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Ataque contra defesa
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2018 às 12:11

Antagonismo total marcará a segunda semifinal masculina do Australian Open. O superexperiente e agressivo Roger Federer enfrentará a perseverança defensiva de Hyeon Chung, 15 anos mais jovem e mais de 1.080 vitórias a menos no currículo. Enquanto o suíço chega a sua 14ª semi em Melbourne, a 43ª da carreira – 11ª sem perder sets -, o coreano é o tenista de menor idade na semi de um Grand Slam desde Marin Cilic, em 2010. Contraste de estilos geralmente traz os melhores espetáculos numa quadra de tênis.

Como se previa pelas atuações anteriores, Tomas Berdych exigiu respeito e cuidado na partida desta manhã. O tcheco saiu atacando, usou com inteligência as paralelas e dominou até ter 5/3 e saque. Aí Federer usou mais slices para diminuir os erros e a altura da bola, porém ainda assim teve de salvar set-point com coragem para soltar um backhand de devolução na paralela.

O jogo continuou duro e Berdych teve outro set-point, agora no serviço do suíço, mas não evitou o tiebreak. Daí em diante, Federer acordou de vez, passou a mesclar muito melhor velocidade e efeito, colocou Berdych para correr e ficou envolvente. O tcheco não perdeu a cabeça, numa prova que está mesmo mudado, e ainda recuperou uma quebra no começo do terceiro set. Exigiu ao final das contas muita perna, precisão e inteligência tática do cabeça 2, mas cometeu o grave erro de perder a agressividade ao longo dos sets. Terminou com 22 winners contra 61 do suíço e fez menos do que deveria com o saque (56%). Desse jeito, só se vence Federer com a sorte de um dia ruim.

Momento curioso da partida, Federer discutiu com o árbitro por conta de um desafio eletrônico não mostrado e chegou a ser irônico alguns lances mais tarde, porém ao final admitiu que estava errado.

Chung por sua vez passou pela surpresa Tennys Sandgren em três sets bem disputados. O jovem coreano, que será top 30 na semana que vem, esteve perto de perder o segundo set, quando o norte-americano sacou com 5/4, mas mostrou saborosa maturidade para quem vinha da incrível vitória sobre Novak Djokovic. Também foi um bom teste os seis match-points que precisou para fechar a partida.

Para encarar Federer com chance, Chung vai precisar ser um pouco mais ousado. Fez 29 winners e cometeu 33 erros, um saldo negativo que pode custar muito caro diante de um adversário que gosta de sufocar e provavelmente irá forçar em cima do segundo serviço ainda não tão convincente. Mais do que nunca, Chung necessita assistir às vitórias de Djokovic sobre Federer em Melbourne para se inspirar.

Pouco antes da entrevista oficial, Sandgren leu um discurso para atacar a imprensa, que desde a véspera relembra passagens suas nas mídias sociais com condutas sugestivamente racistas ou de extrema-direita. Um minuto antes de seu jogo começar na TV americana, Serena Williams soltou um “mudando de canal” no Twitter.

Vale o número 1
O complemento das quartas femininas foi totalmente sem graça. Angelique Kerber despachou uma apática Madison Keys em meros 51 minutos com a chocante cena de ver o público torcendo para a norte-americana ganhar games. Logo depois, Simona Halep não tomou conhecimento de novo de Karolina Pliskova, que soltou a pérola: “Eu apenas rezo para que ela não esteja no meu lado da chave”.

O duelo de Kerber contra Halep é totalmente imprevisível e o placar geral de 4 a 4 apenas reforça isso. A romena ainda diz sentir a perna e talvez não esteja em condições de outra maratona como a que fez diante de Lauren Davis.

Halep ainda tem o peso de defender o número 1. Caso Carol Wozniacki justique seu amplo favoritismo contra a pouco experiente Elise Mertens no jogo que abre a programação na nossa madrugada, a romena perderá o posto em caso de derrota.

Para o bem do tênis feminino, claro que o ideal seria uma decisão entre Halep e Wozniacki no sábado, que valeria título de Grand Slam inédito, e tão sonhado, além da ponta do ranking. Mas Kerber terá de concordar com isso. A campeã de 2016 recuperou seu lugar no top 10, mas não sairá do 9º mesmo com eventual bi.

