Naomi Osaka é o retrato de sua geração
Por Mario Sérgio Cruz
setembro 14, 2020 às 6:15 pm
Osaka tem três Grand Slam, é a atleta mais bem paga do mundo, mas também atua em causas relevantes (Simon Bruty/USTA)

Osaka tem três Grand Slam, é a atleta mais bem paga do mundo, mas também atua em causas relevantes (Simon Bruty/USTA)

Campeã pela segunda vez no US Open e agora dona de três títulos de Grand Slam, Naomi Osaka é o símbolo de uma nova geração. Apesar de ter apenas 22 anos e de estar absolutamente focada no tênis, Osaka tem plena consciência de seu papel como personalidade público e utiliza o espaço que tem para conscientizar o meio de tênis a respeito das causas que defende.

O engajamento não abalou o foco de Osaka, que venceu 11 jogos seguidos nas últimas três semanas de torneios, tendo perdido apenas seis sets nesse período. Ela ganhou uma premiação de US$ 3 milhões pelo título do US Open, ampliando um prêmio acumulado na carreira, que já passa de US$ 17,7 milhões. A japonesa, vale destacar, é a atleta mais bem paga do mundo. Segundo levantamento da Forbes, ela recebeu mais de US$ 37,4 milhões nos últimos doze meses, sendo que mais de US$ 34 milhões vêm de patrocínios e contratos publicitários.

No momento em que vivemos, cada vez mais as marcas tentam se posicionar a respeito de causas sociais relevantes e se posicionar para novos públicos. Durante muitos anos, nos acostumamos a ver personalidades públicas fugindo de temas importantes, muitas vezes pelo temor de afugentar seus patrocinadores. O cenário hoje é diferente, e declarar seu posicionamento é cada vez mais incentivado. Atualmente, Osaka é porta-voz de marcas como a Procter & Gamble, All Nippon Airways e Nissin, que também são apoiadores dos Jogos Olímpicos de Tóquio.

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Nas três semanas em que os olhos do tênis estavam voltados para a “bolha” da modalidade em Nova York, Osaka foi protagonista dentro e fora de quadra. Além do título do Grand Slam norte-americano e da chegada à final do Premier de Cincinnati -excepcionalmente transferido para o complexo Billie Jean King- a japonesa também encabeçou protestos condenando o racismo e violência policial contra os negros nos Estados Unidos e por maior justiça social no país.

“Antes de ser uma atleta profissional, sou também uma mulher negra. E como mulher negra, eu sinto que tem coisas mais importantes e que merecem atenção mais imediata do que me ver jogar uma partida de tênis” escreveu Osaka em suas redes sociais em 26 de agosto, uma quarta-feira à noite. “Se eu conseguir promover essa conversa em um esporte majoritariamente branco, acho que é um passo na direção certa. Assistir ao genocídio da população negra nas mãos da polícia embrulha o meu estômago. Estou exausta de ter que postar uma nova hashtag a cada poucos dias e extremamente cansada de ter as mesmas conversas o tempo todo. Quando isso vai parar?”

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Na ocasião, Osaka fazia um comunicado de que não entraria em quadra para enfrentar a belga Elise Mertens na semifinal de Cincinnati marcada para o dia seguinte. A declaração da japonesa acompanhava o boicote iniciado pelos jogadores de basquete da NBA e que foi apoiado por atletas de outras ligas esportivas norte-americanas, como a MLB (beisebol) e MLS (futebol). Os protestos começaram após a repercussão do caso de Jacob Blake, homem de 29 anos, que levou sete tiros pelas costas durante abordagem policial na cidade de Kenosha, em Wisconsin. A direção do torneio apoiou a causa proposta pela jogadora e paralisou as competições por um dia.

Esta não havia sido a primeira manifestação pública de Osaka contra a violência policial nos Estados Unidos. A japonesa, que mora e treina na Flórida, participou de protestos de rua após a morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco em Minneapolis.

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“Eu só queria criar consciência. Eu me senti como a NBA, em que as pessoas falam sobre isso e todo mundo usa as camisetas. Então, eu só queria criar essa consciência na bolha do tênis. E acho que fiz meu trabalho”, comentou Osaka, em entrevista coletiva após a vitória sobre Mertens, em 28 de agosto. “Antes eu pensava que só o Big 3 (Djokovic, Nadal e Federer) e a Serena tivessem esse poder. Mas também, ao mesmo tempo, reconheço o fato de que talvez a WTA e a ATP quisessem fazer algo assim, mas precisavam de um empurrão de um jogador. Então, talvez eu fosse esse essa jogadora. Eu acho que é definitivamente muito legal da parte deles fazerem isso e estarem abertos a mudanças por questões sociais”.

