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Livre do fardo, Thiem pode fazer ainda mais
Por José Nilton Dalcim
13 de setembro de 2020 às 23:25

Numa das finais de Grand Slam mais malucas e imprevisíveis dos últimos tempos, Dominic Thiem conseguiu sobreviver a seus erros, ao jogo ousado do adversário, aos nervos aflorados e por fim às dores musculares para enfim conquistar o tão aguardado título de Grand Slam, que havia lhe escapado por três outras vezes.

O esforço de quatro horas o levou à história: primeiro campeão da Era Profissional a virar de dois sets e a vencer um tiebreak de quinto set numa final em Nova York, 150º diferente vencedor de Slam de todos os tempos, primeiro homem nascido na década de 1990 a ganhar um troféu desse quilate após sequência de 63 dos oriundos de 1980.

Mas como foi difícil. Descalibrado, levou uma surra por quase dois sets diante de um Alexander Zverev que entrou em quadra com proposta ofensiva. Atacou segundo serviço, bateu firme na paralela e principalmente foi muito à rede. De repente, ganhava com toda justiça por 6/2 e 5/1, três set-points, adversário aturdido nas cordas. Aí talvez tenha surgido o primeiro deslize do alemão: deixou Thiem ganhar três games seguidos e a reencontrar algo do velho ritmo.

Sascha ainda abriu o terceiro set com quebra no terceiro game e parecia caminhar para uma vitória inesperadamente fácil. De novo, falhou ao deixar o austríaco tirar seu saque e daí em diante o jogo ficou diferente. Ainda que não fosse o rolo compressor das quartas ou da semi, o renascido Thiem já tinha pernas para fugir e atacar mais de forehand, parou de dar tanto ponto bobo e pouco a pouco as devoluções incomodaram o adversário. Quando está confiante, faz mais também com o backhand e assim seu quarto set beirou o impecável, com apenas dois erros não forçados. Enfim, parecia uma digna final de Slam.

Era para se imaginar um Zverev de cabeça baixa no quinto set. Logo de cara, perdeu o serviço, sinal dos velhos tempos. Novo engano nessa final tão cheia de surpresas. O alemão reagiu imediatamente, ficou consistente da base, defendeu-se bem e chegou ao momento máximo: 5/3 e saque para o título. Deve ter pensado demais e ficou covarde. Thiem virou para 6/5 e aí também sacou para a vitória. Mas passou a ter muitas dores na coxa esquerda, se arrastava em quadra e permitiu que a definição fosse ao tiebreak. Roteiro de dramalhão mexicano.

Zverev fez 2-0 antes do fantasma das duplas faltas o atormentar (foram 15, mesmo número de aces). Já não conseguia mais fazer o primeiro serviço voar, tentou voleio e deu 6-4 ao adversário, que por sua vez empurrava slices de backhand. No segundo match-point para Thiem, forehand fácil na paralela… e rede! Tudo igual. Por fim, uma passada paciente em três tentativas deu a terceira chance ao austríaco, que viu a bola de Zverev escapar na lateral e se jogou ao chão para comemorar. Dez dias depois de completar 27 anos, enfim entrou para a lista dos gigantes.

O primeiro Slam da pós-pandemia não foi um festival de abandonos, como se previa. Ao contrário, mostrou o notável poder físico do tenista moderno e brindou o espectador da TV ou do streaming com alguns duelos memoráveis, tanto na qualidade dos golpes como no espírito de luta. Também terminou com finalistas imprevistos, uma renovação forçada pela ausência do Big 3, e apesar de não ter sido espetacular a decisão trouxe emoção, entrega no limite e disputa respeitosa.

Eu apostaria que ainda virão mais Slam para Thiem, e ele deve chegar forte em Roland Garros. E Zverev terá novas oportunidades se mantiver esse ritmo, serenidade e motivação.

E mais
– Thiem repete Thomas Muster, campeão de Roland Garros em 1995, como únicos austríacos a ganhar um Slam de simples.
– Ele também igualou Goran Ivanisevic e Andre Agassi, que também perderam três finais antes de ganhar seu primeiro Slam. Andy Murray e Ivan Lendl precisaram de cinco tentativas.
– Aos 23 anos, Zverev foi o mais jovem finalista de Slam desde Novak Djokovic, no US Open de 2010. O último alemão a ganhar um troféu desse quilate foi Boris Becker, no AusOpen de 1996.
– Esta foi a final mais jovem de Slam desde Djokovic-Nadal do AusOpen-2012.
– O troféu masculino fica com um europeu pelo 42º Slam consecutivo, ou seja, desde janeiro de 2010.
– Esta foi a terceira virada de 0-2 na carreira de Thiem, todas em Slam. Zverev, ao contrário, nunca havia perdido um jogo após ganhar os 2 primeiros em 27 anteriores.
– O US Open viu a quarta final consecutiva de Slam que foi ao quinto set.

