Ashleigh Barty, uma campeã que joga diferente
Por Mario Sérgio Cruz
junho 10, 2019 às 11:30 pm

306492

O título de Ashleigh Barty em Roland Garros representa mais do que uma conquista individual. A jovem australiana de 23 anos e agora número 2 do mundo também mostrou que é possível se manter competitiva e lutar pelas primeiras posições do ranking com um estilo de jogo diferente ao utilizado pela maioria dos grandes nomes da atualidade. Desde a década passada, vimos a consolidação de um estilo dominante no tênis feminino. Costumam levar vantagem as jogadoras mais altas, fortes fisicamente e detentoras de um estilo de jogo agressivo, capazes de bater muito forte na bola dos dois lados. Era quase veredicto de quem não jogasse assim ficaria pra trás. Barty desafiou essa lógica.

Já falamos no blog em fevereiro de 2018 sobre essas características da australiana, quando ela era postulante a um lugar no top 10: Barty tem um bom forehand, mas não compete em potência dos golpes contra nomes como Petra Kvitova, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza. Nem mesmo a consistência defensiva de uma Caroline Wozniacki ou Simona Halep aparecem tanto no jogo da australiana. Suas apostas são em frequentes slices, drop shots e subidas à rede. A variação aparece também nas devoluções, que em alguns momentos apenas bloqueiam o saque das adversárias. Junte isso com tempo de resposta muito rápido para a tomada de decisões de improviso e temos uma adversária bem chata de ser enfrentada até mesmo pelas melhores do mundo.

Tal como já acontecia nos últimos anos, Barty segue com bom aproveitamento no saque. Atualmente, ela é a sexta jogadora que mais disparou aces na atual temporada e está entre as quatro primeiras no aproveitamento de pontos e games vencidos em seu serviço. Ela também está entre as dez que mais salvaram break points em 2019.  Com apenas 1,66m, a australiana pode não ser dona de um dos saques mais velozes do circuito, mas tem um dos mais eficientes. Barty coloca muito bem o saque e sabe como poucas variar efeito e direção. Jogando ora aberto, ora no T, ora no corpo, ela faz tudo muito bem.

2019-06-10 (1) 2019-06-10

Uma vítima do próprio sucesso

Barty já começava a dar sinais de que teria um futuro promissor quando tinha apenas 15 anos. Ela foi campeã juvenil de Wimbledon em 2011 e conseguiu vaga na chave principal do Australian Open do ano seguinte depois de vencer a forte seletiva nacional contra jogadoras profissionais. Lidando desde cedo com pressão e expectativas, fez uma pausa na carreira em 2014 e foi jogar críquete. Naquele momento, tinha como melhor ranking em simples o 129º lugar. Entre as duplistas, havia alcançado o 13º posto e disputado três finais de Grand Slam. “Eu era uma desconhecida até ganhar o juvenil de Wimbledon. Seis meses depois, eu estava jogando o Australian Open. Tudo aconteceu rápido demais. Fui vítima do meu próprio sucesso”, disse ao site da WTA em fevereiro de 2016.

A volta às quadras aconteceria em maio de 2016. Em 6 de junho daquele ano, reapareceu no ranking mundial, ocupando o modesto 623º lugar. Disputando apenas torneios menores e ainda sofrendo com lesões, terminaria aquele ano ainda no 325º lugar do ranking mundial. O grande salto no ranking se deu em 2017. Ao longo de uma temporada consistente, conquistou seu primeiro WTA em Kuala Lumpur e disputou finais de torneios grandes em Wuhan e Birmingham, além de conquistar quatro vitórias contra top 10. Terminou aquele ano no 17º lugar, depois de saltar 308 posições. Já em 2018, outro bom ano, com títulos em Nottingham e Zhuhai. Também comemorou seu primeiro Grand Slam nas duplas, o US Open ao lado de Coco Vandeweghe.

O melhor estaria por vir em 2019. Barty começou o ano disputando uma final em Sydney, conquistou o Premier de Miami e debutou no top 10 com os mil pontos conquistados. Mesmo sem um histórico tão positivo no saibro, que não é considerado seu melhor piso, Barty havia feito uma boa preparação para Roland Garros, chegando às quartas de final em Madri e conquistando um título de duplas em Roma. Na condição de cabeça de chave, só precisou enfrentar uma top 20 no caminho para o título de Roland Garros, a norte-americana Madison Keys, 14ª colocada. Após as quedas de outras jogadoras mais bem cotadas, chegou à semifinal na condição de favorita e venceu duas jovens promessas do circuito Amanda Anisimova e Marketa Vondrousova.

