Nova geração protagoniza a luta contra o racismo
Por Mario Sérgio Cruz
junho 7, 2020 às 10:32 am

Enquanto as competições oficiais do circuito permanecem suspensas por conta da pandemia da Covid-19, alguns expoentes da nova geração do tênis voltaram a se destacar nas últimas semanas por suas ações e posicionamentos fora de quadra.

A morte de George Floyd, homem negro que foi asfixiado por um policial branco em Minneapolis, foi o estopim para uma onda de protestos contra o racismo que se espalhou pelos Estados Unidos e também por diversas partes do mundo. Nesse cenário, nomes como Naomi Osaka, Frances Tiafoe, Coco Gauff, Felix Auger-Aliassime e Taylor Townsend compartilharam suas experiências e marcaram posições firmes contra o preconceito.

Tiafoe se sente um estranho no ninho

“A morte do George Floyd fez eu me sentir horrível. Especialmente por pensar que poderia ser um dos meus entes queridos e talvez pudesse acontecer até comigo”, revelou Tiafoe ao programa Tennis United, produzido para as redes sociais da ATP e da WTA. “Quando se é negro nos Estados Unidos, mesmo para quem é uma pessoa comum e não um atleta, você sente que precisa ser duas vezes melhor para ter reconhecimento”.

https://twitter.com/FTiafoe/status/1267202313057427458

O jovem jogador de 22 anos e 81º do ranking é um dos poucos negros entre os 100 melhores do mundo e ressalta que a falta de diversidade no tênis às vezes o faz se sentir como um estranho no ninho. “Quanto mais sucesso eu tenho, mais me sinto um outsider“, afirmou, em entrevista à CNN. “É claro que eu recebo muito apoio e reconhecimento, mas sinto que nem todo mundo quer me ver fazendo sucesso. Sinto como se estivesse tomando algo de alguém que gostaria de estar no meu lugar. Com certeza, sinto isso porque no fundo eles não querem nos ver no topo”.

Filho de imigrantes de Serra Leoa, Tiafoe foi campeão do ATP 250 de Delray Beach em 2018 e chegou a ser 29º do ranking em fevereiro do ano passado, depois de alcançar as quartas de final do Australian Open. Mas para o ex-top 30, ainda há muito a ser feito para promover a igualdade de oportunidades no tênis. “O tênis não é como o basquete, que você só precisa de uma tabela e da bola, ou o futebol que você precisa de um gramado e da bola. Então, como podemos tornar isso acessível? Como conseguir uma grande quantidade de raquetes, cordas, redes, bolas e calçados? Essa é a parte mais difícil”.

Gauff, com apenas 16 anos, discursou em protesto

Ainda mais jovem que Tiafoe, a norte-americana de 16 anos Coco Gauff tem encorajado os fãs a agirem além das redes sociais. E para dar o exemplo, ela própria compareceu a um protesto pacífico em sua cidade natal, Delray Beach, e discursou diante dos manifestantes. Gauff lamentou ter que protestar pela mesma causa que os avós já lutavam há 50 anos, relembrou outros casos recentes de violência contra os negros, incentivou o voto (que não é obrigatório nos Estados Unidos) e falou sobre como tem trazido cada vez mais pessoas para apoiar suas causas.

“Acho que é triste que eu esteja protestando pela mesma causa que a minha avó teve que protestar há 50 anos”, disse Gauff, na última quarta-feira. “Passei toda a semana conversando com amigos que não são negros, tentando educá-los sobre como eles poderiam ajudar o movimento. Nós temos que agir, e é por isso que estamos aqui. Eu ainda não tenho idade para votar, mas está nas mãos de vocês decidirem sobre o meu futuro, o do meu irmão e também o de vocês”.

“Vocês precisam usar suas vozes. Não importa o tamanho e o alcance de suas plataformas. Como o Martin Luther King disse: ‘O silêncio das pessoas boas é pior que a brutalidade das pessoas ruins’. Então, não devemos ficar em silêncio. Se você escolhe ficar em silêncio, você fica ao lado do opressor”, acrescentou a atual 52ª colocada no ranking mundial e vencedora do WTA de Linz no ano

“Eu exijo mudanças agora. É triste que outra vida negra tenha sido perdida para que tudo isso estivesse acontecendo. Não estamos aqui apenas por causa do George Floyd, mas também pelo Eric Garner, pelo Travyon Martin, pela Breonna Taylor e muitos outros”, afirmou a jovem tenista norte-americana. “Eu tinha apenas oito anos quando o Travyon Martin foi morto. Por que estou aqui, aos 16 anos, ainda protestando por isso? Eu estou lutando pelo futuro do meu irmão e dos meus futuros filhos. Então, precisamos mudar isso agora. E eu prometo usar a minha plataforma para divulgar informações vitais”.

Atleta mais bem paga, Osaka também foi às ruas


Ver essa foto no Instagram

#justiceforgeorgefloyd

Uma publicação compartilhada por 大坂なおみ (@naomiosaka) em

Há pouco mais de duas semanas, revista norte-americana Forbes divulgou que a japonesa Naomi Osaka foi a atleta mais bem paga de 2019. Ela ficou pela primeira vez à frente de Serena Williams, que liderava essa lista desde 2016. Osaka faturou US$ 37,4 milhões entre premiações de torneios e contratos de patrocínio. Considerando os ganhos de atletas homens e mulheres, a japonesa de 22 anos está na 29ª posição do ranking, enquanto Serena esta na 33ª posição. Elas são as únicas mulheres entre os 100 atletas mais bem pagos.

É bem comum que personalidades com muitos contratos publicitários busquem maior neutralidade e evitem se posicionar, mas essa não foi uma opção para Osaka. A jogadora que tem pai haitiano e mãe japonesa já foi vítima de preconceito por diversas vezes, até mesmo em seu país de origem. Atualmente em Los Angeles, ela fez questão de comparecer a um dos protestos pela morte de Floyd e tem sido bastante atuante também nas redes sociais.

“Só porque não está acontecendo com você, não significa que não esteja acontecendo”, escreveu Osaka, em seu perfil no Twitter. Ela também questionou aqueles que criticaram os protestos, mas que ficaram em silêncio sobre a morte de Floyd. “Vejo que algumas pessoas ficaram quietas no Twitter por uma semana quando tudo começou, mas assim que começaram os saques, já vieram para falar de hora em hora sobre como estão se sentindo. Eles falam sobre os saques antes de falar da morte de um homem negro desarmado”.

Aliassime lembra racismo sofrido por seu pai

O canadense de apenas 19 anos Felix Auger-Aliassime é um dos grandes nomes da nova geração, ocupando atualmente o 20º lugar do ranking mundial e já com cinco finais de ATP no currículo. Aliassime também é filho de um imigrante. Seu pai, Sam, é professor de tênis, nasceu no Togo e já foi discriminado durante uma abordagem policial.

Em vídeo publicado no Instagram, Aliassime conta que seu pai estava voltando do trabalho para casa em Québec quando passou a ser seguido pela polícia. “Ele virou à esquerda, à direita, fez um círculo completo, e a polícia continuava seguindo. Até que ele parou o carro. E então o carro da polícia parou logo atrás e uma policial bateu na janela dele”.

“Meu pai perguntou se havia cometido alguma infração e ela respondeu que não. Então ele perguntou: ‘Então por que estou sendo abordado?’ e ela explicou que era raro ver ‘uma pessoa de cor’ [reproduzindo palavras da policial] dirigindo aquele tipo de carro (uma Mercedes) naquele bairro. Meu pai ainda perguntou se havia alguma denúncia de roubo de carro nas redondezas, e ela novamente respondeu que não”, acrescentou o jovem jogador.

“Esta pequena história, que não foi violenta, e que tudo acabou em paz. Mas este tipo de situação cria coisas como as que estamos vendo hoje. Acho que as pessoas precisam ficar cientes que isso não acontece com ‘os outros’. Pode acontecer com seus amigos, professores, treinadores e com qualquer pessoa”, complementou Aliassime, que ainda assim se sente privilegiado por ter crescido em um lugar onde há maior liberdade de expressão.

Townsend relata preconceito nos torneios

A canhota norte-americana Taylor Townsend ocupa o 73º lugar do ranking mundial e ganhou notoriedade no ano passado por seu estilo de jogo com saque e voleio e pela surpreendente vitória sobre Simona Halep no US Open. Apesar disso, ela conta que sofre com a discriminação até mesmo no ambiente dos torneios.

“Quando estou circulando, pedem para checar a minha bolsa, checar a minha credencial, checar bolsas e credenciais do meu técnico. Tem uma segurança extra e precauções extras para ter certeza de que nós pertencemos àquele lugar. Isso acontece toda semana, em qualquer torneio que eu jogar, nos Estados Unidos ou no exterior”, revelou ao Tennis United.

“Mesmo no tênis, nós perdemos nossa identidade, como se todas nós fôssemos iguais. Todo mundo que vê uma mulher negra nos torneios já pensa que é a Venus, a Serena ou a Sloane [Stephens]. Tem pessoas que perguntam para mim se eu sou a Coco Gauff!”, explicou a jogadora de 24 anos.

“Aqui nos Estados Unidos temos muitas tensões raciais, muitas revoltas, mas também muitos protestos pacíficos”, acrescentou Townsend. “A comunidade negra foi suprimida. Nossa identidade foi roubada de nós. Homens negros estão sendo baleados e mortos no meio da rua, em plena luz do dia, por policiais. Essa foi a nossa realidade por muitos anos, mas agora as pessoas estão começando a acordar”.

Pausa no circuito adia os planos dos juvenis brasileiros
Por Mario Sérgio Cruz
abril 15, 2020 às 7:13 am
Natan Rodrigues e Gustavo Heide estavam no top 20 do ranking e garantidos em Roland Garros e Wimbledon (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

Natan Rodrigues e Gustavo Heide estavam no top 20 do ranking e garantidos em Roland Garros e Wimbledon (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

O bom início de temporada para os brasileiros que disputam o circuito mundial juvenil foi interrompido de maneira abrupta pela pandemia da Covid-19. Jogadores como Natan Rodrigues, Gustavo Heide e Pedro Boscardin vinham de resultados positivos nos primeiros meses do ano e já estariam no início da preparação para Roland Garros e Wimbledon, mas esses planos terão que ser adiados.

As disputas em Paris foram remarcadas para o segundo semestre e o Grand Slam francês acontecerá entre 20 de setembro e 4 de outubro. Já o torneio de Wimbledon não será realizado em 2020, dada a dificuldade que os organizadores teriam para deixar as quadras de grama em boas condições de jogo em outra época do ano que não fosse o verão do hemisfério Norte.

A estimativa da Federação Internacional de Tênis (ITF) é que mais 900 torneios de todos níveis tenham sido cancelados por conta do risco de transmissão do novo coronavírus. As decisões dos circuitos profissionais da ATP e da WTA de suspenderem todas competições até 13 de julho, com possibilidade de prolongar ainda mais o período de paralisação, foram acompanhadas pela ITF e por federações nacionais ou continentais.

