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Quanto fatura um Grand Slam
Por José Nilton Dalcim
21 de maio de 2019 às 22:08

Mais importantes torneios do calendário do tênis internacional, os Grand Slam – denominação originalmente citada em 1937 para denominar os principais títulos do circuito e baseada numa cartada do bridge – também detêm os valores mais expressivos de faturamento, lucro e premiação, com significativas diferenças.

O Australian Open detém hoje o recorde de ingressos vendidos. Pelo segundo ano consecutivo, superou o US Open e cravou nesta última edição 780 mil espectadores, cerca de 50 mil a mais do que o Slam norte-americano. Esses são os dois únicos Slam a ter duas sessões diárias até as semifinais, o que explica terem quase o dobro de Wimbledon ou de Roland Garros.

Melbourne está com faturamento estimado de US$ 190 milhões, dos quais perto de US$ 40 mi são pagos em premiação aos jogadores. Para tocar o evento, único dos Slam a ter três estádios com quadra coberta, emprega cerca de 9 mil pessoas. O lucro estimado é considerado pequeno, na casa dos US$ 10 milhões.

O US Open por sua vez tem o mais custoso de promoção entre os quatro grandes, com faturamento que ultrapassa os US$ 270 milhões. Sempre foi o que remunera melhor os tenistas, com US$ 50 milhões no ano passado, já que também foi o pioneiro na equiparação de premiação a homens e mulheres, que vem desde 1973. Segundo a revista Forbes, emprega quase 10 mil pessoas e o lucro anual fica na casa dos US$ 50 milhões graças a um painel de 30 patrocinadores.

Justamente por isso é que Wimbledon gera espanto. Por tradição, jamais estampa qualquer marca em suas telas de fundo de quadra e ainda não conseguiu atingir a casa dos 500 mil ingressos vendidos. Tem persistentemente cravado os 485 mil e só agora, com a expansão diária de 39 para 42 mil espectadores, poderá enfim atingir a desejada meta.

Ainda assim, com custo anual estimado em US$ 250 milhões e pagando US$ 50 mi aos tenistas, é o Slam com maior lucro, estimado em cerca de US$ 80 mi nas recentes edições. Curiosamente, Wimbledon também é o único a pertencer a uma entidade privada, o All England Club, que no entanto reserva uma generosa parte desse lucro para o fomento do tênis britânico. O torneio de 13 dias emprega 6 mil pessoas. Neste ano, entregou o teto de seu segundo maior estádio e anunciou a compra do campo de golfe anexo para grande expansão.

Roland Garros acabou se tornando o ‘primo pobre’ dos Slam, mas não tão pobre assim. Sua área tem apenas a metade do que ocupam atualmente os outros complexos tenísticos, o que gera um tremendo aperto para o público. Mas não fica atrás de Wimbledon. Em 2018, foram 480 mil entradas vendidas, mais 23 mil no quali, crescimento de apenas 1,5% porém recorde para o torneio.Importante lembrar que é o único dos Slam com 15 dias de programação.

É o Slam que emprega mais funcionários, com 10 mil, e seu custo está na faixa dos US$ 210 milhões, dos quais US$ 45 mi são dados aos tenistas, ficando ainda acima do AusOpen. Não há um dado oficial sobre o lucro para a Federação Francesa, organizadora do evento, mas a estimativa é que fique acima dos US$ 30 mi.

Depois de longa briga judicial e ameaças de deixar Paris, foi autorizada a ampliação territorial e melhorias – lança neste ano a bela quadra Simonne Mathieu -, mas o estádio principal só receberá o tão sonhado teto retrátil em 2020, quando todos os concorrentes já terão pelo menos dois.

