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Dolorosas frustrações
Por José Nilton Dalcim
29 de junho de 2021 às 19:17

Foi uma terça-feira triste em Wimbledon. Começou pela atuação tão abaixo da crítica de Roger Federer, prosseguiu com a lamentável contusão do seu adversário Adrian Mannarino que fazia uma grande exibição e foi concluída com as lágrimas da supercampeã Serena Williams, ao complicar a contusão na coxa direita ainda no quarto game com consequente abandono.

O suíço até ganhou o primeiro set, mas só foi mostrar o tênis que se espera dele sobre a grama lá nos games disputados no quarto set. Apertado pelo placar,  enfim mostrou-se efetivamente agressivo, com devoluções arriscadas e melhor exploração do jogo de rede. No resto do tempo, não fez mais do que trocar slices e manter a bola em jogo, o que obviamente agradou Mannarino. O francês não tem grande potência e assim gosta de um jogo cadenciado. Decepcionante.

É verdade que Federer já tinha quebra na frente no quarto set no momento em que Mannarino se desequilibrou e torceu o joelho direito, o que o forçaria a abandonar logo depois já que mal se movia. Uma pena. Não fosse essa incrível falta de sorte, nada garantia que o francês não levasse a vitória num eventual quinto set. O próprio Roger reconheceu que o adversário era o melhor em quadra e só aumentou as dúvidas sobre sua real situação técnica, física e principalmente emocional.

Parece que superar a primeira semana será mesmo sua maior meta, como ele afirmou no sábado. Agora, terá pela frente Richard Gasquet, contra quem tem 12 a 2 e dez anos de ‘fila’, mas se existe um lugar em que Gasquet pode ser perigoso é na grama. E no grau de confiança que Federer está…

A saída de Serena não foi menos chocante. A heptacampeã também apostava suas fichas em Wimbledon para enfim retornar aos troféus de Grand Slam – perdeu as finais de 2018 e 2019 como favorita – mas deve ter se contundido nos treinos. Apesar da coxa enfaixada, tinha 3/1 quando escorregou e torceu o tornozelo da mesma perna. Foi mancando para o atendimento, já com cara de choro, e logo depois teve mesmo de desistir, aí já sem conter as lágrimas. Ao que tudo indica, vai para sua derradeira tentativa do 24º Slam no US Open já que o físico definitivamente não a sustenta mais

E mais
– Outra grande atuação de Medvedev na grama, vingando-se da derrota para Struff de Halle dias atrás. Devem vir agora dois jogos mais fáceis e chegar nas quartas não parece mais tão complicado. Saque forçado, ótima movimentação e bolas retas têm sido seu cardápio, enriquecido com alguns ótimos voleios.
– Zverev, que só tem uma presença em oitavas no torneio, fez o que se esperava diante de um quali. Evans foi muito bem contra López e Shapovalov sofreu com o sempre ardiloso Kohlschreiber, num dos melhores jogos do dia.
– Arsenal repleto, gostei demais da atuação de Korda contra De Minaur, que vinha de título no sábado. Aliás, terceira surpresa americana, repetindo Tiafoe e Stephens.
– Cada vez que vejo Kyrgios jogar bate aquela raiva: por que esse rapaz não leva o tênis a sério? Fora do circuito há quatro meses, fez lances geniais, abusou da improvisação que a grama exige e levou Humbert ao quinto set, suspenso no 3/3. O canhoto francês está super afiado e o jogo até aqui foi muito bom.
– Outro momento emocionante foi a atuação de garra de Carla Suárez diante de Barty. A australiana exibiu todo seu rico tênis, mas a espanhola levou o segundo set e saiu aplaudida por toda a Central, incluindo a número 1.
– A campeã de Roland Garros mostrou-se muito à vontade na grama. Duplista de mão cheia, Krejcikova tem bom teste contra Petkovic. Nada mau se cruzar com Barty lá nas oitavas.
– Kerber manteve embalo, Pliskova e Gauff venceram dois sets duros. E Venus, aos 41, voltou a vencer em Wimbledon após três anos. Essa, sim, é exemplo magnífico de amor à profissão.