Roland Garros adiado, Wimbledon cancelado

O baiano Natan Rodrigues é o sétimo do ranking juvenil (Foto Marcello Zambrana/CBT)

O baiano Natan Rodrigues é o sétimo do ranking juvenil (Foto Marcello Zambrana/CBT)

Brasileiro mais bem colocado no ranking mundial juvenil, o baiano Natan Rodrigues aparece na sétima posição na lista da ITF. O jogador que completou 18 anos em fevereiro já estaria garantido nos dois próximos Grand Slam e poderia atuar no saibro parisiense pela primeira vez, já que estava se recuperando de uma cirurgia no apêndice durante a edição passada do torneio.

“Como já sou 7 do mundo na ITF, eu estaria garantido e seria cabeça de chave. Fico um pouco triste, mas não tem o que fazer. É aceitar e seguir a diante. Ainda tenho mais dois Grand Slam”, disse Natan Rodrigues, que começou a temporada com um título na Costa Rica e ainda foi finalista do Banana Bowl em Criciúma e do Sul-Americano Individual em Brasília.

“Acho que seria mais triste se cancelassem Roland Garros, porque eu nunca joguei lá. Eu fiz uma cirurgia no ano passado e não pude jogar. Mas como eu falei, tem que seguir em frente e continuar treinando para estar preparado quando voltar”, relembrou o jovem baiano, que já disputou Wimbledon e US Open como juvenil no ano passado.

Heide iria treinar na Espanha

O paulista Gustavo Heide faria um período de treinos na Espanha, mas cancelou os planos (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

O paulista Gustavo Heide faria um período de treinos na Espanha, mas cancelou os planos (Foto: Marcello Zambrana/CBT)

Gustavo Heide foi campeão do Sul-Americano e aparece na 16ª posição do ranking juvenil. Ao contrário de Natan Rodrigues, o paulista jogou Roland Garros no ano passado depois de ter vencido uma seletiva nacional em Santa Catarina e um triangular em Paris contra adversários da China e da Índia. Na época, ele ainda ocupava o 139º lugar do ranking e, por isso, não se classificou para Wimbledon.

“Quando eu fiquei sabendo que Wimbledon foi cancelado, eu fiquei triste. Era o Grand Slam que eu tinha mais vontade de jogar. Nunca joguei na grama, então acho que seria uma experiência incrível”, afirmou o Heide. “Todo mundo fala que é o Grand Slam mais legal de ir, porque é bem diferente dos outros”.

“É o meu último ano no juvenil, mas eu fico pensando que tomara que eu consiga jogar em Wimbledon no futuro. É uma motivação a mais para eu poder chegar ali entre os melhores”, acrescentou o jovem paulista, que completou 18 anos em fevereiro e está em sua última temporada no circuito juvenil.

O cancelamento das competições também fez Heide desmarcar um período de treinos na Espanha, que faria ao lado do técnico brasileiro Tiago Leivas. “Recebi essa notícia em uma sexta-feira, se não me engano. No sábado, eu iria jogar o quali para o challenger de Olímpia, que acabou sendo cancelado. E no fim-de-semana seguinte eu iria para a Espanha, para treinar por duas semanas. Depois, voltaria para e jogar os futures que teriam em abril [quatro torneios aconteceriam nas cidades de Recife, Curitiba, Brasília e Piracicaba]. Já estava programado e eu estava animado para os treinos na Espanha. Mas, infelizmente, deu no que deu. Tomara que tudo isso passe logo e a gente possa voltar para as quadras”.

Boscardin foca na transição

O catarinense Pedro Boscardin ainda pode jogar o circuito juvenil no ano que vem (Foto: Luiz Candido/CBT)

O catarinense Pedro Boscardin ainda pode jogar o circuito juvenil no ano que vem (Foto: Luiz Candido/CBT)

Já o catarinense Pedro Boscardin, número 52 do ranking mundial juvenil, está com 17 anos e tem a chance de disputar seus primeiros Grand Slam na próxima temporada. Até por isso, quando o circuito voltar, ele busca motivação na transição para a carreira profissional. “Não é só desses grandes torneios que a gente vive. Também estou com bastante vontade de jogar os torneios profissionais, como os challengers e futures, então não preciso ficar pensando só nos Grand Slam do juvenil. Já consigo ter uma motivação bem grande com o profissional”.

“Acho que como todo tenista, eu fiquei chateado por não poder jogar, mas a gente está vendo a cada dia que foi a decisão correta. E isso faz parte do circuito. Todo mundo está nessa situação e todo mundo tem que seguir trabalhando duro. É claro que não dá para manter o mesmo ritmo de treinos, mas manter a forma física já é super bom”, explicou o catarinense, que disputou finais na Costa Rica e Colômbia e jogaria o challenger de Olímpia.

Mudança nas rotinas de treinos e estudos

Por conta das regras de isolamento social, a rotina de treinamento também foi bastante afetada. Entre os três jogadores consultados, apenas Boscardin ainda consegue treinar em quadra. Já Heide e Natan apostam na preparação física. “Quando eu recebi a notícia, a gente parou por uma semaninha. E depois disso, já voltei a fazer trabalho físico. O tênis eu consigo treinar dia sim, dia não, tomando bastante cuidado nessa questão de onde tocar para manter pelo menos um pouquinho do contato com a bola”, disse Boscardin.

“Na quadra não tem como, por enquanto. Está um pouco difícil”, relatou Natan Rodrigues. “O que eu tenho feito são os treinos físicos em casa”. Situação parecida vive Heide. “Para manter minha rotina, estou treinando o físico em casa. Eu falo com a minha equipe e eles me passam os exercícios”.

Os três jovens jogadores também falaram sobre suas rotinas de estudo em tempos de quarentena. Natan concluiu o Ensino Médio no fim de 2019 e pretende ingressar em uma faculdade em breve, enquanto Heide precisou interromper os estudos no ano passado para se dedicar ao tênis. Um ano mais jovem que eles, Boscardin aproveita o período sem viagens e competições para finalizar o colégio. “Eu já estudo à distância desde o primeiro ano do Ensino Médio. Então, no último ano, é praticamente a mesma coisa”, afirmou. “Mas agora eu tenho mais tempo para estudar e estou dando uma antecipada para, quando voltar ao normal, eu já ter terminado ou estar bem mais adiantado”.

Jogo agressivo e controle emocional ajudaram Wild a fazer história
Por Mario Sérgio Cruz
março 2, 2020 às 9:56 pm

Com apenas 19 anos, Thiago Wild entrou para a história do tênis brasileiro no último domingo ao conquistar o título do ATP 250 de Santiago. A vitória sobre o norueguês Casper Ruud, 38º do ranking, por 7/5, 4/6 e 6/3 fez de Wild o atleta nacional mais jovem a vencer um torneio da elite do circuito. Sua franca evolução é reflexo do estilo de jogo agressivo e de uma melhora significativa na preparação psicológica para lidar com o aspecto mental do esporte.

Wild tem um jeito de jogar diferente do que é apresentado pela maioria dos atletas brasileiros ou sul-americanos. É muito comum assistirmos os tenistas do continente atuando distantes da linha e prolongando bem mais os ralis. Mas mesmo tendo uma predileção pelo saibro, o jovem jogador brasileiro aposta na potência de seus golpes para encurtar os pontos e comandá-los desde o início, jogando mais próximo da linha de base. É um estilo que tem sido adotado por grande parte das jovens promessas que têm surgido nos últimos anos.

https://twitter.com/TennisTV/status/1234228143289970690

Por muitas vezes, a tática agressiva de Wild esbarrava na falta de regularidade. E com os erros, vinham também as frustrações. Desde os tempos de juvenil, o paranaense sempre foi um jogador muito intenso e vibrante em quadra, sempre deixando bem expostas as suas emoções. Um fator fundamental para que ele continuasse a evoluir, sem perder sua personalidade, foi canalizar essa energia e para transformar isso em coisas positivas.

Em entrevista ao TenisBrasil no início de 2018, durante um torneio de nível future em São José do Rio Preto, Wild já identificava o problema da perda de concentração e começava a trabalhar para mudar isso. “Faço um trabalho mental com uma psicóloga esportiva. E medito praticamente todo dia para canalizar a energia e conseguir manter bem a concentração. É um problema que eu tenho. Perco a concentração muito rápido”.

Cenas em que Wild perdia a concentração por elementos externos ao jogo ou descontava a raiva na raquete aconteciam de vez em quando nessa fase de transição para o circuito profissional. Há pouco tempo, vimos acontecer de novo, quando Wild foi eliminado na estreia do challenger de Punta del Este e, em ato bastante imprudente, arremessou uma raquete para longe.

https://twitter.com/doublefault28/status/1222748814269931520

Wild superou bons testes do ponto de vista mental
Dois anos depois, com o título do ATP chileno em mãos, o treinador João Zwetsch destaca o quanto a presença de um psicólogo na equipe fez diferença. “É um trabalho importante que vem sendo feito também pelo psicólogo Felipe Vardiero, uma peça fundamental que entrou em nosso time uns meses atrás para lidar nesse processo dele”, comenta o atual técnico de Wild, que também coordena o centro de treinamento Tennis Route, no Rio de Janeiro.

Nas duas últimas semanas, Wild foi frequentemente testado no aspecto mental do jogo. Um desses casos foi logo na estreia no Rio Open, diante do espanhol Alejandro Davidovich Fokina, quando ele precisou salvar três match points ainda no segundo set da partida e venceu por 5/7, 7/6 (7-3) e 6/3. O jogo de 3h49 foi o mais longo da história do torneio. Além de toda a competitividade, o paranaense também que lidar com o jogo imprevisível do espanhol que usava muitos slices e drop shots. Também no Rio de Janeiro, equilibrou as ações contra o croata Borna Coric, 32º do ranking, em partida de oitavas de final definida apenas no tiebreak do terceiro set.

https://twitter.com/TennisTV/status/1229587115538817028

Já em Santiago, passou por argentinos mais experientes e melhor colocados no ranking, Facundo Bagnis e Juan Ignacio Londero nas rodadas iniciais, antes de enfrentar a estrela local Cristian Garin. Vencedor de quatro torneios da ATP e número 18 do mundo, Garin atraiu um grande público para o duelo das quartas e teve a torcida a favor o tempo inteiro. Wild esteve atrás no placar e chegou a salvar seis set points antes de vencer a parcial no tiebreak e ver o rival abandonar a disputa por lesão na região lombar.

