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Nadal se recusa a abandonar e vence a dor
Por José Nilton Dalcim
6 de julho de 2022 às 20:19

Drama e dor parecem perseguir Rafael Nadal na sua magnifica trajetória nos Grand Slam desta temporada, em que permanece imbatível por 19 jogos em três pisos diferentes. Agora a duas vitórias de mais um feito extraordinário, uma lesão abdominal entrou em cena e o forçou a disputar pelo menos três sets e meio novamente sob efeito de anestésicos e sem condições de sacar bem.

Rafa não atendeu aos apelos do pai e da irmã para que abandonasse a partida contra Taylor Fritz. Contou mais tarde que a ida ao vestiário para a assistência médica pouco resolveu, exceto pelos comprimidos para amenizar a dor. Precisou então mudar o jeito do saque. Ficou clara também a mudança tática, apostando na agressividade e nos pontos curtos. Se é fato que sofreu oito quebras pelo serviço tão mais lento, também somou 56 winners, num repertório vasto de paralelas, cruzadas, curtinhas e voleios.

É compreensível que Nadal tenha considerado, porém recuado de desistir da partida, o que o levou à luta de 4h20. Ele diz que está jogando um tênis excelente, sentindo muito bem a bola, o que é até surpreendente para quem não pisava na grama por três anos. Isso estava evidente no seu começo firme de partida, até perder cinco games seguidos e ficar patente que algo estava errado. Até liderou o começo do segundo set, porém pediu o atendimento no sétimo game depois de salvar uma quebra que seria desastrosa naquela altura.

Claro que Fritz desperdiçou o momento. Ele reconheceu que deixou de ser agressivo e lamentou não ter aproveitado o saque mais lento, explicando que isso acabou exigindo uma amplitude maior de movimento, o que não encontrou a contento. O norte-americano teve sua oportunidade no quarto set e ainda reagiu para empatar por 4/4 no quinto, mas jogou muito mal o tiebreak. “Foi a primeira vez que senti vontade de chorar depois de uma derrota”, revelou. E olha que Fritz havia sofrido outra dura queda para Novak Djokovic no Australian Open do ano passado, quando também viu o adversário com limitações. Que sina a desse rapaz.

Com histórico perfeito de oito vitórias em quartas de final em Wimbledon, Rafa tentará agora sua primeira final em 11 anos. Do outro lado da quadra, estará muito mais que o desafeto Nick Kyrgios, mas um tenista de real capacidade sobre a grama. E é claro Nadal precisará estar 100% fisicamente para aguentar outra batalha física e emocional, ainda que tenha 6 a 3 nos duelos, sendo 1 a 1 em Wimbledon.

Oito anos de espera
Foi justamente a vitória sobre o canhoto espanhol em 2014 que mostrou Kyrgios para o tênis, exibindo um estilo criativo, irreverente e agressivo. Ele chegou naquelas quartas e depois em outra, no Australian Open seguinte, e nunca mais brilhou num Slam. “Achei que minhas chances de alcançar grandes resultados já tinha passado. Sempre me disseram que não tinha capacidade mental, disciplina e físico para isso, e eu mesmo passei a duvidar”, desabafou.

Kyrgios teve uma conduta quase exemplar na partida contra Cristian Garin, sem lances acrobáticos e mínimas discussões com a arbitragem. Talvez fruto do momento especial, mas muito provavelmente também da acusação de violência doméstica a que foi submetido na Austrália. Ele jura que não ficou afetado com a situação e que está proibido pelos advogados de falar qualquer coisa sobre o assunto. E que sentiu muita pressão por ser o favorito em quadra, o que exigiu jogar com seriedade.

Garin surpreendeu outra vez pela qualidade dos golpes de base num piso que dá pouco tempo, especialmente o forehand cruzado. “Vou ter pesadelos com aquelas devoluções” segredou o australiano. Mas no fundo era ilógico que o bom saibrista ganhasse de Kyrgios, que possui arsenal muito mais adequado ao piso. Ainda assim, Garin teve lances preciosos para ganhar o terceiro set, e ainda sacou no tiebreak com 5-4.