Chove, chuva
– Treze jogos masculinos ainda de primeira rodada foram completamente adiados para quarta-feira, o que obrigará seus vencedores a volta à quadra no dia seguinte para a segunda partida. Nesse grupo estão Monteiro-Aliassime, Dimitrov-Verdasco, Querrey-Carreño, além de Taylor Fritz, Lorenzo Sonego e Alexander Bublik.
– Outros cinco jogos não terminaram, com destaque para Cilic e Norrie que ainda vão abrir o segundo set. Monfils começou na segunda-feira e seguirá pelo terceiro dia.
– O pior é que Monfils e Garin são da parte superior da chave, que já entrará na segunda rodada nesta quarta. Ou seja, quem vencer joga quinta e quem sabe na sexta também.
– O feminino adiou 14 partidas inteiras, lista que tem Andreescu-Cornet e nomes como Bencic e Azarenka, e tem uma suspensa no terceiro set. As ganhadoras também terão de voltar na quinta, mas no feminino o desgaste é bem menor e todos os jogos não completados pertencem ao lado superior.
– Ao menos, a previsão diz que só voltará a chover em Londres sábado e domingo, em forma de pancadas.

A frase
“Foi um final de jogo terrível, que não gosto nem de ver. Eu me senti muito mal, principalmente com tudo que passei com o joelho”.
Roger Federer

Todos os olhos em Nole
Por José Nilton Dalcim
27 de junho de 2021 às 20:07

Com a ausência de Rafael Nadal e o momento incerto de Roger Federer e Serena Williams, todas as atenções em Wimbledon se concentram sobre Novak Djokovic. E o atual campeão e número 1 do mundo inicia a campanha já às 9h30 desta segunda-feira, tendo pela quarta vez a honra de ser o primeiro a pisar na imaculada grama da Quadra Central, como reza a tradição centenária.

Há muita coisa em jogo para Djokovic. Claro que todo mundo pensa no 20º troféu de Slam, o que o igualaria a Nadal e Federer, mas há outras façanhas importantes aguardando o sérvio. Ele pode ser apenas o quinto homem na história a conquistar os três primeiros Slam da temporada, repetindo Jack Crawdford (1933), Don Budge (1938), Lew Hoad (1956) e Rod Laver (1962 e 1969). Desses, apenas Budge e Laver completaram o Slam nos EUA.

Vencer seguidamente no saibro de Paris e na grama londrina também era um feito raro até Bjorn Borg fazê-lo por três vezes seguidas, entre 1978 e 1980. Desde então, apenas Nadal (2008 e 2010) e Federer (2009) repetiram o sueco.

Penta ao lado de Borg, Djoko poderá ainda se isolar como terceiro maior vencedor de Wimbledon desde que foi abolido o ‘challenge round’ em 1921 (ou seja, quando o campeão do ano anterior apenas defendia o título na edição seguinte). Os outros dois são Federer (oito troféus) e Pete Sampras (sete).

Por fim, se for à semifinal, somará 100 vitórias na grama na carreira, clube exclusivo de Federer (188) e Andy Murray (108) na fase profissional.

Com apenas três jogos de duplas feitos em Mallorca – em quatro de seus cinco títulos não jogou preparatórios de qualquer espécie -, Djokovic testa sua adaptação á grama diante do garoto britânico Jack Draper, 253º do ranking nesta segunda-feira. Fico a imaginar o tamanho da ansiedade do canhoto de 19 anos: vai jogar seu primeiro Slam, diante do número 1 e em plena Central, um palco reservado a muitos poucos na história.

