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Jogo agressivo e controle emocional ajudaram Wild a fazer história
Por Mario Sérgio Cruz
março 2, 2020 às 9:56 pm

Com apenas 19 anos, Thiago Wild entrou para a história do tênis brasileiro no último domingo ao conquistar o título do ATP 250 de Santiago. A vitória sobre o norueguês Casper Ruud, 38º do ranking, por 7/5, 4/6 e 6/3 fez de Wild o atleta nacional mais jovem a vencer um torneio da elite do circuito. Sua franca evolução é reflexo do estilo de jogo agressivo e de uma melhora significativa na preparação psicológica para lidar com o aspecto mental do esporte.

Wild tem um jeito de jogar diferente do que é apresentado pela maioria dos atletas brasileiros ou sul-americanos. É muito comum assistirmos os tenistas do continente atuando distantes da linha e prolongando bem mais os ralis. Mas mesmo tendo uma predileção pelo saibro, o jovem jogador brasileiro aposta na potência de seus golpes para encurtar os pontos e comandá-los desde o início, jogando mais próximo da linha de base. É um estilo que tem sido adotado por grande parte das jovens promessas que têm surgido nos últimos anos.

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Por muitas vezes, a tática agressiva de Wild esbarrava na falta de regularidade. E com os erros, vinham também as frustrações. Desde os tempos de juvenil, o paranaense sempre foi um jogador muito intenso e vibrante em quadra, sempre deixando bem expostas as suas emoções. Um fator fundamental para que ele continuasse a evoluir, sem perder sua personalidade, foi canalizar essa energia e para transformar isso em coisas positivas.

Em entrevista ao TenisBrasil no início de 2018, durante um torneio de nível future em São José do Rio Preto, Wild já identificava o problema da perda de concentração e começava a trabalhar para mudar isso. “Faço um trabalho mental com uma psicóloga esportiva. E medito praticamente todo dia para canalizar a energia e conseguir manter bem a concentração. É um problema que eu tenho. Perco a concentração muito rápido”.

Cenas em que Wild perdia a concentração por elementos externos ao jogo ou descontava a raiva na raquete aconteciam de vez em quando nessa fase de transição para o circuito profissional. Há pouco tempo, vimos acontecer de novo, quando Wild foi eliminado na estreia do challenger de Punta del Este e, em ato bastante imprudente, arremessou uma raquete para longe.

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Wild superou bons testes do ponto de vista mental
Dois anos depois, com o título do ATP chileno em mãos, o treinador João Zwetsch destaca o quanto a presença de um psicólogo na equipe fez diferença. “É um trabalho importante que vem sendo feito também pelo psicólogo Felipe Vardiero, uma peça fundamental que entrou em nosso time uns meses atrás para lidar nesse processo dele”, comenta o atual técnico de Wild, que também coordena o centro de treinamento Tennis Route, no Rio de Janeiro.

Nas duas últimas semanas, Wild foi frequentemente testado no aspecto mental do jogo. Um desses casos foi logo na estreia no Rio Open, diante do espanhol Alejandro Davidovich Fokina, quando ele precisou salvar três match points ainda no segundo set da partida e venceu por 5/7, 7/6 (7-3) e 6/3. O jogo de 3h49 foi o mais longo da história do torneio. Além de toda a competitividade, o paranaense também que lidar com o jogo imprevisível do espanhol que usava muitos slices e drop shots. Também no Rio de Janeiro, equilibrou as ações contra o croata Borna Coric, 32º do ranking, em partida de oitavas de final definida apenas no tiebreak do terceiro set.

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Já em Santiago, passou por argentinos mais experientes e melhor colocados no ranking, Facundo Bagnis e Juan Ignacio Londero nas rodadas iniciais, antes de enfrentar a estrela local Cristian Garin. Vencedor de quatro torneios da ATP e número 18 do mundo, Garin atraiu um grande público para o duelo das quartas e teve a torcida a favor o tempo inteiro. Wild esteve atrás no placar e chegou a salvar seis set points antes de vencer a parcial no tiebreak e ver o rival abandonar a disputa por lesão na região lombar.