Depois de confirmar o favoritismo na semifinal contra o argentino Renzo Olivo, Wild encarou outro grande teste diante do norueguês Casper Ruud. Quebrado em seus dois primeiros games de saque, o brasileiro perdia o set inicial por 3/1 quando iniciou a reação em um game fundamental. Salvando vários break points, um deles combinando um grand-willy e uma passada, evitou que o rival colocasse duas quebras de vantagem na parcial e, logo depois, devolveu a quebra e fez seu melhor game de saque no jogo até então. Depois de não ter um break point a favor em todo o segundo set, Wild reagiu muito bem no início do terceiro, com uma quebra de serviço para abrir 3/0 e também não deu chances ao rival no momento em que sacava para o jogo.

https://twitter.com/TennisTV/status/1234199716008800273

‘Furando a fila’ de outras promessas
O título em Santiago também fez de Wild o primeiro jogador nascido a partir de 2000 a conquistar um torneio da ATP. Com isso, o brasileiro acabou ‘furando a fila’ de outras jovens promessas do tênis já consolidadas na elite do circuito. O canadense de 19 anos Felix Auger-Aliassime, número 20 do mundo, disputou cinco finais de ATP e perdeu todas. Já o italiano de 18 anos Jannik Sinner foi semifinalista na Antuérpia no fim do ano passado.

Prodígio desde muito cedo
Além da potência nos golpes, aliada ao seu estilo de jogo, e da preparação psicológica, o sucesso precoce de Wild no circuito também é fruto de um trabalho de longo prazo. Ele figura desde 2014 em convocações para equipes de base. Fez parte do Mundial de 14 anos disputado em Prostejov, na República Tcheca, ao lado de Igor Gimenez, João Lucas Reis e Gilbert Klier Junior. No mesmo ano, o paranaense venceu a BNP Paribas Cup, um dos principais eventos do mundo para sua categoria.

Não demorou para que Thiago Wild rapidamente se firmasse no circuito mundial juvenil da ITF, enfrentando jogadores de até 18 anos. Algumas das primeiras experiências em torneios deste porte foram no Banana Bowl e no Campeonato Internacional de Porto Alegre de 2016. No mesmo ano, disputou seu primeiro Grand Slam como juvenil no US Open.

Em 2017, deu um salto de qualidade. O paranaense foi finalista do Banana Bowl, campeão no Sul-Americano Individual e chegou às quartas de final de Roland Garros. Já na temporada seguinte, foi semifinalista em Paris e encerrou sua trajetória no circuito juvenil com o título do US Open. Paralelamente, iniciava a carreira profissional já com uma expressiva vitória sobre o top 100 Nicolas Jarry no challenger do Rio de Janeiro no fim de 2017 e os dois primeiros títulos de nível future. Jarry, aliás, talvez seja o jovem sul-americano com o estilo de jogo mais próximo do apresentado por Wild, embora o chileno seja um pouco mais dependente do saque.

Salto no ranking em pouco mais de um ano
Atualmente no 113º lugar do ranking, Wild ganhou 69 posições em relação à lista da última segunda-feira e está com a melhor marca da carreira. Há pouco mais de um ano, em 25 de fevereiro de 2019, ele ocupava apenas o 449º lugar. Com uma vitória no Brasil Open, em São Paulo. fez 20 pontos na ATP e já foi para a 391ª posição. O paranaense continuaria abaixo do top 300 até outubro, apesar de ter feito alguns bons resultados em challengers e futures.

Nos três últimos torneios da temporada passada, emplacou uma sequência de bons resultados. Foram 13 vitórias em 15 jogos. O evidente destaque para seu primeiro título de challenger em Guayaquil. Wild também chegou às quartas em Lima e foi semifinalista em Montevidéu. Com isso, foi do 342º ao 215º lugar em poucas semanas. A estreia no top 200 foi há apenas uma semana, já que a vitória na estreia do Rio Open o fizera subir da 206ª para a 182ª colocação.

Admiração por Nadal e treinos com Tsonga

Wild teve uma experiência bastante enriquecedora para seu futuro profissional ao treinar com o ex-top 5 Jo-Wilfried Tsonga no challenger de Cassis, na França. Mas o grande ídolo do paranaense é mesmo Rafael Nadal. Em entrevista ao site da ATP após a conquista no Chile, ele falou sobre a admiração pelo espanhol: “A maneira como ele joga, se mantém na quadra e luta por cada ponto é simplesmente incrível. Isso me fez sonhar com tudo o que ele fez. Se eu pudesse conquistar 20% do que ele conquistou em sua carreira, seria ótimo”.

Kenin foi moldada desde a infância para ser campeã
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 1, 2020 às 6:24 pm

Campeã do Australian Open neste sábado, Sofia Kenin foi moldada desde a infância para se tornar uma estrela do tênis. A norte-americana de 21 anos foi introduzida muito cedo ao esporte e ao ambiente das competições de alto nível. Com longa vivência do tênis, apesar da pouca idade, viveu uma temporada de franca evolução no ano passado e lidou mentalmente muito bem com desafio de disputar sua primeira final de Grand Slam. Depois de começar atrás no placar, buscou a virada contra a ex-número 1 do mundo Garbiñe Muguruza.

“Meu sonho se tornou oficialmente realidade”, disse Kenin depois de derrotar Muguruza por 4/6, 6/2 e 6/2 em 2h02 de partida neste sábado. “Estou muito orgulhosa de mim mesma, do meu pai, minha equipe, todos que estiveram ao meu redor. Todos nós trabalhamos duro. Passamos por tempos difíceis, lutamos e conseguimos”.

Mesmo sem conseguir esconder as emoções durante a partida contra a espanhola, especialmente no terceiro set, Kenin jogou seu melhor tênis nos momentos de maior pressão. Ela se recorda do quinto game da parcial decisiva, quando o placar estava empatado por 2/2. A norte-americana reverteu um 0-40 e salvou quatro break points no total. Agressiva nesses momentos, disparou cinco winners.

“Lembro-me muito bem daquele game. Foi quando eu senti que o jogo estava mudando. Eu precisava jogar o melhor tênis e foi isso o que eu fiz. Depois disso, eu estava pegando fogo e pronta para receber o troféu”, acrescentou. “Eu sabia que tinha que arriscar. Precisava ser corajosa para enfrentar uma campeã de dois Grand Slam. Todo o respeito a ela. Ela fez uma grande partida. Cada ponto foi uma batalha e tanto”.

Vinda da Rússia, Kenin foi rapidamente introduzida ao tênis
Os pais de Kenin, Alexander e Lena, se mudaram com a filha da Rússia para os Estados Unidos quando ela tinha poucos meses de vida. Nascida em Moscou em 1998, a jovem jogadora começou no tênis aos três anos, batendo bola com o pai em quadras públicas de um parque em Pembroke Pines, na Flórida. Ao ver que a menina tinha potencial para seguir no esporte, Alex a levou para treinar na academia de Rick Macci, em Boca Raton, local que já recebeu as irmãs Venus e Serena Williams.

Com apenas cinco anos de idade, Kenin já dava entrevistas para a TV e dizia que sonhava ser a número 1 do mundo. Ela era levada para uma série de exibições com grandes nomes do tênis nos Estados Unidos e participou de eventos ao lado de nomes como Venus Williams, Jim Courier, Andy Roddick, seu grande ídolo no esporte.

A criança que rapidamente ficou famosa apareceu em 2005 em vídeo produzido pela WTA acompanhando a estrela belga Kim Clijsters e conhecendo os bastidores do Premier de Miami. As imagens viralizaram na última semana, desde a classificação da norte-americana para a final do Grand Slam australiano. Kenin tem chance até de enfrentar Clijsters num futuro próximo, já que a ex-número 1 do mundo voltará ao circuito nesta temporada, aos 36 anos.

https://twitter.com/WTA/status/1222924548074590213

Pai e treinador da tenista, Alex também viveu um período nos Estados Unidos entre o fim da década de 80 e o início dos anos 90, onde estudava ciência da computação durante o dia e trabalhava como motorista à noite. “Não acho que ela tenha passado por tantos sacrifícios, mas ela sabe que quando chegamos ao país tudo foi muito difícil”, disse Alexander Kenin ao site do Australian Open.

“É incrível o que você faz quando precisa sobreviver. Ela sabe sobre dessa história, mas graças a Deus não precisou passar por isso”, comenta o russo. “Ela é muito dedicada ao que está fazendo e trabalha duro. Não importa se chove ou se está nevando, não perderemos um dia a menos que seja necessário. Nós dois decidimos que é isso que queremos fazer e estou muito honrado e satisfeito por ela se ater a isso”.

Destaque desde o circuito juvenil
Kenin chegou a ser a número 2 do ranking mundial juvenil da Federação Internacional. Ela não chegou a ganhar um Grand Slam da categoria, mas conquistou o tradicional e prestigiado torneio Orange Bowl em 2014 e foi finalista do US Open no ano seguinte. Em seu último ano como juvenil, em 2016, voltou a fazer uma boa campanha em Nova York e chegou à semifinal.

Um ano depois, novamente no US Open, conseguiu seu primeiro grande resultado como profissional e alcançou a terceira rodada do Grand Slam nova-iorquino, superada apenas por Maria Sharapova. Ela terminaria aquela temporada no 108º lugar do ranking mundial. A chegada ao top 100 aconteceria em março de 2018, após bons resultados em Indian Wells e Miami, vinda do quali nos dois torneios. Em uma temporada de adaptação à elite do circuito, venceu dois jogos contra top 10, chegou ao 48º lugar do ranking e defendeu os Estados Unidos nas finais da Fed Cup contra a sempre forte equipe da República Tcheca.

A atleta que mais evoluiu no circuito
Kenin deu um salto no ranking durante o ano de 2019. Ela conquistou seus três primeiros títulos de WTA, em Hobart, Mallorca e Guangzhou. Também foi semifinalista em eventos de altíssimo nível, em Toronto e Cincinnati. Nesses dois eventos, venceu duas as líderes do ranking Naomi Osaka e Ashleigh Barty. Ainda mais expressiva foi a vitória contra Serena Williams na terceira rodada de Roland Garros. Com todos esses predicados, aliados à chegada ao 12º lugar do ranking, foi eleita a jogadora que mais evoluiu no circuito.

Além da clara evolução no ranking e nos resultados, era visível que a norte-americana agregava cada vez mais recursos ao seu jogo, em comparação com o que vinha sendo mostrado nos anos anteiores. Num curto espaço de tempo, aquela jogadora que já se defendia muito bem começava a construir melhor os pontos, errar menos, usar mais alguns slices, além de variar o saque e ter um pouco mais de peso na bola.

Em Melbourne, Kenin foi a 14ª cabeça de chave. Ela era uma das jovens em rota de colisão com campeãs de Grand Slam como Sloane Stephens e Naomi Osaka, que acabaram caindo precocemente. Nas duas primeiras rodadas, enfrentou duas atletas vindas do qualificatório, a italiana Martina Trevisan e a norte-americana Ann Li. Na terceira fase, venceu um jogo duro contra a chinesa Shuai Zhang.

Kenin venceu um duelo de jovens promessas do tênis norte-americano contra a atleta de 15 anos Coco Gauff nas oitavas de final. Com parciais de 6/7 (5-7), 6/3 e 6/0, o jogo de 2h09 foi o primeiro em que ela cedeu um set na competição. Nas quartas, bateu a surpreendente tunsiana Ons Jabeur por duplo 6/4. Já na semifinal, derrubou a número 1 do mundo e estrela australiana Ashleigh Barty por 7/6 (8-6) e 7/5 para alcançar uma inédita final de Grand Slam.

