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Quarta-feira maluca
Por José Nilton Dalcim
29 de agosto de 2019 às 01:36

A chuva não permitiu que 22 jogos acontecessem na abertura da segunda rodada do US Open, mas os poucos que foram às quadras cobertas de Flushing Meadows deram o que falar. Roger Federer fez outro começo de jogo pavoroso, ainda pior que o de estreia; Novak Djokovic deixou todo mundo tenso com a dor de ombro mas ainda conseguiu avançar; Serena Williams foi desafiada pela juventude e audácia de Catherine McNally, que ensaiou uma ‘zebra’ gigantesca.

Nem Federer sabe explicar o motivo de seu início tão travado nestas duas primeiras rodadas. Ele apenas admite que algo não está funcionando, e que lhe restou brigar para mudar seu destino. Num piscar de olhos, Damir Dzumhur vencia por 4/0. De seus 24 pontos, 15 vieram por erros não forçados do suíço. A coisa poderia ter ficado ainda pior se o bósnio tivesse confirmado a quebra logo no game inicial do segundo set. Só então o número 3 pareceu acordar, passou a calibrar o saque e o forehand, pouco a pouco colocou a esperada pressão sobre o saque pouco contundente do adversário.

Não dá para sair feliz de mais uma partida sofrida, e olha que teve ainda a favor o teto fechado, mas vencer jogando mal ajuda na parte emocional. A contabilidade do suíço foi estranha: 58 winners e 45 erros, 17 aces e 4 duplas faltas. Apesar de erros incríveis na rede no primeiro set, terminou com grande saldo positivo, com 48 tentativas e 42 pontos. Está na hora de reagir, caso queira entrar competitivo na segunda semana. Terá agora um adversário habilidoso, seja Lucas Pouille ou Daniel Evans.

Pouco depois, Djokovic assustou. Ainda na metade do primeiro set, estava incomodado com o ombro esquerdo, sem esconder a expressão de dor. Foi atendido e conseguiu sair na frente do placar, mas viveu um segundo set longo, exigente, que por vezes deixou dúvida se conseguiria ir até o fim da partida, principalmente depois que Juan Ignacio Londero abriu 3/0, com duas quebras, batendo pesado na bola com muito spin de forehand.

Com dificuldade para executar o saque, Nole ao menos foi soltando os golpes de base, e fez algumas maravilhas. Foi essencial ganhar o tiebreak – e ele o fez de forma quase impecável -, o que lhe garantiu domínio amplo na terceira série diante de um Londero desacreditado. Djoko se superou outra vez, e não é só na questão física em si, mas acima de tudo na parte mental, já que uma contusão mexe demais com a cabeça do tenista.

Assim, é muito justo considerar que o número 1 obteve um grande resultado, porque afinal Londero exigiu muito nos dois primeiros sets e só baixou a guarda na reta final. Djoko obviamente não quis falar muito sobre a extensão do problema. Terá agora 48 horas para tentar se recuperar. E terá uma vantagem, porque seu adversário – Denis Kudla ou Dusan Lajovic, ambos sem grande currículo – jogará dois dias consecutivos.

A quarta-feira terminou com um primeiro set de encher os olhos. Não de Serena, mas sim da adolescente McNally, meros 17 anos e em seu terceiro jogo de Grand Slam. A menina não respeitou o enorme currículo da oponente, sacou com força, devolveu dentro da quadra o poderoso serviço de Williams, buscou os voleios e colocou ângulos magníficos. Só diminuiu a intensidade no final do segundo set, mas ainda assim não facilitou. Por fim, Serena ganhou confiança e fez um terceiro set muito agressivo e consistente, aí sim no seu melhor estilo.

Resumo do dia 3
– Nishikori sofreu demais para derrotar Klahn, o canhoto que tirou Monteiro. Não gostei de sua incerteza no final da partida. Encara agora um garoto: De Minaur ou Garin.
– Dimitrov nem precisou entrar em quadra devido à contusão de Coric na região lombar. Hoje apenas 78º do ranking, o búlgaro já esteve duas vezes nas oitavas do US Open e terá boa chance de repetir a marca diante de Cuevas ou Majchrzak.
– Barty, Pliskova e Keys mantiveram o favoritismo, mas a australiana esteve a um passo de perder o segundo set para Davis. Outra vez, Keys assumiu o comando e marcou 30 winners.

Destaque
– Elina Svitolina foi mais tenista que Venus e mereceu a vaga na terceira rodada, mas foi um belo jogo, com muitos lances intensos e games emocionantes. É notável ver que Venus ainda se mostre competitiva, tendo acabado de completar 39 anos.

Para a história
Serena é a tenista profissional com maior idade a ganhar Austrália (35 anos), Roland Garros (33) e Wimbledon (34), mas perdeu a marca no US Open com o título de Pennetta em 2015, aos 33 anos e 198 dias.