Depois de confirmar o favoritismo na semifinal contra o argentino Renzo Olivo, Wild encarou outro grande teste diante do norueguês Casper Ruud. Quebrado em seus dois primeiros games de saque, o brasileiro perdia o set inicial por 3/1 quando iniciou a reação em um game fundamental. Salvando vários break points, um deles combinando um grand-willy e uma passada, evitou que o rival colocasse duas quebras de vantagem na parcial e, logo depois, devolveu a quebra e fez seu melhor game de saque no jogo até então. Depois de não ter um break point a favor em todo o segundo set, Wild reagiu muito bem no início do terceiro, com uma quebra de serviço para abrir 3/0 e também não deu chances ao rival no momento em que sacava para o jogo.

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‘Furando a fila’ de outras promessas
O título em Santiago também fez de Wild o primeiro jogador nascido a partir de 2000 a conquistar um torneio da ATP. Com isso, o brasileiro acabou ‘furando a fila’ de outras jovens promessas do tênis já consolidadas na elite do circuito. O canadense de 19 anos Felix Auger-Aliassime, número 20 do mundo, disputou cinco finais de ATP e perdeu todas. Já o italiano de 18 anos Jannik Sinner foi semifinalista na Antuérpia no fim do ano passado.

Prodígio desde muito cedo
Além da potência nos golpes, aliada ao seu estilo de jogo, e da preparação psicológica, o sucesso precoce de Wild no circuito também é fruto de um trabalho de longo prazo. Ele figura desde 2014 em convocações para equipes de base. Fez parte do Mundial de 14 anos disputado em Prostejov, na República Tcheca, ao lado de Igor Gimenez, João Lucas Reis e Gilbert Klier Junior. No mesmo ano, o paranaense venceu a BNP Paribas Cup, um dos principais eventos do mundo para sua categoria.

Não demorou para que Thiago Wild rapidamente se firmasse no circuito mundial juvenil da ITF, enfrentando jogadores de até 18 anos. Algumas das primeiras experiências em torneios deste porte foram no Banana Bowl e no Campeonato Internacional de Porto Alegre de 2016. No mesmo ano, disputou seu primeiro Grand Slam como juvenil no US Open.

Em 2017, deu um salto de qualidade. O paranaense foi finalista do Banana Bowl, campeão no Sul-Americano Individual e chegou às quartas de final de Roland Garros. Já na temporada seguinte, foi semifinalista em Paris e encerrou sua trajetória no circuito juvenil com o título do US Open. Paralelamente, iniciava a carreira profissional já com uma expressiva vitória sobre o top 100 Nicolas Jarry no challenger do Rio de Janeiro no fim de 2017 e os dois primeiros títulos de nível future. Jarry, aliás, talvez seja o jovem sul-americano com o estilo de jogo mais próximo do apresentado por Wild, embora o chileno seja um pouco mais dependente do saque.

Salto no ranking em pouco mais de um ano
Atualmente no 113º lugar do ranking, Wild ganhou 69 posições em relação à lista da última segunda-feira e está com a melhor marca da carreira. Há pouco mais de um ano, em 25 de fevereiro de 2019, ele ocupava apenas o 449º lugar. Com uma vitória no Brasil Open, em São Paulo. fez 20 pontos na ATP e já foi para a 391ª posição. O paranaense continuaria abaixo do top 300 até outubro, apesar de ter feito alguns bons resultados em challengers e futures.

Nos três últimos torneios da temporada passada, emplacou uma sequência de bons resultados. Foram 13 vitórias em 15 jogos. O evidente destaque para seu primeiro título de challenger em Guayaquil. Wild também chegou às quartas em Lima e foi semifinalista em Montevidéu. Com isso, foi do 342º ao 215º lugar em poucas semanas. A estreia no top 200 foi há apenas uma semana, já que a vitória na estreia do Rio Open o fizera subir da 206ª para a 182ª colocação.

Admiração por Nadal e treinos com Tsonga

Wild teve uma experiência bastante enriquecedora para seu futuro profissional ao treinar com o ex-top 5 Jo-Wilfried Tsonga no challenger de Cassis, na França. Mas o grande ídolo do paranaense é mesmo Rafael Nadal. Em entrevista ao site da ATP após a conquista no Chile, ele falou sobre a admiração pelo espanhol: “A maneira como ele joga, se mantém na quadra e luta por cada ponto é simplesmente incrível. Isso me fez sonhar com tudo o que ele fez. Se eu pudesse conquistar 20% do que ele conquistou em sua carreira, seria ótimo”.