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O melancólico fim do ‘Slam brasileiro’
Por José Nilton Dalcim
16 de outubro de 2019 às 10:45

Embora seja triste, a notícia de que o Brasil Open como um ATP 250 deixará o calendário internacional em 2020 não surpreende. Nos últimos anos, a dificuldade para manter o torneio só cresceu. Neste 2019, bateu na trave. A liberação de verba incentivada aconteceu em cima da hora, e ainda por muita pressão e persistência da promotora Koch Tavares em Brasília. Com dinheiro contado – muitos dizem que até faltando -, não se contratou atrações e, mesmo com o garoto Felix Auger-Aliassime, repetiu-se o esvaziamento do gigante ginásio do Ibirapuera.

Com contrato de royalties assinado com a verdadeira dona da data, a Octagon britânica, o Brasil Open nasceu em 2001 com a ideia de se tornar o ‘Slam sul-americano’. Embalado pela Era Guga, então número 1 do mundo, e por seu mais forte patrocinador, o Banco do Brasil, optou-se pelo pomposo nome porque pela primeira vez se promoveu um ATP e um WTA no país simultâneos. Nadava-se em dinheiro, e tudo era megalomaníaco na Costa do Sauípe, um resort de luxo também recém lançado, não por acaso de propriedade da Previ, o fundo de pensão do BB.

O torneio feminino durou apenas duas edições, porque as exigências da WTA eram insuportáveis e as principais jogadoras não se motivavam a vir para cá logo depois do US Open. Ou seja, até mesmo Monica Seles sumia diante dos holofotes em cima de Guga, que sempre recebeu um cachê gordo, e merecido, mesmo tendo contrato de representação com a Koch e de patrocínio com o BB. O dinheiro gasto com o WTA se desviou para as quatro centenas de convidados, os shows caríssimos, as festas intermináveis, as mordomias aos jogadores. Revivia-se o que a mesma promotora fizera por uma década em Itaparica.

O problema físico de Guga influenciou diretamente o destino do Brasil Open, mas houve salvação. O torneio trocou de data e de piso ainda em 2004. O fenômeno Rafael Nadal, o campeão olímpico Nicolas Massú, espanhóis de jogo bonito como Nicolas Almagro e Juan Carlos Ferrero e a ascensão de Thomaz Bellucci mantiveram o padrão enquanto deu. Mas sem Guga e com Sauípe perdendo o encanto para os patrocinadores, o enorme custo de organização pesou cada vez mais. Por ironia, a primeira vez que o resort anunciou lucro operacional foi em 2011. O complexo acabou vendido em 2017 com dívida milionária.

Em 2012, optou-se pela mudança do Brasil Open para São Paulo. Radical. Trocar a suntuosidade paradisíaca das praias baianas pela rigidez urbana e o sofrível ginásio do Ibirapuera era evidentemente um risco, talvez não bem calculado. Ainda com dinheiro para contratar estrelas, a volta de Nadal foi talvez o último grande momento do Brasil Open, em 2013. O já multicampeão de Roland Garros reclamou abertamente das condições das quadras e das bolas, houve enorme confusão e perigo com excesso de público na final, com descontrole de credenciais. O Ibirapuera viveu um domingo incrível, mas jamais conseguiu encher de novo com o tênis.

Para complicar, o ATP 500 do Rio entrou em cena para dividir apoiadores. Tentou-se mudar a sede para o clube Pinheiros, com público natural muito mais adequado que lotou as arquibancadas. Porém, o clube exibiu instalações apertadas e, pior de tudo, cobrou aluguel caríssimo para o orçamento agora sufocante da promotora. No desespero, voltou-se ao Ibirapuera em 2018, com nova ajuda do governo estadual, e ainda viu uma final entre Fabio Fognini e Nicolas Jarry. A Koch Tavares, no entanto, jamais se recuperou financeiramente.

A relação entre a promotora brasileira e a Octagon se desgastou de forma natural. O evento não dava lucro há anos e até receber as taxas contratuais estava difícil. Há duas semanas, os britânicos bateram o martelo com a promotora TGA, com apoio da família do ex-top 10 Jaime Fillol, avô de Nicolas Jarry. Com forte e essencial apoio governamental, incluindo aporte financeiro de US$ 500 mil, o evento será sediado no belo Estádio Nacional de Santiago, famoso pelas rodadas de Copa Davis. O Chile havia perdido seu ATP há seis anos.