Day after
– Djokovic ampliou em mais 240 pontos sua vantagem sobre Nadal no ranking. Chegarão a Paris, onde o espanhol não pode somar e Nole defende 360 pontos das quartas, com vantagem do sérvio na notável casa dos 4.410 pontos.
– Nadal por sua vez chegou à 735ª semana consecutiva no top 10, portanto desde 25 de abril de 2005, superando Roger Federer. Agora, a busca é pelas 789 do recordista Connors.
– Tsitsipas é o terceiro melhor da temporada (2.760 pontos), atrás de Nole (4.005) e Nadal (3.505) e à frente de Federer (2.640) e Thiem (2.105).
– Dois top 20 estão fora de Roland Garros (Anderson e Isner) e aguarda-se poisção de Raonic. Assim, deveremos ter nove cabeças acima dos 30 anos e três abaixo dos 21.
– A chave feminina confirmou até agora todas as 32 primeiras do ranking. Kerber era a principal dúvida. Apenas duas (Osaka e Sabalenka) tem menos de 21 anos.
– O sorteio está marcado para as 14h (de Brasília) desta quinta-feira.

Desafio de Roma
O internauta Norbert Goldberg levou a biografia de Novak Djokovic, grande sucesso da Editora Evora, ao ter feito o melhor palpite para a vitória de Rafael Nadal sobre Djoko na decisão de Roma no domingo. Vários cravaram 2 sets a 1, mas ele esteve bem mais perto do andamento do jogo e das parciais de cada set, já que palpitou 6/4, 3/6 e 6/2, em 2h50. Como todos se lembram, Rafa ganhou por 6/0, 4/6 e 6/1, em 2h25.

O dia em que Serena manchou o tênis
Por José Nilton Dalcim
8 de setembro de 2018 às 20:41

nnSerena Williams é uma tenista espetacular, campeã legítima, dona de golpes espetaculares, grande força física. Tida por muita gente como a maior da história, o que não pode ser contestado diante de seus números incríveis, recordes estonteantes e uma trajetória de carreira cheia de duros desafios e superações.

Mas Serena transformou um grande dia do tênis feminino em sucessivas cenas constrangedoras. Sua discussão cada vez mais ríspida com o árbitro Carlos Ramos incitou a torcida norte-americana, gerou vaias até na cerimônia de premiação e quase deixou em segundo plano a notável façanha de Naomi Osaka, campeã do US Open aos 20 anos com atitude de uma veterana.

Apenas para relembrar, Serena levou advertência por instrução no segundo game do segundo set – havia acabado de ser dominada por indiscutíveis 6/2 -, situação flagrada pela TV oficial e admitida mais tarde pelo próprio Patrick Mouratoglou. Mas ok. Ela reclamou e jurou inocência, como fazem todos os tenistas.

Depois, desperdiçou vantagem de 3/1 com um game ruim de serviço e destruiu a raquete. Levou nova advertência e, como diz a regra, o game seguinte começou com 15-0 para a japonesa. Serena aparentemente não levou em consideração a primeira advertência, sabe-se lá por que supondo que Ramos a havia retirado.

Claro que não. Ficou irritada, continuou a dizer que Ramos havia ofendido sua honra (por acusar de instrução), usou até o fato de ter uma filha. Incrível seu descontrole emocional. Pior. Levou a torcida junto, gente furiosa de pé e dedo em riste na arquibancada, vaias generalizadas que obrigaram a própria Williams a pedir calma ao público.

De 3/1, Serena viu-se atrás por 3/4, já que Osaka fez novamente seu papel com total competência, pouco se importando com os devaneios do ídolo. E então Serena vai para a cadeira e continua a arguir com Ramos. O microfone de quadra capta claramente, assim que ela se levanta para ir à posição de devolução: ‘Você me roubou um ponto, você é um ladrão’.

Aí não dá, né? Ramos teria de ser um tremendo ‘banana’ para não tomar uma atitude. Abuso verbal, penalidade de um game todo, 5/3. Outro barraco, Serena chama supervisores, mostra que está cansada de ser prejudicada no US Open, afirma (talvez único momento em que lhe dou razão) que muito marmanjo faz coisa pior e ninguém fala nada. Quase chora. Ainda vence seu game.

Impassível – durante toda a confusão, a câmera mal a enxergou -, Osaka saca com 5/4, capricha em cada golpe, vê até um grande lance da megacampeã, mas liquida a partida. Ao menos, Serena lhe deu um abraço acalorado.

O triste dia em que a magistral Serena maculou o tênis prosseguiria com uma acanhada cerimônia de premiação, que começou sob vaia. Constrangedor em todos os sentidos. Até Katrina Adams, presidente da USTA, entrou na fúria. Serena amenizou, parabenizou a adversária e arriscou uma piadinha.