No duelo com Barty, salvou set points nas duas parciais. “Sempre acreditei que poderia ganhar, apesar de ter enfrentado dois pontos no primeiro set e mais no segundo”, afirmou. “Eu podia literalmente sentir isso e dizia a mim mesma que precisava acreditar. Se eu perdesse o set, ainda continuaria acreditando. Acho que lidei muito bem com isso. Eu não desisti. Eu sabia que seria uma partida difícil. Claro, algumas coisas não aconteceram do jeito que eu queria, mas eu não deixei isso me parar. Continuei lutando e deixei tudo em quadra. Então valeu a pena”.

Juvenil de Andorra faz história com título na Austrália
Por Mario Sérgio Cruz
fevereiro 1, 2020 às 9:10 am

Victoria Jimenez Kasintseva é a primeira tenista de Andorra a conquistar um título de Grand Slam

Natural de um dos menores países do mundo, Victoria Jimenez Kasintseva marcou seu nome da história do tênis. A jogadora de apenas 14 anos é a primeira tenista de Andorra a conquistar um título de Grand Slam. Ela venceu o torneio juvenil do Australian Open ao derrotar na final a polonesa Weronika Baszak por 5/7, 6/2 e 6/2 em 2h04 de partida.

“Tenho muito orgulho de representar Andorra. É como uma vila, onde todo mundo se conhece”, disse a Jimenez a respeito de sua terra natal. Andorra tem pouco mais de 75 mil habitantes numa área de 468 km². A jovem tenista é treinada pelo pai e já fala cinco línguas, inglês, espanhol, catalão, russo e francês.

Este foi apenas o primeiro Grand Slam juvenil que Jimenez disputou. Ela era a jogadora mais jovem da chave e chegou a salvar três match points em seu duelo das oitavas de final contra a italiana Melania Delai. A atual 19ª colocada no ranking mundial juvenil da ITF deverá dar um salto na classificação e se estabelecer entre as cinco melhores. A conquista na Austrália vale mil pontos e ela tinha apenas 60 a descartar.

No início da final deste sábado, disputada com o teto fechado na Rod Laver Arena, Baszak abriu vantagem. A polonesa, que tem um raro backhand de uma mão para o circuito feminino, mostrava mais potência nos golpes e conseguiu uma quebra logo de cara. Jimenez até buscaria o empate, mas voltaria a perder o saque pouco depois.

Mas a canhota de 14 anos foi aos poucos estabelecendo seu melhor tênis e mostrou um jogo bem estruturado para sua idade. Jimenez usava bem o saque aberto e também construía bem os pontos, sustentando as trocas de bola e sabendo o que fazer nos momentos em que precisava ser mais agressiva junto à rede. Assim, dominou as duas últimas parciais do jogo.

Francês conquista título masculino

O título masculino ficou com o francês Harold Mayot, que derrotou o compatriota Arthur Cazaux por 6/4 e 6/1. Ele é o quinto jogador francês a conquistar o título em Melbourne, sendo o primeiro desde Alexandre Sidorenko. O destaque fica para Gael Monfils, vencedor em 2004.

Terceiro colocado no ranking mundial juvenil, Mayot irá assumir a liderança na próxima segunda-feira. Ele já está em processo de transição para o tênis profissional e ocupa o 527º lugar no ranking da ATP. O jovem francês iniciou a temporada disputando os challengers de Noumea e Bendigo e teve bons resultados, chegando às oitavas e quartas de final. O atleta de 17 anos também já tem um título profissional de nível future.

O que esperar da nova geração na Austrália?
Por Mario Sérgio Cruz
janeiro 17, 2020 às 8:23 pm

Depois de apenas duas semanas de torneios preparatórios, a temporada de 2020 já tem seu primeiro Grand Slam. O Australian Open começa na próxima segunda-feira e terá muitos nomes da nova geração do circuito dispostos a surpreender na competição e já conseguir um grande resultado logo no primeiro mês do ano.

Alguns desses jovens já se consolidaram nas primeiras posições do ranking e chegam cheios de expectativas a Melbourne. São os casos da número 1 do mundo Ashleigh Barty, da atual campeã Naomi Osaka ou de nomes como Alexander Zverev, Daniil Medvedev e Stefanos Tsitsipas. Mas a disputa também apresenta nomes fora da lista dos mais cotados, mas que começaram bem o ano estão e podem cruzar o caminho e dar trabalho aos principais favoritos.

PRESSÃO PARA BARTY E OSAKA

Barty tenta encerrar longo jejum do tênis australiano

Líder do ranking mundial e atual campeã de Roland Garros, Barty tenta encerrar longo jejum do tênis australiano (Foto: SMP Images)

Líder do ranking mundial e atual campeã de Roland Garros, Ashleigh Barty chega ao Australian Open com a missão de encerrar uma longa espera da torcida australiana. A última jogadora da casa a ser campeã do torneio foi Christine O’Neil em 1976. Decidida a dar fim ao jejum de 44 anos sem títulos para as anfitriãs, a australiana de 23 anos entrou em dois eventos preparatórios. Barty não foi bem em Brisbane, onde caiu ainda na estreia, mas se recuperou em Adelaide e chegou à final da competição.

A estreia de Barty será contra a ucraniana Lesia Tsurenko. Depois, pode enfrentar a eslovena Polona Hercog ou a sueca Rebecca Peterson. A terceira rodada pode ser perigosa diante da cazaque Elena Rybakina, número 30 do mundo e finalista em Shenzhen e Hobart neste início de ano. Petra Martic, Julia Goerges e Alison Riske são possíveis adversárias nas oitavas, enquanto Madison Keys e a finalista do ano passado Petra Kvitova podem pintar nas quartas.

Também na parte de cima da chave está a número 3 do mundo Naomi Osaka, campeã do Australian Open do ano passado e que terá 2 mil pontos a defender. A japonesa de 22 anos estreia contra a tcheca Marie Bouzkova e depois pode encarar a chinesa Saisai Zheng ou uma rival do quali. Venus Williams ou Coco Gauff são possíveis rivais na terceira fase, antes de um duelo que promete equilíbrio diante de Sofia Kenin nas oitavas. Caso chegue às quartas, há grande chance de enfrentar Serena Williams.

JOVENS TENTAM QUEBRAR HEGEMONIA

Aos 22 anos, Zverev ainda sonha com seu primeiro título de Grand Slam

Aos 22 anos, Alexander Zverev ainda sonha com seu primeiro título de Grand Slam

A luta por um título de Grand Slam entre os homens tem sido restrita a poucos nomes nos últimos anos. Desde 2011, apenas seis jogadores monopolizaram as conquistas: Novak Djokovic, Rafael Nadal, Roger Federer, Andy Murray, Stan Wawrinka e Marin Cilic.

A nova geração do tênis masculino conta com três nomes no top 10, Daniil Medvedev, Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas. Eles aparecem entre os candidatos a quebrar essa hegemonia da geração anterior. No meio do caminho, está Dominic Thiem, já com seus 26 anos e também forte concorrente em quase todo torneio que disputar.

Medvedev é número 4 do mundo e tenta fazer mais um bom Grand Slam depois de ter sido finalista do US Open. O russo de 23 anos estreia contra o norte-americano Frances Tiafoe. Seu caminho tem nomes Jo-Wilfried Tsonga na terceira rodada e Stan Wawrinka nas oitavas. No mesmo quadrante está Zverev, sétimo colocado, que costuma sofrer em fases iniciais de Grand Slam e estreia contra o italiano Marco Cecchinato. O alemão de 22 anos pode ter trabalho caso cruze o caminho do russo Andrey Rublev nas oitavas.

Já do outro lado da chave está Stefanos Tsitsipas, grego de 21 anos e número 6 do mundo, que tem no caminho nomes como Milos Raonic e Roberto Bautista Agut antes de um possível duelo com Novak Djokovic nas quartas. Lembrando que Tsitsipas já teve um grande resultado em Melbourne no ano passado, quando foi semifinalista, e defende 720 pontos no ranking.

OS JOVENS NA ROTA DOS FAVORITOS

Dayana Yastremska (19 anos, 24ª do ranking, Ucrânia)Dayana Yastremska contratou ex-técnico de Naomi Osaka e começou bem a temporada

Um nome a ser observado com atenção na Austrália é o de Dayana Yastremska. A jovem ucraniana de 19 anos chegará a Melbourne como integrante do top 20, depois de ter alcançado a final do Premier de Adelaide nesta semana, passando por nomes como Angelique Kerber e Aryna Sabalenka. Yastremska já tem três títulos de WTA e trouxe para essa temporada o treinador alemão Sascha Bajin, que estava ao lado da atual campeã Naomi Osaka na edição passada do Grand Slam australiano.

A ucraniana estreia contra uma adversária vinda do quali. Na sequência, pode cruzar o caminho da campeã de 2018 Caroline Wozniacki. Caso supere a dinamarquesa, que disputa seu último torneio como profissional, teria boas chances de chegar às oitavas e reencontrar Serena Williams. No ano passado, a ucraniana perdeu para Serena na terceira fase da competição.

Andrey Rublev (22 anos, 18º do ranking, Rússia)
O começo de temporada de Andrey Rublev é perfeito até aqui. Com título em Doha e uma vaga na final de Adelaide, o russo de 22 anos acumula sete vitórias consecutivas e está com o melhor ranking da carreira. Favorito contra o sul-africano Lloyd Harris neste sábado, Rublev tem chance de chegar a Melbourne embalado por dois títulos seguidos.

A estreia de Rublev será contra o anfitrião Christopher O’Connell. A chave do russo é convidativa. Na segunda rodada, ele pode enfrentar o jaopnês Yuichi Sugita ou um rival vindo do quali. O cabeça de chave mais próximo é o belga David Goffin. Já o alemão Alexander Zverev seria um possível adversário nas oitavas.

Denis Shapovalov (20 anos, 13º do ranking, Canadá)Com apenas 20 anos, Denis Shapovalov vive o melhor momento da carreira

Destaque das boas campanhas do Canadá na Copa Davis de 2019 e na ATP Cup de 2020, Denis Shapovalov faz um começo de ano animador. Ele já derrotou dois top 10, Tsitsipas e Zverev. Além de ter travado duelos equilibrados com Alex de Minaur e Novak Djokovic na primeira competição da temporada. A boa fase de Shapovalov já vem desde o ano passado, com o título do ATP 250 de Estocolmo e a chegada à final do Masters 1000 de Paris. O canhoto canadense também tem mostrado muita qualidade no saque nos momentos decisivos das partidas.

O número 13 do mundo estreia contra o húngaro Marton Fucsovics, 66º do ranking. Se vencer, pode ter um duelo da nova geração contra o italiano de 18 anos e 79º colocado Jannik Sinner, revelação da última temporada e que encara um atleta vindo do quali na primeira rodada. Shapovalov ainda  pode ter um duelo de backhands de uma mão contra Grigor Dimitrov na terceira fase, antes de um eventual encontro com Roger Federer nas oitavas.

