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Desafios para Monteiro e Nadal
Por José Nilton Dalcim
9 de fevereiro de 2021 às 11:45

Como é bom ver Thiago Monteiro cada vez mais confortável na quadra dura mais veloz. O canhoto cearense manteve o ritmo e a confiança de sua ótima campanha no ATP 250 de aquecimento da semana passada e superou o eslovaco Andrej Martin em sets diretos, ainda que tenha tido de se salvar no tiebreak inicial.

Monteiro obteve um padrão para encarar o piso sintético, baseado num primeiro saque bem eficiente e num forehand agressivo, geralmente combinados. A estratégia funciona muito bem no lado da vantagem, onde obviamente os canhotos podem usufruir mais do efeito contrário que colocam na bola e abrir bem a quadra. Também é importante observar que o backhand continua a evoluir, está mais compacto, correndo menores riscos. E a soma dessa melhoria na base permite hoje que o número 1 nacional devolva com maior qualidade.

Claro que tudo isso ainda não facilitará seu enorme desafio diante de Andrey Rublev, o jovem top 10 russo que foi quem mais colecionou títulos e vitórias em 2020, o que não é pouca coisa. Rublev se sente muito à vontade na quadra dura, saca muito bem e adora impor ritmo, mesmo na resposta de saque. Mas existe uma chance. Adepto de um tênis de risco, ele por vezes se perde rapidamente quando seus golpes começam a falhar e tem dificuldade em achar um plano B.

Ainda assim, ninguém pode sonhar em lhe tirar o favoritismo. Com justiça, Rublev está cotado para disputar as quartas contra Daniil Medvedev. O compatriota aliás chegou a 15 vitórias seguidas e jogou bem mais solto do que na ATP Cup, atropelando o estilo ofensivo de Vasek Pospisil. Descontraído, o 4º do mundo não quer saber de favoritismo, nem de invencibilidade e simplifica: “Ainda faltam 18 sets para isso”.

Nadal joga bem com saque alterado
O sérvio Laslo Djere, digno jogador de saibro, não seria mesmo um adversário à altura, mas Rafael Nadal procurou não ficar em quadra mais do que o necessário e fez uma estreia sem sustos, ainda que seus números não tenham sido empolgantes. Errou mais do que fez winners (24 a 19), subiu pouco à rede (7 pontos em 9 tentativas).

O mais preocupante no entanto foi o saque, cerca de 15 km por hora mais lento. A média de primeiro serviço ficou em 176 km/h e o mais veloz, em 195. Mais tarde, o espanhol garantiu que está mesmo com problema nas costas, desmentindo que a ausência na ATP Cup teria sido ‘fake’, não está à vontade e precisou mudar detalhes no serviço para diminuir a dor.

“Quero ganhar tempo para me recuperar”, afirmou. E os deuses do tênis estão dispostos a ajudar. O próximo adversário é o fraco Michael Mmoh, que ainda por cima jogou cinco duros sets para superar Viktor Troicki. E Daniel Evans, com quem poderia cruzar na terceira fase, nem passou da estreia. Assim, é muito provável que Rafa nem precisasse forçar seu jogo neste primeira semana e reserve seu melhor para o habilidoso Fabio Fognini e mais ainda se encarar Stefanos Tsitsipas ou Matteo Berrettini, que andam perigosos.

Vítimas da quarentena
Victoria Azarenka e Maria Sakkari se juntaram a Angelique Kerber como principais vítimas até aqui da quarentena absoluta a que foram impostas na chegada ao Melbourne, por terem viajado em aviões com passageiros contaminados.

Bicampeã e em bom momento, Vika repetiu o discurso de Kerber e culpou claramente a falta de tempo de treinamento, já que ficou 14 dias no quarto: “Tentei jogar contra a parede e as almofadas, mas isso não é o suficiente”, reclamou. Porém é importante observar que a cabeça 12 teve 5/2 e saque para fechar o primeiro set contra a boa Jessica Pegula e cometeu duplas faltas. Sakkari por sua vez preferiu reclamar de um mau dia.

