Reis aprende com ídolos e é firme contra o racismo
Por Mario Sérgio Cruz
dezembro 4, 2019 às 11:48 am
João Reis tem dois títulos neste início de carreira profissional (Foto: Fotojump)

João Reis tem dois títulos neste início de carreira profissional (Foto: Fotojump)

Com apenas 19 anos, o jovem pernambucano João Reis ainda inicia sua trajetória no tênis profissional depois de encerrar o ciclo no circuito juvenil na temporada passada. Reis já tem dois títulos no circuito profissional da Federação Internacional, o mais recente conquistado no início de novembro no México, e ocupa o 556º lugar no ranking da ATP depois de ter figurado entre os 30 melhores juvenis do mundo no ano passado. Apesar da pouca idade, ele fala sobre temas de dentro e fora de quadra, como família, racismo, os ídolos e a admiração por outros jogadores negros e os desafios no aspecto mental do jogo.

Natural do Recife, Reis começou a jogar tênis com apenas quatro anos, disputa torneios desde os 10 anos e se mudou para São Paulo aos 13, treinando por cinco meses em São José dos Campos antes de ser aprovado em um teste para o Instituto Tênis, de Barueri. Os primeiros passos em quadra foram influenciados seu irmão mais velho, Gabriel, hoje com 25 anos, e que parou de jogar ainda muito novo. “Ele jogou até os 15 anos, chegou a participar de alguns torneios lá do Nordeste, mas ele só jogou isso e resolveu seguir outra carreira”, disse João Reis, em entrevista ao TenisBrasil durante a Maria Esther Bueno Cup, disputada em São Paulo, ao longo da última semana.

A admiração pelo irmão já havia sido expressada em entrevistas anteriores. “Comecei a jogar tênis por influência do meu irmão. Ele também jogava o circuito juvenil e eu o admirava muito, queria ser como ele”, afirmou em janeiro de 2018. Ainda que o tenista esteja em São Paulo há mais de cinco anos, parte de sua família continua em Pernambuco. “Demorei um pouco para me adaptar. Acho que exigiu muita força de vontade”, comentou durante a temporada passada. “Tento ir bastante para Recife, mas são eles que vêm mais para cá. Eu também tenho duas tias que moram em São Paulo e a família inteira do meu pai é daqui de São Paulo, então isso me ajuda bastante. Posso dizer que estou 100% adaptado”.

Reis também se mostrou solidário ao colega de circuito Christian Oliveira, carioca de 19 anos e que denunciou o adversário chileno Bastian Malla por racismo, em jogo válido pela semifinal de duplas de um torneio ITF disputado na capital paulista em outubro. Na época, a organização do torneio afirmou que nem o árbitro ou um dos outros jogadores em quadra teria escutado a ofensa e que não foi possível identificar o ato a partir das imagens da transmissão do jogo por streaming. Por esse motivo, não houve punição ao chileno, que negou ter ofendido Oliveira e terminou a semana como campeão de simples no torneio.

“É lamentável isso o que aconteceu com o Christian. Até conversei com ele. Nos dias de hoje é lamentável que ainda tenham casos de racismo, dentro ou fora de quadra. Também não entendi como não tiveram como punir o jogador, porque acho que bastante gente na quadra escutou”, afirmou o pernambucano, que diz nunca ter passado por situação parecida em quadra e que tem no francês Jo-Wilfried Tsonga, 29º do ranking, um ídolo de infância.

“Eu sempre falei quando eu era criança que o meu maior ídolo era o Tsonga. Até os meus 12 anos, eu idolatrava o Tsonga, e ninguém entendia por que. E talvez seja por esse lado, mas eu ainda não pensava muito nisso porque era muito novo. Mas hoje meu maior ídolo é o [Rafael] Nadal. Ele sai de alguns buracos no meio do jogo e encontra soluções que só ele consegue. É um guerreiro”.

Confira a entrevista com João Reis.

Em primeiro lugar, como você prefere que a gente escreva o seu nome? João Lucas Reis ou João Lucas Reis da Silva ou João Lucas da Silva, por exemplo. A gente vê seu nome escrito de diversas formas.
Eu me acostumei com João Reis quando eu jogo os torneios. Todo mundo me chama de João Reis, então eu me acostumei mais com esse nome.

Você sempre fala que começou a jogar por causa do seu irmão, que também jogava. Ele chegou a disputar torneios e tentar seguir carreira? Como ele está hoje?
Na verdade, ele parou meio cedo. Ele jogou até os 15 anos. Chegou a participar de alguns torneios brasileiros e disputou o circuito Rota do Sol lá do Nordeste, mas ele só jogou isso. Eu também joguei todos esses torneios. Aí ele parou com 15 anos e resolveu seguir outra carreira.

