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Liderança relativa
Por José Nilton Dalcim
14 de março de 2022 às 21:43

Sustentar o número 1 do mundo tem sido historicamente a tarefa mais difícil do tênis profissional. E fica ainda mais dura e cruel, tanto no plano técnico como no emocional, se o dono do trono não tem a quantidade de recursos necessária para tanto. É exatamente o caso de Daniil Medvedev.

Ninguém pode tirar dele o mérito de ter atingido a ponta da lista, porque afinal das contas ele decidiu dois Grand Slam num curto espaço de quatro meses, num deles dominando por completo Novak Djokovic. No entanto, as limitações do russo são evidentes. Para que renda seu melhor tênis, depende de uma série de combinações favoráveis e não é exatamente isso o que se espera de um autêntico líder.

Além do dueto técnico-tático essencial, pesa muito também a cabeça. Medvedev se portou como um jogador medroso em Acapulco. Nesta segunda-feira em Indian Wells, nem mesmo a vantagem de um set lhe deu soltura e confiança. Apostou nos erros ou nas dores de Gael Monfils e foi engolido nos dois sets seguintes por um adversário infinitamente mais versátil, alegre e criativo. Até tentou um slice ou um voleio no seu desespero, mas mostra sempre enorme insegurança em golpes que fogem do seu restrito padrão.

O estilo pouco ortodoxo de Medvedev não é um mal para o tênis. Me divirto em ver um jogador tão fora do normal obter grandioso sucesso, aquela altura toda sendo aplicada – ou deveria dizer desperdiçada – num jogo defensivo muito distante da linha de base. Mas o Urso se vira bem na quadra sintética mais rápida, move-se com maestria e tem resistência privilegiada. O humor é ácido, desafia vaias e não deixa respostas para depois. Uma figura.

Será rebaixado por meros 55 pontos no próximo ranking, porém dependerá apenas de si para voltar ao número 1, caso atinja as semifinais de Miami, um torneio que não terá Djokovic, nem Nadal porém com condições muito lentas que serão outro grande teste para sua confiança.

Enquanto isso, Nadal continua encontrando respostas diante de momentos de instabilidade. Daniel Evans jogou perto da perfeição até a metade do primeiro set, com esmero nos approaches e voleios, mas jogar no limite tem o óbvio risco. Na primeira brecha que encontrou, o canhoto espanhol elevou o nível. Ainda salvou break-point antes de obter nova quebra e o set. Na outra série, abriu distância e quase permitiu reação. Foi seu último vacilo.

Com a queda de Alexander Zverev, Rafa já está a duas vitórias de recuperar o número 3. Se o fizer, estará cerca de 1.500 pontos atrás dos líderes do ranking e a expectativa é que construa essa arrancada durante o saibro europeu, onde Medvedev nunca assusta e Djokovic terá de correr atrás de um ritmo competitivo. Vai ficar interessante.

E mais

  • Carlos Alcaraz será o adversário de Monfils nas oitavas, promessa de jogo eletrizante. Nunca se cruzaram. O garoto atropelou Bautista, que viveu um dia muito ruim. Tomara que Monfils esteja fisicamente inteiro e mantenha sua tática ofensiva.
  • Tommy Paul e Botic van Zandschulp foram os destaques do masculino. O norte-americano jogou um tênis primoroso no primeiro set e na parte final do terceiro, quando Zverev tinha 4/2 e parecia caminhar para virada. O holandês é um tenista de muitos predicados e sua solidez barrou Felix Aliassiame.
  • A festa americana se ampliou com a grande virada de Jenson Brooksby sobre Stef Tsitsipas. O grandão ainda precisa melhorar muito seu jogo de rede, mas tem golpes de base muito pesados e profundos. O grego ficou um tanto perdido na parte tática no set final.
  • Também inesperada a vitória de Jaume Munar sobre Pablo Carreño depois de salvar match-points. O habilidoso Alexander Bublik acabou com Andy Murray na base das deixadas.
  • Simona Halep e Coco Gauff fizeram uma partida de tirar o fôlego, espancando a bola mesmo com uma ventania tremenda. Já Emma Raducanu viveu incríveis altos e baixos, chegou a sacar para vencer Petra Martic e não segurou a barra.
  • Vika Azarenka teve crise de choro quando já perdia também o segundo set, a juíza Paula Vieira desceu e foi ver o que acontecia e Elena Rybakina indagou se isso não era errado. Tem muita tensão no ar neste Indian Wells.
  • E a briga pelo número 2 do ranking está quente. Iga Swiatek precisa de semi para superar Barbora Krejcikova, Maria Sakkari e Paula Badosa podem chegar lá com a final.

