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O histórico maio de 1968 em Paris
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2020 às 19:05

Aconteceu há dois dias, mas ainda é tempo de resgatar um dos momentos mais importantes, e tensos, do tênis moderno. No dia 27 de maio de 1968, Roland Garros se tornou o primeiro Grand Slam a permitir a inscrição de tenistas profissionais e duas semanas depois coroou Ken Rosewall e Nancy Richey.

Existem muitas histórias por trás desse momento histórico, e a primeira delas não é exatamente sobre o tênis.

Maio de 1968 marcou o ardente movimento estudantil pelas ruas de Paris, que começou como reivindicação e culminou com o pedido de renúncia do presidente Charles de Gaulle e novas eleições. Nove dias antes de Roland Garros começar, no auge de forte repressão policial, o país viveu uma greve geral, com 9 milhões de trabalhadores de braços cruzados e estudantes no apoio. O aeroporto fechou e os tenistas tiveram de chegar por estradas. O telefone não funcionava e havia toque de recolher nas ruas.

No campo esportivo, a abertura do circuito para todos era um desejo antigo dos britânicos. Em 1959, Wimbledon quis liberar para os profissionais, mas a Federação Internacional desautorizou por apenas cinco votos contrários. O torneio fez outra tentativa frustrada em 1964 e por fim, em 1967, a BBC patrocinou uma exibição de oito profissionais na Quadra Central, o que aliás marcou a primeira transmissão colorida feita no All England Club.

Wimbledon sentiu o risco de se esvaziar quando surgiu o milionário circuito WCT em 1967, e aí o Club cansou. Informou à ITF que iria acabar com a proibição e chamar todos os inscritos apenas de “jogadores”. Os dirigentes ameaçaram expulsar os britânicos da entidade mas, diante do maciço apoio dos tenistas, retrocedeu.

Para não ficar em segundo plano, a ITF marcou reunião para março de 1968 em Paris e aprovou um calendário experimental de 12 torneios. O primeiro deles, inaugurando a era profissional, aconteceu na grama de Bournemouth, em abril, e foi vencido por Ken Rosewall.

Como parecia inevitável segurar a mudança, a Federação Francesa se antecipou a Wimbledon e permitiu a inscrição inédita de profissionais para aquela edição de Roland Garros. Rosewall derrotou Rod Laver, enfim reautorizado a voltar aos Grand Slam, e embolsou o equivalente a US$ 3 mil. Somou seu segundo troféu no saibro de Paris, repetindo 1953. Richey foi obrigada a abrir mão de qualquer prêmio, pressionada pela USTA, que ainda não concordava com o profissionalismo.

O Brasil também na história
Esse Roland Garros de 1968 também se tornou marcante para o tênis brasileiro, com dois representantes nas quartas de final de simples: Maria Esther Bueno e Thomaz Koch.

Já com muitos problemas físicos, Estherzinha aproveitou pouco a Era Aberta. Era cabeça 8 e foi eliminada pela favorita Billie Jean King por duplo 6/4. King perdeu em seguida para Richey. Koch por sua vez foi barrado exatamente por Rosewall em quatro sets, parciais de 8/6, 6/2, 3/6 e 6/3.

Mais cinco brasileiros jogaram o primeiro Slam profissional da história. Edison Mandarino foi à terceira rodada, Fernando Gentil chegou na segunda e Carlos Lelé Fernandes caiu na estreia da chave masculina. Maria Cristina Dias e Suzana Peterson pararam na primeira rodada (Dias encarou Richey e ganhou dois games).

Em duplas, Maria Esther atuou ao lado da mesma Richey e chegou na semi, caindo diante das eventuais campeãs Fraçoise Durr/Ann Jones. A excepcional parceria entre Koch e Mandarino entrou de cabeça 7 e parou nas quartas para Rosewall e Fred Stolle.