Sofia Kenin e Elina Svitolina tiveram estreias com muito trabalho, Johanna Konta abandonou ainda no começo do segundo set e Karolina Pliskova ganhou fácil, mas o grande destaque ficou para a ‘bicicleta’ que a embaladíssima Ash Barty aplicou em Danka Kovinic. A 82º do mundo ganhou apenas 10 pontos na partida, cinco deles em erro da cabeça 1. Esta foi a 17ª vez na Era Aberta que o torneio viu um duplo 6/0.

E mais
– Boa terça-feira para os locais. De Minaur venceu fácil, Popyrin tirou um irreconhecível Goffin e Kokkinakis voltou a vencer no torneio depois de seis anos e marcou encontro com Tsitsipas.
– E por falar no grego, muito divertida sua entrevista em quadra com Jim Courier, com participação constante do público a cada resposta. Stef mostrou, é claro, bom humor depois de atropelar Simon.
– O garoto Alcaraz anotou outro pequeno feito e, aos 17 anos, se tornou o mais jovem a vencer num Slam desde o mesmo Kokkinakis, em 2014. E encara agora o sueco Mikael Ymer, cinco anos mais velho, que surpreendeu Hurkacz e enfim mostrou um tênis mais competitivo.
– Bautista já vinha mostrando problemas físicos na ATP Cup e caiu diante de Albot de virada. O cabeça 12 não deu desculpas e disse que há dias que a cabeça não segue o corpo.
– Jogo interessante de segunda rodada no feminino terá Pliskova contra Collins. A norte-americana, semi dois anos atrás, acabou de ganhar da tcheca no WTA de Yarra Valley.
– Encerrada a primeira rodada, oito cabeças do feminino já deram adeus. Petra Martic e Shuai Zhang aumentaram a lista.
– Djokovic busca contra Tiafoe sua 298ª vitória em Slam. O adversário de 23 anos tem 14. Já Thiem pega Koepfer tendo histórico de 5-0 contra canhotos no torneio. Shapovalov encara pela primeira vez o imprevisível Tomic.
– Halep enfrenta a local Tomljanovic, a quem venceu três vezes porém em dois a australiana tirou set. Sabalenka x Kasatkina também pode ter emoções

Balaio de gato
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2021 às 11:35

A balbúrdia está instalada no Australian Open. Com três voos fretados apresentando casos de infecção a bordo, tenistas de peso como Victoria Azarenka estão confinados em seus quartos de hotel, de onde só poderão sair uma semana antes de o Grand Slam começar. A conta de jogadores afetados com a medida, que era de 47 no sábado, saltou para 72 no domingo.

Mas não é só. O governo está sob fogo cerrado e recebe pesadas críticas por ter permitido a entrada de estrangeiros vindos dos mais variados lugares, ao mesmo tempo que mantém proibição para quase 40 mil residentes no país de voltarem para casa.

Tentemos explicar a confusão. Segundo as normas de saúde determinadas em Victoria, a província onde está Melbourne, todo passageiro de voo internacional, até mesmo os australianos, têm de ficar 14 dias em quarentena num hotel determinado pelo governo (não é sequer permitido o isolamento em sua própria casa).

O Tennis Australia obteve então uma concessão para que os tenistas deixassem seu quarto por cinco horas diárias para fazer treinamentos no complexo e os participantes tiveram de concordar com essa dura restrição. O deslocamento das 1.240 pessoas que entrarão no pais para o torneio tem sido feito por voo fretado, já que várias companhias aéreas cancelaram rotas para a Austrália.

No entanto, os jogadores alegam não haver instrução antecipada para o caso de surgir uma infecção a bordo dos voos fretados. E foi exatamente isso o que aconteceu com três deles, vindos de Los Angeles, Abu Dhabi e Doha. Os 143 viajantes dos dois primeiros voos foram colocados em isolamento absoluto, 47 deles tenistas. Entre eles, campeãs como Azarenka e Angelique Kerber, nomes bem cotados como Sloane Stephens e Maria Sakkari e tops 10 como Bianca Andreescu e Belinda Bencic. Também foram afetados Kei Nishikori e Pablo Cuevas.