Ele está com quantos anos e faz o que hoje?
Ele está com 25. Hoje ele faz Administração.

E você tem conseguido conciliar os estudos com a carreira no tênis?
Eu terminei o Ensino Médio à distância. Primeiro, segundo e terceiro ano. E comecei no ano passado a cursar Administração, à distância também, na Estácio. O IT (Instituto Tênis) tem parceria com eles e conseguimos algumas bolsas. Aí eu estou cursando Administração.

Queria que você falasse um pouquinho dessa sua primeira temporada só focado no profissional. Você terminou a carreira juvenil no ano passado. O quanto esses dois circuitos são diferentes em termos de bola e na mentalidade dos jogadores? O que você achou?
No ano passado, eu já joguei vários torneios profissionais, no meu último ano de juvenil. Eu consegui meu primeiro título no future de 25 mil de Curitiba. E para mim foi uma bela entrada no circuito, eu me sentia bem confiante para o futuro. E aí, no meio do ano, eu não consegui bons resultados. Passei uns dois ou três meses sem muitos resultados, mas consegui recuperar no fim do ano.
No começo eu sentia mais a parte mental, sentia que os jogadores profissionais me obrigavam a jogar todos os pontos e a me manter um nível alto por mais tempo do que eu era acostumado no juvenil. E eu acabei me acostumando bem com isso. Se eu conseguir manter um bom nível no jogo inteiro, eu consigo criar boas oportunidades de vencer.


Este ano, você fez um bom jogo no challenger de Campinas contra o [Alejandro] González, que é um cara que já foi top 100 e tudo. O quanto aquele jogo te dá confiança, em termos de nível? O quanto você aprendeu com essa partida mesmo tendo perdido?
Foi um jogo bem duro do início ao fim e me motiva bastante. Eu tive minhas chances de quebrar o saque dele e não consegui, mas vendi caro meus games de saque. [A partida terminou com placar de duplo 7/5 para o colombiano de 30 anos, ex-número 70 do mundo] Consegui ver vários jogadores lá, disputando o torneio, o que me motiva estar naquele ambiente. Foi meu primeiro challenger, nunca tinha jogado um antes. E isso só me motiva mais e mais a seguir trabalhando e acreditando no futuro.

Você conseguiu treinar com algum jogador desse nível e que você pudesse tirar alguma coisa boa?
Não, não treinei.

Nas últimas semanas, você conseguiu um título e um vice no México. E jogando na quadra dura. Como você fez para adaptar seu jogo à quadra dura para ter esses bons resultados? E também como foi lidar fisicamente e mentalmente com uma sequência de jogos tão longa?
Bom, eu fiz uma bela gira lá em Cancún. Senti que estava jogando muito bem. Estava bem quente, e os jogos eram bem desgastantes, mas consegui levar isso para o lado positivo. Os outros jogadores não estavam aguentando muito e eu estava aguentando mais que eles. Como eu também estava jogando muito bem, eu me senti bem confiante. Ganhei o primeiro torneio e fiz final no segundo. Acho que foram oito ou nove vitórias seguidas.
E foi ótima essa gira. Eu precisava defender alguns pontos agora em novembro e estava há algum tempo sem muitos resultados. Quando voltei da Europa, fiz uma final lá no Paraguai e vinha me sentindo melhor na quadra. Depois de Campinas, fui para o México jogando super bem. Então estou bem confiante.

Este foi um ano de mudança no ranking. Teve um momento que você chegou a zerar antes da mudança de pontuação. E você conseguiu ficar mais ou menos na mesma posição, em torno de 500. Como foi se projeta a próxima temporada, agora com um calendário um pouco mais estável, sem tanta mudança no circuito?
Eu terminei o ranking como 550, que é exatamente o mesmo do ano passado. Não era o ranking que eu esperava terminar este ano, mas com as mudanças acabou ficando meio esquisito. Minha meta no começo ano era terminar entre 400 e 450, mas não dá para dizer que foi um ano ruim. Consegui aprender bastante. Por mais que eu tivesse altos e baixos, consegui jogar super bem. E, bom, para o ano que vem segue a mesma meta que este ano. Se até o meio do ano eu estiver entre os 450, seria bom para eu ir aos poucos entrando nos challengers.

