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O desempate
Por José Nilton Dalcim
14 de outubro de 2020 às 21:20

Rafael Nadal acaba de empatar com Roger Federer na quantidade de troféus de Grand Slam, que são sem qualquer sombra de dúvida os títulos que mais pesam no currículo de qualquer jogador. Ambos deixaram Novak Djokovic agora três conquistas atrás.

Como desempatar essa disputa? Não sou daqueles que acham que números explicam ou resolvem tudo, mas vamos dar uma olhada nas principais estatísticas dos Grand Slam para tentar resolver a questão.

Grandes campanhas
Federer domina tudo: 31 finais contra 28 de Nadal e 27 de Djokovic, 46 semifinais frente a 38 de Nole e 34 de Rafa e ainda 57 quartas, 10 a mais que o sérvio e 15 à frente do espanhol. É uma soberania inquestionável.

Quando no entanto vemos o percentual de aproveitamento, a ordem muda. Em termos de vitórias, Nadal tem 87,9%, acima dos 86,8% de Djokovic e dos 86% de Federer. Isso também acontece no percentual de finais de Slam vencidas, onde Rafa agora tem 71,4% (20 em 28), muito à frente dos 64,5% de Federer (20 em 31) e dos 63% de Djoko (17 em 27).

Vale ainda destacar nesse campo a série de quatro títulos seguidos que apenas Nole possui (os outros dois tiveram três). Federer é absoluto em finais seguidas (10), semis (23) e quartas (36), marcas que não têm a menor chance de ser alcançadas pelos concorrentes diretos.

Os territórios
Se Nadal é absoluto em Roland Garros com seus 13 títulos em 13 finais, Federer domina Wimbledon com oito troféus em 12 decisões e Djokovic reina com oito finais de sucesso em Melbourne. No entanto, o suíço é o segundo em títulos na Austrália (6) e o recordista no US Open (5, ao lado de Connors e Sampras), enquanto Nole tem uma final a mais no US Open (8 contra 7).

Dos quatro Slam, Federer é recordista de vitórias na Austrália (102) e Wimbledon (101) e está em segundo no US Open (89). Bem pouco provável que Nadal e Djokovic o ameacem. E mesmo no saibro de Paris, o suíço ainda é terceiro (70), pouco atrás de Djokovic (74) mas muito distante de Nadal (100).

Se olharmos o aproveitamento de vitórias nos Slam, fica outra vez claro o domínio de cada um no seu terrítório. Na Austrália, Djokovic tem 90,4% contra 87,2% de Federer e 82,3% de Nadal. Em Roland Garros, o espanhol tem incríveis 98% contra 83,1% de Djoko e 80.5% de Roger. Em Wimbledon e US Open, Federer lidera: 88,6% contra 87,8% de Djokovic na grama londrina e 86,4% frente a 86,2% (Nadal está perto, com 85,3%).

Na soma dos dois Slam de quadra dura que existem desde 1988, Djokovic está acima de Federer (88,2% contra 86,8%).

Período dominante
Por fim, vale observar que Federer é o único tenista profissional com três Slam vencidos numa temporada por três anos (dois seguidos), algo que Djokovic conseguiu duas vezes e Nadal, uma. O suíço também disputou todas as finais de Slam de um calendário por três vezes (dois consecutivos), cabendo uma a Djoko.

No entanto, seus perseguidores têm duas façanhas não menos únicas e expressivas. O sérvio foi dono dos quatro troféus simultaneamente entre 2015 e 2016. Antes dele, Nadal foi o primeiro e único a vencer seguidamente nas três diferentes superfícies, em 2010.

Observe-se ainda que Nadal conseguiu completar o quadro de títulos em todos os Slam aos 24 anos, três antes dos 27 de Federer e muito à frente dos 29 de Djokovic.

Não sei se tudo isso aí será o bastante para determinar um desempate. Certo mesmo é que esses três são os maiores tenistas de todos os tempos. E contando.

Feito inédito no tênis profissional
Fiquei devendo uma informação importante. Depois de verificar todos os torneios em que algum homem venceu um Slam sem perder sets – e foram bem poucos -, o fato de Roland Garros ter tido dois campeões totalmente invictos, Nadal e Iga Swiatek, foi mesmo inédito. Entre os homens, isso aconteceu sete vezes em Paris (quatro com Nadal, duas com Borg e uma com Nastase); duas em Wimbledon (Borg e Federer) e duas na Austrália (Federer e Rosewall).