Sofia Kenin (21 anos, 15ª do ranking, Estados Unidos)
Eleita a jogadora que mais evoluiu no circuito durante a última temporada, Sofia Kenin saltou do 48º para o 12º lugar do ranking ao longo de 2019 e chegará ao Australian Open ocupando a 15ª colocação. A jovem norte-americana de 21 anos já chegou três vezes à terceira rodada do US Open, mas nunca passou da segunda rodada em Melbourne.

Kenin estreia contra uma jogadora vinda do qualificatório e tem na compatriota Sloane Stephens, que não começou bem o ano, a cabeça de chave mais próxima. Nesse cenário, são grandes as chances de um confronto contra a atual campeã Naomi Osaka nas oitavas de final. Elas se enfrentaram na semana passada em Brisbane, com vitória da japonesa em três sets.

Felix Auger-Aliassime (19 anos, 22º do ranking, Canadá)
Outro bom nome da nova geração canadense é Felix Auger-Aliassime. O jogador de 19 anos não foi bem na ATP Cup, onde venceu apenas uma partida, mas se recuperou na última semana em Adelaide. Aliassime venceu dois jogos seguidos e fez uma boa semifinal contra Andrey Rublev no último torneio preparatório.

Ele estreia contra um jogador vindo do quali e depois pode enfrentar o australiano James Duckworth ou o esloveno Aljaz Bedene. O cabeça de chave mais próximo é o francês Gael Monfils, décimo favorito, e possível adversário em eventual terceira rodada. Caso chegue às oitavas de final em um Grand Slam pela primeira vez, o canadense pode cruzar o caminho do número 5 do mundo Dominic Thiem.

Elena Rybakina (20 anos, 30ª do ranking, Cazaquistão)
Jovem cazaque de 20 anos, Elena Rybakina iniciou a temporada com o vice-campeonato do WTA de Shenzhen, o que a ajudou a ser cabeça de chave no Australian Open. Nesta semana, ela alcançou mais uma final, agora em Hobart, que dá ainda mais confiança para ter um bom resultado em Melbourne.

Rybakina ainda busca sua primeira vitória em chaves principais de Grand Slam, depois de ter atuado apenas em Roland Garros e no US Open do ano passado. Ela estreia contra a norte-americana Bernarda Pera e depois encarar a bielorrussa Aliaksandra Sasnovich. A maior expectativa, entretanto, é por um desafio real à número 1 Ashleigh Barty na terceira rodada.

Casper Ruud (21 anos, 46º do ranking, Noruega)Casper Ruud venceu dois jogadores do top 20 na ATP Cup. Ele pode cruzar o caminho de Zverev

Principal nome da equipe norueguesa na ATP Cup, Casper Rudd começou ano vencendo dois integrantes do top 20, o norte-americano John Isner e o italiano Fabio Fognini. Ainda que seu país não tenha passado da fase de grupos em Perth, as vitórias dão bastante confiança para um bom resultado em Grand Slam. Até hoje, Ruud só venceu quatro jogos em torneios deste porte, com destaque para a campanha até a terceira rodada de Roland Garros no ano passado.

Além da estreia contra o bielorrusso Egor Gerasimov, 98º do ranking, Ruud tem a favor o fato de estar na rota de cabeças de chave instáveis. O norueguês pode cruzar o caminho do número 7 do mundo Alexander Zverev na segunda rodada. Caso consiga sua primeira vitória contra top 10, sua principal ameaça até as oitavas seria o georgiano Nikoloz Basilashvili. Só então, poderia cruzar o caminho de Andrey Rublev.

Coco Gauff (15 anos, 66ª do ranking, Estados Unidos)
Sensação da temporada passada depois de saltar mais de 800 posições no ranking, Coco Gauff inicia o terceiro Grand Slam de sua promissora carreira com grandes expectativas. Afinal, ela já tem campanhas até as oitavas de final de Wimbledon e terceira rodada do US Open. Além disso, aparece entre as cem melhores do mundo, tem um título de WTA e uma vitória contra a top 10 Kiki Bertens no currículo.

Logo na primeira rodada, Gauff irá reencontrar Venus Williams. Foi contra Venus, aliás, que a promessa norte-americana deu mostras de seu enorme potencial ao eliminar a ex-número 1 do mundo na primeira rodada de Wimbledon do ano passado. A favor de Gauff também está o fato de Venus ter desistido de jogar em Brisbane e Adelaide por lesão no quadril. Caso passe pela estreia, ela pode enfrentar a romena Sorana Cirstea ou a tcheca Barbora Strycova.

Já em uma possível terceira rodada, há chance de uma revanche contra Osaka, que foi sua algoz em Nova York. Na ocasião, Gauff e Osaka protagonizaram um dos momentos mais emocionantes da temporada, quando a japonesa consolou sua jovem rival e exigiu aplausos para a jogadora que tem grandes chances de se tornar uma estrela do esporte em um futuro próximo.

Com jovens promessas, China busca nova campeã de Grand Slam
Por Mario Sérgio Cruz
janeiro 7, 2020 às 8:23 pm
Xiyu Wang (à esquerda) e Xinyu Wang conquistaram o título juvenil de Wimbledon em 2018 e estão próximas do top 100 (AELTC/Anthony Upton)

Xiyu Wang (à esquerda) e Xinyu Wang conquistaram o título juvenil de Wimbledon em 2018 e já estão próximas do top 100 entre as profissionais (AELTC/Anthony Upton)

O tênis feminino ganhou força no mercado chinês nos últimos anos. E muito disso se deve às conquistas de Na Li, que impulsionaram o esporte no país mais populoso do mundo. Os dois reflexos mais claros são os vários torneios realizados em solo chinês durante o ano e grande número de jogadoras do país atuando em alto nível. Campeã de Roland Garros em 2011 e do Australian Open em 2014, Li já afirmou recentemente que espera ver uma nova chinesa conquistando um título de Grand Slam em até cinco anos. Atualmente, as duas principais apostas são jogadoras de 18 anos e de nome parecido, Xiyu Wang e Xinyu Wang.

Xiyu Wang é a atual 140ª colocada do ranking e chama atenção por ser uma jogadora canhota, algo pouco comum entre as asiáticas. Já Xinyu Wang ocupa o 153º lugar. No circuito juvenil, a canhota foi número 1 do mundo na categoria e conquistou o US Open em 2018. Já a destra ocupou a vice-liderança do ranking. Jogando juntas, ganharam o torneio júnior de Wimbledon há um ano e meio. As duas disputam nesta semana o WTA de Shenzhen, um dos nove torneios da elite do circuito realizados no país. A competição logo na abertura da temporada tem o comando de um brasileiro, Luiz Carvalho, que é diretor do Rio Open e também do torneio chinês.

Ambas nascidas em 2001, as duas jovens chinesas tinham cerca de dez anos quando Na Li venceu seu primeiro título de Grand Slam e não escondem a enorme admiração pela ex-número 2 do mundo e integrante do Hall da Fama do Tênis. Li parou de jogar em 2014.

“As conquistas da Na Li me deram muito incentivo, porque geraram mais atenção ao tênis chinês. Isso criou mais oportunidades e melhores recursos para que pudéssemos competir contra as jogadoras de alto nível”, disse Xiyu Wang, em entrevista ao TenisBrasil. Sua colega, Xinyu, pensa parecido. “Ela é um grande exemplo e um modelo para mim. Eu vejo que eu posso conquistar o que ela conquistou e isso me inspira muito”.

Na Li foi a primeira jogadora chinesa a conquistar um título de Grand Slam, em 2011. Na época, as duas atuais promessas tinham só dez anos.

Na Li foi a primeira jogadora chinesa a conquistar um título de Grand Slam, em 2011. Na época, as duas atuais promessas tinham só dez anos.

No caso específico do Xiyu Wang, há uma grande expectativa da própria Na Li, que indicou a canhota como uma possível sucessora. Mas a jogadora de 18 anos e que treina em Barcelona não se sente pressionada por isso.

“Preciso valorizar a chance que estou tendo e aproveitar cada oportunidade tiver para que, passo a passo, eu possa conseguir um grande feito”, explicou a tenista, que também comentou sobre sua rara condição de canhota. “Quando eu estava começando a jogar, meu primeiro técnico disse: Vamos ver qual mão você usa com mais frequência. Depois de um mês, ele descobriu que eu usava muito a minha mão esquerda, então acabei jogando assim”.

Nove torneios e quatro jogadoras no top 50
A China é o país que mais recebe etapas no calendário do tênis feminino, incluindo o WTA Finals, e conta com torneios de todos os níveis do circuito. Com tantos eventos, jovens atletas do país acabam ganhando convites para disputar essas competições e ganham experiência. Atualmente, quatro jogadoras chinesas estão entre as 50 melhores do mundo. Qiang Wang está no 28º lugar, Shuai Zhang é a número 40, Saisai Zheng está na 42ª posição, enquanto Yafan Wang é a 50ª colocada. Apenas os Estados Unidos, com sete jogadoras, tem mais nomes no top 50.

“É incrível que nós, chinesas, tenhamos essas oportunidades de competir contra jogadoras de alto nível e vivenciar mais de perto o tênis profissional”, disse Xiyu Wang sobre o grande número de eventos no país. “Acho ótimo que a China desenvolva uma cultura de tênis e melhore seu nível de um modo geral, para que o tênis possa se tornar um dos esportes mais populares daqui. Não apenas no nível profissional, mas também no nível de base”, explica a jovem jogadora, que estreou em Shenzhen vencendo a romena Sorana Cirstea, 74º do ranking, por 3/6, 6/1 e 6/1.

Por sua vez, Xinyu Wang acabou sendo eliminada na estreia, superada pela ex-número 1 do mundo Garbiñe Muguruza por 3/6, 6/3 e 6/0. “É bom poder enfrentar todas essas grandes jogadoras. Temos muita sorte de poder ter tantos torneios na China. É uma grande experiência para nós”, afirmou. “Acho ótimo para nós que tenhamos outras chinesas jogando cada vez melhor. Isso me encoraja e nos dá mais oportunidades, porque há a cada vez mais torneios em nosso país”, comenta a jovem chinesa.

No ano passado, ela enfrentou outro ícone do esporte em Shenzhen, mas abandonou por câimbras o jogo contra Maria Sharapova. “Foi ótimo enfrentar uma das melhores jogadoras do mundo. Ela é uma ótima pessoa, veio até mim, perguntou como eu me sentia e me deu bons conselhos. Espero um dia ser uma grande jogadora como ela”.

Premiações recorde na China
Outro fator que chama muita atenção quando se fala em tênis feminino na China são as premiações em dinheiro. O último WTA Finals, torneio entre as oito melhores jogadoras da temporada, foi realizado em outubro em Shenzhen e distribuiu US$ 14 milhões em oito dias de competição. O prêmio para a campeã de simples Ashleigh Barty foi de US$ 4,42 milhões, um recorde do tênis profissional entre homens e mulheres. Como Barty teve três vitórias e uma derrota, perdeu a chance de ganhar ainda mais. Uma eventual campeã invicta receberia US$ 4,72 milhões.