Esse grupo não pode sequer abrir a porta do quarto e um deles, que se atreveu a conversar com amigos, pode ser multado em US$ 15 mil e até expulso. Nas mídias sociais, no entanto, pipocam jogadores reclamando: Vasek Pospisil, das acomodações; Fabio Fognini, das refeições; Yulia Putintseva, da falta de informação e até de um rato em seu quarto. Não há serviço de arrumação, obviamente. Os organizadores atenderam apelos e autorizaram a entrada de pedidos adicionais de alimentação fora do hotel, que serão ressarcidos.

Apesar de não estar afetada pela restrição absoluta, Alizé Cornet se manifesta pelas redes sociais em defesa dos que estão proibidos de deixar seu quarto. “Semanas e semanas de preparação serão jogadas fora e qualquer atleta sofrerá risco de contusão ao voltar aos treinos depois de 14 dias inativo”, reclamou. Neste domingo, a organização providenciou equipamentos de ginástica para cada quarto. “O acordo era que os grupos seriam separados de 10 em 10 nos aviões e, se houvesse um caso, apenas aquela seção seria afetada, jamais se falou em isolar todo o voo”, enfatiza.

Emma Cassar, responsável pela quarentena em toda a província, diz que a medida é necessária, lamenta mas não pode abrir exceções. Autoridades sanitárias já haviam previsto que, dos 1.240 integrantes do Australian Open, cerca de 2% apresentariam infecção pelo coronavírus.

No domingo, o ministro da saúde Greg Hunt garantiu que o Australian Open seguirá em frente na data prevista, ou seja dia 8 de fevereiro, e que o estado de Victoria tem tomado as medidas restritivas apropriadas.

Mais polêmica
As medidas excepcionais adotadas para a disputa do Australian Open causam revolta. Segundo estimativas da ABC News, há cerca de 37 mil cidadãos australianos em diversos pontos do planeta aguardando autorização para voltar para casa. Pior ainda, nem mesmo viagens interestaduais estão permitidas no país. Milhares de residentes de Victoria não têm autorização para retornar e permanecem no aguardo, principalmente em Sydney e Brisbane. Há dois dias, a empresa aérea Emirates cancelou toda sua operação na Austrália.

Victoria foi o estado mais atingido pela pandemia, com médias próximas de 800 casos diários em julho, quatro vezes mais do que Nova Gales do Sul, por exemplo. Desde outubro, diante dos lockdowns, baixaram os índices. Segundo o serviço estadual de Saúde, Victoria teve um pico de 10 casos no dia 2 de janeiro, mas está zerado desde o dia 8. Neste último sábado, o governo tentou amenizar as críticas e informou estar providenciando 20 voos internacionais de repatriação, embora todos terão de cumprir a quarentena na chegada.

O quadro se transformou também numa disputa política. O líder do Partido Liberal afirma que o primeiro ministro local Daniel Andrews “prioriza trazer tenistas oriundos de países com alto risco de infecção ao invés de trazer para casa os australianos. É pior que uma dupla falta”, ironizou.

Em sua defesa, Andrews afirma que a Austrália perderia o Grand Slam para outro país, caso Melbourne não conseguisse realizar o torneio. E ele recebeu forte apoio da Câmara do Comércio de Victoria, que aponta os benefícios econômicos da realização do Australian Open para a região.

Enquanto isso…
Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem, Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams estão longe de toda essa confusão. Privilegiados pela organização, foram colocados num pequena ‘bolha’ em Adelaide. Seus hotéis possuem academia própria e assim eles ainda têm a regalia de cinco horas completas de prática em quadra. Isso sem falar em jogos-treinos já programados para o fim do mês.

Claro que isso não pegou bem no circuito, ainda mais diante da atual balbúrdia em Melbourne. Djokovic foi o único dos grandes que chegou a reclamar da situação tão diferenciada, mas ao final não recusou a oferta.

Se por um lado é justificável que os organizadores tentem proteger suas principais estrelas, de outro derruba a tal isonomia com que prometeu tratar todos os participantes do torneio.

