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Ela voltou
Por José Nilton Dalcim
26 de abril de 2017 às 18:52

Contra tudo e (quase) contra todos, Maria Sharapova voltou às quadras e surpreendeu. Diante de um adversária experiente e em ritmo perfeito de competição, a russa mostrou pouco a pouco um tênis vigoroso e agressivo, como se jamais tivesse ficado 15 meses longe do circuito. Vibrou muito, pareceu conter lágrimas. Muito aplaudida em Stuttgart.

Há duas coisas inegavelmente valiosas no retorno da musa. A primeira é que coloca atenção sobre o circuito feminino, que está claramente com carência de estrelas nos últimos meses. Com tendência a piorar, frente à gravidez de Serena. Em segundo, porque entra como nome forte já para os torneios de saibro e, na ausência da rainha da grama, pode muito bem sonhar outra vez até com Wimbledon.

Não vamos esquecer que a temporada 2017 está fortemente marcada por dois retornos inesperados e gloriosos: Roger Federer e Rafael Nadal. Ainda que os motivos de afastamento da russa sejam distintos, ou seja, não sofreu uma limitação séria por contusão, a busca por bons resultados, finais e títulos não será diferente da façanha que os dois rapazes obtiveram no Australian Open.

Por fim, ainda me causa estranheza ver tenistas batendo reto a ter sucesso sobre o saibro, como têm feito Sharapova e Serena nos últimos tempos. Isso ratifica o quão diferenciadas elas são e o quanto o piso de terra deixou de ter especialistas ao longo dos tempos.

A nota triste cabe ao tênis brasileiro e sua incrível derrocada logo no começo desta semana nas mais variadas modalidades e torneios, ainda que todos sobre o saibro. A queda de Thiago Monteiro foi amarga e preocupante pela forma com que aconteceu. Thomaz Bellucci se perdeu totalmente depois de ter uma quebra de vantagem no começo da partida. Bia Haddad e Teliana Pereira falharam no quali, os duplistas continuam sem achar ritmo.

A salvação da lavoura coube ao veterano Rogério Silva, que fez ótima estreia em Barcelona e teve azar de encarar logo Rafa Nadal na segunda rodada. O sorteio não poderia ter sido mais cruel. Pegar o embaladíssimo campeão de Monte Carlo diante de sua torcida e em dia de festa, pela inauguração oficial da quadra que foi batizada pelo maior nome do esporte espanhol da atualidade.

Rogerinho não fez feio, ressalte-se. Claro que lhe faltam golpes poderosos para definir pontos, sem os quais é muito difícil complicar Rafa no saibro. Porém, sua vontade de ganhar torna o jogo sempre divertido de se ver.

Onde estamos errando
Por José Nilton Dalcim
1 de março de 2017 às 14:49

Aprendi muito cedo no jornalismo que fazer crítica sem apresentar alternativas de solução é quase uma leviandade. É fácil sentar na frente do teclado e disparar contra tudo e contra todos. Muito mais difícil do que dizer o que está errado, é apontar quais os possíveis caminhos para se consertar a falha.

Quando vemos um dia de tenebrosas derrotas de Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e Teliana Pereira, a tendência de reclamar é obviamente alta. E justa. Eles são jogadores profissionais, que ganham pelo que fazem, e portanto estão naturalmente sujeitos a isso. Aliás, como os jornalistas e comentaristas também.

Bellucci e Teliana sofrem antes de tudo com a pressão que colocam em si mesmos. Jogar dentro de casa não parece uma vantagem, beira mais o sacrifício. Se você ainda por cima está num momento de falta de confiança, o passo para o vexame fica ainda mais curto. São tenistas ruins? Claro que não. São jogadores espetaculares? Nem de longe. Bellucci tem como qualidade um bom arsenal de golpes, Teliana usa a determinação ferrenha. Tanto para um como para outro, não é suficiente.

Monteiro já sofre com a impaciência que é a característica da mídia e da torcida nacionais, como se passar de um estágio a outro no tênis fosse coisa simples. O cearense mal começou a lapidar seus golpes. Mexeu no saque, está tentando ser mais agressivo com o forehand, trabalha para dar consistência ao backhand. Tem um jogo de rede fraco e se perde ao correr para a frente.

Pouco se leva em conta que ele ainda jogava challenger um ano atrás, acabou de entrar em seu primeiro Grand Slam e está de repente num patamar muito mais alto do que antes. Se vence, já se acha que ele vai ao top 20. Se perde, que é fogo de palha. Thiago poderá sim ir bem mais longe, porém terá de trabalhar muito e contar com enorme garra o tempo inteiro. O fã brasileiro no entanto não costuma ter essa complacência.

