Nova geração protagoniza a luta contra o racismo
Por Mario Sérgio Cruz
junho 7, 2020 às 10:32 am

Enquanto as competições oficiais do circuito permanecem suspensas por conta da pandemia da Covid-19, alguns expoentes da nova geração do tênis voltaram a se destacar nas últimas semanas por suas ações e posicionamentos fora de quadra.

A morte de George Floyd, homem negro que foi asfixiado por um policial branco em Minneapolis, foi o estopim para uma onda de protestos contra o racismo que se espalhou pelos Estados Unidos e também por diversas partes do mundo. Nesse cenário, nomes como Naomi Osaka, Frances Tiafoe, Coco Gauff, Felix Auger-Aliassime e Taylor Townsend compartilharam suas experiências e marcaram posições firmes contra o preconceito.

Tiafoe se sente um estranho no ninho

“A morte do George Floyd fez eu me sentir horrível. Especialmente por pensar que poderia ser um dos meus entes queridos e talvez pudesse acontecer até comigo”, revelou Tiafoe ao programa Tennis United, produzido para as redes sociais da ATP e da WTA. “Quando se é negro nos Estados Unidos, mesmo para quem é uma pessoa comum e não um atleta, você sente que precisa ser duas vezes melhor para ter reconhecimento”.

https://twitter.com/FTiafoe/status/1267202313057427458

O jovem jogador de 22 anos e 81º do ranking é um dos poucos negros entre os 100 melhores do mundo e ressalta que a falta de diversidade no tênis às vezes o faz se sentir como um estranho no ninho. “Quanto mais sucesso eu tenho, mais me sinto um outsider“, afirmou, em entrevista à CNN. “É claro que eu recebo muito apoio e reconhecimento, mas sinto que nem todo mundo quer me ver fazendo sucesso. Sinto como se estivesse tomando algo de alguém que gostaria de estar no meu lugar. Com certeza, sinto isso porque no fundo eles não querem nos ver no topo”.

Filho de imigrantes de Serra Leoa, Tiafoe foi campeão do ATP 250 de Delray Beach em 2018 e chegou a ser 29º do ranking em fevereiro do ano passado, depois de alcançar as quartas de final do Australian Open. Mas para o ex-top 30, ainda há muito a ser feito para promover a igualdade de oportunidades no tênis. “O tênis não é como o basquete, que você só precisa de uma tabela e da bola, ou o futebol que você precisa de um gramado e da bola. Então, como podemos tornar isso acessível? Como conseguir uma grande quantidade de raquetes, cordas, redes, bolas e calçados? Essa é a parte mais difícil”.

Gauff, com apenas 16 anos, discursou em protesto

Ainda mais jovem que Tiafoe, a norte-americana de 16 anos Coco Gauff tem encorajado os fãs a agirem além das redes sociais. E para dar o exemplo, ela própria compareceu a um protesto pacífico em sua cidade natal, Delray Beach, e discursou diante dos manifestantes. Gauff lamentou ter que protestar pela mesma causa que os avós já lutavam há 50 anos, relembrou outros casos recentes de violência contra os negros, incentivou o voto (que não é obrigatório nos Estados Unidos) e falou sobre como tem trazido cada vez mais pessoas para apoiar suas causas.

“Acho que é triste que eu esteja protestando pela mesma causa que a minha avó teve que protestar há 50 anos”, disse Gauff, na última quarta-feira. “Passei toda a semana conversando com amigos que não são negros, tentando educá-los sobre como eles poderiam ajudar o movimento. Nós temos que agir, e é por isso que estamos aqui. Eu ainda não tenho idade para votar, mas está nas mãos de vocês decidirem sobre o meu futuro, o do meu irmão e também o de vocês”.

“Vocês precisam usar suas vozes. Não importa o tamanho e o alcance de suas plataformas. Como o Martin Luther King disse: ‘O silêncio das pessoas boas é pior que a brutalidade das pessoas ruins’. Então, não devemos ficar em silêncio. Se você escolhe ficar em silêncio, você fica ao lado do opressor”, acrescentou a atual 52ª colocada no ranking mundial e vencedora do WTA de Linz no ano

“Eu exijo mudanças agora. É triste que outra vida negra tenha sido perdida para que tudo isso estivesse acontecendo. Não estamos aqui apenas por causa do George Floyd, mas também pelo Eric Garner, pelo Travyon Martin, pela Breonna Taylor e muitos outros”, afirmou a jovem tenista norte-americana. “Eu tinha apenas oito anos quando o Travyon Martin foi morto. Por que estou aqui, aos 16 anos, ainda protestando por isso? Eu estou lutando pelo futuro do meu irmão e dos meus futuros filhos. Então, precisamos mudar isso agora. E eu prometo usar a minha plataforma para divulgar informações vitais”.

