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Melhores do ano
Por José Nilton Dalcim
20 de dezembro de 2020 às 20:45

É fato que a temporada 2020 foi a mais estranha de toda a Era Profissional. Calendário encurtado, grandes e tradicionais torneios cancelados, jogadores temerosos provocando ausências de peso nos Grand Slam, ranking modificado… A pandemia provocou confusão e incertezas no tênis profissional, mas a determinação e o desespero dos promotores conseguiram driblar o momento delicado e ao menos houve emoção nos cinco meses em que a bola efetivamente rolou.

Por isso, TenisBrasil seguiu a tradição e coloca em votação sua tradicional enquete de Melhores do Ano, realizada continuamente desde o ano 2000. Muito mais do que apenas coletar opiniões, a pesquisa serve como um grande resumo da temporada, já que lista o que de mais relevante aconteceu ou se destacou.

Como os votos ainda estão sendo computados (clique aqui para votar na mais recente e siga a lista dos demais itens no índice geral), vale aqui dar meu palpite sobre os temas que considero mais relevantes. Obviamente aguardo observações pertinentes.

Fato do ano – As seis alternativas listam os grandes momentos de 2020, como o ‘Fedal’ recordista da África do Sul, o título inédito de Dominic Thiem, a façanha de Iga Swiatek, mas me parece que a disputa fica entre Rafael Nadal, Novak Djokovic e Daniil Medevedev. Eu votei no 13º Roland Garros e 20º Slam do espanhol, deixando logo atrás a sexta temporada de liderança do sérvio e a história campanha do russo no Finals.

Jogo e torneio – O Australian Open marcou três jogos muito interessantes, com destaque para a final entre Djoko e Thiem. Foram notáveis também as duas semis do Finals, mas para mim foi de arrepiar o duelo de terceira rodada entre Coric e Tsitsipas pelo US Open. Já o melhor torneio me pareceu mesmo o Finals, com um nível técnico muito alto.

Treinador – Achei bem interessante a pergunta sobre os técnicos, até porque a lista valoriza dignamente o trabalho que eles realizaram. Meu voto fica com Gilles Cervara, o treinador de Medvedev, porque claramente sabe tirar o máximo de um pupilo que não é nada fácil de domar. Logo atrás, fica Riccardo Piatti e o trabalho com o garoto Jannik Sinner, que para mim foi o que mais evoluiu em 2020.

Decepções e surpresas – Em termos de expectativa, Felix Aliassime me decepcionou, mas no nível mais alto esperava que Stefanos Tsitsipas desse outro grande passo à frente. Houve resultados surpreendentes e dois me parecem acima: Hugo Gaston em cima de Stan Wawrinka na base dos drop-shots e o jogo de risco de Lorenzo Sonego sobre Djokovic em Viena.

Feminino – Cada Slam ficou com uma tenista diferente e Vika Azarenka fez uma notável temporada – e assim merece o destaque como melhor retorno -, mas no conjunto da obra acho que Naomi Osaka foi a melhor de 2020 e também apontaria a final do US Open em que ela venceu Azarenka como a mais importante partida da temporada. Admirável a evolução de Jennifer Brady, porém o título em Roland Garros de Iga Swiatek a coloca como a que mais progrediu. A revelação que mais me agradou é a canhotinha canadense Leylah Fernandez.

Brasil – Bem difícil votar na principal façanha brasileira da temporada, porque Thiago Wild ganhou um ATP aos 19 anos e mostrou todo seu talento. Mas um Slam é um Slam, e assim o bi de Soares no US Open leva meu voto. Wild merece vencer na lista das revelações do ano, muito acima de Carlos Alcaraz e Lorenzo Musetti.

Pandemia – Bem bolada a pergunta sobre o maior beneficiado pela pandemia e a lista de candidatos não é menos perfeita. Como não jogaram nada depois da parada do circuito, em fevereiro, Ashleigh Barty e Roger Federer acabaram especialmente ajudados. A australiana corria risco de perder o número 1 e o suíço, de sair do top 10 com as cirurgias.

Polêmicas – Duas questões abordaram o tema. A primeira, genérica, colocou ótimas alternativas e eu ficaria com a organização desastrada e inoportuna do Adria Tour. Já sobre a frase mais impactante de Nick Kyrgios, deu para se divertir e eu voto na que ironiza a bolada de Djokovic: ‘Se fosse eu, pegaria quanto? Cinco, dez ou vinte anos?’

Nesta semana, prossegue a enquete, mas será a vez das previsões para 2020. Não se esqueça de votar diariamente.

Ao final, haverá um balanço percentual dos votos e, como de hábito, serão comparados à opinião dos especialistas convidados por TenisBrasil a dar suas opiniões.

P.S.: Muitos fizeram contato comigo por email e pelas mídias sociais, justificadamente preocupados com a pane sofrida pelo sistema operacional do Blog entre quinta e sábado. Explico: houve a queda na ‘nuvem’ que hospeda o site e se tornou necessário muito esforço técnico para que nada se perdesse na migração de servidores.