Rublev e Nole brilham após triste noite do tênis
Por José Nilton Dalcim
16 de agosto de 2019 às 00:08

Andrey Rublev era uma das grandes sensações entre os novatos do circuito em 2017. Com golpes de base extremamente potentes, ganhou seu primeiro ATP aos 18 anos no saibro e fez quartas no US Open, versatilidade que lhe deu o 31º lugar do ranking. Mas aí faltou sorte. Veio uma problemática fratura por estresse na região lombar que custou meses de afastamento e dúvidas.

O renascimento de Rublev não poderia vir em melhor estilo. Finalista em Hamburgo poucos dias atrás, onde derrubou nada menos que Dominic Thiem, voltou a mostrar enorme jogo de cintura ao barrar Roger Federer num piso muito veloz, onde o suíço reinou já sete vezes e era o atual vice. Impôs ao número 3 do ranking sua mais rápida derrota em 16 anos, meros 62 minutos, e arrancou elogios: “Ele parecia estar em todos os lugares da quadra. Fiquei impressionado”.

Claro que um resultado desses é uma mistura da solidez do garoto russo no fundo de quadra, explorando ao máximo seu pesado forehand contra o backhand do adversário, e de uma tarde instável de Federer, que se encheu de erros (19 contra 6) e foi medíocre até mesmo na rede (7 pontos em 19 subidas), perdendo três vezes seu serviço.

O mais curioso é que Rublev se preocupou mais em justificar Roger do que comemorar a façanha, afirmando que “nem consigo imaginar a enorme pressão que recai sobre ele toda vez que entra em quadra, anos a fio todo mundo te assistindo e você tendo de se provar”. Não menos incrível é o fato de Rublev ter esquecido de se inscrever. Deu sorte de entrar no quali como ‘alternate’. Aí viu Tomic abandonar, tirou Kukushkin, Basilashvili e Wawrinka. Que campanha.

Enfrentará nesta sexta-feira o amigo de infância Daniil Medvedev, apenas dois anos mais velho. Vivendo um momento ímpar na carreira, Medvedev chega a 41 vitórias nos 57 jogos que já fez em 2019, sem contar mais 10 de duplas. Nas últimas duas semanas, chegou nas finais de Washington e Montréal. Haja fôlego.

Show do número 1
Se Federer decepcionou, Novak Djokovic deu uma aula de tênis para o espanhol Pablo Carreño, que nem jogou mal. Porém, foi obrigado a sair das suas características para tentar equilibrar o jogo e não teve a regularidade necessária para superar o paredão sérvio. Nole fez um pouco de tudo, incluindo voleios magníficos e defesas assombrosas. Cedeu quatro break-points no segundo set, resolvendo o problema com um primeiro saque afiado e até ace de segundo saque.

Reencontra Lucas Pouille, que me surpreendeu com a grande virada em cima de Karen Khachanov, e está em suas primeiras quartas de Masters desde Monte Carlo-2017. O francês fez uma campanha inesperada em Melbourne e foi até a semi, mas aí levou uma surra de arrepiar de Djokovic, vencendo meros quatro games. Ao menos, reage numa temporada estranha. Saiu de Melbourne com retrospecto de 5-2 e daí em diante venceu apenas sete jogos até chegar a Cincinnati.

A parte inferior da chave verá Roberto Bautista x Richard Gasquet, que acabam de se cruzar nas oitavas de Montréal com duplo 7/5 para o espanhol, e David Goffin x Yoshito Nishioka, adversários dias atrás na segunda rodada de Washington com duríssima vitória do japonês no tiebreak do terceiro set após quase 3h.

Bautista, aliás, acaba de garantir seu inédito lugar no top 10 do ranking. É o quinto tenista na temporada a atingir o feito, repetindo Medvedev, Khachanov, Stefanos Tsitsipas e Fabio Fognini.

Kyrgios ultrapassa limites
Para tentar amenizar seus erros, a ATP ao menos deu uma multa categórica para Nick Kyrgios e cobrará dele US$ 113 mil, ou seja, quase três vezes mais o prêmio a que teve direito. Tivesse o árbitro Fergus Murphy cumprido seu papel, o australiano teria sido desclassificado e perderia toda a premiação. Afinal, a própria ATP listou incríveis nove infrações cometidas pelo destemperado rapaz na derrota para Karen Khachanov na madrugada desta quinta-feira, que terminou num triste espetáculo. O tênis não merece isso.

Não se pode eximir a ATP de culpa. Só o fato de ter colocado Murphy para dirigir a partida foi uma grande falha, porque o juiz tem pouco pulso e já havia histórico de desentendimento com Kyrgios. Mas a responsabilidade maior está no descaso com que a entidade trata o comportamento doentio do tenista, que extrapola todo o Código de Conduta seguidamente e já fez por merecer um afastamento compulsório. Afastá-lo do US Open é o mínimo que se espera.

A briga com o árbitro além de tudo atrapalhou o andamento da partida. Era notório o desconforto de Khachanov, tendo que sacar com um adversário esbravejando alto do outro lado da quadra. O russo, que é meio esquentadinho, teve um admirável sangue frio. Deveria ficar com a premiação tirada de Kyrgios.

