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Analisando 2019: o Big 3 ainda domina
Por José Nilton Dalcim
2 de dezembro de 2019 às 12:48

TenisBrasil inicia nesta segunda-feira sua tradicional enquete de Melhores do Ano, submetendo aos internautas 14 questões sobre como andou a temporada 2019. Na semana seguinte, será a vez das previsões para 2020. Ao final, haverá um balanço percentual dos votos e comparados à opinião dos especialistas convidados pelo site.

Ao tentar resumir a temporada, surgem sempre vários pontos de vista e então aqui no Blog vou tentar desenvolver nos próximos dias os temas que, imagino, sejam mais relevantes para aprimorar o debate.

No masculino, é claro, o domínio do ‘trintão’ Big 3 centralizou as atenções da temporada. Não apenas pela qualidade do tênis que eles continuam a praticar, mas também por polêmicas e dificuldades físicas evidentes e preocupantes.

Para começo de conversa, Novak Djokovic e Rafael Nadal dividiram entre si os troféus de Grand Slam e levaram quatro dos nove troféus de Masters. Isso obviamente encurtou ainda mais a distância para o recorde de Slam de Roger Federer e reabriu a discussão sobre Goat.

Djokovic começou muito bem, com a notável vitória sobre Nadal em Melbourne, depois viveu momentos turbulentos de bastidores que parecem ter influenciado seu desempenho até chegar ao título em Madri. Momento crucial da temporada viria em Roland Garros e aquela confusa semifinal contra Dominic Thiem. Era evidente a pressão em cima da chance do seu segundo ‘petit Slam’. Um eventual bi em Paris muito provavelmente mudaria todo o panorama da temporada e duvido que ele teria perdido a liderança do ranking.

Mas ainda houve tempo para recuperar-se com o histórico quinto título em Wimbledon na final incrível diante de Federer. O esforço no entanto custou caro, tanto no físico como na cabeça. Ele sequer conseguiu completar as oitavas do US Open, descansou para reagir e brilhar em Paris-Bercy. Porém o número 1 já estava comprometido e há dúvidas o quanto o problema no braço direito o atrapalhou no Finals. Aliás, vai carregar isso para o começo de 2020.

Nadal percorreu um caminho contrário. Esmagado na final de Melbourne – a primeira de um Slam em que não ganhou set -, sofreu outra derrota frustrante para Nick Kyrgios em Acapulco, abandonou a semi de Indian Wells e foi cuidar do problemático joelho. Deu um susto nos primeiros torneios sobre o saibro, com derrotas incomuns, mas enfim dobrou Djokovic em Roma e tudo mudou. Desfilou em Roland Garros para o espetacular 12º título.

Fato raro na carreira, Nadal continuou se poupando o quanto pôde. Foi direto para Wimbledon, com semi. Defendeu o título no Canadá – o primeiro bi de sua carreira em quadra dura – e saltou Cincinnati, o que se mostrou essencial para a conquista do US Open. As contusões no entanto não o abandonaram. A dor na mão esquerda o fez jogar apenas uma partida até reaparecer em Bercy, e aí desistiu na semi devido ao abdôme. Fez de tudo para jogar o Finals, porém não passou a fase de grupos. O esforço o recompensou com a garantia do número 1, comemorado na semana seguinte com uma atuação impecável na fase final da Copa Davis.

Ainda que a eficiência e consistência tenham mostrado altos e baixos, Federer viveu momentos incríveis em 2019, principalmente o tão aguardado 100º troféu, que veio logo em Dubai, e a 1.200ª vitória. Também voltou ao saibro e não fez feio, logo depois de reconquistar Miami. Porém, a falha na final de Wimbledon foi uma mancha dolorosa demais e o suíço só foi se recuperar na Basileia, onde somou a 1.500ª partida da carreira, e obteve pequena vingança sobre Djokovic ao eliminá-lo do Finals e tirar sua chance de terminar como líder do ranking.

