, afirmou. “Isso é apenas a pressão pessoal que uma criança exerce sobre si mesma conforme amadurece”.

A mãe, Candi, explicou que o período de instabilidade emocional da filha começou quando ela tinha apenas 13 anos e perdeu a final do torneio juvenil do US Open de 2017. Na época, Gauff enfrentava adversárias até cinco anos mais velhas e se sentia isolada, porque as outras meninas não aceitavam perder para alguém tão nova. “Ela sentia muita solidão nos torneios, o que leva à tristeza, e por um período de tempo ela ficou infeliz. Não quero dizer a palavra ‘ciúme’, mas havia um espírito de ‘Por que essa menina está ganhando?’ Então ela ficava isolada”.

Apoio de Serena e o futuro de Osaka
Serena Williams, uma das principais fontes de inspiração para a japonesa, também se manifestou, prestando apoio e solidariedade. Disse ainda que já esteve nessa situação, mas que cada pessoa lida com isso de forma diferente. “A única coisa que eu posso dizer é que eu sinto muito pela Naomi e gostaria de poder dar um abraço nela, porque eu sei como é. Já estive nessa situação. Temos personalidades diferentes e somos pessoas diferentes. Nem todos são iguais. E cada pessoa lida com as coisas de forma diferente. Temos que deixá-la lidar com isso da maneira que ela quiser, da melhor maneira como ela pensa que pode. É a única coisa eu posso dizer. Acho que ela está fazendo o melhor que pode”, disse Serena na última segunda-feira.

“Eu também estive nessa posição. E tive oportunidades de falar com as pessoas, e meio que tirar do meu peito as coisas que não posso necessariamente falar com ninguém da minha família ou com alguém que eu conheço. Para mim é importante ter consciência e dar esse passo. Sei que é muito difícil passar por esses momentos, mas isso me fez mais forte”, acrescenta a experiente jogadora de 39 anos.

O presidente da Federação Francesa também se manifestou: “Em primeiro lugar, sentimos muito e estamos tristes por Naomi Osaka. Sua saída do torneio de Roland Garros é lamentável. Desejamos a ela o melhor, a mais rápida recuperação possível e esperamos tê-la em nosso torneio no próximo ano”, disse Moretton. O dirigente também afirma que os órgãos de controle do tênis vão discutir meios de tornar o ambiente do circuito mais saudável para os atletas e demais profissionais envolvidos. “Como todos os Grand Slam, assim como a WTA, a ATP e a ITF, continuamos muito comprometidos com o bem-estar de todos os atletas e em melhorar continuamente todos os aspectos da experiência dos jogadores em nosso torneio, incluindo o trabalho com a mídia, como sempre nos esforçamos para fazer” .

Osaka segue inscrita para jogar na grama de Berlim daqui a duas semanas, e depois em Wimbledon. Seu calendário no segundo semestre também prevê os Jogos Olímpicos de Tóquio e a disputa do US Open. Mas a princípio, a japonesa diz que quer passar um tempo fora das quadras e dos holofotes. “Vou passar um tempo fora das quadras agora, mas quando for a hora certa, eu gostaria de discutir maneiras de tornar as coisas melhores para as jogadores, para a imprensa e para os fãs. Espero que todos estejam bem e seguros. Amo a todos vocês”.

Por ora, o mais importante é que receba todo o apoio que for possível e necessário para suportar essa situação e se sentir amparada. Um dia ela vai voltar às quadras, jogar seu ótimo tênis, e expor suas posições com mais segurança. Cabe a todos nós no momento respeitarmos o tempo dela.


Comentários
  1. Leandro Passos

    Excelente texto, Mário Sérgio!! Foi o mais explicativo texto sobre a situação da Osaka. Vamos aguardar os próximos capítulos.

