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Deu a lógica: Nadal fica no saibro, Djoko vai aos EUA
Por José Nilton Dalcim
4 de agosto de 2020 às 20:16

Exatamente como estava previsto, as primeiras listas oficiais de inscritos pós-pandemia para Cincinnati e US Open mantiveram Novak Djokovic e ficaram sem Rafael Nadal. Não é definitivo, mas parece caminhar para a versão final do quadro que veremos nas três semanas de jogo em Flushing Meadows.

Nadal ao menos foi coerente com tudo que vinha dizendo e fazendo. Nunca se mostrou confortável em se arriscar em Nova York, abandonou há semanas os treinos na quadra dura e apostará todas as fichas na conquista do 20º troféu de Grand Slam com a 13ª conquista de Roland Garros.

Claro que os planos do espanhol já sofreram baixas, com o cancelamento de Madri. Não que este saibro veloz seja um bom preparo para Paris, mas Rafa precisará de ritmo de jogo e terá desvantagens óbvias diante de tenistas que estão em atividade há muito mais tempo. Não duvido que Nadal entre em Kitzbuhel, que aliás já pleitea atrasar uma semana e ocupar a vaga de Madri.

Djoko também atendeu às expectativas de momento e manteve-se nas duas listas. O sérvio tem muitas vantagens a considerar: o piso sintético que tanto aprecia e especialmente o fato de já ter contraído o coronavírus e assim, ao menos na teoria, ter chance baixa de reinfecção (ainda não há estudo conclusivo sobre isso, mas tudo indica que a imunização segue ao menos por alguns meses).

Os adversários de Djoko nos dois torneios tendem a ser Dominic Thiem, Daniil Medvedev e Stefanos Tsitsipas, mas observe-se que o russo não jogou uma exibição sequer até agora. E permanecem as dúvidas sobre a presença de Alexander Zverev, Matteo Berrettini e David Goffin, que completariam o quadro de oito cabeças no Masters e consequentemente sairiam adiantados.

Da lista dos top 10, Roger Federer está em recuperação médica e Gael Monfils já havia antecipado desistência. Dos demais 20 primeiros, estão fora Fabio Fognini e Stan Wawrinka. E para os dois torneios, assim como Nick Kyrgios. Já o japonês Kei Nishikori marcará sua volta ao circuito – não joga desde o US Open do ano passado – e Andy Murray ganhou convite para Cincy. A lista do Grand Slam fechou no 127º lugar e os próximos a entrar são exatamente Juan Martin del Potro e Murray.

Feminino oscila
Os torneios femininos de Flushing Meadows têm diferenças importantes na listagem. Simona Halep, Bianca Andreescu e Elina Svitolina só jogarão o US Open, onde a jovem canadense defende o incrível título do ano passado. Mas Bianca não joga desde outubro e só voltou a treinar em março. Halep fez muitas declarações receosas e não me espantaria o recuo.

A grande ausência obviamente é da líder do ranking Ashleigh Barty, por enquanto a única do top 10 fora dos dois torneios. Mais uma vez, todos os olhos ficarão em cima de Serena Williams, que jogará Kentucky na próxima semana e mandou até montar uma quadra idêntica a Flushing Meadows em sua casa para treinar. Karolina Pliskova, Kiki Bertens e Sofia Kenin são concorrentes sérias, mas obviamente questões físicas e de consistência técnica serão enormes incógnitas neste retorno do circuito. Kenin ao menos disputou o WTT na semana passada.

Monteiro e Wild entram
A estreia de Thiago Wild num Grand Slam também foi confirmada e será um bom motivo para os brasileiros torcerem pela realização do torneio sem sustos. Como eliminou o quali, o US Open esticou a lista de inscritos para os 120 melhores do ranking e aí sobrou espaço para o campeão juvenil do torneio de 2018.

Ele fará companhia ao canhoto Thiago Monteiro, que jogará seu terceiro US Open e vinha de atuações animadoras no piso sintético de Melbourne, em janeiro. Monteiro também vai se aventurar no quali de Cincinnati, já que a forte chave do Masters fechou no 45º do mundo.