Premiados do Desafio
Em apuração apertada, Cláudio Sérgio venceu o Desafio das Semifinais de Roland Garros e assim irá receber o livro “Jogando Junto”, de Fernando Meligeni, cortesia da Editora Évora. Já o Desafio da Final foi tão equilibrado que acabei obtendo da Editora Évora a autorização para premiar dois vencedores: Carlos Alberto Regis e Mariana Tereza, que erraram o total de games por apenas um e o tempo de jogo por mínimos minutos! Os dois terão direito à excepcional biografia de Novak Djokovic escrita por Blaza Popovic e grande sucesso de vendas.

Livre do fardo, Thiem pode fazer ainda mais
Por José Nilton Dalcim
13 de setembro de 2020 às 23:25

Numa das finais de Grand Slam mais malucas e imprevisíveis dos últimos tempos, Dominic Thiem conseguiu sobreviver a seus erros, ao jogo ousado do adversário, aos nervos aflorados e por fim às dores musculares para enfim conquistar o tão aguardado título de Grand Slam, que havia lhe escapado por três outras vezes.

O esforço de quatro horas o levou à história: primeiro campeão da Era Profissional a virar de dois sets e a vencer um tiebreak de quinto set numa final em Nova York, 150º diferente vencedor de Slam de todos os tempos, primeiro homem nascido na década de 1990 a ganhar um troféu desse quilate após sequência de 63 dos oriundos de 1980.

Mas como foi difícil. Descalibrado, levou uma surra por quase dois sets diante de um Alexander Zverev que entrou em quadra com proposta ofensiva. Atacou segundo serviço, bateu firme na paralela e principalmente foi muito à rede. De repente, ganhava com toda justiça por 6/2 e 5/1, três set-points, adversário aturdido nas cordas. Aí talvez tenha surgido o primeiro deslize do alemão: deixou Thiem ganhar três games seguidos e a reencontrar algo do velho ritmo.

Sascha ainda abriu o terceiro set com quebra no terceiro game e parecia caminhar para uma vitória inesperadamente fácil. De novo, falhou ao deixar o austríaco tirar seu saque e daí em diante o jogo ficou diferente. Ainda que não fosse o rolo compressor das quartas ou da semi, o renascido Thiem já tinha pernas para fugir e atacar mais de forehand, parou de dar tanto ponto bobo e pouco a pouco as devoluções incomodaram o adversário. Quando está confiante, faz mais também com o backhand e assim seu quarto set beirou o impecável, com apenas dois erros não forçados. Enfim, parecia uma digna final de Slam.

Era para se imaginar um Zverev de cabeça baixa no quinto set. Logo de cara, perdeu o serviço, sinal dos velhos tempos. Novo engano nessa final tão cheia de surpresas. O alemão reagiu imediatamente, ficou consistente da base, defendeu-se bem e chegou ao momento máximo: 5/3 e saque para o título. Deve ter pensado demais e ficou covarde. Thiem virou para 6/5 e aí também sacou para a vitória. Mas passou a ter muitas dores na coxa esquerda, se arrastava em quadra e permitiu que a definição fosse ao tiebreak. Roteiro de dramalhão mexicano.

Zverev fez 2-0 antes do fantasma das duplas faltas o atormentar (foram 15, mesmo número de aces). Já não conseguia mais fazer o primeiro serviço voar, tentou voleio e deu 6-4 ao adversário, que por sua vez empurrava slices de backhand. No segundo match-point para Thiem, forehand fácil na paralela… e rede! Tudo igual. Por fim, uma passada paciente em três tentativas deu a terceira chance ao austríaco, que viu a bola de Zverev escapar na lateral e se jogou ao chão para comemorar. Dez dias depois de completar 27 anos, enfim entrou para a lista dos gigantes.

O primeiro Slam da pós-pandemia não foi um festival de abandonos, como se previa. Ao contrário, mostrou o notável poder físico do tenista moderno e brindou o espectador da TV ou do streaming com alguns duelos memoráveis, tanto na qualidade dos golpes como no espírito de luta. Também terminou com finalistas imprevistos, uma renovação forçada pela ausência do Big 3, e apesar de não ter sido espetacular a decisão trouxe emoção, entrega no limite e disputa respeitosa.

Eu apostaria que ainda virão mais Slam para Thiem, e ele deve chegar forte em Roland Garros. E Zverev terá novas oportunidades se mantiver esse ritmo, serenidade e motivação.

E mais
– Thiem repete Thomas Muster, campeão de Roland Garros em 1995, como únicos austríacos a ganhar um Slam de simples.
– Ele também igualou Goran Ivanisevic e Andre Agassi, que também perderam três finais antes de ganhar seu primeiro Slam. Andy Murray e Ivan Lendl precisaram de cinco tentativas.
– Aos 23 anos, Zverev foi o mais jovem finalista de Slam desde Novak Djokovic, no US Open de 2010. O último alemão a ganhar um troféu desse quilate foi Boris Becker, no AusOpen de 1996.
– Esta foi a final mais jovem de Slam desde Djokovic-Nadal do AusOpen-2012.
– O troféu masculino fica com um europeu pelo 42º Slam consecutivo, ou seja, desde janeiro de 2010.
– Esta foi a terceira virada de 0-2 na carreira de Thiem, todas em Slam. Zverev, ao contrário, nunca havia perdido um jogo após ganhar os 2 primeiros em 27 anteriores.
– O US Open viu a quarta final consecutiva de Slam que foi ao quinto set.