O 40-15 que se esvaiu em Wimbledon fez diferença ao se fechar a contabilidade de sua temporada e provavelmente causará dano ao final cada vez mais iminente da carreira. Aos 38 anos, convivendo já com uma terceira geração de adversários cada vez mais jovens, fortes e audaciosos, o suíço sabe que a chance do 21º Slam pode ter acabado de vez, ainda que o respeito por seu tênis permaneça. Ao menos, ele vê o reaparecimento de quadras cada vez mais velozes no calendário, o que ainda poderá animá-lo a aventuras em 2020.

Na próxima análise, a nova geração.

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E se…
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2019 às 21:05

Achei curiosa a sugestão do internauta mineiro João Ferreira, que observou quantos troféus de Grand Slam escaparam por entre os dedos de Roger Federer ao longo de sua carreira. E me questionou como estaria a contabilidade de conquistas hoje caso o suíço tivesse confirmado aqueles momentos de domínio.

Sem dúvida, foram várias chances de ouro. Mas não é menos verdade que Rafael Nadal também poderia estar numa situação mais privilegiada se não falhasse em momentos cruciais dos Slam.

Como um exercício do famoso “E se…”, resolvi então listar os troféus que provavelmente fugiram de cada um deles, principalmente pela situação do jogo ou do campeonato. Vejamos.

As duras derrotas de Federer
Entre os títulos que não deveria ter perdido, Roger certamente lamenta o do US Open de 2009, quando poderia ter batido o então jovem Juan Martin del Potro até em sets diretos. Ainda liderou por 2 sets a 1, perdendo o quarto no tiebreak. Muita chance. Pior ainda foi o de Wimbledon deste ano, com os fatídicos dois match-points desperdiçados contra Novak Djokovic.

Não fica muito atrás a derrota na final de 2008 em Wimbledon para Nadal no 9/7 do quinto set, embora o espanhol tenha feito 2 sets a 0 e perdido dois tiebreaks em seguida. Em dia de chuva, o jogo terminou quase sem luz.

Talvez muitos ainda considerem chance perdida a decisão de Wimbledon de 2014 para Djokovic, em que o suíço venceu o primeiro set e cometeu um erro incrível no quinto. Ou a final do AusOpen de 2009 diante do próprio Nadal, principalmente porque o espanhol vinha de uma semi muito desgastante e ainda levou mostrou mais físico, batendo Federer no quinto set.

Eu ainda penso que o suíço provavelmente teria levado o AusOpen de 2005 caso não perdesse as inúmeras vantagens contra Marat Safin na semi.

Portanto, Federer certamente poderia ter pelo menos mais três Slam em sua conta.

Os desperdícios de Nadal
Quando avaliamos os Slam onde faltou mais sorte a Nadal, certamente o Australian Open sobra. Acredito que ele perdeu duas finais muito importantes ali: a maratona de 6 horas de 2012 para Djokovic e muito mais ainda o quinto set diante de Federer em 2017, quando teve vantagem de 3/1 e levou a virada.

Aliás, esse vice de 2017 hoje parece ainda mais relevante quando pensamos na contabilidade dos Slam. Federer ganhava então o 18º e deixava Nadal com 14. A inversão do resultado, portanto, teria deixado a briga em 17 a 15 e o espanhol potencialmente teria empatado com o suíço meses depois, já que levou Roland Garros e US Open daquela temporada.

Vejo como não menos árdua a derrota de Rafa na semi de Wimbledon de 2018 para Djoko, já que dificilmente o canhoto perderia do esgotadíssimo Kevin Anderson na decisão.

Vale por fim ressaltar que ele não conseguiu terminar partidas em quatro torneios de Slam, com destaque para a semi do US Open do ano passado, quartas no AusOpen de 2010 e de 2018 e o abandono sem entrar em quadra em Roland Garros de 2016.

Dessa forma, Nadal também poderia somar mais três Slam e hoje estar com 22.

‘Fedal’ dos recordes
Na esteira dessa competição extraordinária pela soberania nos Slam, Federer e Nadal poderão sacramentar dois recordes praticamente seguidos de público no tênis.