O desempate
Por José Nilton Dalcim
14 de outubro de 2020 às 21:20

Rafael Nadal acaba de empatar com Roger Federer na quantidade de troféus de Grand Slam, que são sem qualquer sombra de dúvida os títulos que mais pesam no currículo de qualquer jogador. Ambos deixaram Novak Djokovic agora três conquistas atrás.

Como desempatar essa disputa? Não sou daqueles que acham que números explicam ou resolvem tudo, mas vamos dar uma olhada nas principais estatísticas dos Grand Slam para tentar resolver a questão.

Grandes campanhas
Federer domina tudo: 31 finais contra 28 de Nadal e 27 de Djokovic, 46 semifinais frente a 38 de Nole e 34 de Rafa e ainda 57 quartas, 10 a mais que o sérvio e 15 à frente do espanhol. É uma soberania inquestionável.

Quando no entanto vemos o percentual de aproveitamento, a ordem muda. Em termos de vitórias, Nadal tem 87,9%, acima dos 86,8% de Djokovic e dos 86% de Federer. Isso também acontece no percentual de finais de Slam vencidas, onde Rafa agora tem 71,4% (20 em 28), muito à frente dos 64,5% de Federer (20 em 31) e dos 63% de Djoko (17 em 27).

Vale ainda destacar nesse campo a série de quatro títulos seguidos que apenas Nole possui (os outros dois tiveram três). Federer é absoluto em finais seguidas (10), semis (23) e quartas (36), marcas que não têm a menor chance de ser alcançadas pelos concorrentes diretos.

Os territórios
Se Nadal é absoluto em Roland Garros com seus 13 títulos em 13 finais, Federer domina Wimbledon com oito troféus em 12 decisões e Djokovic reina com oito finais de sucesso em Melbourne. No entanto, o suíço é o segundo em títulos na Austrália (6) e o recordista no US Open (5, ao lado de Connors e Sampras), enquanto Nole tem uma final a mais no US Open (8 contra 7).

Dos quatro Slam, Federer é recordista de vitórias na Austrália (102) e Wimbledon (101) e está em segundo no US Open (89). Bem pouco provável que Nadal e Djokovic o ameacem. E mesmo no saibro de Paris, o suíço ainda é terceiro (70), pouco atrás de Djokovic (74) mas muito distante de Nadal (100).

Se olharmos o aproveitamento de vitórias nos Slam, fica outra vez claro o domínio de cada um no seu terrítório. Na Austrália, Djokovic tem 90,4% contra 87,2% de Federer e 82,3% de Nadal. Em Roland Garros, o espanhol tem incríveis 98% contra 83,1% de Djoko e 80.5% de Roger. Em Wimbledon e US Open, Federer lidera: 88,6% contra 87,8% de Djokovic na grama londrina e 86,4% frente a 86,2% (Nadal está perto, com 85,3%).

Na soma dos dois Slam de quadra dura que existem desde 1988, Djokovic está acima de Federer (88,2% contra 86,8%).

Período dominante
Por fim, vale observar que Federer é o único tenista profissional com três Slam vencidos numa temporada por três anos (dois seguidos), algo que Djokovic conseguiu duas vezes e Nadal, uma. O suíço também disputou todas as finais de Slam de um calendário por três vezes (dois consecutivos), cabendo uma a Djoko.

No entanto, seus perseguidores têm duas façanhas não menos únicas e expressivas. O sérvio foi dono dos quatro troféus simultaneamente entre 2015 e 2016. Antes dele, Nadal foi o primeiro e único a vencer seguidamente nas três diferentes superfícies, em 2010.

Observe-se ainda que Nadal conseguiu completar o quadro de títulos em todos os Slam aos 24 anos, três antes dos 27 de Federer e muito à frente dos 29 de Djokovic.

Não sei se tudo isso aí será o bastante para determinar um desempate. Certo mesmo é que esses três são os maiores tenistas de todos os tempos. E contando.

Feito inédito no tênis profissional
Fiquei devendo uma informação importante. Depois de verificar todos os torneios em que algum homem venceu um Slam sem perder sets – e foram bem poucos -, o fato de Roland Garros ter tido dois campeões totalmente invictos, Nadal e Iga Swiatek, foi mesmo inédito. Entre os homens, isso aconteceu sete vezes em Paris (quatro com Nadal, duas com Borg e uma com Nastase); duas em Wimbledon (Borg e Federer) e duas na Austrália (Federer e Rosewall).

Premiados do Desafio
Em apuração apertada, Cláudio Sérgio venceu o Desafio das Semifinais de Roland Garros e assim irá receber o livro “Jogando Junto”, de Fernando Meligeni, cortesia da Editora Évora. Já o Desafio da Final foi tão equilibrado que acabei obtendo da Editora Évora a autorização para premiar dois vencedores: Carlos Alberto Regis e Mariana Tereza, que erraram o total de games por apenas um e o tempo de jogo por mínimos minutos! Os dois terão direito à excepcional biografia de Novak Djokovic escrita por Blaza Popovic e grande sucesso de vendas.