Aos 27 anos, Kyrgios é o primeiro australiano numa semi de Slam e de Wimbledon desde Lleyton Hewitt, em 2005. Atual 40º colocado, é também o jogador de mais baixo ranking a chegar tão longe no torneio em 14 temporadas. Ele pode ganhar de Nadal? Claro que sim, e isso nem tem a ver com a lesão do espanhol. Um dos pontos altos do australiano nesta fase de grama, em que foi a todas as semis que disputou, tem sido a devolução. O ‘x’ da questão como sempre está na cabeça, onde Rafa dá de 10 a 0.

Ataque contra defesa
Embora seja um pouco injusto dizer que Simona Halep não esteja se mostrando ofensiva neste Wimbledon, a semifinal desta quinta-feira diante da cazaque Elena Rybakina viverá um certo de clima de ‘ataque contra defesa’.

Com 44 aces no torneio e mais de 200 na temporada, Rybakina usa sua estatura de 1,84m da melhor forma possível. Também não se movimenta nada mal e sabe que trocar muita bola com a campeã de 2019 será uma estratégia perigosa.

Como bem lembrado pela WTA, as duas fizeram o ‘jogo do ano’ na última temporada, num duelo de tirar o fôlego em Dubai, que terminou no tiebreak do terceiro set. No geral, a romena tem 2 a 1 no histórico.

Halep chega cheia de confiança, depois de dominar a jovem Amanda Anisimova, que escapou de levar uma surra quando a romena fez 6/2 e 5/1. Rybakina por sua vez não começou bem e perdeu o primeiro set para a também agressiva Ajla Tomljanovic. Depois diminuiu os erros e foi muito superior nos winners (11 a 2 no segundo set e 13 a 3 no decisivo).

A semifinal entre Ons Jabeur e Tatjana Maria também será nesta quinta, abrindo a rodada às 9h30. A tunisiana tem 2 a 1 contra a amiga, que não se cruzam desde 2018.

O mestre dos cinco sets
Por José Nilton Dalcim
5 de julho de 2022 às 18:59

Ganhar uma partida no quinto set exige duas habilidades óbvias: apuro físico e capacidade emocional. Obter viradas após perder os dois primeiros sets dobra a importância do controle mental. Não é à toa, portanto, que Novak Djokovic seja um verdadeiro mestre nessa difícil arte.

A reação espetacular obtida contra Jannik Sinner nesta terça-feira foi sua sétima virada após estar dois sets atrás, três delas em Wimbledon. A primeira pouca gente viu, na segunda rodada de 2005 contra Guillermo Garcia-López, mas a outra foi importante, aquela incrível reação diante de Kevin Anderson rumo ao título de 2015.

Outras três aconteceram em Roland Garros, duas no mesmo torneio do ano passado em cima de Lorenzo Musetti e na histórica final diante de Stefanos Tsitsipas. Não menos inesquecível foi a semi do US Open de 2011 diante de Roger Federer.

Wimbledon é mesmo muito especial para o sérvio. Ele tem 10 a 1 em cinco sets no torneio, com única derrota para Maric Ancic em longínquio 2006. E todo mundo se lembra muito bem da mais marcante de todas elas, a da final de 2019 diante de Federer, em que evitou dois match-points no saque do adversário.

Djokovic venceu todos os últimos oito jogos em que foi levado ao quinto set e seis vieram para jogadores mais jovens e alguns com muito menos idade, como Sinner, Alexander Zverev, Tsitsipas (duas vezes), Musetti e Taylor Fritz.

No geral, tem agora 37 vitórias em 47 jogos que foram a cinco sets na carreira, segunda maior marca da Era Profissional em termos absolutos, atrás somente das 42 de Ilie Nastase. Ele no entanto possui o maior percentual de sucesso entre os que jogaram ao menos 40 cinco sets (78,3%) e é o terceiro entre os que fizeram ao menos 30, atrás de Bjorn Borg e Kei Nishikori.

Ouso dizer que o confronto destas quartas de final contra Sinner esteve quase sempre em suas mãos. Quando foi perfeito, abriu vantagem, 4/1 logo de cara. Ao estranhamente perder consistência a partir de um game horroroso, o italiano reagiu e obteve larga margem.

Mas aí o sérvio reencontrou seu padrão de saque e principalmente devolução, diminuiu drasticamente os erros e então a distância ficou patente. Nem diria que Sinner jogou mal nos três últimos sets, mas evidentemente não conseguiu acompanhar o hexacampeão e se obrigou a ousar mais, onde então acumulou escolhas ruins ou execuções imperfeitas, seja nas curtinhas, voleios e até smashes.