Saiba mais
– O torneio mais antigo do mundo atinge a 134ª edição desde 1877 e a 53ª desde que profissionais foram admitidos, em 1968.
– Nesse longo período, o torneio deixou de ser disputado apenas 11 vezes, sendo 4 na Primeira Guerra, 6 na Segunda e 1 nesta pandemia.
– Os campeões embolsam 1,7 milhão de libras (US$ 2,3 mi) e quem perder na estreia, 48 mil (US$ 67 mil)
– Se chegar ao nono troféu, Federer marcará também a maior distância entre o primeiro e o último Slam, com 18 anos. O recorde hoje é de Serena, com 17 anos e 5 meses, seguida por Nadal, com 15 anos e 4 meses.
– Aos 39 anos e 337 dias, suíço também pode ser o mais velho campeão de um Slam.
– Federer disputa o torneio pela 22ª vez, com total de 81 Slam, e Venus completa 23 participações e 90 Slam, recordes absolutos. Feli Lopez chega a 77 Slam seguidos.
– Só existem quatro vencedores de Slam na chave masculina, somando Murray e Cilic. Dos demais, apenas Anderson chegou numa final de Wimbledon. No feminino, são 15 e olhem que Osaka e Halep estão fora.
– Mais dois recordes para o tênis italiano: representantes na chave masculina (10) e cabeças (4).
– Dos oito principais cabeças, Medvedev, Tsitsipas, Zverev, Rublev e Berrettini nunca fizeram quartas em Wimbledon. Bautista foi semi em 2019.
– O cabeça 1 só perdeu uma vez na estreia na Era Aberta: Hewitt para Karlovic em 2003
– Há 18 canhotos na chave. O último a vencer foi Nadal, em 2010
– Borg, Cash, Edberg e Federer foram únicos campeões juvenis que ergueram troféu no profisisonal
– A última vez que um debutante ganhou Wimbledon foi em 1951, com Dick Savitt
– Um membro do time de Johanna Konta deu positivo para covid e a britânica foi obrigada a se retirar do torneio. Ela foi semi em 2018 e quartas em 2019.
– Sabalenka pode tirar Barty da ponta do ranking, mas terá de ser campeã e a australiana não passar das quartas.
– Em 19 participações, Serena nunca perdeu na estreia de Wimbledon. Precisa de duas vitórias para chegar à 100ª no torneio.
– Desde 2017, o circuito feminino vê sempre quatro diferentes campeãs de Slam (em 2020 foram três).
– O Brasil de Maria Esther faz parte da curta lista de 11 países a ganhar o título feminino na história do torneio

Big 100
Por José Nilton Dalcim
3 de junho de 2021 às 18:30

Na primeira vez em que estiveram em quadra ao mesmo tempo em rodadas iniciais de um Grand Slam, o Big 3 justificou os 58 troféus que já levantaram na carreira. Não se podia esperar outra coisa do que vitórias em sets diretos do aniversariante Rafael Nadal e de Novak Djokovic e assim a expectativa maior ficou em cima de Roger Federer. E ele também não decepcionou, garantido 100% de aproveitamento.

Marin Cilic está longe de ser um especialista no saibro, porém foi o primeiro adversário gabaritado a cruzar o caminho do suíço após a longa parada de 13 meses. Além da experiência de um Slam – onde aliás marcou sua única vitória em agora 11 duelos contra o suíço -, é um sacador respeitável que usa seu forehand muito agressivo o tempo todo.

Para boa surpresa, Federer dominou o primeiro set com saque afiado, pontos velozes e curtinhas magistrais. Depois, ficou perto de tomar 0/4 e discutiu equivocadamente com o árbitro por discordar de que estivesse atrasando o saque do adversário. Mais preocupado em reclamar, perdeu a concentração e cedeu o empate.

O terceiro set foi crucial, com primeiros games longos e tensos de saque. Federer fez 3/1 e perdeu quatro chances de ampliar, levando castigo imediato. Os sacadores então prevaleceram, com notável sequência de seis games em que o devolvedor não marcou ponto, e aí o suíço viveu um grande momento no tiebreak, que se esticou por todo o quarto set.

Pontos altos do suíço foram o serviço muito eficiente na maior parte do tempo, a evolução clara da devolução a partir do tiebreak e movimentação tranquila, chegando em bolas difíceis sem economia de pernas. Pareceu inteiro após 2h38 e seus 27 erros foram compensados com 47 winners, sendo 16 deles aces.

É muito provável que o alemão Dominik Koepfer lhe dê muito mais trabalho no sábado. Canhoto de 1,80m, tem o saibro como piso predileto já que seus golpes são sólidos, com destaque para o backhand, embora arrisque um pouco além da conta. Na vitória sobre Taylor Fritz em quatro sets, fez 42 winners e 53 erros, tendo sacado a 209 km/h.

Djokovic joga muito, Nadal oscila
Pablo Cuevas foi um teste muito bom para Novak Djokovic. Jogou de forma agressiva, pegando o máximo que pôde na subida; forçou o sérvio a deslocamentos laterais bem radicais e se mostrou muito habilidoso como já conhecemos. O número 1 teve resposta para tudo, mas gostei mesmo de seu forehand. Arrancou cruzadas de enorme precisão e paralelas profundas.

Nole perdeu um game de serviço e salvou outros oito break-points, ou seja o placar foi até mais cruel para Cuevas do que ele realmente mereceu. A vaga nas oitavas só escapa do sérvio se acontecer algum desastre inimaginável. Há oito meses, o lituano Ricardas Berankis só tirou cinco games dele num Roland Garros então mais lento do que este.