A exibição de 7 de fevereiro de 2020 na Cidade do Cabo deverá atingir mais de 50 mil espectadores, deixando muito para trás a marca de 35.681 para a exibição entre Serena Williams e Kim Clijsters, que aconteceu em Bruxelas, em 2010. Nada menos que 48 mil ingressos para o evento na África do Sul foram à venda na semana passada pela Internet e se esgotaram em minutos.

Agora, o Real Madrid quer organizar um outro ‘Fedal’ provavelmente também na próxima temporada. E o jogo aconteceria no estádio Santiago Bernabéu, que tem capacidade para mais de 80 mil pessoas.

Gigante Nadal gruda no recorde e no 1
Por José Nilton Dalcim
9 de setembro de 2019 às 00:30

Esporte feito de elementos tão diversos, um jogo de  tênis nem sempre precisa apenas de altíssimo nível técnico para ser marcante ou histórico. A entrega absoluta é um ingrediente imprescindível. E não se resume ao esforço físico. Exige também exímio controle emocional para administrar o erro indesejado, direcionar a bola precisa na hora mais apertada, surpreender o adversário, buscar energia onde for possível.

O duelo entre Rafael Nadal e Daniil Medvedev foi de uma dramaticidade cativante, de se colar na cadeira e perder a respiração. Talvez não tenham feito o seu melhor no quesito técnico, mas a incessante busca por alternativas táticas, algumas inusitadas, e a dedicação ferranha de correr atrás das bolas mais improváveis fizeram desta final do US Open um épico.

Rafa teve tudo para erguer o troféu lá no terceiro set. Começou um tanto lento, foi ganhando confiança pouco a pouco e já tinha o domínio do adversário, mais solto com o forehand e muito esperto junto à rede, quando dois lances infelizes e afoitos permitiram a Medvedev recuperar a quebra. Do 3/3 em diante o jogo mudou completamente. O russo passou a fazer seu feijão-com-arroz, espancando a bola, e conseguiu o que parecia impossível: esticar a decisão ao quinto set.

Diante de 23 mil pessoas alucinadas, nessa altura já totalmente determinadas a empurrar Nadal, os dois entraram na quarta hora da intensa batalha ainda mostrando um vigor físico invejável e usando todos os recursos. Rafa incomodava com slices e fazia defesas estonteantes, Medvedev deixava todos perplexos com o improviso junto à rede.

Sempre mais sólido, o espanhol outra vez construiu a vantagem. Teria mais. Não conseguiu fechar no 5/2, viu Medvedev fazer mágica para evitar dois match-points no game seguinte e ficou atrás o tempo todo no serviço derradeiro, evitando o break-point da igualdade. Por fim, confirmou o favoritismo, desabou em quadra e o Arthur Ashe veio abaixo.

Mais uma reviravolta incrível na carreira desse fenômeno espanhol, que fecha a temporada dos Slam com dois títulos, um vice e uma semi. Ninguém se esqueça de que, lá no começo da fase do saibro europeu, ele sofria derrotas inesperadas e apresentava um tênis pouco competitivo. E repetia incansavelmente que ainda iria achar seu melhor ritmo. Desde a semi de Madri, ganhou quatro dos cinco torneios que disputou. E quando muitos duvidavam de que teria sucesso na quadra dura, ganhou Montréal e Nova York sobrando no físico.

Aos 33 anos, Nadal chega ao 19º troféu de Grand Slam, seu sétimo fora do saibro, o quinto no temido piso sintético e o quarto em Nova York. Nunca esteve tão perto do recordista Roger Federer e sua motivação estará certamente dobrada para igualar e ultrapassar o amigo em 2020. E não é só. Entra de vez na briga para retomar a liderança do ranking, o que pode acontecer em Xangai, ou seja, bem antes do que se imaginava.

Medvedev também merece adjetivos maiúsculos pela forma com que encarou tudo o que envolvia esta sua primeira final de Slam. O homem que já venceu Djoko duas vezes nos últimos meses maravilhou pela resistência física e mental um tanto sobre-humanas e, ao lidar tão bem com as pressões deste US Open, firma-se como o nome mais forte da nova geração. O Big 3 precisa ficar de olho nele.