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Djokovic fica ainda maior
Por José Nilton Dalcim
21 de setembro de 2020 às 19:34

Foi uma segunda-feira dos sonhos para Novak Djokovic. No dia em que superou Pete Sampras na quantidade de semanas na liderança do ranking – 287 contra 286… e contando -, ele também recuperou a hegemonia de troféus de nível Masters e estabeleceu 36 a 35 sobre Rafael Nadal. Como resta apenas mais um no calendário, o de Paris, o máximo que pode acontecer é um empate.

Os feitos de Djokovic crescem a cada semana. Com o quarto título da temporada, ele também chega a 81 na carreira e está apenas a quatro de Nadal, o quarto colocado. Ainda há um bom espaço para os 94 de Ivan Lendl, porém não existe qualquer motivo para se descartar uma conta centenária, como as de Jimmy Connors e de Roger Federer.

Roma passou a ser o torneio onde Djoko mais fez finais na carreira, com 10, duas acima do Australian Open e do US Open e a três do Finals de Londres. Entre os grandes títulos, o penta fica perto dos seis de Miami e atrás dos oito de Melbourne. Como também é cinco vezes vencedor em Wimbledon em seis finais, a versatilidade está mais do que comprovada.

Consciente do seu potencial, Nole foi tão preciso quanto seu backhand ao afirmar que não jogou seu melhor tênis nesta semana, mas que jogou seu melhor tênis quando foi preciso. E isso tem um peso a mais quando sabemos que ele chegou a Roma vindo da decepcionante desclassificação no US Open, precisando muito de uma volta por cima.

Agora, na pior das hipóteses, vai dividir o favoritismo de Roland Garros com Rafael Nadal. O espanhol, mesmo tendo mostrado deficiências, não pode ser ‘secundarizado’ em melhores de cinco sets sobre o saibro. Claro que existe ‘o fator Thiem’ na balança, mas vamos deixar esse assunto para quinta-feira, quando sairá o sorteio do Aberto francês.

A partida decisiva desta segunda-feira contra Diego Schwartzman exigiu novamente de Djoko não apenas adaptação às condições estranhas como cabeça fria. De repente, com um festival de erros e um adversário sólido, já estava 3/0 e saque para o argentino. Quando sentou no intervalo, soltou palavras duras para seu time e isso parece tê-lo motivado para soltar o braço na devolução, o que não vinha fazendo. A partir daí a coisa mudou. Ele recuperou terreno, virou para 4/3 e teve alguma sorte ao salvar um break-point no nono game com duas escolhas erradas de El Peque no jogo de quadradinho.

O clima úmido deixou a quadra muito pesada. Se isso obviamente não favoreceu Djokovic, que não fez tanto estrago com o saque e precisou de cautela para os winners e apostar nas curtinhas, também não ajudou um desgastado Schwartzman. Sem falar que o argentino não é dono de golpes continuamente poderosos. Mas ele fez o que pôde. Saiu com quebra no segundo set, ficou na briga, teve mais dois break-points no quinto game e só então se entregou diante de um Djokovic já bem mais confiante.

Acredito que a campanha, inesperada para o momento que vivia, revitalizará o argentino para Roland Garros. Como provável cabeça 12, não terá de cruzar com os quatro favoritos antes das quartas e isso pode lhe dar uma chance real de nova grande campanha e, quem sabe, outras surpresas.

Halep, sem esforço
Depois de duas tentativas frustradas, Simona Halep ergueu seu primeiro troféu no saibro de Roma. Não foi certamente da forma ideal, já que Karolina Pliskova sentiu a coxa e jogou apenas 32 minutos e nove games.

Com o título de Praga na retomada do circuito, a romena levará para Roland Garros a série invicta de 14 jogos, mas não quer colocar mais pressão que a necessária. Ela será a cabeça 1 com a ausência da atual campeã Ashleigh Barty e tenta recuperar a coroa no saibro francês que foi sua em 2018. Eu apostaria minhas fichas nela.

E mais
– Aos 33 anos e quatro meses, Djokovic se tornou o tenista de maior idade a ganhar Roma.
– Este foi seu terceiro troféu seguido de Masters e lhe dá no momento série de 15 vitórias.
– Seu total de troféus de Masters no saibro é agora de 10, com dois em Monte Carlo e três em Madri.
– O sonho do top 10 também não chegou ainda para Schwartzman e a vaga será ocupada por Denis Shapovalov, que passa a ser o quinto na lista abaixo dos 25 anos e o mais jovem de todos, aos 21 e quatro meses.
– Luísa Stefani subiu nove posições com a semi de Roma e avança para o 33º lugar. Estreia em Estrasburgo nesta terça e tenta embalar para Roland Garros.
– Na condição de principal inscrito no quali de Roland Garros, Thiago Wild viveu um dia ruim e perdeu fácil. João Menezes e Gabi Cé estreiam nesta terça e tentam se juntar a Thiago Monteiro nas chaves de simples.