Diagnóstico
Rafa Nadal deverá estar recuperado dentro de três semanas e assim manteve seu calendário original, que é jogar em Acapulco antes de Indian Wells e Miami.

A ressonância magnética feita em Melbourne indicou que o problema é no músculo que liga o quadril à coxa direita, uma contusão leve, segundo comunicado divulgado pela assessoria do espanhol. Ele fará fisioterapia para acabar com a inflamação e pretende estar de volta aos treinos em duas semanas.

Físico abandona Rafa. Outra vez.
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2018 às 11:55

Pelo terceiro torneio consecutivo, Rafael Nadal se rendeu a seus problemas físicos. E desta vez nem foi o joelho que o limitou em Xangai, o tirou da Basileia e o fez abandonar Paris e Londres, mas sim um incômodo insuperável na virilha direita. O número 1 foi obrigado a desistir no início do quinto set diante de um inspirado Marin Cilic, que mereceu a vaga na semifinal do Australian Open apesar das circunstâncias.

Houve é verdade evidente queda de rendimento de Nadal a partir da metade do quarto set, porém ainda assim é preciso elogiar a conduta de Cilic. Depois do primeiro set em que a cabeça falhou feio e uma quebra atrás no segundo, o croata se manteve firme no jogo, mudou a postura tática e não se entregou como vimos tantas vezes acontecer. Passou apostar no saque menos veloz e mais aberto, o que lhe dava tempo para atacar de forehand ou tentar ir à rede. Perdeu claro alguns pontos, principalmente pela qualidade das bolas do espanhol, mas seu tênis ganhou corpo e ele ficou cada vez mais solto e perigoso.

Nadal teve altos e baixos muito antes de sentir a virilha. E talvez a derrota tenha vindo ali no sexto e oitavo games do segundo set, quando ele já tinha 3/2 e inexplicavelmente substituiu a postura agressiva por um jogo mais conservador. Baixou a intensidade e deu a motivação que o adversário precisava. Cilic deveria ter levado também o tenso tiebreak do terceiro set, principalmente quando abriu 3-2 com dois saques. Ou mais tarde, quando teve quadra aberta para fazer 6-5 e servir em seguida. O ponto positivo é que novamente ele reagiu bem e entrou no quarto set com a mesma dedicação.

A partir daí a questão física entrou em cena e outra vez Nadal sucumbiu à exigência do Australian Open, como no abandono de 2010, a derrota feia para David Ferrer em 2011, a maratona de 2012 em que pregou antes de Novak Djokovic e a final perdida de 2014 para Stan Wawrinka. Curiosamente, das sete vezes em que caiu nas quartas de um Grand Slam, cinco foram em Melbourne. Mais tarde, reclamou do calendário e das quadras duras outra vez, logo ele que acabou de anunciar que jogará Acapulco antes de Indian Wells e Miami e em seguida embalar na longa sequência do saibro europeu. Difícil entender o rapaz.

Cilic fechou a partida com 83 winners, um número muito expressivo e que mostra sua determinação. Aliás, ‘apenas’ 20 deles foram por aces. Mas não menos relevante é que ele fez 26 winners de forehand e 13 de backhand, mas também errou 30 direitas e 22 esquerdas, ou seja, o saldo no geral foi até negativo. Aos 29 anos, não se pode criticar de todo sua competência. Afinal, ele tem quartas em todos os Slam e só não fez semi até hoje em Paris. Está agora a uma vitória de atingir pela primeira vez o terceiro lugar do ranking.

Seu inesperado adversário de quinta-feira será o britânico Kyle Edmund, um jogador geralmente acusado de ser um tanto robótico mas que parece ter encontrado um caminho desde que trocou para o pouco conhecido treinador Fredrik Rosengren no ano passado. Sua vitória sobre Grigor Dimitrov teve um pouco de tudo. O búlgaro jogou bem menos do que fizera contra Nick Kyrgios, talvez sentindo o desgaste físico e mental, enquanto Edmund se superou a partir do terceiro set. Conseguiu administrar os nervos, arrancando saques precisos e bolas de risco. Ele soltou outra boa frase: “Preciso curtir o momento, porque às vezes você fica tão envolvido emocionalmente na partida que se esquece de aproveitar a vitória”.