Outros dois grandes eventos realizados na China foram os torneios de nível Premier em Pequim e Wuhan. O torneio na capital chinesa distribuiu US$ 8,28 milhões, sendo US$ 1,5 milhão só para a campeã Naomi Osaka. Já o torneio de Wuhan, foram distribuídos US$ 2,8 milhões e a vencedora Aryna Sabalenka levou sozinha US$ 520 mil.

Até mesmo nas competições de nível International, como é o caso do torneio desta semana em Shenzhen, a premiação fala alto na disputa por jogadoras de alto nível. O evento na China distribui US$ 775 mil, sendo US$ 175 mil só para a campeã. Na mesma semana, Auckland recebe um torneio do mesmo porte com um orçamento mais enxuto. São distribuídos US$ 251 mil, com a campeã recebendo US$ 43 mil. Nas duas competições, as campeãs ganham os mesmos 280 pontos no ranking mundial.

Dez jovens tenistas para assistir em 2020
Por Mario Sérgio Cruz
dezembro 20, 2019 às 11:37 am

Pelo terceiro ano consecutivo, o TenisBrasil apresenta uma lista com dez jovens tenistas que podem surpreender na próxima temporada. Assim como em anos anteriores, a relação não considera nomes da nova geração que já estejam consolidados no circuito. É mais do que óbvio que nomes como Bianca Andreescu, Naomi Osaka, Stefanos Tsitsipas ou Alexander Zverev exigem a atenção de todos os fãs de tênis em 2020.

No entanto, é importante observar alguns tenistas que estão fora do top 50, mas em franca evolução nos circuitos da ATP e da WTA. Há ainda aqueles que estão na reta final da transição do juvenil para o tênis profissional, trilhando o caminho dos torneios menores. Atualmente, não é difícil encontrar formas de acompanhar praticamente qualquer partida do circuito e alguns jogadores certamente merecem ser vistos com mais afinco.

Para conferir as matérias de 2018 e 2019 basta clicar nos links. As listas já contavam com os nomes de Bianca Andreescu, Amanda Anisimova, Dayana Yastremska, Coco Gauff e Felix Auger-Aliassime, que hoje brilham na elite do circuito.

Coco Gauff (15 anos, 68ª do ranking, Estados Unidos)
Não há dúvidas sobre enorme potencial de Coco Gauff. A norte-americana de apenas 15 anos foi uma das revelações da temporada, saltando do 839º lugar do ranking para a atual 68ª colocação. Gauff cumpriu a ambiciosa meta de alcançar o top 100 em 2019 com ótimos resultados ao longo do ano, como as oitavas de final de Wimbledon, a terceira rodada do US Open e o título do WTA de Linz, em quadras duras e cobertas. Ela também já derrotou uma top 10, a número 8 do mundo Kiki Bertens. Em 2020, Gauff não dependerá de tantos convites e deve entrar diretamente nas chaves dos maiores torneios com chances de se surpreender ainda mais que na última temporada.

Jannik Sinner (18 anos, 78º do ranking, Itália)
Escolhido o novato do ano pela ATP, o italiano Jannik Sinner é o jogador mais jovem no top 100 do ranking masculino. Ele começou a temporada no 551º lugar do ranking e já aparece atualmente na 78ª colocação. Entre os feitos de Sinner na última temporada estão três títulos de challenger, uma semifinal de ATP na Antuérpia e o título do Next Gen ATP Finals, em Milão. O jovem italiano também conseguiu uma expressiva vitória sobre Gael Monfils, então número 13 do mundo.

Iga Swiatek é um dos destaques da nova geração feminina em 2019

Iga Swiatek (18 anos, 60ª do ranking, Polônia)
Outro nome que já está no top 100, mas que ainda tem muito a evoluir é Iga Swiatek. Campeã juvenil de Wimbledon no ano passado, a polonesa teve uma rápida e bem sucedida transição ao circuito profissional. Dona de um estilo de jogo versátil, ela começou a temporada na 186ª colocação do ranking da WTA, mas já aparece na 60ª posição, chegando a ocupar o 49º posto em agosto. Swiatek já tem um bom resultado em Grand Slam, oitavas de final em Roland Garros, além de ter disputado uma final de WTA em Lugano, na Suíça.

Emil Ruusuvuori (20 anos, 123º do ranking, Finlândia)
O jovem finlandês Emil Ruusuvuori foi um dos recordistas de títulos de challenger na temporada. O atleta de 20 anos venceu quatro torneios deste porte e, com isso, saltou do 385º para o 123º lugar do ranking. Ruusuvuori foi campeão em Helsinque, Glasgow, Mallorca e Fergana, além de ter ficado com o vice-campeonato no challenger de Augsburg. Além do finlandês, o sueco Mikael Ymer, o lituano Ricardas Berankis e o australiano James Duckworth também venceram quatro challengers no ano.

Cathy Mcnally (18 anos, 120ª no ranking, Estados Unidos)
A norte-americana Cathy Mcnally iniciou 2019 no 408º lugar do ranking e terminou na 120ª posição. A jogadora de apenas 18 anos venceu 26 jogos pelo circuito profissional ao longo da temporada, com destaque para uma semifinal de WTA em Washington, além de um título e um vice-campeonato em torneios de US$ 100 mil no circuito da ITF. McNally também teve grandes resultados nas duplas, conquistando dois títulos de WTA com a compatriota Coco Gauff.

Thiago Wild (19 anos, 212º do ranking, Brasil)
Terceiro melhor brasileiro no ranking da ATP e atleta nacional mais jovem entre os 500 melhores do mundo, Thiago Wild venceu 31 jogos de challenger na temporada, com direito a um título em Guayaquil, e também conseguiu sua primeira vitória no circuito da ATP em São Paulo. O paranaense de 19 anos e que adota um estilo de jogo agressivo iniciou a temporada no 449º lugar do ranking da ATP e já aparece na 212ª colocação.

Ex-líder do ranking juvenil, Whitney Osuigwe é a mais jovem da chave feminina, com 16 anos.

Whitney Osuigwe (17 anos, 137ª no ranking, Estados Unidos)
Ex-líder do ranking mundial juvenil, Whitney Osuigwe é considerada uma das principais promessas do tênis norte-americano. Ela foi campeã juvenil de Roland Garros em 2017, com apenas 15 anos, e deu um salto no ranking da WTA durante o ano passado. Em 2018, Osuigwe foi do 1.120º lugar para a 202ª posição. Já na atual temporada, chegou a ocupar a 105ª colocação em agosto, mas termina o ano no 137º lugar. É uma forte candidata a entrar no top 100 já em 2020.

Leylah Fernandez (17 anos, 211ª no ranking, Canadá)
Atual campeã juvenil de Roland Garros, a canadense de 17 anos Leylah Fernandez já está em processo de transição para o circuito profissional. Ela iniciou a temporada no 434º lugar do ranking da WTA e já está muito próxima do top 200. Este ano, Fernandez ganhou seu primeiro título profissional em ITF de US$ 25 mil de Gatineau, além de também ter feito boas campanhas em Granby e Vancouver e de furar um quali de WTA em Hiroshima.

Daria Snigur (17 anos, 237ª no ranking, Ucrânia)
A promissora ucraniana Daria Snigur conquistou o título juvenil de Wimbledon e terminou a temporada em grande estilo. Ela venceu seis jogos seguidos pelo ITF de US$ 100 mil+H de Dubai na semana passada e foi desde o quali até a final do torneio. Duas dessas vitórias foram contra adversárias do top 100, a 95ª colocada Anastasia Potapova e a ex-top 10 e atual 38ª do ranking Kristina Mladenovic. A campanha rendeu um salto do 328º para o 237º lugar na classificação da WTA. No início do ano, ela era apenas a número 752 do mundo.

Carlos Alcaraz Garfia (16 anos, 491º no ranking, Espanha)
O jovem espanhol Carlos Alcaraz Garfia conseguiu uma façanha em 2019. Ele tinha apenas 15 anos quando conseguiu suas primeiras vitórias contra adversários no top 200 do ranking da ATP. Atleta mais jovem no top 500 e treinado pelo ex-número 1 Juan Carlos Ferrero, Alcaraz estará no Brasil para a disputa do Rio Open em 2020.

Nomes já consolidados

Entre os jovens tenistas já consolidados no circuito masculino, vale destacar o nome de Alex De Minaur. O australiano de apenas 20 anos ganhou três títulos de ATP em 2019 e já aparece no 18º lugar do ranking mundial. Sempre consistente do fundo de quadra, tem potencial para ir ainda mais longe no ranking e também nos grandes torneios. Os promissores canadenses Denis Shapovalov, número 15 do mundo aos 20 anos, e Felix Auger-Aliassime, 21º colocado aos 19, também são candidatos a títulos na próxima temporada.

Já no sempre equilibrado circuito feminino, a ucraniana Dayana Yastremska chega muito forte para a próxima temporada. A jovem ucraniana de 19 anos já ocupa o 22º lugar do ranking e tem três títulos de WTA no currículo. Ela reforçou sua equipe com o treinador alemão Sascha Bajin, eleito o melhor técnico da temporada de 2018.

Vale destacar também duas jogadoras que fizeram bonito no saibro, a canhota tcheca de 19 anos e finalista de Roland Garros Marketa Vondrousova (16ª do ranking) e a norte-americana de 18 anos e 24ª colocada Amanda Anisimova, semifinalista do Grand Slam francês. Outra jovem norte-americana que chega em ótima fase para 2020 é Sofia Kenin, 14ª do ranking aos 21 anos.

Klier tenta superar lesões para seguir evoluindo
Por Mario Sérgio Cruz
dezembro 6, 2019 às 11:39 am
Klier venceu 34 jogos no ano e conseguiu seu primeiro título (Foto: João Pires/Fotojump)

Klier venceu 34 jogos no ano e conseguiu seu primeiro título (Foto: João Pires/Fotojump)

Depois de figurar entre os dez melhores do mundo no circuito juvenil, Gilbert Klier Júnior encerra sua primeira temporada no circuito profissional com um salto significativo no ranking em relação ao ano passado. Há doze meses, ele tinha apenas quatro vitórias no circuito e ocupava o 1.283º lugar. Mas desde a última segunda-feira, o brasiliense de 19 anos já aparece na 543ª colocação, melhor marca de sua carreira.

Ao longo da temporada, Klier conseguiu 34 vitórias e 17 derrotas em torneios profissionais de nível future. Ele conquistou seu primeiro título nas quadras duras de Akko, em Israel, e disputou outras três finais. Também jogou sua primeira partida de nível challenger, em Campinas.

Klier poderia ter evoluído ainda mais se não fossem as lesões. Neste ano, precisou ficar quase três meses afastado, entre julho e outubro, por conta de um problema no pé. Já na semana passada, durante a Maria Esther Bueno Cup, em São Paulo, ele sentiu lesão no menisco do joelho direito e precisou abandonar a competição que valia vaga no Rio Open de 2020. O brasiliense já havia tido outros problemas físicos no ano passado. O primeiro, no joelho, o fez iniciar a temporada apenas em março. Já o segundo, no ombro esquerdo, o obrigou a desistir do torneio juvenil de Roland Garros.

