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Número 1 continua sem brilho
Por José Nilton Dalcim
19 de abril de 2019 às 18:38

Perder faz parte do tênis e todo mundo sabe que há dias em que as coisas simplesmente não funcionam. Mas os frequentes tropeços do número 1 Novak Djokovic vão além do infortúnio. Falta mesmo qualidade.

Com exceção a alguns grandes momentos aqui ou ali, o fato é que Djokovic não jogou um tênis de seu excepcional nível nos três Masters que disputou desde a conquista do Australian Open. Sofreu contra Bjorn Fratangelo antes de ser dominado por Philipp Kohlschreiber em Indian Wells; perdeu set de Federico Delbonis e caiu depois para Roberto Bautista. E no reencontro com o alemão em Monte Carlo, passou apuros.

Coincidência ou não, na semana anterior à volta ao saibro europeu, ele descansava na República Dominicana, onde treinou sua adaptação ao lentíssimo piso de Mônaco sobre uma quadra de har-tru. Publicou até um vídeo onde brincava de jogar na chuva. Ao que parece sua preparação foi, digamos, descontraída.

Na entrevista oficial, considerou a derrota para Daniil Medvedev normal, admitiu desconforto com o vento e com as bolas baixas do russo. Acha que tem muito tempo ainda para chegar bem a Roland Garros, seu objetivo principal. Lembremos que Madri serve de pouquíssimo parâmetro devido à altitude e eventual teto coberto – o sucesso ajudaria mais na confiança – e a adaptação final tem de acontecer em Roma, aí sim um saibro mais próximo a Paris, porém onde se treina pouco porque se joga todo dia.

Rafa Nadal, por questões óbvias, levou muito mais a sério sua preparação para a fase de saibro, o grande ganha-pão de sua temporada. E isso se reflete claramente na quadra. É bem verdade que o saque ainda não engrenou, o que explica a brecha que abriu para o valente Guido Pella dar aquele susto todo do primeiro set. Porém, a atitude, o empenho, a busca por soluções, o preparo físico estão tão afiados que Roland Garros poderia começar amanhã para o espanhol.

Rafa é experiente e inteligente o bastante para não menosprezar Fabio Fognini. Suas três derrotas diante do habilidosíssimo italiano foram em 2015, duas sobre o saibro e a terceira naquela virada histórica do US Open. Depois disso, mesmo o espanhol tendo sofrido altos e baixos físicos e emocionais, ganhou todos os seis duelos. Em Roma do ano passado, perdeu o primeiro set e depois atropelou Fognini.

A virada sobre Borna Coric deste sábado repetiu o script que estamos tanto acostumados. Frio e desinteressado, ele demora para engatar. E se o adversário afrouxa, seu tênis tão rico de repente faz diferença. O garoto croata teve 6/1 e 2/0, e deixou o leão acordar. Mesmo com o braço direito enfaixado – uma real preocupação para a semi deste sábado -, Fognini ganhou 12 dos 15 games seguintes, escapando de quatro break-points com coragem e apoio do público.

Medvedev não é um saibrista e reconhece sua própria surpresa com a ótima campanha na lentidão de Monte Carlo. Na véspera já havia feito uma partida complicada diante de Stefanos Tsitsipas. A ventania do sábado era um prenúncio de horas difíceis para Djokovic, que fez um primeiro set pavoroso, com 21 erros não forçados. Achou finalmente um caminho com as curtinhas que o russo detesta, porém Medvedev se mostrou notavelmente sólido no terceiro set, aguentando trocas com movimentação perfeita.

Tal qual Fognini, os recorrentes pedidos de atendimento para aliviar dores nas duas coxas ao longo de todo o terceiro set deixam dúvida sobre o estado físico do russo para reencontrar Dusan Lajovic. Como se esperava, o sérvio de 28 anos fez valer a experiência em cima do bom Lorenzo Sonego e continua mesclando muito bem o jogo, ataque e defesa, força e jeito. Quem diria, o backhand de uma mão sobrevive em Monte Carlo.

E mais
– Outra vez Nadal errou mais do que o adversário no saibro: 31 a 28. O primeiro saque evoluiu em relação aos outros jogos (66%), mas o índice de pontos vencidos com ele foi baixo: 58%.
– Coric cometeu um único erro não forçado no set inicial contra Fognini. Mas depois se perdeu e terminou com 28.
– Medvedev não foi para a quadra e assim Marcelo Demoliner parou nas quartas de duplas. O gaúcho anda mesmo sem sorte. Bruno Soares avançou ao lado de Jamie Murray e os dois são favoritos para o título. Até houve, nenhum duplista brasileiro foi campeão no torneio. Soares chegou a duas finais e Melo, a uma.
– Lajovic já garantiu o melhor ranking da carreira, ao subir 16 postos e ir ao 32º. Chegará ao 24º se atingir a final. Pella será um inédito top 30, já que avança provisoriamente ao 27º.
– Enfim, um jogo fácil para Thomaz Bellucci. Com a semi em Túnis, terá seu melhor ranking em 12 meses, com o 212º posto. Se ganhar do português João Domingues, irá a 201. Sua última final aconteceu no ATP 250 de Houston, em abril de 2017.

Festa, alívio e frustração
Por José Nilton Dalcim
23 de fevereiro de 2019 às 00:38

Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva viveram sentimentos antagônicos nesta sexta-feira no Rio e levantaram polêmica das boas. Conseguiram outra ótima atuação, avançaram inesperadamente à final do Rio Open sem serem especialistas de duplas, contando com um apoio maciço da torcida na quadra 1.