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  2. Leonardo Fagundes

    Excelente reportagem, muito explicativa. Agora reforça minha opinião que Osaka foi no minimo infantil na sua declaração inicial. Ela tentou posicionar seu problema pessoal como um problema geral, e sim atacou diretamente a organização e iniciou um boicote, provavelmente esperando apoio e adeptos. A frase que ela diz “Se as organizações pensam que podem seguir ignorando a saude mental dos atletas, que são o ponto central do esporte, então en tenho que rir”, foi no minimo irresponsavel. Ela não ganhou nenum adepto de peso e se colocou em uma situação muito delidada. Para uma pessoa que se diz timida e introvertida, ela foi extremamente agressiva na sua postura.
    Se ao invés de ter ido para o confronto, tivesse se posicionado como um problema pessoal, explicando sua situação e pedindo liberação das entrevistas, seria diferente.
    Bom, mas é uma grande atleta, espero que se recupere mentalmente e tenha um bom acessoramento para que esse evento não continue perseguindo ela nos proximos torneios. Me lembro que a Higins entrou em um burar emocional depois de fazer uma bobagem na final de Roland Garros 1999. A atitude de prepotencia da Higins acabou selando sua propria ruina, de uma grande campeã, que parecia que ia ultrapassar todos os records, com o abalo mental do evento, nunca mais ganhou nenhum GS em simples.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Essa é uma crítica pertinente para condução da situação por parte da Osaka. Se ela já tivesse usado o tom de ontem já na primeira declaração, o desenrolar da história seria muito diferente. E inclusive ela ficaria bem menos exposta e receberia mais apoio de dentro do circuito. Da maneira como ela colocou na semana passada, acabou ficando isolada.

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  3. Eu.

    O pior parte dessa estória é ler os comentários dos “médicos” de plantão, “analistas” de contratos e de mídias. Todos eles ávidos críticas venenosas e falar mal das pessoas.
    Os atletas não são máquinas e sofrem pressões astronômicas da imprensa, que apesar de não assinar contratos com os atletas, estão presentes nas associações exigindo serem atendidos.
    E segue o rolo compressor, infelizmente.

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  4. Herald Santos

    Excelente análise mesmo, Mário.

    Concordo com o que o Leonardo escreveu.

    Não quero duvidar das intenções da Naomi, porque não estou na pele dela. Mas não é recente essa postura agressiva dela. Tenho dificuldade de compreender que uma pessoa introvertida que não gosta de falar com a imprensa tenha atitudes para chamar a atenção para si, causando um efeito contrário.

    Devermos nos lembra que tem se envolvido diretamente em polêmicas. Sem julgar o mérito da questão (se está certo ou errado) ela passou o US Open 2019 fazendo protestos e chamando a atenção da imprensa.

    Ou seja, ela usou a imprensa para emitir as suas opiniões com questões fora do tênis e ainda criou atrito com as organizações dos torneios. Acho inclusive que a carta assinada pelos 4 torneios do Grand Slam deixa isso nas entrelinhas. Com certeza a organização do US Open não gostou muito dessa postura dela em 2019.

    O que ela fez acabou trazendo reprovação do público dos torneios e de boa parte dos atletas, que não a apoiaram publicamente, com exceção da Serena.

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  5. Gustavo Petick Dias

    Excelente análise da situação. Hoje é complicado ter uma visão geral do assunto e simplificar conclusões.

    Como organização, os 4 Grand Slams oferecem grandes premiações e protocolos de comunicação com fãs e dependem das grandes estrelas, no outra mão estão os atletas que precisam dos grandes torneios para desempenho e premiações (esportivas e comerciais).

    Se os atletas passarem a reportar somente para suas mídias sociais, seria um desastre para os torneios, ATP/WTA que pagam premiações e possuem acordos com os próprios atletas. Portanto é natural reagirem a questão de atletas não comparecerem em entrevistas como Djokovic no US Open 2020.
    Importante é medir os limites pois outros esportes já sofreram com o afastamento dos esportistas dos canais de comunicação com os fãs, vide a transformação recente da Formula 1 para algo mais comunicativo e “obrigações” dos pilotos para entrevistas e eventos comerciais da própria F1.

    Lembrando que a pressão maior é para a elite do esporte de alto desempenho, a Swiatek resumiu bem a questão da dependência dentro do tênis.