Tênis em 2021 segue com incertezas
Por José Nilton Dalcim
3 de janeiro de 2021 às 11:32

Nunca durante estes 15 anos de Blog me deparei com tanta dificuldade para formar expectativas para uma temporada à frente. E, claro, o motivo é a pandemia do coronavírus, que continua a modificar calendários, com a dura promessa de vermos mais alguns eventos importantes serem cancelados. Mas não é só. Nomes importantes do circuito acenam para um retorno às competições depois de infindáveis meses de afastamento, como é o caso da ainda número Ashleigh Barty e do fenomenal Nick Kyrgios.

A temporada 2021 será aberta nesta quarta-feira com o WTA de Abu Dhabi e no dia seguinte começam dois ATPs menores, em Delray Beach e Antalya. Todos terminarão na outra quarta, o que por si só mostra o quão anômolo anda o calendário. Sofia Kenin lidera quatro top 10 nos Emirados, Fabio Fognini volta na Turquia ao lado de Matteo Berrettini, Jannick Sinner, David Goffin e Borna Coric e Delray, que perdeu Andy Murray e Kei Nishokori, terá Milos Raonic e John Isner.

As excentricidades seguem com os qualis do Australian Open disputados no Oriente Médio, em Doha e Abu Dhabi, e aí teremos a pausa obrigatória de 14 dias para se cumprir a quarentena em Melbourne. O tênis recomeçará dia 31, com dois ATPs e dois WTAs simultâneos em Melbourne. Os masculinos ficam reservados aos em que não devem jogar a ATP Cup, reduzida para 12 países e cinco dias. O evento termina à véspera da largada do Australian Open, em 8 de fevereiro.

Por esse extenso quadro de novidades fica patente que um panorama das condições atléticas e técnicas da maciça maioria dos tenistas só estará mais claro nessa semana que antecede o Australian Open. É de se acreditar que Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem e Danill Medvedev joguem a ATP Cup e tenham adversários de peso, já que deverão enfrentar quase sempre um top 10, preparativo exigente. Já no feminino, Barty, Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams são aguardadas nos WTA 500.

Há componentes diferenciados neste início de temporada, que devem refletir diretamente no Australian Open, e o mais importante deles é que os principais nomes terão 14 longos dias de treinamento no Melbourne Park durante a quarentena, ou seja, uma extensão da pré-temporada que tradicionalmente fazem em dezembro. O confinamento não deixa de ser tedioso, ainda mais que por sete dias só poderá haver um mesmo parceiro de bate-bola, mas isso no fundo acabará sendo um teste de resiliência.

Daí a prudência colocar Djokovic e Nadal novamente na ponta da lista de favoritos. porque o mental mais do que nunca pode decidir jogos e títulos. Todos sabemos que a maciça maioria dos tenistas de hoje se adapta muito bem à quadra dura, e entre eles estão Thiem, Medvedev, Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas, não por acaso os quatro mais cotados para barrar o Big 2. Surpresas isoladas podem vir com Andrey Rublev, Milos Raonic, Stan Wawrinka e Grigor Dimitrov, mas não vejo esses outros com consistência suficiente para ir até as rodadas finais.

O feminino também tem uma série de favoritas com jogo solto e ideal para a quadra dura, mas eu colocaria fichas iniciais em Osaka e Kenin, ficando de olho arregalado em Vika Azarenka e Petra Kvitova. Sempre é essencial lembrar que o Slam feminino não se diferencia dos grandes torneios regulares, ainda que sejam necessárias uma ou duas vitórias a mais, com a vantagem de um dia de descanso permanente.

Com a chegada gradual da vacina na Europa e Américas, a ATP divulgou um calendário provisório em que manteve a perna sul-americana de saibro, exceto o Rio; os torneios de quadra coberta na Europa, os 500 de Acapulco e Dubai como preparativos para Miami, confirmando também o adiamento de Indian Wells. No entanto, com os EUA batendo recordes de mortos na incrível casa de 3.700 diários e o temor pela variação do coronavírus, ainda há muita reserva sobre a concretização dessa sequência.

O que talvez seja mais palpável é a série do saibro europeu, planejada para largar com Monte Carlo na segunda quinzena de abril e seguir nos moldes naturais. A presença de público segue incerta e isso, como era imaginado, tem provocado o desabamento das premiações dos torneios e afastamento de patrocinadores.

O terrível 2020 acabou, mas as incertezas seguem sobre o tênis em 2021.