Djokovic afirmou que já passou tantas vezes por esses apertos que aprendeu a manter a frieza e a acreditar, dizendo a si mesmo que sempre é possível. Isso certamente não soa como boa notícia para o britânico Cameron Norrie, que passou o segundo sufoco em uma semana antes de achar o caminho para derrubar um inspirado David Goffin.

O canhoto de 26 anos esteve duas vezes atrás do placar, com 33 erros nos três primeiros sets, até que enfim acertou mais as paralelas e colocou o belga em situação defensiva. Claro que as pernas também foram decisivas. Goffin vinha da batalha de 4h36 diante de Frances Tiafoe e parecia mais lento no set final, ainda que o britânico mereça créditos por jogar com coragem em momentos cruciais.

Norrie, que jogou tênis universitário no Texas, aprendeu a esperar seu momento. Só no ano passado enfim ganhou seu primeiro ATP, mas foi logo o 1000 de Indian Wells. Esperou mais 11 meses para atingir o sonhado top 10 e agora chega na semifinal de Wimbledon, repetindo Andy Murray, Tim Henman e Roger Taylor na Era Aberta.

O único duelo entre Djokovic e Norrie aconteceu na fase classificatória do Finals de Milão, em novembro, com fáceis 6/2 e 6/1 para o sérvio. Uma coisa é certa: o britânico precisará de toda a energia da Central na sexta-feira.

Jabeur repete Djokovic
Embora num grau inferior, a tunisiana Ons Jabeur traçou caminho semelhante ao de Djokovic para atingir sua primeira semifinal de Grand Slam e a 10ª vitória seguida nas quadras de grama. Perdeu o primeiro set para a tcheca Marie Bouzkova, mas quando encontrou seu tênis a história mudou como por encanto e ela atropelou a inexperiente adversária com apenas dois games perdidos nos 14 finais.

Favorita ao título desde a queda de Iga Swiatek, Jabeur parece que enfim está se acostumando a lidar com os holofotes e isso tem muito a ver com seu primeiro grande título, obtido em Madri. Embora não tenha ido bem em Paris, ganhou na grama de Berlim e isso recuperou sua confiança para Wimbledon.

Primeira mulher africana a disputar uma semi de Grand Slam desde a sul-africana Amanda Coetzer, em Roland Garros de 1997, ela terá agora pela frente a sensação do torneio, a alemã Tatjana Maria, veterana de 34 anos e número 103 do mundo. No duelo de gerações com a compatriota Jule Niemeier, Maria também mostrou sangue frio ao reagir de 4/2 no terceiro set.

Com um jogo muito propício à grama, Tatjana tem uma história de amor ao esporte. Interrompeu duas vezes a carreira para ter filhas, a segunda delas há pouco mais de um ano. Nunca esmoreceu e hoje viajava o circuito com as meninas, dividindo a atenção entre a maternidade e os treinos.

“Muita gente não acreditou em mim. Mudei meu backhand depois que Charlotte nasceu (em 2013) por sugestão do meu marido e voltei ao top 50. Há 15 meses, tive outra filha e certamente parecia impossível retornar ao top 100”, contou Maria, que disse ainda não acreditar na semi alcançada. “Acho que o segredo foi ter sempre colocado a família no primeiro plano, isso me tornou feliz e tirou a pressão do tênis”.

Nadal cresce, mas Fritz acredita
Por José Nilton Dalcim
4 de julho de 2022 às 18:26

As últimas duas semanas sobre quadra de grama mudaram repentinamente o humor e a confiança de Taylor Fritz. O campeão de Indian Wells vinha da contusão no pé e havia perdido completamente o rumo, batido estreias de Hertogenbosch e Queen’s e ainda tendo de defender o título de Eastbourne. Então tudo mudou. Perdeu apenas 2 de seus últimos 22 sets disputados, nenhum deles neste Wimbledon, e de forma inesperada um tanto inesperada está nas quartas de final de um Grand Slam pela primeira vez.

