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Djokovic tem decisões duras pela frente
Por José Nilton Dalcim
16 de janeiro de 2022 às 09:41

Um acachapante 3 a 0, resultado que de alguma forma me surpreendeu, encerrou a discussão. Novak Djokovic teve seu visto de entrada na Austrália recusado por não estar completamente vacinado contra o coronavírus e com isso já deixou Melbourne neste domingo, impedido de tentar o 10º título no Grand Slam que mais dominou em sua vitoriosa carreira.

Acima de todas as discussões jurídicas e em que pese os absurdos erros cometidos pelos organizadores, Djokovic não merecia mesmo jogar este Australian Open. Para mim, o argumento essencial em toda essa novela é que o sérvio não foi honesto ao requerer uma exceção médica por ter contraído o vírus exatamente um mês antes do torneio.

Todo mundo sabe que não foi esse o motivo de ele não se vacinar. Djoko é um naturalista e tem receio de que a vacina possa causar danos a seu corpo. Até aí, não há nada de errado, é uma visão e decisão pessoais. Mas deveria assumir isso e jamais usar a brecha da pré-infecção para tentar contornar as normas estabelecidas pelo governo australiano. Juridicamente, é aceitável. Moralmente, é um desastre.

Nas alegações do advogado do ministro Alex Hawke na audiência desta madrugada, esse ponto é inquestionável. “Ele poderia ter se vacinado antes (do dia 16 de dezembro)”, observou. “Nesta altura da pandemia, ele poderia ter se vacinado se realmente quisesse”, em outro trecho. Existem dois direitos inalienáveis aqui, sejamos contra ou a favor: o de Djokovic não se vacinar e de o governo australiano exigir vacinação completa para entrar no país, anunciado com muita antecedência aos tenistas.

Sabe-se também que houve graves falhas processuais no requerimento do visto, a maior parte delas provocada pela Tennis Australia. Ninguém irá me tirar a ideia de que houve um conluio entre os organizadores e a equipe de Djokovic. Além de essa regra de exceção – infecção em seis meses prévios – não ser aberta a não residentes australianos, ainda por cima estava fora do prazo legal, mas os organizadores arrumaram um jeito de obter painéis médicos favoráveis e documentar o número 1 para sua entrada em Melbourne. Será extremamente decepcionante se não houver investigação e punição a Craig Tiley.

A retirada de Djokovic do torneio é muito ruim na parte técnica, já que o maior vencedor do Australian Open estaria em plena forma física e técnica para brigar por um novo título e seu 21º troféu de Grand Slam. Aliás, com um sorteio de chave bastante favorável. No entanto, me pergunto como seria o dia a dia do torneio com ele em quadra. Houve inúmeras reações contrárias dos próprios tenistas, a imprensa jamais o deixaria confortável e todas as pesquisas mostravam que ao menos 75% da população eram contra sua permanência no país. Não parece um quadro animador.

Djokovic agora tem decisões importantes a tomar. O impedimento de entrada do governo australiano deixa bem claro que ele terá muitas dificuldades para viajar pelo circuito ao longo dos próximos meses caso mantenha a decisão de não se vacinar, já que todos os países desenvolvidos e as principais potências do tênis têm idêntica exigência da comprovação vacinal completa.

O sofrimento e o desgaste pelos quais passou em Melbourne e a amarga deportação deixam claro que nem o maior tenista da história pode se achar uma exceção às regras.

Consequências imediatas
– O italiano Salvatore Caruso, 150º do mundo e que perdeu na última rodada do quali, ocupará a vaga de Djokovic no topo da chave. O tenista de maior ranking no quadrante que determina um semifinalista é agora Matteo Berrettini.
– Esta será a primeira vez que Rafa Nadal jogará um Grand Slam sem ter a concorrência de Djokovic e de Roger Federer. E também agora é o único a ter vencido o Australian Open entre todos que estão na chave.
– Fica aberta a chance de Daniil Medvedev ou Alexander Zverev chegar ao topo do ranking, mas isso apenas dentro de cinco semanas, quando cairão os 2.000 pontos que Djoko irá perder (o torneio terminou no dia 21 de fevereiro em 2021). De qualquer forma, o russo ou o alemão terão de ganhar o torneio para assumir o número 1.
– O ministro da Imigração, através do advogado, deixou aberta a possibilidade de evitar que a deportação de momento se estenda aos próximos anos. Via de regra, Djoko estaria impedido de receber visto por três anos.