Mas afinal onde está o principal erro do tênis brasileiro? Na minha opinião, é preciso mexer muito na base. Aumentar o calendário juvenil, com regionalização, e preparar mais a garotada para jogar na quadra sintética. Se continuarmos a pensar somente no saibro, teremos jogadores de pernas e potência sem criatividade e recursos táticos. Tenistas com grande saque e forehand agressivo temos aos montes no circuito. É preciso achar algo a mais.

E aí vem para mim nossa maior falha estrutural. Nunca tivemos alguém que percorresse este imenso país atrás de talento. Um profissional gabaritado, de olho clínico, cuja missão fosse visitar centros de treinamento, torneios pequenos, quem sabe escolas e periferias. Detectar potenciais e dar oportunidade a eles. Inverter o processo cansativo e improdutivo que tivemos até hoje, quando sentamos e esperamos surgir um garoto ou menina diferenciados para aí então darmos suporte, geralmente muito atrasado, a eles. Suporte aliás que tende a virar cobrança e não motivação.

Seria capaz de listar aqui dezenas de nomes com competência para isso, geralmente ex-profissionais raramente aproveitados e que estão disponíveis no mercado. Há muita gente séria que enxerga o tênis bem mais longe. Estive em Porto Alegre há duas semanas e não precisei ver mais do que uma partida para constatar que Matheus Pucinelli é um desses talentos que precisam ser vistos imediatamente.

Onde estava o ‘olheiro’? Esta seria a verba mais bem gasta no tênis brasileiro.

Monfils bagunça Toronto
Por José Nilton Dalcim
30 de julho de 2016 às 00:17

O script parecia muito bem desenhado e o Masters de Toronto caminhava para as semifinais ideais, com os quatro principais cabeças de chave classificados e o tão sonhado duelo entre o melhor do mundo e o dono da casa. Mas aí Gael Monfils resolveu acabar com a festa.

Mesclando um excelente saque, grandes golpes da base, agressividade e contragolpe, o francês parou Milos Raonic em dois sets. Só não foi mais surpreendente porque Gael vem do título de Washington no domingo, seu maior troféu da carreira, que foi também o fim de um jejum e da sina de vice. O problema agora é encarar 12 anos sem vitória sobre Novak Djokovic, cruel 11 a 1 no placar.

Depois de tanto apanhar, finalmente Tomas Berdych mostrou alguma modificação tática contra Djokovic e tentou jogar com muito mais spin dos dois lados, mostrando até uma terminação pouco usual para seu forehand. Não se pode dizer que funcionou porque na hora de definir pontos ele errou muito, porém ao menos teve uma chance clara de ganhar o primeiro set, quando abriu 6-3 no tiebreak e ainda teve dois saques a favor.

Ainda que tenha apresentado alguns altos e baixos, com aproveitamento fraco do primeiro serviço, Djoko é muito mais jogador e assim soube administrar a partida o tempo todo. Falhou é verdade quando teve 5/4 e saque no primeiro set, permitiu alguns break-points bobos, fez cinco duplas faltas, mas nada que realmente comprometesse outra semifinal na temporada.

Muito interessante também deve ser o duelo entre Stan Wawrinka e Kei Nishikori, que curiosamente tem ocorrido bem pouco no circuito. O suíço ganhou duas vezes em 2012, quando o japonês ainda era promessa, e Nishikori venceu em cinco sets espetaculares nas quartas do US Open de 2014. No mais recente, o suíço fez 3 a 0 em Melbourne de 2015.

Promovido de coadjuvante a cabeça 2 pelas ausências de Murray, Federer e Nadal, Wawrinka fez três boas exibições em Toronto e atropelou Kevin Anderson, um dos adversários que menos gosta de enfrentar. Nishikori está sobre seu piso ideal, onde seu estilo mais rende, porém se atrapalhou com as alternâncias de ritmo de Grigor Dimitrov. Nem ele, nem Stan chegou até agora a uma final no Canadá.

Muito animador também ver Marcelo Melo e Bruno Soares, com seus parceiros estrangeiros, atingirem a semifinal de duplas faltando tão pouco para o sonho olímpico. Venceram dois jogos exigentes e isso dá confiança.

Por falar em brasileiros, Thomaz Bellucci e João Souza estão na semifinal do challenger de Biela, sobre o saibro. Se para o nosso número 1 é quase obrigação ir bem, para Feijão já são duas vitórias sobre top 100 na semana, uma com direito a show em cima de Paolo Lorenzi, que acabou de ganhar seu ATP 250. Tomara que isso sirva para ele retomar o caminho certo.