Marcelo Melo e Bruno Soares têm vaga certa na chave de duplas, já que estão entre os top 30. O US Open será reduzido pela metade, portanto com 64 duplistas, mas provavelmente haverá lugar para Marcelo Demoliner, já que jogadores de simples não poderão usar seu ranking individual para entrar na dupla.

Renovado, Brasil cai mas empolga na Davis
Por José Nilton Dalcim
7 de março de 2020 às 11:06

Derrotas nunca são bom resultado, porém o time brasileiro que se aventurou a cruzar o Pacífico pela segunda vez em 60 dias cumpriu seu dever com louvor e, de forma um tanto inesperada, chegou a ter real chance de derrotar o time B da Austrália.

Antes que alguém relativize isso, frise-se que esse grupo ‘reserva’ ainda tinha seus dois jogadores de simples com ranking bem mais alto que os de Thiago Monteiro e Thiago Wild, sem falar na óbvia adaptação muito superior ao piso sintético coberto escolhido e à torcida a seu lado.

Caso WIld tivesse surpreendido o 43º do mundo na sexta-feira – e ficou bem perto disso, numa atuação espetacular, quando chegou a sacar para a vitória no segundo set -, e o resultado poderia ter sido totalmente diferente. É louvável tanto a disposição física como a postura tática de Wild.

Vindo do saibro de Santiago, onde fora campeão no domingo, ele teve apenas três dias para se adaptar ao penoso fuso horário e à superfície e bolas distintas. Certamente, ele e o capitão Jaime Oncins planejaram um jogo de risco diante de Millman, um adversário de enorme experiência no circuito mas pouco rodado na Davis, e o paranaense cumpriu à risca, jogando dentro da quadra o tempo todo. Comandou os pontos, fez devoluções incríveis, encurralou o australiano com o forehand tão afiado e só falhou mesmo na hora de fechar a partida. Depois obviamente as pernas e a cabeça cansaram e Millman, que é um paredão, se safou.

Monteiro fez um jogo de altos e baixos na sexta-feira, chegou a reagir bem no segundo set mas parou em Jordan Thompson, 63º do mundo e portanto 19 postos à frente do cearense. No sábado, Monteiro também encarou de frente Millman e caiu em três tiebreaks, num jogo disputadíssimo de 3h08, em que se mostrou novamente bem mais à vontade na quadra sintética, como fizera em Auckland e no Australian Open.

Faltou talvez um pouquinho mais de agressividade no segundo set e ainda mais no tiebreak, onde poderia jogar com a grande pressão que estava em cima de Millman. Não vamos esquecer que, em Melbourne, o australiano levou Roger Federer ao quinto set, o mesmo suíço a quem derrotou no US Open de 2018. Ou seja, está longe de ser um adversário qualquer no piso duro.

Por fim, magnífica atuação da dupla feita entre o experiente Marcelo Demoliner e o estreante Felipe Meligeni, que nos deu o único ponto em Adelaide. Quase três horas de intensas emoções e um tênis muito versátil das duas parcerias, que se revezaram nas chances. Vale ressaltar os 17 breaks-points que os brasileiros construíram na partida – não existe na Davis o ‘ponto decisivo’ -, dos quais aproveitaram quatro.

Enquanto Demo foi magnífico no trabalho de rede, com movimentação que várias vezes surpreendeu os australianos, Felipe mostrou personalidade com ótimos golpes da base, lobs inteligentes e frieza na hora de sacar para fechar o jogo. As últimas semanas foram de experiências gigantes e positivas para o sobrinho de Fernando Meligeni, que não duvido amadureceu muito nesse curtíssimo espaço de tempo e pode usar isso agora quando voltará aos challengers.

E como fica o Brasil agora na Davis? Teremos de esperar o sorteio da semana que vem para saber quem enfrentaremos em setembro, entre os 12 países que estão disputando o Zonal 1, tais como Ucrânia, Suíça, África do Sul, Noruega, Portugal e Romênia. O sistema é o mesmo deste fim de semana, ou seja, alternância de sedes e cinco jogos em melhor de três sets e apenas dois dias. Se a sorte ajudar, a vitória recolocará o time de Oncins – renovado e mais experiente – no quali mundial de fevereiro de 2021.