Coração e pernas
Por José Nilton Dalcim
2 de setembro de 2020 às 01:02

Muitos acham uma autêntica crueldade submeter os tenistas de hoje a melhor de cinco sets, ainda mais no clima de Nova York, mas todos sabemos que isso leva o tênis masculino a um outro universo. O que aconteceu nestes dois dias de primeira rodada, no entanto, está para lá de peculiar.

Já foram sete viradas de dois sets atrás, quatro delas nesta terça-feira, com protagonistas do nível de Andy Murray, Marin Cilic e Karen Khachanov. Gigantesco esforço tão cedo num Slam geralmente é sinal de vida curta. Estes no entanto são tempos estranhos.

Por tudo que o envolve nesta nova tentativa de retorno, a luta do escocês foi um pouco mais especial, sem falar que ele ainda estava uma quebra atrás no começo do terceiro set diante do canhoto Yoshihito Nishioka, cheio de más intenções. Ele teve até um match-point, evitado com toda a coragem pelo ex-número 1, ainda no quarto set.

Vamos a um resumo de acordo com a chave:

Thiem não empolga – Principal nome na parte inferior da chave, o austríaco jogou um primeiro set em que forçou tudo, subiu muito à rede mas teve também vários erros não forçados. Ao menos, foram apenas dois sets até Jaume Munar desistir. Pega o indiano Sumit Nagal e pode cruzar Marin Cilic, um dos que virou de 0-2 hoje. Isso pode recuperar sua confiança

No quadrante superior, estão três nomes de peso: Felix Aliassime, que tem favoritismo contra o cansaço de Murray, e o habilidoso Daniel Evans. Nada me surpreenderia, ainda que coloque Evans como maior candidato.

Monteiro e Wild – Apesar da derrota, os brasileiros chamaram a atenção. Monteiro fez um jogo extremamente equilibrado contra Aliassime – cada um marcou exatos 147 pontos – e poderia ter vencido tanto o terceiro como o quarto sets ou até mesmo o jogo. Elogiáveis sua consistência num piso tão veloz, a postura agressiva e a garra, como já havia mostrado na Austrália.

Wild por sua vez demorou demais para se soltar e o estilo tão variado e pouco previsível de Evans não ajuda nada. Mas o paranaense, estreante em Slam, se soltou no terceiro set e fez grandes lances. Destaque para a velocidade das pernas e a clara evolução do jogo de rede.

Bautista x Raonic – Dois grandes destaques do Masters da semana passada, os dois tendem a se cruzar já na terceira rodada e isso pode valer um lugar nas quartas de final mais adiante. Os adversários mais perigosos são Karen Khachanov e Alex de Minaur, além de Richard Gasquet. Porém não me parece que algum deles tenha condições de barrar no momento Raonic ou Bautista em condições normais.

Medvedev inspirado – De volta ao palco em que brilhou tanto em 2019, o russo tem um caminho privilegiado se mantiver o nível desta estreia contra Federico Delbonis. É bem verdade que Grigor Dimitrov deu um belo espetáculo contra Tommy Paul, porém é difícil confiar na sua estabilidade emocional. Seria no entanto um belo nome para desafiar o poder defensivo de Daniil.

Nova geração – Praticamente só há jovens, alguns bem promissores, neste setor da chave. A começar por Andrey Rublev, que vai encarar Gregoire Berrere. Já Casper Ruud protagonizou grande virada e faz interessante duelo nórdico com Emil Ruusuvuori. Quem passar, terá Matteo Berrettini ou Ugo Umbert. E o melhor de tudo: difícil fazer prognósticos, ainda que o italiano tenha a valiosa experiência de uma semi no torneio em 2019.

Velhas heroínas
A rodada feminina viu pouco trabalho para as principais favoritas, com atenção natural sobre Serena Williams, que fez um primeiro set pouco convincente mas não precisou alongar demais sua partida. Embora esteja um tanto distante daquele domínio costumeiro, é de se esperar que ela avance sem sustos até reencontrar Maria Sakkari ou a adolescente Amanda Anisimova.

Tricampeã do torneio e tentando outro retorno ao circuito, Kim Clijsters esteve perto de tirar a cabeça 21 Ekaterina Alexandrova, mas vacilou e depois não suportou o ritmo. Ainda tem jogo, mas faltam pernas. Outra vencedora, Venus Williams fez uma despedida sem brilho, ainda que Karolina Muchova tenha qualidades.