Wimbledon é um lugar especial para ele. Desde criança, sempre ouviu que era “o torneio” e há pouco tempo viu o jogo em que sua mãe enfrentou Billie Jean King ali. “Não parece real”, afirmou ele ao bater sem sustos o australiano Jason Kubler. E tentou explicar o que torna a grama tão compativel com seu estilo: “Meu backhand melhora muito, porque a bola quica mais baixo. É verdade que perco um pouco do forehand pelo mesmo motivo, mas se consigo sacar bem fica tudo mais fácil”.

Fritz se diz pronto e ansioso para reencontrar Rafael Nadal, a quem venceu naquela final atípica de Indian Wells, em março, em que ele vinha de torção de pé e o espanhol sentia a fratura na costela. “Ele vai querer muito ganhar de mim e vamos ver o que acontece com os dois saudáveis”, avaliou. Sua tática para quarta-feira? A mais simples possível: “Tenho que ser agressivo o tempo todo. Isso é até mais fácil porque é uma tática única, não há mais no que pensar. Claro que terei de jogar num nível muito alto e será um alívio poder enfim jogar livre. Em todos os jogos até agora, fui o favorito”.

Ele que se prepare, porque Nadal mostrou mais evolução na vitória sobre o holandês Botic van Zandschulp. Até abrir 5/2 no terceiro set, havia errado apenas dez bolas e fazia perfeitas transições à rede. O primeiro set foi impecável e talvez seja o nível que o espanhol espera sustentar nas rodadas decisivas.

Depois, o primeiro saque caiu muito – apenas 48% de acerto no segundo set – e isso o obrigou a trocar mais bolas. Ainda assim era muito superior ao holandês. Podia ter evitado o aperto do final de jogo, já que sacou com 5/3, e errou longe um backhand quando sacou com match-point no tiebreak. Porém, não correu qualquer risco real.

Apesar de tantas surpresas desde torneio, não se pode esperar tarefa fácil na reta final de um Grand Slam. Se passar pela promessa ofensiva de Fritz, é bem possível que reencontre o imprevisível Nick Kyrgios e a final mais lógica seria diante do hexacampeão Novak Djokovic. Há muito trabalho pela frente.

Jogo a jogo
Kyrgios sofre de novo
– O australiano Nick Kyrgios superou um dia instável e dor no ombro para vencer sua quinta partida em cinco sets em Wimbledon. Brandon Nakashima impôs inesperada resistência e ganhou muitos elogios do australiano. “Sempre que pisei na Central, eu era a zebra. Hoje, pela primeira vez, fui o favorito e isso se tornou completamente diferente. Foi um inferno jogar com ele”. Kyrgios gostou muito de sua postura emocional, ao lidar bem com os erros e as limitações, afirmando que está de bem com a vida e foi a Londres para erguer o troféu.

Garin espetacular – Para quem não se lembra, o chileno Cristian Garin era o adversário de estreia de Matteo Berrettini. Deu considerável sorte e agora está em inéditas quartas de Slam, ainda por cima na grama. O duelo contra Alex de Minaur tirou o fôlego. O australiano abriu 2 a 0, perdeu inúmeras chances e teve até dois match-points, porém Garin jamais se entregou na batalha de 4h34. Louvável a mudança tática, com bolas mais forçadas e tentativas junto à rede. Ele é o quarto chileno nas quartas de Wimbledon, depois de Luis Ayala, Ricardo Acuña e Fernando González.

Halep rumo ao bi – A romena Simona Halep voltou à Central depois de três anos, justamente no jogo de seu título de 2019, e fez gato e sapato de Paula Badosa. Quando precisou ser consistente, sobrou. Na hora de definir pontos, estava precisa. É exatamente a receita para encarar a debutante Amanda Anisimova, que chega pela segunda vez nas quartas de um Slam, a primeira na grama. Também em 2019, quando tinha 17 anos, Anisimova surpreendeu com a campanha no saibro de Roland Garros, mas contusões e problemas pessoais atrasaram seu amadurecimento.

Rybakina invicta – A outra vaga para a semi estará entre Elena Rybakina e Ajla Tomljanovic. A cazaque de 23 anos também fez suas primeiras quartas de Slam no saibro de Paris. Ainda não perdeu set nesta campanha, com atuações firmes diante de Coco Vandeweghe e Bianca Andreescu, e contou que ainda sente sequelas da covid que pegou em janeiro. A australiana repete a campanha do ano passado com virada em cima de Alizé Cornet sempre no estilo ofensivo.