Kenin foi moldada desde a infância para ser campeã
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 1, 2020 às 6:24 pm

Campeã do Australian Open neste sábado, Sofia Kenin foi moldada desde a infância para se tornar uma estrela do tênis. A norte-americana de 21 anos foi introduzida muito cedo ao esporte e ao ambiente das competições de alto nível. Com longa vivência do tênis, apesar da pouca idade, viveu uma temporada de franca evolução no ano passado e lidou mentalmente muito bem com desafio de disputar sua primeira final de Grand Slam. Depois de começar atrás no placar, buscou a virada contra a ex-número 1 do mundo Garbiñe Muguruza.

“Meu sonho se tornou oficialmente realidade”, disse Kenin depois de derrotar Muguruza por 4/6, 6/2 e 6/2 em 2h02 de partida neste sábado. “Estou muito orgulhosa de mim mesma, do meu pai, minha equipe, todos que estiveram ao meu redor. Todos nós trabalhamos duro. Passamos por tempos difíceis, lutamos e conseguimos”.

Mesmo sem conseguir esconder as emoções durante a partida contra a espanhola, especialmente no terceiro set, Kenin jogou seu melhor tênis nos momentos de maior pressão. Ela se recorda do quinto game da parcial decisiva, quando o placar estava empatado por 2/2. A norte-americana reverteu um 0-40 e salvou quatro break points no total. Agressiva nesses momentos, disparou cinco winners.

“Lembro-me muito bem daquele game. Foi quando eu senti que o jogo estava mudando. Eu precisava jogar o melhor tênis e foi isso o que eu fiz. Depois disso, eu estava pegando fogo e pronta para receber o troféu”, acrescentou. “Eu sabia que tinha que arriscar. Precisava ser corajosa para enfrentar uma campeã de dois Grand Slam. Todo o respeito a ela. Ela fez uma grande partida. Cada ponto foi uma batalha e tanto”.

Vinda da Rússia, Kenin foi rapidamente introduzida ao tênis
Os pais de Kenin, Alexander e Lena, se mudaram com a filha da Rússia para os Estados Unidos quando ela tinha poucos meses de vida. Nascida em Moscou em 1998, a jovem jogadora começou no tênis aos três anos, batendo bola com o pai em quadras públicas de um parque em Pembroke Pines, na Flórida. Ao ver que a menina tinha potencial para seguir no esporte, Alex a levou para treinar na academia de Rick Macci, em Boca Raton, local que já recebeu as irmãs Venus e Serena Williams.

Com apenas cinco anos de idade, Kenin já dava entrevistas para a TV e dizia que sonhava ser a número 1 do mundo. Ela era levada para uma série de exibições com grandes nomes do tênis nos Estados Unidos e participou de eventos ao lado de nomes como Venus Williams, Jim Courier, Andy Roddick, seu grande ídolo no esporte.

A criança que rapidamente ficou famosa apareceu em 2005 em vídeo produzido pela WTA acompanhando a estrela belga Kim Clijsters e conhecendo os bastidores do Premier de Miami. As imagens viralizaram na última semana, desde a classificação da norte-americana para a final do Grand Slam australiano. Kenin tem chance até de enfrentar Clijsters num futuro próximo, já que a ex-número 1 do mundo voltará ao circuito nesta temporada, aos 36 anos.

https://twitter.com/WTA/status/1222924548074590213

Pai e treinador da tenista, Alex também viveu um período nos Estados Unidos entre o fim da década de 80 e o início dos anos 90, onde estudava ciência da computação durante o dia e trabalhava como motorista à noite. “Não acho que ela tenha passado por tantos sacrifícios, mas ela sabe que quando chegamos ao país tudo foi muito difícil”, disse Alexander Kenin ao site do Australian Open.