Osaka também acredita que outras atletas de gerações mais jovens têm mais facilidade para se expressar sobre temas relevantes. Ela destacou especialmente a norte-americana de 16 anos Coco Gauff, que também participou de marchas contra o racismo e também é bastante ativa em suas manifestações. “Sinto que os jogadores estão usando mais a voz, especialmente a Coco. Eu a amo por isso. Ela parece estar assumindo o comando dentro e fora da quadra, então é muito bom ver. Talvez esta geração de tenistas não tenha muito medo das consequências de falar o que pensa. Seria muito bom ver isso”.

As sete máscaras em Nova York

Japonesa utilizou sete máscaras com nomes de vítimas de racismo

Japonesa utilizou sete máscaras com nomes de vítimas de racismo

Durante o US Open, Osaka aproveitou a visibilidade de fazer os sete jogos no Arthur Ashe Stadium, incluindo cinco partidas nas sessões noturnas, e lembrou os nomes de sete vítimas de violência policial ou de crimes de ódio no país. Casos de muita repercussão deste ano, como os do próprio George Floyd e de Breonna Taylor foram lembrados.

Os demais homenageados são Elijah McClain, Trayvon Martin, Ahmaud Arbery, Philando Castile e Tamir Rice. Chama atenção o caso de Ahmaud Arbery, morto a tiros enquanto se exercitava em uma rua residencial em Brunswick, na Geórgia. A promotoria do caso trabalha com a possibilidade de a execução ter sido feita por supremacistas brancos. O homenageado da final, Tamir Rice, era uma criança de apenas 12 anos e que morreu baleada por um policial, enquanto carregava uma arma de brinquedo.

Familiares dessas vítimas estiveram em contato com Osaka. Ela falou diretamente com Sybrina Fulton, mãe de Travyon Martin, e Marcus Arbery, pai de Ahmaud Arbery. Ambos demonstraram apoio ao trabalho de conscientização proposto pela japonesa. “Isso significa muito. Sinto que eles são tão fortes. Não tenho certeza do que seria capaz de fazer se estivesse no lugar deles. Mas sinto que sou como um navio neste momento, com a missão de viajar para espalhar a consciência. Não vai diminuir a dor que eles sentem, mas espero poder ajudar com tudo o que eles precisarem”, comentou Osaka em entrevista à ESPN norte-americana.

Já em seu discurso na cerimônia de premiação do US Open, Osaka foi perguntada sobre qual mensagem gostaria de deixar: “Acho que a questão mais adequada é ‘Qual a mensagem que você recebeu?’ O importante foi fazer as pessoas começarem a falar”, disse a japonesa. “Eu fiquei o tempo todo dentro da bolha, então não sei o que está acontecendo no mundo exterior. Tudo o que eu acompanhei é o que eu vejo nas redes sociais, mas sinto que tem mais gente falando sobre isso”.

Jovem Campeão superou o câncer

Outra conquista de um jovem tenista no US Open veio no torneio de tênis em cadeira de rodas. O holandês de 20 anos Sam Schröder conquistou seu primeiro título de Grand Slam na divisão Quad, destinada aos atletas com deficiência em três ou mais membros. Ele venceu a final contra o favorito australiano Dylan Alcott por 7/6 (7-5), 0/6 e 6/4. Schröder sofre de uma rara doença genética chamada, caracterizada pela falta de alguns dedos das mãos e dos pés. Além disso, ele batalhou contra um câncer de cólon em 2017.

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A inclusão das competições para cadeirantes no US Open de 2020 foi uma vitória para os atletas da modalidade. Os eventos não constavam nos planos da direção do torneio, que diminuiu o número de eventos na edição deste ano, com os cancelamentos do quali, do juvenil e das duplas mistas. Os jogadores também criticaram o torneio pelo fato de não terem sido consultados sobre o assunto.

Alcott, que é bicampeão do US Open o líder do ranking mundial na divisão Quad, foi quem liderou as queixas dos atletas da modalidade. Após conversas com a USTA e com a ITF e o apoio de outros tenistas profissionais nos bastidores, especialmente Andy Murray, a direção do US Open voltou atrás e incluiu a disputa no cronograma do torneio.


Comentários
  1. Michel Zonenschein Lafer

    Muito bom, ela passa uma mensagem clara de que você pode ser o melhor tenista e ao mesmo tempo contribuir para espalhar consciência sobre os temas mais relevantes. Ela é filha de africano, sabe como é isso, conhece essa discriminação “na própria pele”.

    Parabéns à Naomi pela Grandeza. Essa daí é Grandiosa.

    Gratidão, Mario Sérgio.

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  2. Periferia

    Assim como tivemos Arthur Ashe…..Navratilova….Billie J King…..hoje temos a Naomi Osaka.
    Muitos dizem que a jovem está sendo usada por determinada ideologia política.
    Falácia…..o jovem conseguiu parar um master 1000 (sozinha)…onde tinha jogadores da importância de um Djokovic.
    Chamou atenção para o problema do racismo em um esporte elitista e branco.
    Tem apenas 22 anos……quem sabe a nova geração seja melhor que a anterior e consiga melhorar um pouco esse mundo louco.
    E os patrocinadores de Naomi sabem da importância do momento…

    Abs

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