“Acredito que se não tivesse sofrido essa lesão eu já estaria com um ranking melhor e poderia jogar challengers no começo do ano que vem”, disse Klier ao TenisBrasil, a respeito da recente lesão no pé. “É claro que é importante ganhar, somar pontos e subir no ranking, mas o que vale agora é voltar a jogar bem e competir num bom nível que os resultados virão automaticamente. É importante é estar com a cabeça firme e saber que vou perder alguns jogos por falta de ritmo. Mas no meio do ano que vem, acho que já vou estar nos challengers”.

O jovem jogador também falou sobre uma cenário bastante comum nos torneios future, que oferecem as mínimas pontuações e premiações no circuito profissionais. Alguns hotéis acabam sediando vários campeonatos em semanas consecutivas, atraindo os jogadores para longas sequências de competições no mesmo espaço. Em 2019, Klier passou quatro semanas na Turquia, três no Egito e outras três na Nigéria, além de também ter atuado em países como a Tunísia e Israel.

“É claro que se você passa duas ou três semanas no mesmo lugar é mais difícil. Mas a gente tem que passar por esse nível mesmo. Não tem o gasto com passagens toda semana. Então, você só paga o hotel e fica, sim, mais barato”, explicou. “A estrutura desses resorts costuma ser boa, mas normalmente as quadras é que não são muito boas. Mas é o que tem. Então a gente precisa fazer um esforço para sair mais rápido dali”.

Confira a entrevista com Gilbert Klier Júnior.

Queria que você avaliasse como foi esse primeiro ano só de circuito profissional. Você ganhou 34 jogos, chegou em quatro finais e ganhou um título. O quanto isso foi diferente em relação ao que você estava acostumado no juvenil?
O meu primeiro ano no profissional, avaliando assim no geral, foi bom. Tive uma lesão no pé que me deixou uns três meses parado. Isso me fez ter que voltar e pegar o ritmo de novo, então atrasou um pouco, mas acredito que se não tivesse sofrido essa lesão eu já estaria com um ranking melhor e poderia jogar challengers no começo do ano que vem.
O nível é muito parecido em questão de tênis e jogabilidade. A única diferença é que você enfrenta caras mais velhos, mais experientes e que entendem mais do jogo. Isso que torna o jogo mais difícil. Então é importante estar com a parte mental bem firme para encarar esses caras que têm mais experiência que a gente que está entrando no circuito agora.

A lesão no pé aconteceu quando?
Eu me machuquei pouco depois de ganhar meu primeiro torneio em Israel, quando eu fui para Portugal. Tentei jogar, porque a gente achou que não fosse nada, mas aí não melhorava e acabou demorando três meses até eu voltar a jogar.

Você voltou a jogar quando depois da lesão?
Depois da lesão, eu joguei um torneio de US$ 25 mil no Rio.

– Isso lá para o final de setembro, começo de outubro…
Isso. Aí depois, vim aqui para São Paulo e joguei um torneio no Paineiras, que foi um pouco melhor, mas eu infelizmente acabei passando mal nas quartas contra o Matos e tive que desistir, mas já foi um torneio melhor. Depois fui para a Turquia e agora estou aqui. Voltei faz um mês e meio, eu acho. Por aí.

O que aconteceu lá no Paineiras que você passou mal?
Então, foi do nada. Acho que foi alguma coisa que eu comi antes do jogo, eu não sei. Eu estava jogando e comecei a passar mal, fiquei tonto. A visão ficava preta, assim, mas foi um mal estar. Não foi nada relacionado à lesão.

Como você ainda está um pouco longe dos challengers, seu planejamento para o começo de 2020 é fazer giras longas de futures, como você já fez, ou tentar em ir para os Estados Unidos ou Europa?
Primeiro, o mais importante é voltar a ter ritmo de jogo. É claro que é importante ganhar, somar pontos e subir no ranking, mas o que vale agora é voltar jogar bem e competir num bom nível que os resultados nos torneios virão automaticamente. É estar com a cabeça firme e saber que vou perder alguns jogos por falta de ritmo. Mas no meio do ano que vem, acho que já vou estar nos challengers. É a meta, eu acho. Terminar o ano com um ranking bom para se manter nos challengers.

Lá no Rio, você treina com o [Thiago] Wild e com o [Pedro] Sakamoto. O [Thiago] Monteiro também treinou lá até pouco tempo atrás, antes de ir para a Argentina. O quanto é importante ter esses caras perto?
É sempre importante ter esses caras treinando com você. Ainda mais que isso te puxa e você acaba aprendendo também. Um aprende com o outro. E é muito importante ter jogadores nesse nível no mesmo centro de treinamento para dividir a convivência no tênis e na academia.

Você já chegou a treinar com algum outro cara acima até deles nos torneios?
Já treinei com o Malek Jaziri, que deve ter sido 40 do mundo [O melhor ranking do tunisiano foi o 42º lugar, em janeiro deste ano]. Treinei com o [Jaume] Munar e também com o Thomaz [Bellucci] e praticamente todos os brasileiros.

Com o Jaziri foi em alguma dessas giras de torneios pela Tunísia?
Na verdade, foi em um challenger. Quando o Monteiro ainda estava na Tennis Route [equipe de treinamento do Rio de Janeiro] e eu fui lá com ele, porque estava na Europa e era semana que eu não tinha torneio. Fui para treinar uma semana com o Monteiro e acabei treinando com ele também.


Ver essa foto no Instagram

@gilbertklier e @p.saka conquistam títulos em Israel e na Espanha 🏆🎾 Atletas do Instituto Tennis Route, Gilbert Klier Jr. E Pedro Sakamoto conquistaram, neste domingo, títulos em torneios profissionais futures em Israel e na Espanha. Klier Jr. , bronze nos Jogos Olímpicos juvenis ano passado em Buenos Aires, conquistou seu primeiro título profissional no torneio de Akko , em Israel , evento com premiação de US$ 15 mil disputado no piso duro. Klier derrotou o sexto favorito, o local Yshai Oliel por 2 sets a 1 de virada com parciais de 46 64 61. Em Huelva, na Espanha, torneio com premiação de US$ 25 mil, Pedro Sakamoto marcou 62 26 76 (72) diante do chileno Bastian Malla em final também neste domingo. #tennisroute

Uma publicação compartilhada por Tennis Route (@tennisroute) em

Nessas giras que você fez mais longas, na Turquia, no Egito, na Tunísia ou na Nigéria, às vezes você fica várias semanas no mesmo local. Como é lidar com esse ambiente?
No caso do Egito e da Turquia, sim, porque os torneios são no mesmo clube. Uma semana atrás da outra. Da Nigéria também foi um seguido do outro, mas são três semanas só. Nesse de Israel, onde eu ganhei meu primeiro título, foram duas semanas lá e depois já fui para Portugal. Aí era um torneio em cada lugar.

Mentalmente, é muito difícil ficar muitas semanas jogando no mesmo lugar?
No início era bem difícil, mas agora eu já me acostumei e é mais tranquilo. É claro que se você passa duas, três semanas no mesmo lugar, é mais difícil.

Já ouvi jogadores falarem que você acaba enfrentando sempre os mesmos adversários e tendo os mesmos árbitros em todos os jogos…
É difícil, mas é o que temos para fazer. A gente tem que passar por esse nível mesmo.

Qual é parte boa e ruim dessas giras longas, em termos de custo e de estrutura?
A estrutura desses resorts, que recebem torneios o ano inteiro, é sempre muito boa. Normalmente você tem de tudo, a comida é boa e a academia tem uma estrutura legal. Mas normalmente as quadras é que não são muito boas, mas é o que tem. Então a gente precisa fazer um esforço para sair mais rápido dali.

Em termos de custo é melhor fazer isso do que ficar viajando?
Acho que é, porque não tem o custo de passagem toda semana. Então, você só paga o hotel. Agora na Turquia, eu só peguei um voo para ir e outro para voltar. Não precisava ficar mudando de cidade o tempo inteiro. Então é mais barato, sim.

O torneio oferece alguma coisa com relação ao hotel? Por exemplo, quem está no torneio não paga enquanto estiver na chave e tal…
Não, nesses futures de US$ 15 mil, não. O torneio arranja desconto para os jogadores. A partir dos torneios US$ 25 mil+H que pagam o hotel e alguns pagam alimentação. E agora, se não me engano, todos os challengers dão hospedagem.

Não é como no juvenil, quando você tem tudo enquanto estiver na chave.
É, lá tinha tudo. Hospedagem, alimentação e o transporte.

Reis aprende com ídolos e é firme contra o racismo
Por Mario Sérgio Cruz
dezembro 4, 2019 às 11:48 am
João Reis tem dois títulos neste início de carreira profissional (Foto: Fotojump)

João Reis tem dois títulos neste início de carreira profissional (Foto: Fotojump)

Com apenas 19 anos, o jovem pernambucano João Reis ainda inicia sua trajetória no tênis profissional depois de encerrar o ciclo no circuito juvenil na temporada passada. Reis já tem dois títulos no circuito profissional da Federação Internacional, o mais recente conquistado no início de novembro no México, e ocupa o 556º lugar no ranking da ATP depois de ter figurado entre os 30 melhores juvenis do mundo no ano passado. Apesar da pouca idade, ele fala sobre temas de dentro e fora de quadra, como família, racismo, os ídolos e a admiração por outros jogadores negros e os desafios no aspecto mental do jogo.

Natural do Recife, Reis começou a jogar tênis com apenas quatro anos, disputa torneios desde os 10 anos e se mudou para São Paulo aos 13, treinando por cinco meses em São José dos Campos antes de ser aprovado em um teste para o Instituto Tênis, de Barueri. Os primeiros passos em quadra foram influenciados seu irmão mais velho, Gabriel, hoje com 25 anos, e que parou de jogar ainda muito novo. “Ele jogou até os 15 anos, chegou a participar de alguns torneios lá do Nordeste, mas ele só jogou isso e resolveu seguir outra carreira”, disse João Reis, em entrevista ao TenisBrasil durante a Maria Esther Bueno Cup, disputada em São Paulo, ao longo da última semana.

A admiração pelo irmão já havia sido expressada em entrevistas anteriores. “Comecei a jogar tênis por influência do meu irmão. Ele também jogava o circuito juvenil e eu o admirava muito, queria ser como ele”, afirmou em janeiro de 2018. Ainda que o tenista esteja em São Paulo há mais de cinco anos, parte de sua família continua em Pernambuco. “Demorei um pouco para me adaptar. Acho que exigiu muita força de vontade”, comentou durante a temporada passada. “Tento ir bastante para Recife, mas são eles que vêm mais para cá. Eu também tenho duas tias que moram em São Paulo e a família inteira do meu pai é daqui de São Paulo, então isso me ajuda bastante. Posso dizer que estou 100% adaptado”.