Já o canhoto espanhol deu pinta que iria esmagar Richard Gasquet como se esperava. E diante de um francês incrivelmente lento no primeiro set, cedeu meros nove pontos. Tudo ia pelo mesmo caminho no segundo set: 5/2, set-point. Rafa sacou então com 5/3 e não cacifou com muita falha no serviço. Gasquet então apostou em ir à rede e o set ficou duro até o sexto game da outra série, quando então tudo voltou à normalidade. E o tênis francês não tem mais qualquer representante nas duas chaves de simples após duas rodadas.

Agora com 102 vitórias em 104 possíveis no torneio, Rafa faz partida de canhotos contra o mesmo Cameron Norrie a quem venceu por 6/1 e 6/4 semanas atrás em Barcelona.

Festa italiana
Em excepcional momento, o tênis italiano classificou cinco nomes para a terceira rodada depois que Matteo Berrettini, Jannik Sinner, Lorenzo Musetti e Marco Cecchinato se juntaram a Fabio Fognini, único que está do outro lado da chave. Iguala assim o recorde de qualquer Slam que já havia alcançado na edição do ano passado.

Musetti e Cecchinato duelam entre si para ver quem será o provável adversário de Djokovic e Sinner encara a surpresa Mikael Ymer antes de chegar em Nadal. Assim, Berrettini parece o mais cotado, já que está jogando um belo tênis e terá favoritismo se enfrentar Federer nas oitavas. Do outro lado, Fognini tem ótima chance contra Federico Delbonis e deve pegar Casper Ruud ou Alejandro Davidovich.

O dia tão cheio ainda merece três citações. Ymer é um jogador esforçado, que já foi treinado por Robin Soderling mas nunca progrediu muito. Mesmo seu saque frágil e forehand enrolado foram suficientes para tirar um avariado Gael Monfils. Perto dos 38 anos, tufos grisalhos e voltando de contusão, Philipp Kohlschreiber parou Aslam Karatsev e desafiará Diego Schwartzman. E o adolescente Carlos Alcaraz ganhou mais uma e se tirar Jan-Lennard Struff será top 70.

Barty sai, Swiatek dá show
Como era esperado, Ashleigh Barty sucumbiu à lesão no quadril e mal jogou 11 games, deixando Roland Garros sem mais uma estrela. Com isso, as quartas podem ter Ons Jabeur, Jennifer Brady ou a garota Coco Gauff. O caminho poderia favorecer Elina Svitolina, mas ela tem de tomar cuidado com a recuperada Barbora Krejcikova e quem sabe com Sloane Stephens, que fez bela exibição diante de Karolina Pliskova.

Mas quem brilhou mesmo foi Iga Swiatek. A atual campeã de 19 anos jogou no seu ritmo avassalador, sem dar chance para a adversária respirar. Parece uma questão de quem vai desafiá-la nas quartas e o grupo de candidatas é variado e competente: Sofia Kenin encara Jessica Pegula e Elise Mertens joga contra Maria Sakkari.

Começa a terceira rodada
– Há quatro americanos na busca por vaga nas oitavas, o maior número em Paris desde 1996. Os mais cotados são Opelka, que deu muito trabalho a Medvedev por três duelos já realizados, e Isner, derrotado nos três jogos mais recentes frente a Tsitsipas. Johnson pega Carreño e Giron é ‘zebra’ diante de Garin.
– Zverev faz jogo inédito contra Djere, que nunca chegou na 4ª rodada de um Slam.
– Fognini e Delbonis se cruzam pela 9ª vez e o placar no saibro é de 4-3 para o italiano.
– Nova geração garante nome com duelo de Ruud e Fokina.
– Os últimos quatro jogos de Nishikori no torneio foram ao quinto set. Japonês já fez três quartas no torneio e encara o franco atirador Laaksonen. 150º do ranking.
– Sabalenka acabou de ganhar de Pavlyuchenkova no saibro rápido de Madri e pode fazer duelo bielorrusso com Azarenka, que encara Keys, semi de 2018
– Collins levou Serena ao tiebreak em Melbourne meses atrás e fez quartas em Paris no ano passado e portanto é adversária perigosa. Quem vencer, pega Rybakina, que está longe dos bons dias de 2020, ou a renascida Vesnina.
– Badosa e Vondrousova são amplas favoritas e se cruzariam em seguida. Kasatkina é o nome mais forte do outro setor.