Você treina junto com o [Matheus] Pucinelli, que é um ano mais novo e terminou a carreira juvenil agora. Vocês conseguem viajar para os mesmos torneios, mesmo com uma diferença de ranking, por enquanto?
Sim, a gente sempre jogou junto, desde o juvenil. No ano passado a gente jogou vários torneios juntos. Provavelmente, no início do ano, vamos fazer as mesmas giras. Ele ainda vai poder usar o ranking juvenil para entrar em alguns torneios. E a ideia é a gente crescer junto.

Com quem que vocês viajam normalmente?
Eu tô viajando mais com o Alan Bachiega, e ele com o Rafael Paciaroni.

 

 

 

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ATLETAS DO INSTITUTO TÊNIS SÃO CAMPEÕES EM TORNEIO NA EUROPA Neste Sábado, João Reis(@joaolreis) e Matheus Pucinelli (@matheuspucinelli) se sagraram campeões da chave de duplas do Future M15 de Balatonalmádi, na Hungria. Os atletas foram acompanhados do treinador Rafael Paciaroni. Durante todo o torneio, a dupla do Instituto Tênis fez bons jogos, não perdendo nenhum set na competição. Na final, os brasileiros derrotaram a dupla austríaca formada por Lenny Hampel / Neil Oberleitner por 6-4 7-6(1). O próximo torneio de João e Matheus será o Future 15k de Alkmaar, na Holanda. #institutotenis #itau #vivo #taesa #leideincentivoaoesporte #secretariaespecialdoesporte #fundacaolemann #laatus #aldocomponentes #estacio Uma publicação compartilhada por Instituto Tênis (@institutotenis) em


Este ano, aconteceu um caso lamentável com o Christian em future aqui em São Paulo, que ele denunciou um caso de racismo e estavam até avaliando para ver se tinham como punir o jogador adversário. E ele até falou que já tinha acontecido antes em um torneio juvenil, na Itália. Queria saber se isso já aconteceu com você, tanto dentro da quadra, como fora também?
Comigo nunca aconteceu. É lamentável isso o que aconteceu com o Christian. Até conversei com ele. Nos dias de hoje é lamentável tenham esses casos de racismo, dentro ou fora de quadra. Também não entendi como não tiveram como punir o jogador, porque acho que bastante gente na quadra escutou. É lamentável.

E ainda um pouquinho nesse assunto. O [Felix-Auger] Aliassime falou que se inspirava muito em outros jogadores negros, como o Tsonga e o Monfils. Ele sentia que eles abriram o caminho para ele. Você pensa da mesma forma e os admira? Não apenas com eles, mas admirando também a Serena, a Venus ou a Stephens, por exemplo?
Eu sempre falei quando eu era criança que o meu maior ídolo era o Tsonga. Até os meus 12 anos, eu idolatrava o Tsonga, e ninguém entendia por que, mas eu idolatrava muito ele. E talvez seja por esse lado, mas eu ainda não pensava muito nisso porque era muito novo. Mas hoje meu maior ídolo é o Nadal.

O quanto você acha que pode tirar desses caras, como o Nadal ou Tsonga, para o seu jogo. Na mentalidade, principalmente?
O Nadal, com certeza, na mentalidade. Ele sai de alguns buracos no meio do jogo e encontra soluções que só ele consegue. Não dá nada de graça para o adversário. É um guerreiro.

Em termos de lesão, você teve algum problema físico neste ano ou foi tranquilo?
Foi tranquilo. Na verdade, no future de São Paulo eu senti o joelho. Já estava sentindo há umas duas semanas e piorou lá. Na semana seguinte, eu não consegui treinar direito antes de ir para o México. Treinei meio período, mas consegui me virar lá. Estava jogando bem na quadra rápida. Mas lesão mesmo, não foi quase nada.

Como é nesses ambientes com muitos torneios no mesmo lugar? Por exemplo, além de Cancún, sempre tem bastante torneio na Turquia e na Tunísia, por exemplo. Você enfrenta os mesmos jogadores, tem os mesmos árbitros, fica no mesmo hotel… O quanto isso pode ser bom e o quanto é desgastante?
O único lugar que eu joguei vários seguidos torneios foi lá em Cancún. Eu não achei tão cansativo, porque os donos lá do hotel são muito receptivos com os brasileiros. A dona é brasileira e o marido dela morou 15 anos no Brasil. Então, eles fazem você se sentir em casa. E quando eu joguei foi muito tranquilo. Às vezes eu penso ‘Putz, vou passar seis semanas no mesmo lugar, comendo a mesma comida’, mas lá foi tranquilo. Passou tão rápido que eu não tive essa impressão. Mas acredito que na Tunísia ou no Egito seja bem difícil passar tantas semanas no mesmo lugar.


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