Elena Svitolina foi outra vítima dos problemas físicos. Limitada por dores no quadril e jogando à base de analgésicos, não rendeu nada e chegou a perder sete games seguidos para a belga Elise Mertens. Aos 22 anos e apenas no seu quinto Grand Slam, Mertens ainda não perdeu na temporada e admite que chegou muito mais longe do que poderia esperar no AusOpen.

Dificilmente terá chances se Carol Wozniacki não sentir pressão de estar tão perto de seu primeiro troféu de Grand Slam. A dinamarquesa viveu altos e baixos contra Carla Suárez, dando-se ao luxo de arriscar mais bolas do que o normal no primeiro set. É um estilo bem mais gostoso de se ver.

O tênis brasileiro por sua vez se despediu das chaves de duplas masculinas do Australian Open com outra amarga derrota. Tal qual havia acontecido com Bruno Soares e o escocês Jamie Murray, surpreendidos por uma parceria tecnicamente inferior, Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot foram muito irregulares e deixaram escapar uma grande chance de faturar mais um Grand Slam

A quarta-feira
– Federer e Berdych vão se cruzar pela 10ª vez num Slam, o que é a quarta mais repetida partida da Era Aberta. Suíço tem 19-6 no geral e ganhou as últimas oito desde Dubai-2013.
– Suíço jamais perdeu uma rodada de quartas em Melbourne e tenta assim 14ª semi na Austrália e 43ª da carreira.
– Berdych disputará sua 200ª partida de Slam, tendo 143 vitórias. Tcheco é o tenista com mais semis de Slam (7) sem jamais ter chegado ao título.
– Chung ganhou de Sandgren duas semanas atrás em Auckland em três sets bem disputados. Cada um teve campanhas incríveis até agora: coreano tirou Zverev e Djokovic, americano bateu Wawrinka e Thiem.
– EUA não têm um semi em Melbourne desde Roddick, em 2009. Nunca houve um coreano na penúltima rodada de um Slam.
– A última vez que um Slam teve dois não cabeças nas semis foi em Wimbledon de 2008, com Safin e Schuettler. Na Austrália, não acontecia desde 1999.
– Halep é favorita diante de Pliskova, sobre quem tem 6-1, mas o piso mais veloz pode ajudar a tcheca. Quem vencer, continua a sonhar com título inédito e número 1.
– Kerber também leva 6-1 de vantagem sobre Keys, mas as duas não se cruzam desde outubro de 2016. Americana não perdeu set no torneio e deve ser também um duelo típico de ataque e defesa.

Espelho, espelho meu
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2018 às 13:31

Hyeon Chung cresceu e ainda treina pensando em atingir o mesmo nível de Novak Djokovic. Ainda que tenha menor potência nos golpes, usa um tênis sólido na base com enorme elasticidade para alcançar bolas incríveis e executar contra-ataques mágicos. Num dia em que muita coisa deu errado, Nole experimentou do próprio veneno, levou inúmeras bolas desconcertantes e se rendeu à aplicação ferrenha do sul-coreano de 21 anos e mesmos 1,88m. Foi como duelar contra um espelho.

O cotovelo voltou a incomodar Djokovic e o levou a cometer duplas faltas ingratas, tanto no tenebroso início de partida como no tiebreak tão importante do primeiro set. Guerreiro, Nole ainda lutou com todas suas forças, mesclando táticas, e foi graças a isso que vimos as melhores qualidades de Chung. Mesmo deixando escapar vantagens e vacilando em momentos cruciais, o sul-coreano cobriu a quadra ao melhor estilo Djokovic, fez escolhas incrivelmente acertadas em pontos de pressão e exigência física. Escondeu emoção o quanto pôde, mas não aguentou e imitou o ídolo ao pedir aplauso à torcida após mais um de seus lances geniais da noite.

Vindo de um país de pouca tradição no tênis, Chung treinou três anos na Flórida e foi eleito o novato do ano em 2015. Mas seu tênis carecia de peso nos golpes. Para piorar, sofreu uma contusão abdominal que atrapalhou todo seu segundo semestre de 2016 e no ano passado precisou jogar challengers antes de enfim entrar para o top 50. Sofreu mais duas contusões (tornozelo e outra vez abdômen) mas mostrou estar recuperado ao conquistar o Next Gen, em novembro.

