Título recompensa o jogo mental de Cerundolo
Por Mario Sérgio Cruz
março 1, 2021 às 9:24 pm

Com estilo de jogo cada vez menos comum, Cerundolo se destacou pela disciplina e pelo preparo mental para jogar muitos pontos longos (Foto: Cordoba Open)

Um campeão improvável marcou o início da breve temporada de torneios sul-americanos em quadras de saibro. O argentino de 19 anos Juan Manuel Cerundolo disputou em Córdoba uma chave principal de ATP 250 pela primeira vez na carreira e terminou a semana com o troféu nas mãos. Cerundolo é o primeiro jogador desde 2004 a vencer um torneio logo em sua estreia na elite do circuito. O último a conseguir essa façanha foi o espanhol Santiago Ventura no saibro de Casablanca.

Cerundolo chegou a ser número 9 do ranking mundial juvenil e ainda dá os primeiros passos no tênis profissional. Então 335º do ranking na campanha, ele se tornou o quinto pior colocado a vencer um torneio deste porte. O recorde de Lleyton Hewitt, que foi campeão em Adelaide em 1998 ocupando o 550º lugar dificilmente será alcançado. Pelo título no saibro argentino, o jovem jogador de 19 anos salta para o 181º lugar. Além disso, é o argentino mais jovem a vencer um torneio deste porte desde Guillermo Coria em 2001.

Mas o que mais chamou atenção ao longo da semana de Cerundolo foi seu estilo de jogo cada vez menos comum e a possibilidade de ‘entrar na cabeça’ dos adversários. O argentino não força o saque, joga bem atrás da linha de base, sustenta várias trocas longas do fundo de quadra e muitas vezes recorre às bolas mais altas. Ele teve muita disciplina para manter esse padrão de jogo mesmo em partidas muito longas, mas também mostrou que tinha outros recursos nos momentos em que precisava atacar mais a bola ou disputar um ponto junto à rede.

“Na quadra, sou um jogador mais defensivo e de contra-ataque. Gosto de usar o ritmo dos meus adversários contra eles, e quando posso atacar com o forehand, eu o uso para ditar os pontos”, disse Cerundolo, em entrevista ao site da ATP após a conquista do título em Córdoba.

Seu pai, Alejandro, jogou profissionalmente na década de 1980 e deu um apelido muito curioso para o filho. “Eu o chamo de Hannibal Lecter. Ele come miolos de rivais”, confessa Alejandro, em entrevista ao jornal argentino La Nación. A referência é o personagem de ficção criado pelo escritor Thomas Harris no livro ‘Dragão Vermelho‘, de 1981, e interpretado no cinema por Anthony Hopkins.

Monteiro relata a dificuldade para enfrentar o argentino
O brasileiro Thiago Monteiro, que enfrentou Cerundolo nas quartas de final do torneio, teve dificuldades para lidar com as frequentes trocas longas do fundo de quadra e cometendo muitos erros não-forçados que custaram caro na partida. “O adversário foi muito sólido. Ele tem um jogo muito diferente do que estou acostumado a jogar, com muita bola alta e variação. É um bom jogador e que exige muito, ele teve o mérito de vencer o jogo. Não consegui encontrar uma forma de ser agressivo com consistência, cometi muitos erros e isso custou um pouco o jogo, principalmente no terceiro set”, disse após a derrota por 6/2, 2/6 e 6/3 na última sexta-feira.

Ao longo da incrível campanha em Córdoba, Cerundolo venceu oito jogos seguidos. Inclui três brasileiros, já que ele também derrotou João Menezes e Thiago Wild. Outras vitórias expressivas foram sobre o sérvio Miomir Kecmanovic (número 41 do mundo), além da final contra o experiente espanhol Albert Ramos, jogador de 33 anos e então 46º do ranking.

“Sinceramente, nunca pensei ou imaginei que pudesse ser campeão. Acho que foi acontecendo passo a passo, aos poucos. Primeiro, o meu objetivo era passar pelo quali e depois queria vencer uma rodada”, admitiu o argentino. “Aí comecei a pensar no jogo contra o [Miomir] Kecmanovic, depois o venci. Eu só estava pensando partida a partida. Nunca na minha vida imaginei que poderia ganhar o torneio. Então talvez essa fosse a chave, porque nunca me senti ansioso”.

Com o salto no ranking, apesar de não entrar no top 100, Cerundolo já traça os objetivos para os próximos meses. “Tenho pensado um pouco sobre isso. Vou competir nas chaves principais dos challengers e talvez jogar qualis em mais torneios da ATP e nos Grand Slam, que é o que me deixa mais feliz. Antes disso, eu nem pensava no top 100. Estava mirando no Top 200, e que ainda assim parecia muito longe. Agora, só preciso continuar jogando e aproveitar ao máximo”.

Conquista brasileira nas duplas

A semana em Córdoba também foi ótima para dois brasileiros, Rafael Matos e Felipe Meligeni Alves, que conquistaram o título de duplas no saibro argentino. Com histórico ainda pequeno em torneios deste porte, ambos atuavam apenas pela terceira vez em eventos de nível ATP, sendo que Meligeni já havia disputado uma semifinal no Rio Open do ano passado, ao lado de Thiago Monteiro. Nenhum deles havia ainda alcançado uma final, mesmo atuando com outros parceiros.