Wild só merece aplausos
Por José Nilton Dalcim
21 de fevereiro de 2020 às 00:54

A expectativa positiva que cerca Thiago Wild só se fez aumentar durante sua passagem pelo saibro lento do Rio Open. Colocado diante de diferentes desafios, o paranaense de 19 anos se saiu muito bem nas duas partidas que fez, deu um pequeno mas animador salto no ranking e reforçou qualidades.

O jogo de estreia contra o espanhol Alejandro Fokina forçou Wild a segurar a cabeça e sustentar um esforço físico tremendo, que tem sido uma de suas dificuldades no circuito. São dois tenistas jovens e impetuosos, que tiveram altos e baixos contínuos no duelo de quase 4 horas, mesclando lances espetaculares com golpes extremamente descalibrados e apressados.

O brasileiro ganhou os primeiros elogios ao ganhar o tiebreak catimbado e empurrar a decisão ao terceiro set, logo depois de salvar três match-points. Naquele momento, parecia entregue, quase desinteressado, e um lance de sorte mudou tudo. O notável no entanto é que jamais deixou de tomar a iniciativa, exibindo o forehand potente que chama a atenção de qualquer um. No longo e disputado terceiro set, jogou com empenho máximo e total controle emocional.

A derrota desta quinta-feira para Borna Coric foi um pecado e o próprio croata admitiu que Wild se mostrou o melhor tenista em quadra. Depois de um primeiro set um tanto passivo, ele mudou tudo, e isso é para quem possui recursos técnicos. Passou a cruzar com firmeza as devoluções e a explorar o saque pelo centro. Ditava os pontos diante do 32º do mundo e teve as maiores oportunidades, incluindo aquele doloroso 0-40 no 11º game, em que os méritos foram do adversário. A se lamentar apenas o começo ruim do tiebreak, que deu 4-0 a Coric. Com coragem, reagiu e empatou, mas a experiência do croata decidiu.

Wild chegou ao Rio sem vitórias na temporada. Sai como o 179º do ranking, o que no mínimo o garante no quali de Roland Garros, já que ele só tem 20 pontos a defender até sair a lista de inscritos do Slam francês. Espera-se que ele receba um convite para Santiago, na próxima semana, e aí seguirá para a missão quase impossível diante da Austrália na Copa Davis. A meu ver, deveria ser escalado como titular de simples ao lado de Thiago Monteiro. Para termos alguma chance na quadra dura de Adelaide, será preciso arriscar. E isso ele sabe fazer muito bem.

O saibro carioca, aliás, também foi importante para outros três garotos: Felipe Meligeni Alves teve a incrível oportunidade de enfrentar Dominic Thiem e não decepcionou, arrancando pontos incríveis e até um impensável set. É bem verdade que Thiem pareceu preocupado com dor repentina no joelho, mas o sobrinho de Fernando Meligeni suportou muito bem o peso das bolas do número 4 do mundo, o que não é pouca coisa para quem ainda está em nível future e challenger.

Orlandinho Luz e Rafael Matos conseguiram também seu lugar ao sol, ao derrubar nada menos que a dupla número 1 do mundo. Ainda que estivesse clara a falta de ritmo de Robert Farah, que voltava da suspensão preventiva, os brasileiros fizeram coisas incríveis em quadra. Note-se que essa parceria já ganhou dois challengers, um deles no mês passado. Perderam nas quartas para Meligeni e Monteiro.

Por falar em Monteiro, ele deixou escapar outra oportunidade de ouro para fazer uma grande semana em nível ATP, como aconteceu em Buenos Aires. A estreia contra Guido Pella no Rio realçou a evidente evolução do canhoto cearense, que de certa forma acabou penalizado por ter de voltar menos de 20 horas depois à quadra e à umidade sufocante, perdendo totalmente a intensidade no terceiro set diante de Atilla Balazs. Na condição de 86º do ranking, segue agora para o ATP de Santiago com uma pequena chance de ser cabeça de chave.