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Medvedev encanta e entristece
Por José Nilton Dalcim
12 de setembro de 2021 às 23:01

Há dois sentimentos antagônicos nesta final de placar inesperado num dos melhores Grand Slam da útlima década. De um lado, é impossível não sentir tristeza pela chance perdida por Novak Djokovic e se comover com suas lágrimas. De outro, há uma satisfação em ver Daniil Medvedev mostrar um tênis tão eficiente e uma cabeça tão boa para erguer um troféu que parecia inevitável, mais cedo ou mais tarde.

Claro que as duas coisas se fundem quando se avalia o que aconteceu neste domingo na Arthur Ashe. O russo entrou com uma tática muito bem definida  e executada, aliás um tanto surpreendente, ao forçar o segundo saque o tempo todo e optar por não dar peso nas trocas de bola. Mas isso funcionou também porque Djokovic sentiu demais o peso da história sobre seus ombros e não conseguiu administrar a parte emocional, o que sempre foi seu forte. Absolutamente justificável, diga-se. O tamanho da dupla façanha – fechar o Slam e chegar ao recorde do 21º troféu – somava toneladas. E isso ficou evidente na expressão sofrida antes mesmo do fim da partida.

Ainda nessa mistura obrigatória de situações, Medvedev teve uma campanha límpida ao longo das duas semanas, auxiliado por adversários pouco categorizados. Dos cabeças, enfrentou apenas Daniel Evans e Felix Aliassime e o único set perdido foi numa distração diante do quali holandês Botic van de Zandschulp. No caminho, nomes como Richard Gasquet e Pablo Andujar. Não é demérito, porque o russo fez o seu papel de forma louvável e repetiu Ivan Lendl e Rafael Nadal como únicos a vencer o US Open com um set perdido em 34 anos.

Djoko, por seu lado, raramente jogou seu melhor. Entrou sempre tenso em quadra, a ponto de perder o set inicial quatro vezes seguidas. O saque afiado, algumas devoluções preciosas e preparo físico impecável foram lhe dando as vitórias. Sua atuação mais vistosa foi na semifinal contra Alexander Zverev, ainda assim levado ao quinto set. A insistência em não comentar sobre a oportunidade histórica de repetir Rod Laver talvez não tenha sido a melhor escolha e me parece que isso se refletiu na hora ‘h’.

Para piorar, Medvedev entrou em quadra muito sóbrio e teve uma atuação brilhante, mesclando ataque e defesa, ousadia e paciência, controle emocional nos poucos momentos de aperto. Enfim se assustou no momento de concluir o título, o que também é plenamente aceitável. Afinal, chegou a sacar sob vaias. Com sua conquista, se tornou o nono diferente campeão do US Open nos últimos 14 anos e o quinto a ganhar em Nova York seu primeiro Slam, como fizeram Del Potro, Murray, Cilic e Thiem. Também relevante é o fato de que se mantém como o único dos 82 adversários de Nole como número 1 do ranking a ter um histórico positivo, agora de 4 a 2.

É o terceiro russo a ser campeão de um Slam. Yevgeny Kafelnikov e Marat Safin têm dois troféus, mas apenas Safin tem uma final a mais que Medvedev. A Rússia não via um campeão de Slam entre os homens desde o mesmo Safin, em 2005.

Não há dúvida que Djokovic jogou a mais importante de suas 1.176 partidas e que sofreu talvez a mais dura das 198 derrotas. O 21º troféu no entanto pode ter sido apenas adiado e tem grande chance de vir talvez já em Melbourne, daqui a quatro meses, já que sempre será um favorito natural por lá. Mas a oportunidade de ‘fechar’ o Grand Slam será muito difícil de acontecer de novo para ele ou para qualquer outro jogador do circuito atual.

De qualquer forma, não há nada que o diminua. Ganhar os três primeiros Slam de uma temporada tem sido algo reservado para muito poucos. Além dele e de Laver, em 62 e 69, apenas Lew Hoad (1958), Don Budhe (1938) e Jack Crawford (1933) fizeram isso. E só Laver e Budge completaram a façanha nos EUA. o sérvio ainda tem o importante diferencial de ter feito isso em três pisos distintos, o que não existia antes de 1978.

Djokovic deixou escapar a maior façanha do tênis profissional, porém nos lembrou que afinal um Goat ainda é um ser humano que duvida, falha e chora.

Raducanu faz história, circuito ganha estrelas
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2021 às 21:06

Emma Raducanu colocou a história do tênis profissional feminino de cabeça para baixo. Além de se tornar a primeira tenista saída do qualificatório a ganhar um Grand Slam, em qualquer sexo, ela conquistou o US Open logo em sua primeira participação e com apenas três outros títulos de nível ‘future’ no currículo. Aos 18 anos e 10 meses, com um tênis incrivelmente moderno, parece ter lugar garantido em muitos outros grandes momentos daqui em diante.