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Tops do tênis brasileiro: surpresa e memórias
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2020 às 20:22

Para finalizar a série de artigos sobre os melhores do tênis da Era Profissional, é primordial um capítulo para o tênis brasileiro. A análise dos dados oficiais da ATP e WTA é bem valiosa e serve não apenas para enaltecer Gustavo Kuerten e Maria Esther Bueno, mas também para relembrar alguns jogadores que tiveram carreiras expressivas.

Os dados listados abaixo referem-se exclusivamente a ‘grandes torneios’, ou seja, Grand Slam, Masters 1000 e ATPs ou WTAs. Obviamente Guga lidera praticamente tudo no masculino. Talvez por isso seja interessante – e em certos casos surpreendente – olharmos quem vem atrás do imbatível catarinense.

Vamos aos tópicos que considero mais relevantes no tênis masculino:

VITÓRIAS GERAIS NA CARREIRA
Gustavo Kuerten – 358v-195d (64,7%)
Fernando Meligeni – 202v-217d (48,2%)
Thomaz Bellucci – 200v-216d (48,1%)
Luiz Mattar – 191v-178d (51,8%)
Thomaz Koch – 181v-151d (54,5%)
Observe-se que neste item a ATP considera os jogos de Grand Slam também da era amadora. Com isso, Koch tem a segunda melhor marca de eficiência.

VITÓRIAS EM GRAND SLAM
Gustavo Kuerten – 65v-30d (68,4%)
Thomaz Koch – 41v-33d (55,4%)
Fernando Meligeni – 25v-33d (43,1%)
Thomaz Bellucci – 23v-35d (39,7%)
Edison Mandarino – 21v-33d (38,9%)
São válidos os Slam amadores. Apenas Guga e Koch têm saldo positivo. O terceiro posto percentual é de Marcos Hocevar (43,5%. com 10v-13d)

VITÓRIAS EM MASTERS 1000
Gustavo Kuerten – 109v-52d (63,7%)
Thomaz Bellucci – 33v-53d (38,4%)
Fernando Meligeni – 12v-21d (36,4%)
Flávio Saretta – 8v-8d (50%)
Luiz Mattar – 8v-18d (30,8%)
É uma série de torneios mais recente, com dados computados desde 1990. Apenas mais quatro brasileiros têm vitórias nesse nível: Mello, Oncins, Motta e Sá.

VITÓRIAS POR PISO
Guga lidera tudo, não? Não! Vejamos:

Sintético
Gustavo Kuerten – 147v-89d (62,3%)
Luiz Mattar – 85v-71d (54,5%)
Thomaz Bellucci – 66v-102d (39,3%)

Saibro
Gustavo Kuerten – 181v-78d (69,9%)
Fernando Meligeni – 161v-131d (51,1%)
Thomaz Bellucci – 128v-101d (55,9%)

Grama
Thomaz Koch – 29v-28d (50,9%)
Marcos Hocevar – 12v-11d (52,2%)
Edison Mandarino – 12v-22d (35,3%)

Koch tem 52,5% de sucesso no sintético e 51% no saibro. Guga tem apenas 7 vitórias na grama, menos que Sá (10), Kirmayr (9) e Motta (8).

SOB PRESSÃO
Alguns itens dão uma ideia importante sobre como os tenistas reagem em momentos de pressão.

Tiebreak
Gustavo Kuerten – 132v-131d (52,2%)
Thomaz Bellucci – 103v-100d (51%)
Fernando Meligeni – 59v-65d (47,6%)

Viradas (após perder 1º set)
Gustavo Kuerten – 68v-155d (30,5%)
Fernando Meligeni – 46v-171d (21,2%)
Thomaz Bellucci – 45v-164d (21,5%)

Vitória no set decisivo (3º ou 5º)
Gustavo Kuerten – 106v-68d (60,9%)
Thomaz Bellucci – 76v-86d (46,9%)
Luiz Mattar – 67v-54d (55.4%)

Rogerinho tem 56,7% em tiebreaks (17 em 30), Mattar chegou a 22,2% em viradas (42-147) e Hocevar atingiu 54,5% em set decisivo (39-30).