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Badosa supera depressão e enriquece circuito
Por José Nilton Dalcim
17 de outubro de 2021 às 22:52

Paula Badosa é um dos tantos casos no circuito de jogadores que fazem grande sucesso como juvenil, criam enorme expectativa e acabam vítimas disso. A espanhola de tênis vigoroso precisou superar a depressão que veio no início da carreira profissional, gerada ironicamente pela conquista do título juvenil de Roland Garros, e três anos depois dá uma bela volta por cima com a colheita de grandes resultados.

Nascida em Nova York, para onde os pais se mudaram para tentar o mundo da moda, a pequena Paula entrou no tênis aos 7 anos quando a família voltou a Barcelona. Passou um tempo em Valência, onde deu um salto de qualidade, e o título em Paris veio no retorno a Barcelona. Apesar de boas vitórias em nível ITF, a cobrança ficou insustentável e, aliada a problemas físicos, levou à crise emocional, que só seria superada já em 2018 quando passou a treinar com Xavier Budó, que ajudou Carla Suárez por muitos anos.

Enfim, ergueu troféus de ITF, chegou nas quartas do primeiro WTA e entrou para a faixa das 150 ao final do ano, mas precisou de uma temporada inteira para atingir o top 100. A pandemia foi uma ducha de água fria, e muito provavelmente atrasou um pouco mais sua ascensão, mas quando o circuito retornou Badosa aproveitou bem. As quartas em Roland Garros a levaram ao 70º posto.

Nada seria tão fácil. A covid forçou 21 dias de isolamento total em Melbourne e ainda veio uma contusão em Lyon. O har-tru de Charleston, já em abril, foi o ponto da virada, onde derrotou Belinda Bencic e Ashleigh Barty. Fez boa campanha em Madri, ganhou seu primeiro WTA em Belgrado e a confiança só cresceu. É bom lembrar que antes desta notável campanha em Indian Wells, ela já tinha vencido também as top 10 Aryna Sabalenka, Barbora Krejicikova e Iga Swiatek, o que mostra claramente seu potencial.

A menina que adora ler e leva muitos livros em todas suas viagens revelou na cerimônia de premiação que se inspirou em Vika Azarenka, mas seu espelho mesmo era Maria Sharapova, já que considera o saque seu golpe mais importante, algo um tanto natural para o 1,80m. É no entanto um campo em que precisa investir mais. Até chegar em Indian Wells, sua média de aces nos 46 jogos já feitos beirava 4, mas o de duplas faltas era de 6. Nesta final de domingo, isso também ficou bem claro: 7 aces contra 11 duplas faltas.

A pupila do técnico Javier Martí deverá aparecer no 11º posto nesta segunda-feira e, mais importante ainda, na 8ª colocação na luta para ir ao Finals de Guadalajara, ou seja, a chance cresceu muito já que só faltam duas semanas de temporada regular. Tomara que desta vez o sucesso seja bem absorvido porque Paula é mais um nome da nova geração feminina que joga um tênis super moderno, que mistura força com regularidade e variações. Ganhou de quatro top 20 nestes 10 dias e se tornou a primeira espanhola a erguer o troféu em Indian Wells, algo que escapou de Arantxa Sánchez, Conchita Martinez e Garbiñe Muguruza.

Azarenka fez um belo torneio e ficou bem perto do tri. Chegou a sacar para a vitória neste domingo, prova de que até os multicampeões sentem o friozinho na barriga na hora de grande tensão.

Norrie também reage e sonha com Finals
Muito longe da qualidade técnica e das emoções da final feminina, como era de se esperar, o canhoto Cameron Norrie também marcou feito inédito em Indian Wells. Ganhou seu primeiro Masters, obteve um troféu de peso que nem Andy Murray e Tim Henman conseguiram e ainda será o 16º no ranking desta segunda-feira.

É muita coisa para um jogador sem golpes espetaculares, que conta com suas pernas e esperteza tática para dar um grande salto na carreira. É interessante lembrar que Norrie havia perdido suas quatro finais até julho deste ano, quando enfim faturou Los Cabos e revelou ter vivido um grande alívio. Dias atrás, decidiu também San Diego e então se torna um nome respeitável nos pisos sintéticos.

Norrie entrou de vez na briga por uma impensável vaga no Finals. Com cinco classificados – Djokovic, Medvedev, Tsitsipas, Zverev e Rublev -, Matteo Berrettini está muito perto e a briga decisiva parece ficar entre Casper Ruud, Hubert Hurkacz, Norrie e Jannik Sinner. A distância entre eles é de apenas 420 pontos.

Desafio – O internauta Hemerson, que não publicou sobrenome, ganhou o Desafio proposto para o campeão de Indian Wells. Ele foi o único que postou vitória de Norrie em três sets e assim receberá a biografia revisada de Roger Federer da Sportbook.

Djoko com pé e meio em outro grande recorde
Por José Nilton Dalcim
14 de outubro de 2021 às 01:16

Ainda que exista a famosa ‘possibilidade matemática’, que mesmo assim é muito apertada, Novak Djokovic já nem precisa mais entrar em quadra no restante do calendário para anotar mais um recorde de peso na carreira: a sétima temporada encerrada como número 1, façanha que dividia com Pete Sampras.