A rapidez com que chegou ao estrelato é notável. Jogou seu primeiro torneio de nível WTA em junho, sem passar da primeira rodada em Nottingham, mas em seguida aproveitou o convite para Wimbledon e, então uma mera 338 do ranking, atingiu as oitavas de final. Questionada como chegara ao sucesso tão instantaneamente, ela argumentou: “Acho que minha boa formação escolar ajuda muito”, referindo-se à sua habilidade com matemática e finanças. “Absorvo facilmente as informações e sinto que na quadra eu tenho sempre uma tática astuta”.

Ao viajar para a temporada norte-americana de quadras duras, tomou uma inesperada decisão e trocou de treinador logo depois de perder na primeira rodada de San Jose. Deixou Nigel Sears, o sogro de Andy Murray, e contratou Andrew Richardson, que havia sido um de seus treinadores como juvenil. Jogou então o WTA 125 de Chicago, indo à final, e quando chegou ao quali do US Open era a 186ª do mundo.

Aí entrou na chave e iniciou uma campanha inesperada, ainda que não tenha enfrentado qualquer top 10. Não perdeu set, ao contrário o maior placar que permitiu em sete partidas foi 6/4, mesmo diante de Belinda Bencic e Maria Sakkari. Ao repetir o feito de Virginia Wade de 53 anos atrás em Nova York, ganhou elogios da última britânica a ter vencido um Slam, em 1977. “Ela é muito boa em todos os campos, tem golpes fantásticos e certamente irá ganhar outros Slam”.

E foi exatamente isso que Raducanu mostrou na final contra a não menos surpreendente Leylah Fernandez. Extremamente aplicada na parte tática, explorou o saque no backhand da canadense e forçou sempre paralelas dos dois lados, além de aproveitar qualquer chance para ser agressiva desde a devolução, como foi seu padrão ao longo das duas semanas. Ao colocar a adversária na defensiva, não reluta em ir à rede e finalizar com voleio clássico.

Claro que Raducanu precisará de adaptações quando chegar a pisos mais lentos e encarar oponentes que a obriguem a ter mais consistência, porém nada indica que isso não seja possível porque seu preparo físico se mostrou impecável.

Leylah também parece fadada a muito sucesso no circuito. Tenista leve e rápida, se defende muito bem e possui o topspin como alternativa. Acaba de fazer 19 anos e portanto tem tempo e agora confiança para trabalhar um pouco mais na devolução de backhand, que foi um buraco bem explorado pela britânica.

O que coloca Raducanu e Fernandez como fortes candidatas a chegar com firmeza ao top 10 é o fato de elas se mostrarem forte mentalmente com tão pouca experiência no circuito e de jogar com tanta alegria e energia. O tênis feminino, recheado de jogadoras promissoras e jovens, promete muito para 2022.

Djoko a três sets de Laver
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2021 às 00:39

Sob o olhar de Rod Laver e num jogo disputado ponto a ponto, Novak Djokovic conseguiu de novo. Virou seu quarto jogo seguido após perder o primeiro set, vingou-se de Alexander Zverev em grande estilo e agora está a uma única vitória de marcar o maior feito do tênis profissional: a conquista do quarto Grand Slam consecutivo na mesma temporada.

Apenas Daniil Medvedev pode impedir a história. Mas enquanto o russo chega a sua terceira final ainda em busca do primeiro troféu, Djokovic iguala mais um recorde de Roger Federer e estará na 31ª. Se chegar ao tetra do US Open, terá também 21 troféus de Slam e desempatará a disputa contra Federer e Rafael Nadal.

A decisão entre os dois líderes do ranking é o fecho perfeito de um torneio espetacular. O quinto set entre Nole e Zverev foi o 34º desta edição, a segunda maior marca da história, e nada menos que outros 15 duraram mais de quatro horas, algo que não acontecia há 30 anos.

E foram cinco sets tensos e intensos. Zverev encarou o número 1 de igual para igual, aguentando pontos longos. Fez um grande primeiro set, viu Djoko melhorar muito com o saque no seguinte e com as devoluções no terceiro. Obteve uma quebra precoce no quarto e segurou a cabeça diante de todas as tentativas de Nole.

Por fim sucumbiu à superioridade do adversário, como se o sérvio houvesse guardado sua melhor energia para a reta final. Claro que o alemão cometeu erros absurdos no quinto set, mas é preciso considerar a pressão de ter de colocar bolas na linha depois de três horas de tamanha correria. Os números estatísticos foram bem semelhantes, mas um deles merece citação especial: Djokovic foi 43 vezes à rede e ganhou 35 lances, o que dá 81% de aproveitamento.