Na 4ª chance, Thiem enfim será o favorito
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2020 às 00:35

As duas primeiras foram no saibro predileto, mas diante dele estava Rafael Nadal. A outra, inesperada, veio no sintético veloz que nunca foi seu forte, porém o adversário era Novak Djokovic. Neste domingo, após uma campanha de encher os olhos com seu tênis agressivo e incrivelmente intenso, Dominic Thiem enfim entrará para tentar seu primeiro Grand Slam na condição de favorito.

O adversário é um digno representante da nova geração, porém longe de ser inexperiente. Alexander Zverev, que já derrotou todo o Big 3 e tem na galeria de troféus um ATP Finals, subiu mais um degrau nos Slam. Terá no entanto contra si sua instabilidade e um histórico amplamente favorável a Thiem, que leva vantagem de 7 a 2 no geral dos confrontos, sendo os três últimos; 3 a 1 sobre a quadra dura e 3 a 0 nos Slam.

A batalha entre Thiem e Daniil Medvedev não decepcionou, ainda que tenha tido só três sets. Mas basta ver que cada tenista correu mais de 4 quilômetros para se entender o quão foi equilibrada. O russo jogou mal o primeiro set, já que apostou numa conduta um tanto defensiva, mas depois apostou nas paralelas e teve o saque na mão para ganhar as duas série seguintes, a primeira com 5/4 e a outra com 5/3.

O esforço físico e mental de ambos beirou o surreal, com pontos muito longos em todos os games, um à procura de desestabilizar o outro usando as mais variadas armas, com destaque para o slice que Thiem usou sem economias. Que correria. Por vezes, até deixaram a postura recuada da base e tentaram ganhar terreno, já que os buracos eram poucos. Obrigados a forçar, erraram também: 45 do russo e 33 do austríaco.

O primeiro jogo, ao contrário, foi muito estranho, principalmente porque os tenistas falharam demais. Zverev começou extremamente mal, se mexendo pouco, golpes descalibrados e apressados, saque pouco efetivo. Mesmo sem fazer nada de muito especial, o espanhol Pablo Carreño disparou no placar e ganhou os dois sets iniciais.

O alemão então mudou a postura. Passou a forçar mais o forehand, arriscou paralelas e o espanhol foi se encolhendo. O ponto crucial esteve na melhoria do primeiro saque de Zverev, que funcionou à perfeição da metade do quarto set em diante. Carreño lutou porém já não bastava mais esperar os desatinos do oponente. O jogo totalizou 101 erros, quase 35% do total de pontos disputados.

Aos 23 anos, Sascha dá mais um passo nos Grand Slam, os eventos onde carecia de qualidade e consistência. Fez semi da Austrália em janeiro e agora vai tentar o primeiro título, o que são progressos elogiáveis. É muito provável que, se jogar com o nível desta sexta-feira, terá poucas chances diante da solidez de Thiem. Mas talvez, se sentindo ‘zebra’, entre com postura mais condizente com um 7º do mundo.

Osaka e Vika lutam pelo terceiro Slam
Enquanto os homens sentirão o frio na barriga por um troféu inédito, Naomi Osaka e Victoria Azarenka farão às 17 horas deste sábado um duelo de gerações que vale o terceiro troféu de Grand Slam para ambas. Osaka já ganhou o US Open, há dois anos, e faturou logo em seguida o Australian Open, enquanto Vika foi bi em Melbourne há mais de sete anos, mesmas temporadas em que ficou com o vice em Flushing Meadows.

As duas dominaram a quadra dura na retomada do circuito e só não fizeram a final do Premier, duas semanas atrás, porque a japonesa sentiu a coxa esquerda e preferiu se poupar. Na quinta-feira, ganharam semifinais muito exigentes tanto no plano físico como no técnico, com o tradicional vigor para golpear a bola lá de trás. Osaka leva vantagem na força do primeiro saque. Vai ser interessante ver quem arrisca mais na paralela, uma opção que agrada às duas.

Elas já se enfrentaram três vezes. A bielorrussa venceu a primeira no Australian Open de 2016, mas perdeu no saibro de Roma em 2018 e também em Roland Garros no ano passado. A campeã embolsa US$ 3 milhões. Osaka pode recuperar o terceiro lugar do ranking e Azarenka, o 11º.