Livre do fardo, Thiem pode fazer ainda mais
Por José Nilton Dalcim
13 de setembro de 2020 às 23:25

Numa das finais de Grand Slam mais malucas e imprevisíveis dos últimos tempos, Dominic Thiem conseguiu sobreviver a seus erros, ao jogo ousado do adversário, aos nervos aflorados e por fim às dores musculares para enfim conquistar o tão aguardado título de Grand Slam, que havia lhe escapado por três outras vezes.

O esforço de quatro horas o levou à história: primeiro campeão da Era Profissional a virar de dois sets e a vencer um tiebreak de quinto set numa final em Nova York, 150º diferente vencedor de Slam de todos os tempos, primeiro homem nascido na década de 1990 a ganhar um troféu desse quilate após sequência de 63 dos oriundos de 1980.

Mas como foi difícil. Descalibrado, levou uma surra por quase dois sets diante de um Alexander Zverev que entrou em quadra com proposta ofensiva. Atacou segundo serviço, bateu firme na paralela e principalmente foi muito à rede. De repente, ganhava com toda justiça por 6/2 e 5/1, três set-points, adversário aturdido nas cordas. Aí talvez tenha surgido o primeiro deslize do alemão: deixou Thiem ganhar três games seguidos e a reencontrar algo do velho ritmo.

Sascha ainda abriu o terceiro set com quebra no terceiro game e parecia caminhar para uma vitória inesperadamente fácil. De novo, falhou ao deixar o austríaco tirar seu saque e daí em diante o jogo ficou diferente. Ainda que não fosse o rolo compressor das quartas ou da semi, o renascido Thiem já tinha pernas para fugir e atacar mais de forehand, parou de dar tanto ponto bobo e pouco a pouco as devoluções incomodaram o adversário. Quando está confiante, faz mais também com o backhand e assim seu quarto set beirou o impecável, com apenas dois erros não forçados. Enfim, parecia uma digna final de Slam.

Era para se imaginar um Zverev de cabeça baixa no quinto set. Logo de cara, perdeu o serviço, sinal dos velhos tempos. Novo engano nessa final tão cheia de surpresas. O alemão reagiu imediatamente, ficou consistente da base, defendeu-se bem e chegou ao momento máximo: 5/3 e saque para o título. Deve ter pensado demais e ficou covarde. Thiem virou para 6/5 e aí também sacou para a vitória. Mas passou a ter muitas dores na coxa esquerda, se arrastava em quadra e permitiu que a definição fosse ao tiebreak. Roteiro de dramalhão mexicano.

Zverev fez 2-0 antes do fantasma das duplas faltas o atormentar (foram 15, mesmo número de aces). Já não conseguia mais fazer o primeiro serviço voar, tentou voleio e deu 6-4 ao adversário, que por sua vez empurrava slices de backhand. No segundo match-point para Thiem, forehand fácil na paralela… e rede! Tudo igual. Por fim, uma passada paciente em três tentativas deu a terceira chance ao austríaco, que viu a bola de Zverev escapar na lateral e se jogou ao chão para comemorar. Dez dias depois de completar 27 anos, enfim entrou para a lista dos gigantes.

O primeiro Slam da pós-pandemia não foi um festival de abandonos, como se previa. Ao contrário, mostrou o notável poder físico do tenista moderno e brindou o espectador da TV ou do streaming com alguns duelos memoráveis, tanto na qualidade dos golpes como no espírito de luta. Também terminou com finalistas imprevistos, uma renovação forçada pela ausência do Big 3, e apesar de não ter sido espetacular a decisão trouxe emoção, entrega no limite e disputa respeitosa.

Eu apostaria que ainda virão mais Slam para Thiem, e ele deve chegar forte em Roland Garros. E Zverev terá novas oportunidades se mantiver esse ritmo, serenidade e motivação.

E mais
– Thiem repete Thomas Muster, campeão de Roland Garros em 1995, como únicos austríacos a ganhar um Slam de simples.
– Ele também igualou Goran Ivanisevic e Andre Agassi, que também perderam três finais antes de ganhar seu primeiro Slam. Andy Murray e Ivan Lendl precisaram de cinco tentativas.
– Aos 23 anos, Zverev foi o mais jovem finalista de Slam desde Novak Djokovic, no US Open de 2010. O último alemão a ganhar um troféu desse quilate foi Boris Becker, no AusOpen de 1996.
– Esta foi a final mais jovem de Slam desde Djokovic-Nadal do AusOpen-2012.
– O troféu masculino fica com um europeu pelo 42º Slam consecutivo, ou seja, desde janeiro de 2010.
– Esta foi a terceira virada de 0-2 na carreira de Thiem, todas em Slam. Zverev, ao contrário, nunca havia perdido um jogo após ganhar os 2 primeiros em 27 anteriores.
– O US Open viu a quarta final consecutiva de Slam que foi ao quinto set.