Sascha continua sem ganhar de um top 10 em Slam, mas está certamente jogando o melhor tênis de sua vida. Nole o fez pela 61ª vez num Slam e pela 225º no total – agora novo recorde – e deu um show na entrevista em quadra, ao defender Stefanos Tsitsipas, frisar a forte amizade com Zverev e dizer que na sua cabeça o foco é “apenas” o tetra em Nova York. Enfatizando: “Tratarei este jogo como se fosse o último de minha carreira”.

Medvedev vai tentar de novo
Mesmo reconhecendo não ter jogado seu melhor tênis, Medvedev fez o bastante para superar a instabilidade emocional de Felix Auger-Aliassime. O canadense vendeu caro o primeiro set e aí sacou com 5/3 para empatar a partida, perdendo dois set-points. O jogo acabou nesse momento. Ele se perdeu completamente e o russo foi absoluto. Enquanto Felix via a volta do fantasma das duplas faltas – cometeu 10 -, o número 2 anotava 12 aces.

Medvedev se torna apenas o segundo tenista fora do Big 4 a fazer duas finais de Slam na mesma temporada desde 2004, repetindo Dominic Thiem. No total, é sua terceira tentativa de ganhar o título tão esperado. Em toda a Era Aberta, jamais um tenista perdeu três finais sem conquistar em algum momento seu Slam. Então o russo pode ao menos ter muita esperança, caso Djoko repita os 3 a 0 da final do Australian Open de fevereiro.

Fato curioso, Medvedev chega à final com 11h51 em quadra, menos do que Leylah Fernandez (12h19) e quase o mesmo de Emma Raducanu (11h34). E olha que ele ainda perdeu um set.

Soares: digno vice
Faltou um set para o tricampeonato de Bruno Soares no US Open. Ele e Jamie Murray buscavam repetir a conquista de cinco anos atrás e foram bem superiores ao local Rajeev Ram e ao britânico Joe Salisbury na série inicial. Só que aí os adversários subiram de nível, tanto na devolução como no saque, enquanto a dupla do brasileiro passou a cometer pequenos erros que se mostrariam fatais.

Embora Ram tivesse sido perfeito nos serviços nos dois sets seguintes, Salisbury estava no seu dia. Fez jogadas incríveis, mostrou-se eficiente na rede e nos contragolpes. Não por acaso está na final de mistas também. Ele e Ram mereceram o segundo troféu de Slam e se firmam como vice-líderes da temporada.

Bruno sabe que sua campanha foi além do esperado depois da parada forçada pela cirurgia do apêndice, por isso merece todos os elogios. Ele e Murray sobem para o oitavo lugar na Corrida e estão com grande chance de chegar ao Finals de Turim.

A incrível falta de sorte de Stefani
Lesões fazem parte do esporte e o tênis, um esporte que mexe com dezenas de músculos e articulações ao mesmo tempo e em diferentes dimensões, está sempre fadado a prejudicar alguém. A cena de Luísa Stefani pisando em falso ao tentar trocar de direção, o que a levou a torção de tornozelo e ao rompimento do ligamento do joelho, foi terrível e preocupante.

Ela e Gabriela Dabrowski haviam acabado de se safar de set-points e iniciavam um tiebreak que prometia ser equilibrado. Aguentavam com firmes voleios as bolas pesadas de Coco Gauff e Caty McNally, que não têm a mesma intimidade com o jogo de rede. Uma pena em todos os sentidos, porque a partida estava divertida. A contusão da brasileira calou o estádio e deixou as adversárias perplexas.

Infelizmente, a expectativa é de retorno em apenas seis meses, o que a impedirá de lutar por vaga no WTA Finals, que estava tão perto.

E mais
– Com a derrota de Aliassime, Casper Ruud garantiu seu inédito lugar no top 10 na lista de segunda-feira. Outros recordes pessoais para Felix (11º), Sinner (14º), Garin (17º), Opelka (19º) e Alcaraz (38º).
– Há exatos cinco anos, Medvedev ganhava seu único título de challenger no piso duro de St. Remy.
– Leylah Fernandez e Emma Raducanu decidem o US Open no dia do 20º aniversário da queda das Torres Gêmeas, mas nenhum delas havia sequer nascido naquele triste dia.
– A vencedora da final marcada para as 17 horas se juntará à série de inesperadas campeãs de Slam que vem desde 2017 e inclui Jelena Ostapenko, Sloane Stephens, Naomi Osaka, Bianca Andreescu, Sofia Kenin, Iga Swiatek e Barbora Krejcikova.
– As duas nunca se enfrentaram, mas a canhota Fernandez tem um título de WTA, mais Slam disputados e melhor ranking, o que lhe confere certo favoritismo. O prêmio é o mesmo dos homens: US$ 2,5 milhões.