O futuro do Brasil Open como franquia é incerto. Há meses, já se especulava a mudança do formato ATP para exibições. Para isso no entanto é preciso dinheiro para trazer grandes nomes, um lugar decente e uma data propícia. Há sete anos, a mesma Koch trouxe Roger Federer ao Brasil, num evento de enorme repercussão. Desta vez, nenhuma promotora sequer cogitou aproveitar que ele fará longa turnê pela América do Sul. Os bons tempos definitivamente acabaram.

Luta adiada
Por José Nilton Dalcim
3 de outubro de 2019 às 18:48

A expectativa de uma briga direta pela liderança do ranking masculino ficou frustrada. Rafael Nadal decidiu esticar seu afastamento do circuito e não vai outra vez ao curto – e desgastante – calendário asiático.

O espanhol pode até retomar o posto por inércia, mas agora depende de um desastre com Novak Djokovic. O sérvio já está nas quartas de Tóquio após duas rodadas muito tranquilas, abriu 730 pontos de distância no ranking tradicional de 52 semanas e assim só uma derrota antes das quartas em Xangai lhe tiraria o posto. Isso agora.

Se Nole confirmar o amplo favoritismo no fraco ATP 500 japonês – Lucas Pouille e David Goffin são as pequenas ameaças até domingo – estará garantido no posto até Paris Bercy.

Nadal alegou o problema na mão esquerda surgido na Laver Cup para evitar a ida à China, o que pode até ser verdade. Mas no fundo, com casamento à vista e uma folga ainda grande no ranking da temporada, a desistência não chega a surpreender.

Mesmo que Djoko ganhe Tóquio e conquiste Xangai, ou seja some os 1.500 pontos possíveis, Rafa ainda será o primeiro no ranking da temporada com 460 pontos de vantagem. Terá a chance então de lutar pela ponta durante Paris e Londres, dois pisos sintéticos cobertos mas lentos onde sempre se saiu bem pior do que Novak.

Em Tóquio…
Com quase metade da premiação de Pequim, Tóquio só atraiu um top 10 e mais dois entre os 20. E viu os quatro cabeças da parte inferior da chave caírem na estreia. As boas novidades são Goffin, com vitórias apertadas sobre Carreño e Shapovalov, e Chung, que aplicou 6/1 no terceiro set em cima de Cilic. Os dois duelam entre si. Se o coreano ganhar, tem tudo para voltar ao top 100.

Em Pequim…
Os quase US$ 3,7 milhões levaram ao ATP 500 chinês oito dos 13 primeiros do ranking, sendo cinco entre os 10. Com isso, as quedas de cabeças foram bem menos dramáticas, como as de Berrettini para Murray ou de Monfils para Isner. As quartas são bem atrativas: Thiem x Murray, Tsitsipas x Isner, Khachanov x Fognini e Zverev x Querrey. Ainda assim, o público outra vez tem sido uma enorme decepção, com arquibancadas muito vazias.

E no feminino…
A chave das meninas em Pequim também está bem animadora. A queda tão precoce de Pliskova e Halep foram inesperadas, mas veremos Osaka x Andreescu, Barty x Kvitova e Svitolina x Bertens nas quartas. A vitória vale a vaga definitiva no Finals para Osaka e Kvitova, mas o duelo entre Svitolina e Bertens é uma luta direta. Bem diferente do masculino, o ranking da temporada feminina tem oito jogadoras numa curta faixa de distância de 2 mil pontos.

E em Campinas
Nada menos que 17 brasileiros entraram na chave de simples de 48 participantes no challenger de Campinas e o único que chegou ao menos nas quartas foi… Thomaz Bellucci! E ainda por cima com desistência do cabeça 2 Leo Mayer, que nem entrou em quadra. Aliás, Bellucci foi bye na primeira rodada e ganhou na estreia por desclassificação, portanto tendo jogando um set até aqui. A realidade nua e crua é que o tênis brasileiro de hoje precisa muito mais de futures do que de challengers. E pensar que temos um 500 e um 250…

Quem não ouviu, vale conferir o podcast desta semana com o Bellucci. Clique aqui.