Thiem se dá mais uma chance
Por José Nilton Dalcim
31 de janeiro de 2020 às 11:11

Físico privilegiado, golpes pesadíssimos misturados com habilidade e cada vez mais experiente, o austríaco Dominic Thiem conquistou com méritos a terceira chance de entrar para a galeria dos campeões de Grand Slam e assim quebrar a longa hegemonia do Big 4.

Desde janeiro de 2004, quando Roger Federer passou a dominar o circuito, apenas cinco jogadores ousaram fazer isso: Gaston Gaudio e Marat Safin, antes de aparecer Rafa Nadal; Juan Martin del Potro, Stan Wawrinka e Marin Cilic na fase de ouro do tênis masculino, já com Novak Djokovic e Andy Murray no auge.

Thiem fez duas finais sucessivas em Roland Garros, mas não teve muita chance. Na primeira, não soube como encarar o todo poderoso Nadal; na outra, foi penalizado pelo calendário do torneio e ficou sem pernas, ainda que tenha vencido um set. Em Melbourne, tirou o espanhol do caminho e já derrotou quatro cabeças de chave em sequência (Taylor Fritz, Gael Monfils, Rafa e Alexander Zverev). Mas ainda terá um último e enorme desafio diante de Djokovic, às 5h30 de domingo.

O histórico entre eles tem peculiaridades: sérvio venceu 6 dos 10, porém perdeu 4 dos últimos 5, incluindo duas batalhas fisica e emocionalmente exigentes, na semi de Roland Garros e na fase de grupos do Finals. Melbourne no entanto é território do sérvio, com vitória em todas as sete finais disputadas até hoje.

Fica patente que o austríaco acertou na contratação de Nicolás Massu quando planejou melhorar seu desempenho no piso duro. No ano passado, ganhou Indian Wells em cima de Federer e decidiu o ATP FInals, onde voltou a ganhar do suíço e superou também Djoko. O que mudou acima de tudo foi uma postura mais ofensiva nas devoluções, além de entrar na quadra para tirar o tempo do adversário. Quando faz isso com seu bombástico forehand e pernas tão fortes , é um tenista difícil de ser batido.

Semifinal nervosa e equilibrada
Na tensa partida contra Zverev desta sexta-feira, é justo dizer que foi tudo decidido nos detalhes, sem um grande domínio de nenhum lado. Thiem não teve a consistência da partida contra Nadal mas achou seus melhores golpes nos momentos certos e outra vez foi soberbo nos tiebreaks, enquanto Zverev veio com uma proposta diferente, com transições muito bem feitas à rede (36 pontos em 51 subidas), além de ficar competitivo até a última bola.

O jogo ficou bom mesmo quando os dois deixaram as trocas longas da base, muitas sem grande objetividade, por um tênis mais agressivo. Claro que isso gerou altos e baixos. Austríaco fez 43 a 42 nos winners e 40 a 33 nos erros. Ambos venceram 33% pontos como recebedores. Dado curioso, Zverev acertou 81% de saques, com média acima de 200 km/h, e chegou a cravar 90% no segundo set que ainda perdeu. Mas não foi o suficiente para ir enfim à primeira final de Slam.

Há no entanto que se destacar o grande torneio de Sascha, principalmente no aspecto emocional. Segurou a cabeça mesmo quando pressionado, evoluiu na parte defensiva e recuperou a confiança no saque, com poucas duplas faltas comprometedoras. Depois de uma ATP Cup tão ruim e histérica dias antes, a perspectiva para o restante do calendário melhorou muito.

Thiem lutará no domingo também por um inédito terceiro lugar no ranking, o que rebaixaria Federer, e tentará repetir Thomas Muster, até hoje único austríaco a faturar um Slam, em Roland Garros de 1995. Curiosamente, Muster foi demitido da equipe às vésperas do Australian Open apenas duas semanas depois de ser contratado.

