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Um ano sem Federer
Por José Nilton Dalcim
28 de dezembro de 2020 às 20:19

Roger Federer nem esperou as duas semanas prometidas e, após somente cinco dias de treinamento em Dubai, já anunciou que não irá competir no Australian Open, adiando seu retorno para o final de fevereiro. Ainda que não seja inesperado, é doloroso ver o suíço pular seu terceiro Grand Slam seguido, interromper uma sequência de 21 viagens a Melbourne, iniciadas em 1999, um torneio que lhe deu 15 semifinais, seis troféus e seu mais recente Slam, em 2018.

Pior ainda, Federer completará pelo menos 13 meses sem competir, já que seu último torneio oficial foi justamente o único de 2020, a semifinal do Australian Open. Não fosse o congelamento do ranking determinado pela ATP diante da pandemia, ele desapareceria da lista ao final de janeiro de 2021.

A última vez que Federer se submeteu a uma cirurgia foi para o joelho esquerdo. Ele então perdeu metade da temporada 2016, deixou o top 10 pela primeira vez em 17 anos,  o que sugeria um final de carreira. Que nada. Então com 35 anos, surpreendeu pelo nível físico e incrementos técnicos, faturando o Australian Open e Wimbledon em outro momento mágico de sua incomparável carreira.

A situação em 2020 no entanto é bem diferente. Durante a campanha de Melbourne, já dava clara mostras de limitação atlética, e fez um esforço para realizar a exibição-recorde contra Rafa Nadal na África do Sul. Logo em seguida se submeteu a artroscopia no joelho direito e marcou a volta para a fase de grama, em julho, que acabaria cancelada pelo coronavírus. Nesse período, chegou a se mostrar treinando na neve.

Antes mesmo do prazo, Federer veio a público em junho para informar que teria de realizar uma pequena cirurgia corretiva no mesmo joelho e que então seu retorno ficaria para 2021. Em outubro, mostrou otimismo com a recuperação, mas avisou que a volta só aconteceria quando estivesse 100%. Marcou o Australian Open como meta, divulgou fotos de treino de quadra na Basileia e depois voou para Dubai, onde habitualmente passa o Natal, com a ideia de fazer um teste mais rígido em condições semelhantes às de Melbourne. Avisou que daria uma resposta após ‘duas semanas decisivas’, mas apenas cinco dias depois veio a notícia da desistência e do adiamento.

A pergunta que fica é se o retorno ainda lhe dará chance de novos títulos e de grandes façanhas ou se marcará uma despedida. Aquele retorno espetacular de 2017 parece muito improvável. O suíço está agora quatro anos mais velho e sem competir por um período muito longo. Hoje o top 10 comporta não apenas espetaculares Djokovic e Nadal, mas jovens bem mais experientes como Dominic Thiem, Daniil Medvedev e Alexander Zverev assim como talentosos de grande vigor físico do porte de Stefanos Tsitsipas e Andrey Rublev. Chegar nas rodadas finais dos torneios parece um desafio maior do que nunca.

Para amenizar o quadro, há quem aposte que o recuo de Federer em atrasar seu retorno não tenha nada a ver com sua capacidade física ou técnica de momento, mas sim a Covid-19 e as duras medidas impostas pelos organizadores do Australian Open. Sem poder levar a família e forçado a longa estada em Melbourne – há exigência de 14 dias de quarentena antes de qualquer competição ou sequer um passeio pela cidade -, faltou motivação e sobrou receio com o vírus. Sequer poderia escolher a acomodação desejada. Uma indicação disso seria a própria entrevista de Tony Godsick, em que o empresário e amigo enfatiza que a decisão foi tomada em conjunto.

Ainda assim, o retorno no final de fevereiro está carregado de dúvidas, já que sequer existe um calendário da ATP para depois do Australian Open. Seria bem lógico que Federer permanecesse em Dubai para o tradicional torneio da cidade ou que retornasse à Europa para os eventos de quadra coberta e rápida. Não se sabe ainda o que acontecerá com os Masters de Indian Wells e Miami, muito ameaçados de novo cancelamento, e eu particularmente duvido muito que Roger se arrisque no saibro europeu, um piso que evitou por três anos por recomendação do fisio Pierre Pagnani, já que o deslizamento obrigatório gera risco à estabilidade de seus joelhos.

Então Federer poderia jogar dois ou três torneios antes de nova longa parada em abril e mirar a curta fase de grama. É evidente que Wimbledon sempre será sua meta maior. Também parece certa sua presença nas Olimpíadas de Tóquio, ainda mais diante do enorme contrato com a Uniqlo, assim como na Laver Cup, que deverá acontecer em setembro em Boston, e no seu ATP caseiro da Basileia.

A contagem regressiva pode ter começado definitivamente para o melhor de todos. Tomara que ainda tenhamos tempo para apreciar mais um pouco de sua genialidade.