Mas ao mesmo tempo, eles ficaram de fora do qualificatório do Brasil Open, que também começa neste sábado no Ibirapuera. E aí sobraram críticas à organização do ATP 250 paulistano por ter dado com antecipação convite para o uruguaio Pablo Cuevas, tricampeão do torneio, que se esqueceu de fazer a inscrição e foi jogado para o quali. Não fosse o convite, seria ele o prejudicado com a campanha do Rio e talvez se abrisse vaga para Bellucci ou Rogerinho.

“É triste ver isso”, lamentou Thomaz. “Onde está o apoio quando mais precisamos?”, queixou-se Rogerinho. “Era momento de apoiar o tênis brasileiro”. O Brasil Open deu os outros dois convites ao jovem Thiago Wild e ao número 1 nacional Thiago Monteiro, e reservou vaga na chave de duplas para Bellucci e Rogerinho. Vale destacar que Bellucci não sabia o que era disputar um título desde o vice de simples em Houston de 2017.

As semifinais de simples deste sábado terão Aljaz Bedene e Laslo Djere, e pelo sofrimento físico do esloveno parece que o sérvio de 23 anos tem uma chance incrível de disputar inédita final de ATP (Bedene soma três vices).

A sensação do Jockey Club, no entanto, é o garoto Felix Auger-Aliassime, com um tênis maravilhosamente agressivo, desde a base até a transição à rede, além de um saque muito pesado. É certo que por vezes exagera na força e na ousadia, porém pode-se colocar tudo na conta de seus 18 anos.

Dominou o espanhol Jaume Munar, que é muito mais afeito ao saibro do que ele, e terá delicioso desafio diante da experiência de Cuevas, 14 anos mais velho, quatro vezes campeão no saibro brasileiro, uma delas no Rio. O bom de tudo é que o uruguaio gosta de bater na bola e exibe um admirável backhand de uma mão.

No campo das polêmicas, sobram também reclamações sobre o salgado preço dos ingressos do Rio Open. Para as semifinais e final, sai por R$ 440 na arquibancada o valor cheio (há promoções de alguns patrocinadores que reduzem até 30%).

Com a queda dos favoritos, não seria o caso de redução?, me indagam. É um problema complexo. Em primeiro lugar, acho o valor excessivo para o mercado brasileiro. Mas não dá para reduzir no meio do caminho, porque seria uma tremenda injustiça com aqueles que compraram a entrada antes.

O fato é que, mesmo com poucos brasileiros e favoritos, a arquibancada até encheu nesta sexta-feira e é bem provável que isso se repita no sábado e domingo.

Rio vê boa mistura de experiência e juventude
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2019 às 22:45

Se o tênis fosse um esporte simples e lógico, o título do Rio Open estaria nas mãos de quem vencer o duelo noturno desta sexta-feira no Jockey Club Brasileiro, entre o uruguaio Pablo Cuevas e o espanhol Albert Ramos.

Além de especialistas no piso, ambos já figuraram no top 20 e são os únicos sobreviventes do torneio que têm títulos de ATP. Cuevas surge como favorito disparado, aliás. Enquanto o espanhol ergueu um troféu, ele ganhou quatro de seus seis ATPs no saibro brasileiro. E ainda por cima, lidera por 6 a 1 nos duelos diretos contra Ramos.

O bom é que não se pode menosprezar os outros candidatos, até porque somente Felix Auger-Aliassime não é um autêntico jogador de saibro, muito mais adepto à quadra dura, onde seus golpes retos e pesados dão mais frutos. O desafio do canadense contra Jaume Munar já é grande, e talvez as 3h30 de esforço do espanhol na quarta-feira possam equilibrar mais.

Munar e Felix são dois dos quatro Next Gen ainda de pé, um com 21, outro de meros 18. Juntam-se ao sérvio Laslo Djere, de 23, e o norueguês Casper Ruud, de 20, que também duelam entre si. Para quem espera renovação no tênis masculino, é uma ótima oportunidade de se ver o futuro.

Note-se que a parte de cima da chave, onde estão Djere e Ruud, tem outros dois jogadores sem títulos de ATP na carreira. O esloveno Aljaz Bedene soma três vices, dois no saibro, e assim é o candidato natural.

Seu oponente será o boliviano Hugo Dellien, de 25 anos e um jogo variado, típico do saibro. Mas atenção: assegurado no top 100 do ranking, Dellien está ainda muito longe do melhor tenista de seu país. Mario Martinez, que treinava nos EUA, ganhou três ATPs e foi 32º do mundo.

Na série de resultados totalmente inesperados do Rio Open, Thomaz Bellucci e Rogerinho Silva derrubaram Bruno Soares e Marcelo Melo, num jogo em que os dois rapazes de simples abusaram da força dos golpes de base diante dos voleadores experientes. No final de 2018, perguntei a Bellucci por que ele não tentava jogar mais duplas para pegar ritmo e confiança. A resposta pode estar aí.

Para Bellucci e Rogerinho, esta campanha pode dar um empurrão. Mas como nem tudo é perfeito nesta vida, os dois estão com um dilema. Caso cheguem à final de sábado no Rio, terão de fazer algum milagre para disputar o quali do Brasil Open em São Paulo. O ATP paulistano ainda tem um convite a oferecer e pode ajudar um deles.