Duas vezes finalista, Victoria Azarenka vem do título no sábado e é a mais embalada das velhas heroínas. Economizou energia para encarar Aryna Sabalenka, o que pode ser o melhor jogo de quinta-feira. Mas vale ficar de olho no promissor encontro das jovens Sofia Kenin e Leylah Fernandez.

Cruel com brasileiros, sorteio pressiona Thiem
Por José Nilton Dalcim
27 de agosto de 2020 às 20:53

O US Open promoveu nesta quinta-feira o sorteio das chaves e não reservou boas notícias para o austríaco Dominic Thiem, elevado à condição de cabeça 2. Ele pegou o pior setor da chave e terá de elevar muito seu nível sobre o novo piso veloz do complexo, onde deu vexame dias atrás.

Não se pode dizer que Novak Djokovic, o grande favorito, terá adversários fracos pela frente, mas é inegável que eles parecem ter sido feitos sob medida. Damir Dzumhur tem versatilidade e dá ótimo ritmo, assim como um possível Kyle Edmund e até mesmo Jan-Lennard Struff, que acabou de levar surra em piso idêntico. Se John Isner chegar até as oitavas, será um tipo diferente e servirá para testar devoluções e paciência.

É difícil acreditar que Denis Shapovalov ou o amigo Filip Krajinovic incomodem Djoko nas quartas e obviamente David Goffin também é candidato a desafiar o número 1, porém todos dependerão de um dia ruim do sérvio para ter chances reais em melhor de cinco sets.

Então a real expectativa seria por um duelo contra Stefanos Tsitsipas na semi. Os dois aliás bem que podem fazer uma prévia na decisão de Cincinnati de sábado. O grego vem jogando um tênis maduro, tem pela frente uma série de jogadores de base – Borna Coric, Dusan Lajovic e Cristian Garin – e seria lógico disputar as quartas contra Alexander Zverev. O alemão no entanto é incógnita e logo de cara pega o experiente Kevin Anderson.

O outro lado da chave ficou interessante. O atual vice Daniil Medvedev só precisa jogar de forma consistente e poupar fôlego na primeira semana. Não há um nome de real perigo até as quartas e ainda assim estaríamos falando de Andrey Rublev, Matteo Berrettini ou Benoit Paire, muito menos confiáveis que o russo em condições normais.

O pior quadrante é mesmo o de Thiem, logo ele que foi um desastre no Masters. Encarar Marin Cilic num piso veloz, a versatilidade de Daniel Evans ou a juventude de Felix Aliassime pode tirar o sono, e ali também aparece Andy Murray. Mas o pior poderá vir nas quartas, tendo como candidatos o reanimado Milos Raonic ou o super competitivo Roberto Bautista, que infelizmente se cruzam já nas oitavas.

É exatamente nesse rico quadrante que caíram Thiago Monteiro e Thiago Wild. O canhoto cearense estreia contra Aliassime em confronto inédito e talvez sua maior chance esteja no fato de o canadense ter saído muito por baixo da derrota amarga no Masters. Não menos complicada é a tarefa de Wild diante do tênis muito habilidoso de Evans, que faz um pouco de tudo em quadra. O britânico no entanto é emocionalmente instável e costuma sair de giro quando as coisas não saem bem. De qualquer forma, foi um sorteio cruel.

Serena tenta de novo
A chave feminina inegavelmente ficou capenga com tantas ausências entre as top 10. Claro que Serena Williams terá holofotes em sua incansável luta pelo 24º troféu de Grand Slam, mas o desempenho de Lexington e do Premier não foi nada animador. Ela tem caminho teoricamente tranquilo até um possível reencontro com Maria Sakkari nas oitavas, ainda que a grega tenha pela frente Amanda Anisimova na rodada anterior.

Serena ficou no lado da cabeça 2 Sofia Kenin, outra que não empolgou nesta semana e ainda tem jogos perigosos, como a juvenil Leylah Fernandez, a versátil Ons Jabeur, a consistente Elise Mertens e nas quartas Johanna Konta ou Aryna Sabalenka. E é bom ficar atento a Victoria Azarenka e a Kim Clijsters, que volta ao torneio depois de oito anos.

A parte superior ficou com tenistas de vasto currículo, como Naomi Osaka, Petra Kvitova, Angelique Kerber e a cabeça 1 Karolina Pliskova. Solta na chave, Cori Gauff sempre é perigosa e Anett Kontaveit tem saque para sonhar em ir longe. As duas estão no quadrante de Osaka e Kvitova.

Neste momento, o quadro do US Open parece ser quem vai enfrentar Djokovic e Osaka na final. Felizmente, o tênis nunca é tão lógico assim.