Thiem sobe mais um degrau
Por José Nilton Dalcim
28 de abril de 2019 às 22:24

O austríaco Dominic Thiem costuma dizer que sua carreira tem sido construída degrau por degrau. E tem bons exemplos. Precisou esperar cinco temporadas para ganhar o primeiro ATP, em 2015; teve de jogar 41 vezes, incluindo qualis, para enfim faturar o primeiro Masters. Fez duas semifinais em Roland Garros antes do vice do ano passado. E por aí vai.

Barcelona é mais um caso. Finalista dois anos atrás para Rafael Nadal, deu a volta por cima neste ano e chegou a um grande título. Talvez seja nisso em que ele aposte para Madri, dentro de duas semanas, onde foi à final nos dois últimos anos, e provavelmente também no Aberto da França.

Mas ao mesmo tempo é um tremendo exagero colocar Thiem entre os melhores saibristas do tênis profissional. Para entrar nessa lista, falta muita coisa, principalmente consistência e sucesso. Alguns números para explicar isso:

– Em termos de eficiência (percentual de vitórias e derrotas), Thiem é apenas o 16º colocado na Era Aberta, com 74,7% de aproveitamento. Até Jimmy Connors tem índice melhor. Nadal está com 91,7% e Borg chegou a 86,4%.

– Agora com nove troféus no piso, é o 35º mais bem sucedido. Entre os em atividade, está distante de Djokovic (13) e atrás de Robredo (11). O líder disparado é Nadal (57).

– Ao atingir 121 vitórias na terra em nível ATP ou superior, Thiem subiu para 138º na Era Profissional, muito atrás de Guga (179, em 59º). Nem mesmo Nadal, com 421, lidera. Estão a sua frente Vilas (679), Orantes (530) e Muster (426).

Discípulo de Muster
Ainda assim, é preciso colocar o discípulo de Thomas Muster – o maior tenista austríaco, canhoto que também batia backhand de uma mão, abusava da potência dos golpes de base e fez história no saibro – entre aqueles que podem dominar o piso já nesta temporada. E com grande chance de ser soberano nas próximas.

Só para lembrar aos mais novos, Muster ganhou 44 títulos na carreira, apenas quatro deles fora do saibro, uma lista que incluiu oito Masters e um Roland Garros. Liderou o ranking por seis semanas em 1996.

A conquista de Barcelona em cima de Daniil Medvedev não causou surpresa, exceto pelo início tenso e irregular. Assim que calibrou o backhand, atropelou o russo vencendo 12 dos 13 últimos games com um arsenal maravilhoso, que foi desde a força bruta até o toque delicado, um padrão sobre o saibro que Guga resgatou duas décadas atrás.

Madri começa dentro de oito dias e gera enorme expectativa, ainda que seja um torneio atípico devido à altitude e eventual teto coberto. O interessante é que irá colocar em duelo direto os bichos papões Nadal e Djokovic e os ousados Thiem, Medvedev e Fabio Fognini. Sem falar, é claro, de Roger Federer, do imprevisível Kei Nishikori e de alguns ‘Next Gen’ potencialmente perigosos. E é bom sempre tomar cuidado com Stan Wawrinka.

O fim de semana
– O tênis italiano continua em alta no saibro. Matteo Berretini, 23 anos e 1,96m, dono de saque poderoso, se juntou a Fognini e Marco Cecchinato entre os campeões de 2019 ao faturar Budapeste.
– Petra Kvitova estreitou drasticamente sua distância para o tão sonhado número 1. O merecido título em Stuttgart, regado a um Porsche Carrera, a deixa 136 pontos atrás de Naomi Osaka. Mas não vai ser fácil. Enquanto a canhota tcheca defende o título na Caixa Mágica, Osaka ganhou apenas uma rodada entre Madri e Roma do ano passado, e então leva significativa vantagem.
– Thiago Monteiro passou o quali de Munique com duas belas vitórias sobre Albert Ramos e Andrey Rublev e vai jogar o quinto ATP da temporada. Estreia duríssima contra Jan-Lennard Struff, aquele que tirou Goffin e Tsitsipas de Barcelona e endureceu contra Nadal.
– Fognini pode enfim chegar ao top 10 com o título no Estoril, mas precisa que Tsitsipas caia até a semifinal. Isso daria o aguardado posto ao campeão de Monte Carlo por meros 15 pontos.