Atleta mais bem paga, Osaka também foi às ruas


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#justiceforgeorgefloyd

Uma publicação compartilhada por 大坂なおみ (@naomiosaka) em

Há pouco mais de duas semanas, revista norte-americana Forbes divulgou que a japonesa Naomi Osaka foi a atleta mais bem paga de 2019. Ela ficou pela primeira vez à frente de Serena Williams, que liderava essa lista desde 2016. Osaka faturou US$ 37,4 milhões entre premiações de torneios e contratos de patrocínio. Considerando os ganhos de atletas homens e mulheres, a japonesa de 22 anos está na 29ª posição do ranking, enquanto Serena esta na 33ª posição. Elas são as únicas mulheres entre os 100 atletas mais bem pagos.

É bem comum que personalidades com muitos contratos publicitários busquem maior neutralidade e evitem se posicionar, mas essa não foi uma opção para Osaka. A jogadora que tem pai haitiano e mãe japonesa já foi vítima de preconceito por diversas vezes, até mesmo em seu país de origem. Atualmente em Los Angeles, ela fez questão de comparecer a um dos protestos pela morte de Floyd e tem sido bastante atuante também nas redes sociais.

“Só porque não está acontecendo com você, não significa que não esteja acontecendo”, escreveu Osaka, em seu perfil no Twitter. Ela também questionou aqueles que criticaram os protestos, mas que ficaram em silêncio sobre a morte de Floyd. “Vejo que algumas pessoas ficaram quietas no Twitter por uma semana quando tudo começou, mas assim que começaram os saques, já vieram para falar de hora em hora sobre como estão se sentindo. Eles falam sobre os saques antes de falar da morte de um homem negro desarmado”.

Aliassime lembra racismo sofrido por seu pai

O canadense de apenas 19 anos Felix Auger-Aliassime é um dos grandes nomes da nova geração, ocupando atualmente o 20º lugar do ranking mundial e já com cinco finais de ATP no currículo. Aliassime também é filho de um imigrante. Seu pai, Sam, é professor de tênis, nasceu no Togo e já foi discriminado durante uma abordagem policial.

Em vídeo publicado no Instagram, Aliassime conta que seu pai estava voltando do trabalho para casa em Québec quando passou a ser seguido pela polícia. “Ele virou à esquerda, à direita, fez um círculo completo, e a polícia continuava seguindo. Até que ele parou o carro. E então o carro da polícia parou logo atrás e uma policial bateu na janela dele”.

“Meu pai perguntou se havia cometido alguma infração e ela respondeu que não. Então ele perguntou: ‘Então por que estou sendo abordado?’ e ela explicou que era raro ver ‘uma pessoa de cor’ [reproduzindo palavras da policial] dirigindo aquele tipo de carro (uma Mercedes) naquele bairro. Meu pai ainda perguntou se havia alguma denúncia de roubo de carro nas redondezas, e ela novamente respondeu que não”, acrescentou o jovem jogador.

“Esta pequena história, que não foi violenta, e que tudo acabou em paz. Mas este tipo de situação cria coisas como as que estamos vendo hoje. Acho que as pessoas precisam ficar cientes que isso não acontece com ‘os outros’. Pode acontecer com seus amigos, professores, treinadores e com qualquer pessoa”, complementou Aliassime, que ainda assim se sente privilegiado por ter crescido em um lugar onde há maior liberdade de expressão.

Townsend relata preconceito nos torneios

A canhota norte-americana Taylor Townsend ocupa o 73º lugar do ranking mundial e ganhou notoriedade no ano passado por seu estilo de jogo com saque e voleio e pela surpreendente vitória sobre Simona Halep no US Open. Apesar disso, ela conta que sofre com a discriminação até mesmo no ambiente dos torneios.

“Quando estou circulando, pedem para checar a minha bolsa, checar a minha credencial, checar bolsas e credenciais do meu técnico. Tem uma segurança extra e precauções extras para ter certeza de que nós pertencemos àquele lugar. Isso acontece toda semana, em qualquer torneio que eu jogar, nos Estados Unidos ou no exterior”, revelou ao Tennis United.