Daniil Medvedev já tinha uma caminhada bem difícil na tentativa de superar o sérvio e a maluca derrota desta quarta-feira em Indian Wells enterrou suas chances. Se ele só jogar Paris e Finals, como está previsto, a possibilidade é zero. Se pedir convite para Viena, mesmo o título ainda deixaria Djoko com necessidade de meros 100 pontos. E no caso de insana tentativa de jogar e vencer Moscou também, na próxima semana, Nole se garantiria com 305 pontos. Duvido que o russo se arrisque a tanto.

Como eu já havia dito antes, não me parece haver o menor sentido um tenista ganhar três Grand Slam e ser vice em outro e ficar em segundo lugar do ranking. Embora numericamente possível, seria uma aberração.

É bem verdade que isso tem considerável chance de acontecer no ‘ranking da temporada’, já que ali a distância do russo é de 1900, algo que ele poderá alcançar com os 2.500 em disputa entre Paris e Turim. Seria um imbróglio para a ATP resolver: o que vale, o ranking de 52 semanas ‘costurado’ ou o ranking do ano para definir quem é o melhor de 2021?

Na quadra, Medvedev foi uma decepção. Ninguém pode ignorar as qualidades de Grigor Dimitrov quando o búlgaro joga o seu melhor, porém o russo dominava por 6/4, 4/1 e saque antes de perder a consistência e ver o primeiro serviço sumir. Aí o búlgaro ganhou confiança e jogou um belo terceiro set. Seu adversário será o competente polonês Hubert Hurkacz, que tirou enfim Roger Federer do top 10 e é um candidato sério a seu segundo Masters.

Stefanos Tsitsipas, por sua vez, garantiu lugar nas quartas com uma virada um tanto na marra diante do valente Alex de Minayr. Mas a preocupação com o grego é menos técnica e sim comportamental. De novo, virou objeto de polêmica. Fabio Fognini foi à loucura com supostas intromissões do pai-treinador, o que não é novidade. Apesar do tênis elegante e eficiente, Tsitsipas precisa acabar com essa má fama enquanto dá tempo. Como bem colocou Fernando Meligeni na transmissão do jogo de terça, nada pior pode acontecer a um tenista do que ficar isolado no circuito, e o grego caminha velozmente para isso. A atuação contra De Minaur passou limpa, mas o australiano mal o olhou no cumprimento. Stef será favorito natural contra Nikoloz Basilashvili.

Nas outras quartas, um duelo entre dois tenistas que estão adorando o piso lento: Diego Schwartzman e Cameron Norrie. Vale lembrar que Peque quase perdeu na estreia para o quali Maxime Cressy. A surpresa no entanto é Taylor Fritz, responsável pela queda de Matteo Berrettini e Jannik Sinner sem perder set. O teste de fogo agora é Alexander Zverev. O alemão fez contra Andy Murray o duelo de melhor nível técnico do torneio até agora e derrotou enfim o único Big 4 que faltava no seu belo currículo..E contra Gael Monfils deu show e mostrou outra vez que consegue fazer a bola andar muito mesmo em Indian Wells

Decisões no feminino
A chave feminina confirma a imprevisibilidade de quase toda a temporada: nenhuma das 13 primeiras do ranking chegou sequer nas quartas de final. E isso inclui quedas de Garbiñe Muguruza e Maria Sakkari na estreia, de Karolina Pliskova e Petra Kvitova na terceira rodada, de Iga Swiatek e Elina Svitolina nas oitavas. Simona Halep só venceu um jogo.

As sensações do US Open não vingaram. A campeã Emma Raducanu sentiu mesmo a pressão e terá que recolocar a cabeça em ordem se ainda competir em 2021. Leylah Fernandez não se achou na quadra áspera, que maximizou sua dificuldade em colocar peso na bola, mas foi muito competitiva.

Fica a sensação que as veteranas irão vingar. Vika Azarenka já está na semi, sua primeira no torneio em cinco anos. Muito mais do que os dois títulos, em 2012 e 2016, está jogando um tênis de grande qualidade até aqui, com destaque para a atuação impecável diante de Kvitova. O saque trabalha muito bem, os golpes de base estão profundos e consistentes, a movimentação flui. É uma de suas melhores semanas da temporada.

A outra que joga com a experiência é Angelique Kerber. A alemã começou com dificuldade de adaptação, depois vem jogando cada vez mais solta e agora encara um belo desafio diante de Paula Badosa, 10 anos mais jovem e que certamente gosta da lentidão. Quem vencer nesta quinta-feira vai encarar Anett Kontaveit, que fez uma partida impecável contra Bia Haddad Maia e coleciona grandes vitórias em 2021, ou a habilidosa Ons Jabeur.