Jovens promessas brilham em Paris

Marketa Vondrousova foi finalista em Paris (Foto: Corinne Dubreuil/FFT)

Marketa Vondrousova foi finalista em Paris (Foto: Corinne Dubreuil/FFT)

Roland Garros também foi o palco para Vondrousova e Anisimova brilhassem pela primeira vez em um Grand Slam. Finalista em Paris, a canhota tcheca de 19 anos jamais havia passado da segunda rodada do torneio e tinha como melhor feito em Slam as oitavas de final do US Open do ano passado. É verdade que ela aproveitou a queda precoce de Angelique Kerber na estreia, mas depois eliminou rivais do quilate das duas ex-top 10 Carla Suárez Navarro e Johanna Konta, além de uma especialista no saibro Petra Martic e da versátil Anastasija Sevastova no caminho para a final. Não jogou bem contra Barty e perdeu por 6/1 e 6/3. O nervosismo e a falta de referências em um estádio onde nunca havia atuado podem ter interferido em seu desempenho.

“Se alguém tivesse me dito antes do torneio que eu chegaria à final, eu diria que essa pessoa estaria louca. Ainda não consigo acreditar e acho que isso vai mudar minha vida agora. Estou orgulhosa, porque tenho apenas 19 anos e venci seis partidas difíceis. Foram incríveis duas semanas para mim e estou muito orgulhosa de mim mesma de estar na final aqui”, disse Vondrousova após a final. Em uma temporada bastante consistente, ela chegou pelo menos às quartas em seis dos sete torneios que disputou e além de ter alcançado três finais este ano. Ela também tem duas vitórias contra top 10, ambas sobre Simona Halep. No ranking, saltou do 67º para o 16º lugar ao longo de seu bom primeiro semestre. Ela poderia terminar Roland Garros como número 11 do mundo se fosse campeã.

Já Anisimova foi responsável por uma das maiores surpresas do torneio ao derrotar a campeã do ano passado Simona Halep nas quartas de final. A norte-americana de 17 anos já havia feito uma boa campanha na Austrália, onde chegou às oitavas de final. Ela conquistou seu primeiro no saibro de Bogotá em abril e subiu da 95ª para a 26ª posição ao longo da temporada. “Apesar de eu estar obviamente chateada por perder, eu cheguei na semifinal pela primeira vez. Então, é um torneio positivo para mim. Só tenho a comemorar esse resultado. Estou muito animada com a temporada de grama. Ganhei muita confiança nas últimas duas semanas”.


Comentários
  1. diego peres chaves

    A croata martic joga bem parecido, mas eh mais velha, gostei muito de ver jogar, slices, curtas, sobe bem a rede… deixa de ser chato o jogo

    Reply
    1. Mario Sérgio Cruz

      A Martic, a Sevastova e a Hercog são um pouco mais experientes e fazem esse tipo jogo também. Da nova geração, dá para destacar a Kasatkina ainda, embora a russa tenha um pouco mais de peso de bola que as demais.

      Reply
  2. Ricardo B. de Carvalho

    Muito bom o texto. Faltou mencionar a desistencia precoce da holandesa Bertens, por um motivo inaceitavel

    Reply
    1. Daniel

      Ricardo, o que você quer dizer que houve com Bertens com relação a motivo inaceitável? Ela não passou mal?

      Reply
    2. Mario Sérgio Cruz

      De fato, a Bertens era uma das favoritas ao título. Nos três torneios preparatórios ganhou um título em Madri e fez semis em Stuttgart, mas passou mal no dia anterior ao que atuaria pela segunda rodada. Disse que já acordou que um pouco melhor e tentou fazer alguma coisa em quadra, mas estava sem condições de jogo. Não chega a ser nenhum absurdo. Ainda assim, olhando a chave, ela só cruzaria o caminho da Barty em uma eventual final. Mesmo pensando na Vondrousova, o cruzamento só aconteceria na semi. Não mudaria muito a dinâmica do torneio.

      Reply
Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Comentário

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>