“É incrível o que você faz quando precisa sobreviver. Ela sabe sobre dessa história, mas graças a Deus não precisou passar por isso”, comenta o russo. “Ela é muito dedicada ao que está fazendo e trabalha duro. Não importa se chove ou se está nevando, não perderemos um dia a menos que seja necessário. Nós dois decidimos que é isso que queremos fazer e estou muito honrado e satisfeito por ela se ater a isso”.

Destaque desde o circuito juvenil
Kenin chegou a ser a número 2 do ranking mundial juvenil da Federação Internacional. Ela não chegou a ganhar um Grand Slam da categoria, mas conquistou o tradicional e prestigiado torneio Orange Bowl em 2014 e foi finalista do US Open no ano seguinte. Em seu último ano como juvenil, em 2016, voltou a fazer uma boa campanha em Nova York e chegou à semifinal.

Um ano depois, novamente no US Open, conseguiu seu primeiro grande resultado como profissional e alcançou a terceira rodada do Grand Slam nova-iorquino, superada apenas por Maria Sharapova. Ela terminaria aquela temporada no 108º lugar do ranking mundial. A chegada ao top 100 aconteceria em março de 2018, após bons resultados em Indian Wells e Miami, vinda do quali nos dois torneios. Em uma temporada de adaptação à elite do circuito, venceu dois jogos contra top 10, chegou ao 48º lugar do ranking e defendeu os Estados Unidos nas finais da Fed Cup contra a sempre forte equipe da República Tcheca.

A atleta que mais evoluiu no circuito
Kenin deu um salto no ranking durante o ano de 2019. Ela conquistou seus três primeiros títulos de WTA, em Hobart, Mallorca e Guangzhou. Também foi semifinalista em eventos de altíssimo nível, em Toronto e Cincinnati. Nesses dois eventos, venceu duas as líderes do ranking Naomi Osaka e Ashleigh Barty. Ainda mais expressiva foi a vitória contra Serena Williams na terceira rodada de Roland Garros. Com todos esses predicados, aliados à chegada ao 12º lugar do ranking, foi eleita a jogadora que mais evoluiu no circuito.

Além da clara evolução no ranking e nos resultados, era visível que a norte-americana agregava cada vez mais recursos ao seu jogo, em comparação com o que vinha sendo mostrado nos anos anteiores. Num curto espaço de tempo, aquela jogadora que já se defendia muito bem começava a construir melhor os pontos, errar menos, usar mais alguns slices, além de variar o saque e ter um pouco mais de peso na bola.

Em Melbourne, Kenin foi a 14ª cabeça de chave. Ela era uma das jovens em rota de colisão com campeãs de Grand Slam como Sloane Stephens e Naomi Osaka, que acabaram caindo precocemente. Nas duas primeiras rodadas, enfrentou duas atletas vindas do qualificatório, a italiana Martina Trevisan e a norte-americana Ann Li. Na terceira fase, venceu um jogo duro contra a chinesa Shuai Zhang.

Kenin venceu um duelo de jovens promessas do tênis norte-americano contra a atleta de 15 anos Coco Gauff nas oitavas de final. Com parciais de 6/7 (5-7), 6/3 e 6/0, o jogo de 2h09 foi o primeiro em que ela cedeu um set na competição. Nas quartas, bateu a surpreendente tunsiana Ons Jabeur por duplo 6/4. Já na semifinal, derrubou a número 1 do mundo e estrela australiana Ashleigh Barty por 7/6 (8-6) e 7/5 para alcançar uma inédita final de Grand Slam.

No duelo com Barty, salvou set points nas duas parciais. “Sempre acreditei que poderia ganhar, apesar de ter enfrentado dois pontos no primeiro set e mais no segundo”, afirmou. “Eu podia literalmente sentir isso e dizia a mim mesma que precisava acreditar. Se eu perdesse o set, ainda continuaria acreditando. Acho que lidei muito bem com isso. Eu não desisti. Eu sabia que seria uma partida difícil. Claro, algumas coisas não aconteceram do jeito que eu queria, mas eu não deixei isso me parar. Continuei lutando e deixei tudo em quadra. Então valeu a pena”.


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