Com a conquista, ambos saltam no ranking e se aproximam do top 100. Aos 25 anos, o gaúcho Rafael Matos era o número 131 do mundo e passou a ser o 102º colocado. Já o paulista Felipe Meligeni, de 22 anos, saltou do 123º para o 101º lugar. “Foi uma semana especial. Estávamos inscritos como alternates [na lista de espera] e entramos na chave de última hora. Foi uma experiência muito boa para nós, que jogamos juntos em um torneio da ATP pela primeira vez”, disse Meligeni, que havia atuado ao lado de Matos em dois challengers na Turquia este ano.

“Espero que possamos ganhar mais títulos juntos, e até mesmo em simples também”, afirmou o paulista ao site da ATP, após a vitória na final contra o monegasco Romain Arneodo e o francês Benoit Paire por 6/4 e 6/1. “Acho que a cada jogo estávamos melhorando. As quartas e as semifinais foram muito difíceis contra grandes jogadores. Conseguimos jogar nosso melhor tênis nos momentos difíceis. Então na final sabíamos o que fazer, embora estivéssemos um pouco nervosos no início”.

O Filho da Lenda
No sul do Brasil, Porto Alegre recebeu mais uma etapa do Brasil Juniors Cup (antiga Copa Gerdau e Campeonato Internacional Juvenil). O título do torneio ITF J1 deste ano ficou com Leo Borg, sueco de 17 anos e então 43º colocado no ranking mundial da categoria. Filho do ex-número 1 do mundo Bjorn Borg, dono de 11 títulos de Grand Slam, Leo recebeu convite para jogar o quali na capital gaúcha e teve a presença do pai nas arquibancadas da Associação Leopoldina Juvenil, que não poderia receber público externo.

“É um sentimento indescritível, este é meu primeiro título de um torneio J1 e estou muito feliz”, disse Leo Borg após a vitória na final sobre o norte-americano Bruno Kuzuhara por 3/6, 6/4 e 6/2. “Consegui jogar muito bem durante a semana inteira e certamente ir para o próximo torneio com um título destes me faz chegar ainda mais confiante. Só tenho a agradecer a todos, que foram muito gentis durante toda a semana”.

Seu pai, a lenda do tênis Bjorn Borg, comemorou a campanha do filho e a estadia no Brasil. “Eu e minha esposa estamos muito felizes por estar no Brasil. Não é minha primeira vez no país e, em todas as vezes que estive aqui, adorei as cidades e as pessoas, que sempre foram muito hospitaleiras. Parabenizo a organização por realizar esse torneio mesmo nos tempos difíceis que atravessamos e com certeza estaremos aqui no ano que vem se formos convidados”, disse ao site da CBT.

Victoria Barros rouba a cena

Outro nome que merece destaque ao fim do Brasil Juniors Cup é o da paranaense Victoria Barros. Com apenas 11 anos e vinda do projeto social Instituto Ícaro, de Curitiba, ela conseguiu chegar à final da categoria 14 anos, enfrentando adversárias mais velhas. A diferença de idade nessa categoria costuma ser considerável. Ainda assim, ela fez ótima campanha e só parou na argentina Sara Conde, que venceu a final disputada na Sogipa por 6/4 e 6/2.


Comentários
    1. Mario Sérgio Cruz

      É normal que os balões acabem chamando mais atenção, porque é uma característica pouco comum no circuito e que está caindo em desuso. Mas nos momentos em que ele precisou ter outros recursos, ele tinha para mostrar. No terceiro set contra o Monteiro ele tentou acelerar um pouco mais a bola e abrir ângulos e teve sucesso. Com o Kecmanovic precisou ter muita mão para jogar perto da rede em alguns pontos.

      Ele próprio se considera um jogador mais defensivo e que usa do peso da bola do adversário. Se ele souber usar isso a favor dele, sendo disciplinado taticamente e mentalmente, não vejo problema. Se o jogo dele fosse só balão, não venceria 8 seguidas num ATP.

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Difícil avaliar, porque toda a formação dele como tenista foi no saibro. Tem apenas cinco jogos em quadra dura como profissional, quatro em future e um em challenger. Talvez numa quadra dura um pouco mais lenta, como a gente vê de vez em quando no circuito possa dar certo. Nem tanto nas bolas altas, mas mais nisso de contra-atacar e usar o peso de bola do adversário. Se ele pegar uma noção boa de movimentação e posicionamento na quadra dura seria interessante. É questão de desenvolver alguns golpes nesse estilo. Mas a tendência é que ele consiga a maior parte dos resultados dele no saibro mesmo.

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  1. Periferia

    Olá Mário

    Será que foi mais “descaso” dos oponentes contra ele do que propriamente suas qualidades??
    Raramente vemos no tênis os jogadores tentarem algo muito fora da caixa (o tenis parece que tem uma receita e todos a seguem biblicamente).
    Todos os adversários que foram vencinentos foram pegos de surpresa pela quantidade de balões (visualmente o jogo fica uma pelada).
    Ninguém havia estudado ele….apareceu do nada.
    Agora que ele não é mais uma surpresa…sera muito difícil vencer com aquela tática.

    Abs

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Tem um pouco de fator surpresa, sim. Há algumas semanas, por exemplo, a Coco Gauff falou disso numa entrevista durante o WTA de Adelaide. Ela sabe que as adversárias hoje conhecem muito mais o jogo dela do que dois anos atrás quando ela surpreendeu em Wimbledon. Então, é importante ir acrescentando elementos no seu jogo, porque não vai demorar para que os adversários conheçam melhor as características dele.

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