FAÇANHAS
Claro que Guga sempre está a anos-luz dos demais, mas vale destacar a façanha dos demais.

Vitórias sobre top 10
Apenas 12 brasileiros conseguiram: Guga (38), Meligeni (9), Bellucci (6), Koch, Kirmayr e Mattar (3); Hocevar (2); Monteiro, Mandarino, Oncins, Saretta e Motta (1).

Títulos de ATP
Nove brasileiros ganharam até hoje em nível ATP ou superior: Guga (20), Mattar (7), Bellucci e Koch (4); Meligeni (3), Oncins (2); Kirmayr, Mello e Wild (1). Outros cinco chegaram a finais: Hocevar (2), Roese, Goes, Jábali e Motta (1).

Vitórias após ganhar o 1º set
Quatro jogadores têm mais de 80% nesse campo: Guga com 87,8%, seguido por Hocevar (84,5%); Mattar (82,8%) e Koch (80,6%).

TÊNIS FEMININO
Ainda mais distante que Guga em relação aos demais brasileiros é a performance de Maria Esther Bueno. Então, além de vermos os números imbatíveis de Estherzinha, vale recordar quem vem atrás.

VITÒRIAS EM GRAND SLAM
Maria Esther Bueno – 162
Patrícia Medrado e Cláudia Monteiro – 14
Niege Dias – 5
Bia Haddad – 4
Teliana Pereira – 3
Andrea Vieira – 2
Gisele Miró e Luciana Corsato – 1

Maria Esther ganhou mais nos EUA (57) do que em Wimbledon (55) e venceu 42 na França. Medrado vem atrás em Roland Garros (10) e Cláudia é a única com vitórias em todos os Slam além de Estherzinha.

VITÓRIAS GERAIS
Patrícia Medrado – 106v-164d
Maria Esther Bueno – 66v-20d
Teliana Pereira – 49v-54d
Cláudia Monteiro – 41v-82d
Bia Haddad Maia – 40v-45d

Apenas três brasileiras ganharam WTA e incrivelmente Estherzinha, que jogou muito pouco depois de 1968, lidera com 3, enquanto Niege e Teliana têm 2.

Três heróis e algumas esperanças
Por José Nilton Dalcim
3 de dezembro de 2015 às 18:36

O tênis brasileiro não pode se queixar da temporada 2015. Ainda que tenha visto o calendário nacional de torneios profissionais encolher drasticamente – e pior ainda o circuito juvenil continua curto -, lá no topo do ranking quebrou barreiras. Pela primeira vez, desde 1999, terminamos uma temporada com dois top 50. Após 27 anos, temos um homem e uma mulher simultaneamente entre os 50 mais bem classificados. E tudo coroado pela histórica campanha de Marcelo Melo que nos deu o inédito Grand Slam de duplas masculinas. Depois, virou o segundo brasileiro na história a atingir a ponta do ranking, o que nos deixa na incrível posição de ser um dos raros sete países a ter feito um número 1 tanto em simples como em duplas na ATP.

Mas claro que ainda precisamos de mais, porque existe uma evidente lacuna atrás de Thomaz Bellucci e Teliana Pereira. Por alguns meses, João Souza se candidatou a ser o escudeiro de Bellucci, chegou a 69º do ranking com grandes atuações, mas perdeu completamente o ritmo e a confiança. Bia Haddad mostrou logo em fevereiro, no Rio, que poderia dar a esperada arracanda ao top 100, porém foi atrapalhada novamente por seus problemas físicos. São dúvidas cristalinas para 2016, assim como Guilherme Clezar, que fez uma temporada tímida, e a nova geração, que precisa rodar muito até atingir um nível competitivo de maior escalão.