Para manter seu histórico de grandes surpresas, o Australian Open deste ano também coloca luz sobre Tennys Sandgren, norte-americano de 26 anos e 97º do ranking que só tem três títulos de challengers na carreira e ousou eliminar Stan Wawrinka e Dominic Thiem num misto de jogo agressivo, ótimo físico e sangue frio. Com 1,88m, se movimenta bem e usa tudo da quadra dura. Há duas semanas, deu muito trabalho a Chung na segunda rodada de Auckland e assim se projeta um duelo bem interessante nas quartas de final.

Importante salientar que o curioso nome de Sandgren não tem nada a ver com o esporte, nem com Tennessee, onde nasceu, mas sim quase uma enorme coincidência: é o nome de seu avô, que era sueco de nascimento e jamais pegou uma raquete na mão.

Enquanto isso, Federer aproveitou para treinar à luz do dia. Não que o húngaro Marton Fucsovics seja um tenista ruim. Até fez ótimos ralis no segundo set, mas sequer conseguiu um break-point ao longo da partida em que o suíço foi sempre para cima. Divertiu-se acima de tudo, como no lance em que defendeu três smashes. Ele se torna assim o tenista de mais idade a ir às quartas da Austrália em 41 anos e de um Slam, em quase 27.

Agora, vem Tomas Berdych, que atropelou também Fabio Fognini e assim merece todo o respeito pelo desempenho que teve até agora em Melbourne. Há um ano atrás, levou uma aula tão desconcertante do suíço que saiu da quadra atordoado, porém o tcheco parece melhor de pernas, está menos apressado e se aventura mais à rede. Não vence Federer desde Dubai de 2013.

O complemento do quadro de quartas de final femininas é muito promissor. Campeã de 2016, Angelique Kerber é definitivamente outra desde o início desta temporada, com a confiança restaurada. Precisou de toda paciência para achar soluções e barrar o estilo cheio de efeitos malucos de Su-Wei Hsieh, algo que provavelmente não teria acontecido nos últimos meses. Seu desafio agora será ainda maior, diante de uma inspirada Madison Keys, que disparou nada menos que 32 winners nos 17 games em que não tomou conhecimento de Caroline Garcia. Mais tarde, Keys confessou que precisou de tempo para digerir a péssima atuação na final do US Open.

A outra luta por vaga na semi tem todos os ingredientes: os estilos antagônicos de Simona Halep e Karolina Pliskova, o sonho de um título de Slam e a briga direta pelo número 1 (que ainda inclui Carol Wozniacki e Elina Svitolina). A romena fez um jogo sem sustos contra Naomi Osaka e a tcheca precisou virar contra Barbora Strycova em duelo que terminou na madrugada local e trouxe para a quadra a rivalidade pessoal das compatriotas.

A terça-feira
– Nadal e Cilic se enfrentam pela sétima vez. O croata só venceu uma, em 2009, e desde então só levou um de 12 sets. Espanhol tenta 27ª semi de Slam, que será a quinta melhor marca. Das 6 derrotas que Rafa sofreu nas quartas de um Slam, 4 foram em Melbourne.
– Dimitrov ganhou os dois duelos contra Edmund, porém sempre jogos duros e na quadra dura. De longe, o AusOpen é o melhor Slam do búlgaro. Edmund pode ser sexto britânico numa semi de Slam desde 1968 e a vitória o levará ao top 30.
– Svitolina pega Mertens, 36ª e uma surpresa no torneio. Ucraniana ganhou único duelo. Nenhuma delas perdeu jogo em 2018, vindo de títulos em Brisbane e Hobart.
– Wozniacki tem 5-2 nos duelos diretos com Súarez, mas a espanhola ganhou o mais recente, em Madri. Espanhola tem sexta chance de enfim fazer semi de Slam e chegou ao torneio com longa série de derrotas. Carol foi quartas em Melbourne seis anos atrás.
– Marcelo Melo e polonês Lukasz Kubot jogam quartas com amplo favoritismo sobre McLachlan e Struff. Mineiro busca segunda semi de duplas na Austrália.