Reis também se mostrou solidário ao colega de circuito Christian Oliveira, carioca de 19 anos e que denunciou o adversário chileno Bastian Malla por racismo, em jogo válido pela semifinal de duplas de um torneio ITF disputado na capital paulista em outubro. Na época, a organização do torneio afirmou que nem o árbitro ou um dos outros jogadores em quadra teria escutado a ofensa e que não foi possível identificar o ato a partir das imagens da transmissão do jogo por streaming. Por esse motivo, não houve punição ao chileno, que negou ter ofendido Oliveira e terminou a semana como campeão de simples no torneio.

“É lamentável isso o que aconteceu com o Christian. Até conversei com ele. Nos dias de hoje é lamentável que ainda tenham casos de racismo, dentro ou fora de quadra. Também não entendi como não tiveram como punir o jogador, porque acho que bastante gente na quadra escutou”, afirmou o pernambucano, que diz nunca ter passado por situação parecida em quadra e que tem no francês Jo-Wilfried Tsonga, 29º do ranking, um ídolo de infância.

“Eu sempre falei quando eu era criança que o meu maior ídolo era o Tsonga. Até os meus 12 anos, eu idolatrava o Tsonga, e ninguém entendia por que. E talvez seja por esse lado, mas eu ainda não pensava muito nisso porque era muito novo. Mas hoje meu maior ídolo é o [Rafael] Nadal. Ele sai de alguns buracos no meio do jogo e encontra soluções que só ele consegue. É um guerreiro”.

Confira a entrevista com João Reis.

Em primeiro lugar, como você prefere que a gente escreva o seu nome? João Lucas Reis ou João Lucas Reis da Silva ou João Lucas da Silva, por exemplo. A gente vê seu nome escrito de diversas formas.
Eu me acostumei com João Reis quando eu jogo os torneios. Todo mundo me chama de João Reis, então eu me acostumei mais com esse nome.

Você sempre fala que começou a jogar por causa do seu irmão, que também jogava. Ele chegou a disputar torneios e tentar seguir carreira? Como ele está hoje?
Na verdade, ele parou meio cedo. Ele jogou até os 15 anos. Chegou a participar de alguns torneios brasileiros e disputou o circuito Rota do Sol lá do Nordeste, mas ele só jogou isso. Eu também joguei todos esses torneios. Aí ele parou com 15 anos e resolveu seguir outra carreira.

Ele está com quantos anos e faz o que hoje?
Ele está com 25. Hoje ele faz Administração.

E você tem conseguido conciliar os estudos com a carreira no tênis?
Eu terminei o Ensino Médio à distância. Primeiro, segundo e terceiro ano. E comecei no ano passado a cursar Administração, à distância também, na Estácio. O IT (Instituto Tênis) tem parceria com eles e conseguimos algumas bolsas. Aí eu estou cursando Administração.

Queria que você falasse um pouquinho dessa sua primeira temporada só focado no profissional. Você terminou a carreira juvenil no ano passado. O quanto esses dois circuitos são diferentes em termos de bola e na mentalidade dos jogadores? O que você achou?
No ano passado, eu já joguei vários torneios profissionais, no meu último ano de juvenil. Eu consegui meu primeiro título no future de 25 mil de Curitiba. E para mim foi uma bela entrada no circuito, eu me sentia bem confiante para o futuro. E aí, no meio do ano, eu não consegui bons resultados. Passei uns dois ou três meses sem muitos resultados, mas consegui recuperar no fim do ano.
No começo eu sentia mais a parte mental, sentia que os jogadores profissionais me obrigavam a jogar todos os pontos e a me manter um nível alto por mais tempo do que eu era acostumado no juvenil. E eu acabei me acostumando bem com isso. Se eu conseguir manter um bom nível no jogo inteiro, eu consigo criar boas oportunidades de vencer.


Este ano, você fez um bom jogo no challenger de Campinas contra o [Alejandro] González, que é um cara que já foi top 100 e tudo. O quanto aquele jogo te dá confiança, em termos de nível? O quanto você aprendeu com essa partida mesmo tendo perdido?
Foi um jogo bem duro do início ao fim e me motiva bastante. Eu tive minhas chances de quebrar o saque dele e não consegui, mas vendi caro meus games de saque. [A partida terminou com placar de duplo 7/5 para o colombiano de 30 anos, ex-número 70 do mundo] Consegui ver vários jogadores lá, disputando o torneio, o que me motiva estar naquele ambiente. Foi meu primeiro challenger, nunca tinha jogado um antes. E isso só me motiva mais e mais a seguir trabalhando e acreditando no futuro.

Você conseguiu treinar com algum jogador desse nível e que você pudesse tirar alguma coisa boa?
Não, não treinei.

Nas últimas semanas, você conseguiu um título e um vice no México. E jogando na quadra dura. Como você fez para adaptar seu jogo à quadra dura para ter esses bons resultados? E também como foi lidar fisicamente e mentalmente com uma sequência de jogos tão longa?
Bom, eu fiz uma bela gira lá em Cancún. Senti que estava jogando muito bem. Estava bem quente, e os jogos eram bem desgastantes, mas consegui levar isso para o lado positivo. Os outros jogadores não estavam aguentando muito e eu estava aguentando mais que eles. Como eu também estava jogando muito bem, eu me senti bem confiante. Ganhei o primeiro torneio e fiz final no segundo. Acho que foram oito ou nove vitórias seguidas.
E foi ótima essa gira. Eu precisava defender alguns pontos agora em novembro e estava há algum tempo sem muitos resultados. Quando voltei da Europa, fiz uma final lá no Paraguai e vinha me sentindo melhor na quadra. Depois de Campinas, fui para o México jogando super bem. Então estou bem confiante.

Este foi um ano de mudança no ranking. Teve um momento que você chegou a zerar antes da mudança de pontuação. E você conseguiu ficar mais ou menos na mesma posição, em torno de 500. Como foi se projeta a próxima temporada, agora com um calendário um pouco mais estável, sem tanta mudança no circuito?
Eu terminei o ranking como 550, que é exatamente o mesmo do ano passado. Não era o ranking que eu esperava terminar este ano, mas com as mudanças acabou ficando meio esquisito. Minha meta no começo ano era terminar entre 400 e 450, mas não dá para dizer que foi um ano ruim. Consegui aprender bastante. Por mais que eu tivesse altos e baixos, consegui jogar super bem. E, bom, para o ano que vem segue a mesma meta que este ano. Se até o meio do ano eu estiver entre os 450, seria bom para eu ir aos poucos entrando nos challengers.

Você treina junto com o [Matheus] Pucinelli, que é um ano mais novo e terminou a carreira juvenil agora. Vocês conseguem viajar para os mesmos torneios, mesmo com uma diferença de ranking, por enquanto?
Sim, a gente sempre jogou junto, desde o juvenil. No ano passado a gente jogou vários torneios juntos. Provavelmente, no início do ano, vamos fazer as mesmas giras. Ele ainda vai poder usar o ranking juvenil para entrar em alguns torneios. E a ideia é a gente crescer junto.

Com quem que vocês viajam normalmente?
Eu tô viajando mais com o Alan Bachiega, e ele com o Rafael Paciaroni.

 

 

 

Ver essa foto no Instagram

 

ATLETAS DO INSTITUTO TÊNIS SÃO CAMPEÕES EM TORNEIO NA EUROPA Neste Sábado, João Reis(@joaolreis) e Matheus Pucinelli (@matheuspucinelli) se sagraram campeões da chave de duplas do Future M15 de Balatonalmádi, na Hungria. Os atletas foram acompanhados do treinador Rafael Paciaroni. Durante todo o torneio, a dupla do Instituto Tênis fez bons jogos, não perdendo nenhum set na competição. Na final, os brasileiros derrotaram a dupla austríaca formada por Lenny Hampel / Neil Oberleitner por 6-4 7-6(1). O próximo torneio de João e Matheus será o Future 15k de Alkmaar, na Holanda. #institutotenis #itau #vivo #taesa #leideincentivoaoesporte #secretariaespecialdoesporte #fundacaolemann #laatus #aldocomponentes #estacio Uma publicação compartilhada por Instituto Tênis (@institutotenis) em


Este ano, aconteceu um caso lamentável com o Christian em future aqui em São Paulo, que ele denunciou um caso de racismo e estavam até avaliando para ver se tinham como punir o jogador adversário. E ele até falou que já tinha acontecido antes em um torneio juvenil, na Itália. Queria saber se isso já aconteceu com você, tanto dentro da quadra, como fora também?
Comigo nunca aconteceu. É lamentável isso o que aconteceu com o Christian. Até conversei com ele. Nos dias de hoje é lamentável tenham esses casos de racismo, dentro ou fora de quadra. Também não entendi como não tiveram como punir o jogador, porque acho que bastante gente na quadra escutou. É lamentável.

E ainda um pouquinho nesse assunto. O [Felix-Auger] Aliassime falou que se inspirava muito em outros jogadores negros, como o Tsonga e o Monfils. Ele sentia que eles abriram o caminho para ele. Você pensa da mesma forma e os admira? Não apenas com eles, mas admirando também a Serena, a Venus ou a Stephens, por exemplo?
Eu sempre falei quando eu era criança que o meu maior ídolo era o Tsonga. Até os meus 12 anos, eu idolatrava o Tsonga, e ninguém entendia por que, mas eu idolatrava muito ele. E talvez seja por esse lado, mas eu ainda não pensava muito nisso porque era muito novo. Mas hoje meu maior ídolo é o Nadal.

O quanto você acha que pode tirar desses caras, como o Nadal ou Tsonga, para o seu jogo. Na mentalidade, principalmente?
O Nadal, com certeza, na mentalidade. Ele sai de alguns buracos no meio do jogo e encontra soluções que só ele consegue. Não dá nada de graça para o adversário. É um guerreiro.

Em termos de lesão, você teve algum problema físico neste ano ou foi tranquilo?
Foi tranquilo. Na verdade, no future de São Paulo eu senti o joelho. Já estava sentindo há umas duas semanas e piorou lá. Na semana seguinte, eu não consegui treinar direito antes de ir para o México. Treinei meio período, mas consegui me virar lá. Estava jogando bem na quadra rápida. Mas lesão mesmo, não foi quase nada.

Como é nesses ambientes com muitos torneios no mesmo lugar? Por exemplo, além de Cancún, sempre tem bastante torneio na Turquia e na Tunísia, por exemplo. Você enfrenta os mesmos jogadores, tem os mesmos árbitros, fica no mesmo hotel… O quanto isso pode ser bom e o quanto é desgastante?
O único lugar que eu joguei vários seguidos torneios foi lá em Cancún. Eu não achei tão cansativo, porque os donos lá do hotel são muito receptivos com os brasileiros. A dona é brasileira e o marido dela morou 15 anos no Brasil. Então, eles fazem você se sentir em casa. E quando eu joguei foi muito tranquilo. Às vezes eu penso ‘Putz, vou passar seis semanas no mesmo lugar, comendo a mesma comida’, mas lá foi tranquilo. Passou tão rápido que eu não tive essa impressão. Mas acredito que na Tunísia ou no Egito seja bem difícil passar tantas semanas no mesmo lugar.