“Mesmo no tênis, nós perdemos nossa identidade, como se todas nós fôssemos iguais. Todo mundo que vê uma mulher negra nos torneios já pensa que é a Venus, a Serena ou a Sloane [Stephens]. Tem pessoas que perguntam para mim se eu sou a Coco Gauff!”, explicou a jogadora de 24 anos.

“Aqui nos Estados Unidos temos muitas tensões raciais, muitas revoltas, mas também muitos protestos pacíficos”, acrescentou Townsend. “A comunidade negra foi suprimida. Nossa identidade foi roubada de nós. Homens negros estão sendo baleados e mortos no meio da rua, em plena luz do dia, por policiais. Essa foi a nossa realidade por muitos anos, mas agora as pessoas estão começando a acordar”.


Comentários
  1. Dagmar Kelly Prado

    A representatividade é primordial! E esses jovens afrodescendentes, através do relevante espaço profissional conquistado dia após dia, estão se pronunciando com maestria, em prol de uma sociedade igualitária!

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  2. Periferia

    Olá Mario

    Assunto espinhoso…….no Brasil temos grandes dificuldades…..o tênis no Brasil continua um esporte “branco”.
    Em 2019 …..em jogo de duplas o tenista Christian Oliveira…..comunidade de Gardênia Azul (favela) ….no Rio de Janeiro …..acusou o chileno Bastian Malla de racismo.
    Ele acusa o chileno de chama-lo de macaco.
    Ninguém ouviu….foi em uma passagem de lado.
    Tenho um amigo que dá aulas de tênis na Cidade Universitária…..ele conta algumas histórias sobre racismo…..muitas vezes o aluno ou o pai descobrem que o professor é negro ….o constrangimento grande.
    Ou o apresentador do Bom Dia SP (Bocardi) perguntar para um jovem negro se ele era pegador de bolinha em um clube tradicional de tenis (afinal ele é negro e segundo Rodrigo Bocardi ..um negro em um clube tradicional de tênis “só ” pode ser pegador de bolas).
    É exatamente o que a Osaka comentou.
    Em um primeiro momento….de um acontecimento racista…..as pessoas ficam caladas nas redes sociais…..quando a revolta acontece (com saques e incêndios) eles voltam e opinam.
    País racista.

    Abs

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Olá, José Cláudio.
      Eu me lembro do caso do Christian e não foi a primeira vez que aconteceu com ele, infelizmente. Ele comenta que já aconteceu em um torneio juvenil que ele disputou na Itália. Na época eu também falei com o João Reis, que mostrou ser muito consciente sobre isso, mesmo nunca tendo acontecido diretamente com ele.

      O ambiente do tênis aqui no Brasil ainda é um esporte de pouquíssimo acesso aos negros ou de comunidades da periferia. Ainda é muito restrito aos clubes elitizados. Nesse cenário a gente vê o racismo do dia a dia, quando um atleta profissional é confundido com funcionário do clube ou nesse caso que você citou com um professor na Cidade Universitária.

      O que puder ser feito para desatar essas estruturas racistas da sociedade é de máxima importância.

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  3. Mayra Aguiar

    Vamos estabelecer cotas entre os dez melhores para negros, pardos, brancos, loiros, heteros, homos, trans, pеdófiоs, condenados por crimes. Vamos afundar o tênis em um igualitarismo demagógico!

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Eu lamento que essa tenha sido a sua interpretação a respeito de um tema tão relevante para a nossa sociedade atual.

      Releia o próprio texto, busque mais informações sobre o racismo estrutural e procure refletir sobre o que pode ser feito para alterar algumas estrutruras e discursos preconceituosos não só do tênis, mas do mundo em que vivemos.

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  4. Michel Zonenschein Lafer

    Excelente matéria, assunto de primordial importância e ainda invisível para a maioria, ou abordado muito superficialmente para os que se dão conta.

    É uma questão delicada, sutil, incorporada na consciência social e nas estruturas que subjazem as relações em sociedade.

    Gratidão pelo texto, Mario Sérgio. Pena que ele não é lido por mais gente, mas tudo tem o seu tempo para ser visto e compreendido.

    Se puder deixar alguns livros ou referências sobre o assunto que você recomende, é sempre enriquecedor.
    Abraço e parabéns!

    Reply
    1. Mario Sérgio Cruz

      Acho que uma grande referência no assunto no Brasil é o professor Silvio Almeida. Ele publicou recentemente um livro sobre racismo estrutural e esteve também no Roda Viva da TV Cultura. Foi bastante enriquecedora a participação dele.

      Reply
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