O próprio Melo brilhou quase sozinho, na primeira temporada em que Bruno Soares perdeu terreno e não evoluiu. Inegável que o salto de Girafa surpreendeu, até porque era difícil cotar a ele e Ivan Dodig para um título em Roland Garros. A partir daí, Melo ganhou enorme confiança. Não perdeu qualidade ao alterar seus parceiros, muito menos sentiu a pressão pelo feito incrível de tirar a hegemonia dos irmãos Bryan. Esse foi para mim seu grande mérito: o amadurecimento.

Por tudo isso, a expectativa para 2016 não muda. Bellucci e Teliana têm um primeiro trimestre muito propício a bons resultados, ainda mais sobre o saibro, e novos feitos numéricos. Ainda é difícil apostar que poderão fazer algo expressivo nos Slam, mas sempre restará esperança de uma chave propícia e o ápice técnico-físico quando Roland Garros vier. A dupla mineira terá testes juntos e separados. Melo tem boa chance de manter a liderança pelo menos até a metade do ano e pode muito bem se candidatar a um novo Slam. Bruno troca para o canhoto Jamie Murray e será uma incógnita, com teórica chance nos pisos duros. Aí virão as Olimpíadas e os dois estarão obrigatoriamente entre os candidatos à medalha de ouro. Pode ser o ponto alto da temporada.

A nova geração está num bom caminho. Não se deve ter pressa. São garotos bem orientados, já com considerável experiência internacional, bom apoio financeiro e qualidades. Um pode ser mais físico, o outro mais habilidoso. O fato é que teremos de esperar o tempo certo – que pode ser mais longo do que nossa ansiedade suporta – até sabermos o tamanho do futuro.

Números e feitos
– Com 30 vitórias em 60 partidas de primeira linha, Bellucci jogou mais porém ainda ficou atrás de seu desempenho de 2010, em que ganhou 34 de 59. Importante salientar que ele tem o segundo melhor retrospecto dos profissionais brasileiros em vitórias em Masters 1000 (30-44) e em tiebreaks vencidos (83-79), além de aparecer como terceiro em vitória no set decisivo (65-65).
– Teliana ruma para ser a primeira tenista nacional a atingir US$ 1 milhão em premiação oficial. Está com US$ 750 mil e faturou mais de US$ 300 mil em seu ótimo 2015.
– Melo lidera o ranking nacional de vitórias em duplas, com 336, 28 a mais que Soares e 80 a mais que André Sá. Em percentual, no entanto, Bruno está um pouco à frente: 61,3% contra 60,7%. Soares também lidera em títulos e finais: 20-20 contra 19-18.
– Rogério Silva e João Souza podem assumir a liderança de vitórias em nível challenger. Estão com 222 e 217, perto das 224 de Thiago Alves, 242 de Marcos Daniel e 250 de Ricardo Mello. Os dois no entanto têm apenas 7 títulos contra 15 de Mello.
– André Miele se tornou o primeiro e único brasileiro a superar a casa das 300 vitórias em nível future. Está com 305, perseguido de perto por Leonardo Kirche (297) e Daniel Silva (293). Danielzinho é quem mais ergueu troféus: 17 títulos em 30 finais.
– Teliana se tornou a 14ª brasileira a ter figurado entre os top 50 de simples. Seu recorde pessoal de 43º é a 11ª mais alta marca da nossa história.
– Feijão foi outro a atingir marca pessoal expressiva em 2015, tendo chegado ao 69º lugar em abril.
– O único tenista nacional a quebrar a barreira do top 100 de forma inédita em 2015 foi a duplista Paula Gonçalves, em novembro.
– Roland Garros continua sendo o principal Slam para o Brasil em termos de variedade. Em Paris, somamos 3 títulos de simples (Guga), 2 de duplas (Maria Esther e Melo), 2 de mistas (Maria Esther e Koch) e 1 juvenil (Guga, de duplas). No entanto, faturamos mais no US Open, com 10 no total (4 simples, 4 duplas e 2 mistas).

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