Semifinais de peso
Por José Nilton Dalcim
26 de abril de 2019 às 17:57

A reedição da final de Roland Garros de 2018 entre Rafa Nadal e Dominic Thiem já seria suficiente para dar todo o gabarito possível às semifinais do ATP 500 de Barcelona deste sábado. Mas a programação será ainda melhor, com o bicampeão Kei Nishikori e o ascendente Daniil Medvedev, este fazendo sua segunda inesperada campanha sobre o saibro em poucos dias.

Nadal fez uma excelente exibição diante de Jan-Lennard Struff, porque foi pressionado o tempo todo e precisou de todas suas armas para brecar o valente alemão. No seu melhor estilo, cometeu apenas oito erros em 24 games, mas também anotou 19 winners. Thiem brilhou menos, teve altos e baixos no primeiro set, perdeu serviço e demorou para se impor ao também canhoto Guido Pella.

Assim como na semana passada, Nadal está novamente a dois jogos de fazer ainda mais história e se tornar o único profissional com 12 troféus num mesmo torneio. Ele aliás jamais perdeu um título em Barcelona depois de chegar na semifinal.

Thiem é um daqueles raríssimos adversários a ter vencido Nadal ao menos três vezes no saibro e o único a ter cometido tal façanha nas duas últimas temporadas (Roma em 2017 e Madri no ano passado). No placar geral, perdeu outras oito vezes, incluindo a final de Roland Garros de 2018. O duelo mais recente foi aquele jogaço nas quartas do US Open.

Vejo o duelo com relevância dobrada. É o tipo de vitória que Rafa precisa neste momento para superar os resquícios de trauma de Monte Carlo e ter a volta total da confiança. Ao contrário, uma nova derrota na semi, e agora em casa, seria um fardo duro de carregar. E encheria a bola de Thiem, um adversário sempre muito perigoso quando está com a cabeça boa.

Kei brilha de novo
O terceiro grande semifinalista deste sábado é Kei Nishikori, que nos últimos anos conseguiu adaptar muito bem para o saibro seu estilo mais apropriado aos pisos duros. Como se mexe muito bem, chega bem fácil nas bolas e isso permite continuar pegando tudo na subida, imprimindo um ritmo sufocante ao adversário.

Se passar por Daniil Medvedev, fará sua quarta final em Barcelona nos últimos seis anos, tendo sido bicampeão em 2014 e 2015 e vice em 2016. O japonês tem outros dois resultados de peso na terra: a final de Madri em 2014 e a de Monte Carlo, no ano passado.

Medvedev é portanto o ‘patinho feio’ da rodada. O russo superou um confronto duro diante do agressivo Nicolas Jarry, mas se valeu não apenas do evidente cansaço do chileno – 17 sets jogados desde sábado  – como também de seu poderoso jogo de base.

Ele contou que o piso estava muito seco e, com o vento forte, controlar a bola se tornou um desafio e tanto. Mas esta é justamente a sua maior qualidade e não será nada surpreendente se vermos Nishikori indo ainda mais à rede para diminuir seu tempo de reação.

E mais
– Naomi Osaka conseguiu uma virada incrível em Stuttgart, perdendo por 1/5 no terceiro set para Donna Vekic. Atenuou a atuação instável, com 32 winners e 45 erros. Enfrentará agora Anett Kontaveit, que viu Vika Azarenka sacar para o jogo, falhar e depois abandonar no terceiro set com dores no ombro.
– A outra vaga na final está entre Petra Kvitova e Kiki Bertens, um duelo entre sacadoras. A canhota tcheca busca a quarta final da temporada e lidera o ranking do ano.
 – Campeão do Rio, o sérvio Laslo Djere está na semi de Budapeste e com isso é agora o 16º do ranking da temporada. Enfrenta o italiano Matteo Berrettini, dono de um belo primeiro saque.
– A outra semi tem dois tenistas que sonham com seu primeiro ATP: Filip Krajinovic e Pierre Herbert.
– Má notícia: Thomaz Bellucci ficará pelo menos duas semanas sem competir por conta da torção de tornozelo, com pequena chance de voltar no challenger de Lisboa, uma semana antes do quali de Paris.