A briga continua
Não poderia estar mais empolgante a luta tríplice pela liderança do ranking feminino às vésperas do US Open. Naomi Osaka foi levada a três sets, Ashleigh Barty virou a duras penas e Karolina Pliskova lutou para atingirem as quartas de final. Basicamente, quem for a campeã fica com o posto e a briga ficará excepcional se Barty e Pliskova se cruzarem na semi.

Enquanto isso, Venus Williams deu outra mostra de sua vitalidade e tirou Donna Vekic no terceiro set, tendo agora Madison Keys, responsável por 39 winners na vitória sobre Simona Halep. Outra boa surpresa veterana foi Svetlana Kuznetsova, 34 anos e agora 153º do ranking, ao eliminar Sloane Stephens.

Recomeço
Por José Nilton Dalcim
14 de agosto de 2019 às 02:18

Ainda que sejam dois dos maiores tenistas da história, imagino não ser fácil para Novak Djokovic e Roger Federer retornarem à dureza do circuito depois de tudo o que aconteceu em Wimbledon. O campeão tem o compromisso de jogar bem e de vencer, o vice carrega o fardo de buscar reação e enterrar o passado. Seus adversários ao longo da semana, podem apostar, jogarão sempre de franco atiradores.

Nole começou mal os dois sets, mas persistiu. No primeiro, conseguiu recuperar-se da quebra e pouco a pouco mandou nas trocas de bola diante de um Sam Querrey que não foi além de um tenista bem intencionado. Na outra série, o sérvio permitiu dois 15-40 seguidos e o norte-americano não foi capaz de aproveitar o momento instável e pagou caro, porque Djokovic despertou e atropelou.

Evidente que Djokovic precisará sacar melhor e ser um pouco mais agressivo nessa quadra veloz. A boa notícia é que o próximo adversário será o espanhol Pablo Carreño, que contou com 50 erros de John Isner para vencer duelo no tiebreak do terceiro set. Ex-top 10 que ainda tenta recuperar-se após longo período de lesões, Carreño pode dar a Djokovic justamente o lubrificante para a ferrugem, já que dificilmente sai do fundo de quadra.

Federer fez o que se esperava, com um plano de jogo para sufocar o saibrista Juan Ignacio Londero. Foi muito bem sucedido com o saque, sem qualquer game exigente, e fez maravilhas na transição à rede e nos voleios, verdadeira aula. Mas lá atrás também se mostrou sem ritmo, com backhand batido muito falho e devoluções de saque apressadas e descalibradas. Aguarda o velho freguês Stan Wawrinka ou duelo inédito com o garoto Andrey Rublev. Gostaria bem mais de vê-lo encarar o russo, ainda mais depois de sua bela virada em cima de Nikoloz Basilashvili.

Murray recusa convite para US Open
Nem de longe foi a reestreia que Andy Murray sonhou. A derrota em si para Richard Gasquet não surpreendeu, mas o escocês jogou abaixo do que eu imaginava, muito defensivo num piso tão veloz, usando bolas bem altas várias vezes. “Minhas pernas pesavam no final do jogo e não sei como será meu dia seguinte. Assim, achei mais prudente recusar o convite para o US Open”, afirmou ele, que no entanto jogará duplas ao lado de Feliciano López. O britânico acredita que conseguirá estar totalmente em ritmo para as simples no Australian Open.

Cabeças em Nova York
Cincinnati definirá os 32 cabeças do US Open, mas há pouca chance de novidade. Shapovalov, Struff e De Minaur precisam de mais duas vitórias para chegar ao 33º e tirar Verdasco. Isso quer dizer que Kyrgios está garantido. Federer não pode tirar Nadal do 2 e Thiem – que se retirou do torneio – só não será o 4 se Zverev ou Nishikori forem campeões. Com mais uma atuação fraca, Cilic deve ser apenas o cabeça 21.

A briga continua
Mais uma semana em que o número 1 feminino está em jogo. Osaka retomou a liderança e tem vantagem de 237 pontos sobre Pliskova, que está meros 28 à frente de Barty após a primeira rodada. Se der a lógica, Barty e Pliskova se cruzarão na semi. Embora eu acredite na vitória em dois sets da australiana, o jogo desta quarta-feira contra Sharapova é uma bela atração.

Façanha de Venus
Aos 39 anos e hoje apenas 65ª do ranking, Venus Williams não perdeu a sede por vitória. Entrou em quadra com uma série de quatro derrotas seguidas e se empenhou ao máximo para tirar a atual campeã Kiki Bertens, obtendo seu segundo triunfo na temporada sobre uma top 5 (a outra foi Kvitova, em Indian Wells). Pode fazer agora um interessantíssimo duelo contra Azarenka, caso a bielorrussa passe por Vekic.

Serena, só em NY
Era mais do que óbvio que Serena Williams não entraria em quadra nesta terça-feira em Cincinnati, mas ela jura que ainda tentou. De qualquer forma, dificilmente deixará de ser a cabeça 8 no US Open.