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  6. Periferia

    Osaka será massacrada pelo sistema que dirige o tênis.
    Até Djokovic…que tem casca grossa os dirigentes conseguiram pôr de joelhos ( Djokovic estava formatando uma nova entidade de representação dos atletas)…imagine alguém como a Osaka que tem grandes fragilidades.
    O caso dos torneios americanos…onde ela assumiu uma posição diante dos acontecimentos…não foram esquecidos.
    Ela terá grandes dificuldades….até mesmo para voltar a competir.
    Quem sabe ela se encontre longe do tênis…e que seja feliz…

    Reply
    1. Willian Rodrigues

      Prezado Periferia, o que eu não entendo é como você pode afirmar com tanta certeza que ela realmente TENHA o diagnóstico de Depressão!!!
      Se eu afirmo que tenho COVID-19 porque apresento sinais e sintomas que remetem a essa doença é 100% certo que eu a tenha??!
      E como assim, “massacrada” ??!
      Ela vem sofrendo algum tipo de preconceito devido à miscigenação racial?!
      Retaliações durante os torneios, devido ao posicionamento que assumiu no US Open 2019?!
      Ataques da mídia esportiva por qualquer razão?!
      Eu realmente adoraria que nos esclarecesse…
      Am I missing something?! Por que não li nada a respeito na imprensa…

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      1. periferia

        Olá caro William

        Sabemos que para se diagnosticar um estado depressivo é necessário um especialista.
        Sabemos também que o paciente deve saber que está com determinado problema….acredito ( vou pegar carona nas ilações) que a própria Osaka ja recebeu o diagnóstico…e deve com certeza está fazendo algum tipo de tratamento.
        Acredito que sim (Vc perguntou)….Osaka sofre um preconceito velado…algo muito parecido com o que ocorre em nosso Brasil “baronil”.
        Se busca desqualificar….ou mesmo apontar o dedo …muito por causa da etnia da pessoa.
        Vejo todos os dias…essa necessidade de desconstruir alguém…pelo simples fato de aceitação.
        Claro que muitos dirão….”isso não é verdade…eu jamais teria essa atitude”.
        Contaria várias passagens…quando se confraternizou ou mesmo conviveu com pessoas de origem e etnias diferentes…e que nem tinha reparado a cor da pele dela antes de enforca-la em uma árvore.
        Mas no fundo (bem onde se encontra petróleo)…o racismo velado está lá…esperando uma oportunidade de atacar.
        E não estou dizendo isso sobre vc Willian…afinal nem o conheço….estou apenas explicitando o contraditório…a realidade massacrante do sistema dominante (escrevi como um socialista…agora) representado por esses dirigentes do esporte.
        Ela será massacrada….por ser negra e mestiça…por ser mulher….por ser frágil….por ter problemas de saúde mental….além de tudo isso….ela será massacrada por ter tomado uma posição contra tudo aquilo que escrevi (injustiça….racismo….respeito) nos Estados Unidos ano passado.
        Djokovic de certa forma sofre preconceito também…por ter nascido em uma região conflituosa…de um povo orgulhoso…porém não muito aceito pela Europa gourmet.
        A diferença…o sérvio é um casca grossa…encara…tem uma personalidade combativa….mesmo assim os dirigentes fazem ele engolir sapos (Amanhã mesmo em Paris vai jogar na quadra secundária…enquanto Federer e Nadal desfilam na principal).
        No fundo caro William…tudo é preconceito.
        O certo ou o errado…não existe…não existe remédio para o preconceito…esta na alma.
        (Volto a dizer…é apenas o contraditório…longe de mim fazer juízo sobre alguém)

        Abs….fique bem caro Willian.

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  7. periferia

    Osaka será massacrada pelo sistema que dirige o tênis.
    Até Djokovic…que tem casca grossa os dirigentes conseguiram pôr de joelhos ( Djokovic estava formatando uma nova entidade de representação dos atletas)…imagine alguém como a Osaka que tem grandes fragilidades.
    O caso dos torneios americanos…onde ela assumiu uma posição diante dos acontecimentos…não foram esquecidos.
    Ela terá grandes dificuldades….até mesmo para voltar a competir.
    Quem sabe ela se encontre longe do tênis…e que seja feliz…

    Belo texto….muita informaçã sem perder a ternura.

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