Tímida por natureza, Naomi quase pediu desculpas por ter vencido o US Open. Isso não se faz com uma menina que jogou um torneio impecável, mostrou qualidades de sobra para ser agora a número 7 do ranking. Que traz a tão esperada renovação para as quadras com um tênis vistoso, corajoso, agressivo, tal qual Serena e Venus ensinaram a suas seguidoras quase 20 anos atrás.

Bem vinda à terra de gigantes, Naomi.

Volta por cima
Por José Nilton Dalcim
10 de setembro de 2017 às 23:56

O jejum de três anos e oito meses de conquistas sobre o piso sintético não poderia ter terminado de forma mais exuberante para Rafael Nadal. Depois de deixar escapar chances em Melbourne, Acapulco e Miami, o canhoto espanhol mostrou em Flushing Meadows as qualidades essenciais de quem joga bem nesse tipo de superfície: grande percentual de pontos vencidos com o saque, capacidade de evitar e buscar break-points, devoluções persistentes e perfeita transição para a rede.

Junte-se a isso sua habitual competência atlética de buscar bolas impossíveis, as pernas leves para atacar com o forehand bem posicionado e uma evolução cristalina do backhand e se tem um campeão. Ou melhor, um tricampeão do US Open. Para quem não se lembra, é importante recordar que, a cada conquista em Nova York, ele mostrou um elemento novo no seu repertório. Num ano, jogando mais perto da linha, em outro agregando slices e voleios. Nadal mais uma vez se reinventou, e isso não aqui e agora, mas desde o começo da temporada.

A final de domingo transcorreu exatamente como o previsto. Na verdade, a surpresa foi que Nadal sacou muito melhor do que Anderson, que era o tenista que dependia crucialmente do serviço para ter chances. Até o nervoso último game, Nadal só havia permitido dois 30-30, sempre achando o backhand do sul-africano na hora precisa. Não menos fundamental foi o fato de que o espanhol conseguiu colocar muita devolução de volta, obrigando Anderson a disputar dezenas de pontos que certamente não gostaria. Aí forçou e errou além da conta.

A conquista deste domingo também pode ser essencial na luta para terminar como número 1 da temporada. Divide agora com Roger Federer dois Grand Slam para cada lado, mas seu domínio sobre o saibro permite que abra uma diferença de 1.860 pontos sobre o suíço nesta segunda-feira. Ou seja, irá permanecer na ponta pelo menos até o final de outubro. Embora seja possível Federer somar mais pontos até o Finals, a lógica diz que os dois irão disputar em Londres, rodada a rodada, a primazia de 2017.

Ao atingir o 16º Slam, uma coleção iniciada 12 anos atrás, Nadal ganha a motivação para tentar se aproximar, igualar ou até mesmo ultrapassar os 19 troféus de Federer em 2018. Não é obviamente uma tarefa fácil, mas Nova York a tornou mais possível do que nunca. Antes disso, porém, Rafa talvez tente realizar o sonho de ganhar o Finals, o torneio que falta na sua galeria de 74 títulos. Num grupo que não terá Djokovic, Wawrinka e Murray mas talvez novatos como Zverev, Thiem, Dimitrov e até Carreño, a chance aumenta muito.

No sábado, a final feminina foi sim inesperada. E frustrante. Madison Keys não controlou os nervos e fez uma partida muito abaixo de sua qualidade técnica. Buscou como sempre ser agressiva, mas estava muito precipitada. E diante de Sloane Stephens, não dá para cometer tantos erros de julgamento e finalização. Resultado foi um atropelamento impiedoso.

Stephens voltará nesta segunda-feira ao 17º lugar do ranking, cerca de 940 posições acima do que ocupava quando retornou ao circuito em Wimbledon, após 11 meses de inatividade e drama. Contou na entrevista oficial que chegou a duvidar que conseguiria recuperar um lugar no top 100, quem dirá ganhar um Grand Slam, e ainda por cima o US Open.

Embora não tenha um saque contundente, seu tênis é muito astuto, mesclando ataque e defesa. Muita perna e determinação, o que necessariamente lembra o próprio Nadal. Predicados que sem dúvida foram a marca registrada deste US Open.