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No tranco
Por José Nilton Dalcim
27 de agosto de 2019 às 01:27

Se alguém ainda tinha dúvidas do quanto pesou para Roger Federer a derrota em Wimbledon, a estreia no US Open respondeu tudo. Assim como aconteceu em Cincinnati, há duas semanas, o suíço se mostrou pouco à vontade, apressado e impaciente. O desastre de 2018, quando caiu numa noite de calor infernal para John Millman, não se repetiu porque o indiano Sumit Nagal não tem experiência nem consistência, e permitiu que pouco a pouco o número 3 do ranking pegasse no tranco.

Os números do primeiro set foram tenebrosos: 19 erros em 10 games, apenas 10 winners com 48% de primeiro saque. Demorou 1 hora para Federer enfim jogar num nível decente para o tamanho de seu jogo, mas ainda assim saiu de quadra com sete duplas faltas e apenas 66% de sucesso nas 50 tentativas junto à rede. Totalizou 61 winners e 57 erros, e isso diante do 190º do mundo que dias antes quase se despediu no quali diante de João Menezes.

Tomara que tenha sido o tal resfriado que se comentou nas mídias sociais – nenhum jornalista em Nova York confirmou até agora, 1h20 da manhã – e que Federer consiga se soltar diante do bem mais rodado Damir Dzumhur.

Novak Djokovic também não fez uma apresentação brilhante. Na verdade, me pareceu que o sérvio claramente jogou com o freio de mão puxado diante de Roberto Carballes, procurando fazer o suficiente para uma vitória sem sustos. E conseguiu. Forçou estritamente quando era necessário, não permitiu um único break-point e ainda aproveitou os bons golpes de base do adversário para buscar ritmo. Aliás, o atual campeão garantiu com todas as letras: não viu quadra mais rápida, nem bola mais leve. Tudo absolutamente igual a 2018, exceto claro (e felizmente) o clima bem mais ameno.

A outra expectativa do dia era o reencontro entre Serena Williams e Maria Sharapova, que já foram símbolo máximo do tênis-força feminino. Porém outra vez a russa se mostrou bem pouco competitiva. Teve lá suas chances de apertar, mas não aproveitou os cinco break-points construídos. O placar de duplo 6/1 talvez tenha sido até cruel demais, porém ratificou que o poder de fogo de Serena continua muito superior. Se servir de consolo, Sharapova cometeu apenas três duplas faltas. Riccardo Piatti vai ter muito trabalho para recolocá-la nos trilhos.

Resumo do dia 1
– Três cabeças deram adeus no masculino: Fognini, Pella e Fritz. O italiano se mostrou desanimado diante do sacador Opelka.
– Boas atuações da nova geração. Vitórias de Medvedev, Coric, Garin, De Minar e Kecmanovic, atuações acima da média de Jannik Sinner (tirou um set de Wawrinka) e Zachary Svajda (16 anos, levando Lorenzi ao 5º set).
– Quatro qualis e dois lucky-losers avançaram, entre eles o polonês Kamil Majchrzak, 23 anos, que tirou Jarry no quinto set.
– Thiago Monteiro fez seis games muito animadores, mas aí teve serviço quebrado e perdeu totalmente o rumo, dominado pelo também canhoto Bradley Klahn.
– Kerber e Garcia foram as primeiras cabeças a se despedir. Pliskova passou apertado em dois tiebreaks contra a quali Martincova e Barty levou 1/6 antes de dominar Diyas.
– Sem muita força no masculino, as norte-americanas se saíram bem. Além de Serena, avançaram Keys, Kenin, Venus, Davis e McNally.
– O resultado mais contundente foi o 6/1 e 6/0 que Sakkari deu em cima de Giorgi, vice no Bronx no sábado.

Destaques
– A postura ofensiva de Madison Keys chama a atenção desde Cincinnati. Na estreia do US Open, totalizou 27 winners, sacou acima dos 190 km com média de 170, ganhou 9 de 12 subidas à rede. Promissor.
– Aos 17 anos, Jannik Sinner é mais uma preciosidade do renovadíssimo tênis italiano. Encarou Wawrinka com personalidade, ganhou apenas 12 pontos a menos na partida e foi mais vezes à rede. Precisa trabalhar um pouco mais o forehand para diminuir os erros não forçados e aumentar a potência do saque, já que mede 1,88m.

Para a história
Ao contrário dos outros Slam, o US Open jamais viu um campeão na Era Profissional que tenha vencido todos os sets disputados. O último a conseguir o feito foi o australiano Neale Frase, em 1960.

Quem segura o Big 3?
Por José Nilton Dalcim
22 de agosto de 2019 às 19:35

Numa disputa todo pessoal pelo recorde de troféus de Grand Slam, Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer conheceram nesta quinta-feira a chave do US Open e não podem reclamar muito. Principalmente o espanhol. Ele viu Federer ficar no mesmo lado de Nole, o que era certamente a maior interrogação do sorteio desta quinta-feira.

Não se pode dizer que a trajetória de Djokovic seja das mais simples, com possível duelo contra Sam Querrey na segunda rodada, Kevin Anderson ou Stan Wawrinka nas oitavas e reencontro com Daniil Medvedev nas quartas. Mas isso está longe de tirar dele o favoritismo ao título. Ao contrário, jogos progressivamente exigentes são um caminho ideal para quem quer entrar fisicamente em alta e muito focado na reta final de um Grand Slam.

Medvedev seria talvez sua maior barreira, já que Anderson não fez qualquer preparativo devido a contusões e Wawrinka não tem se mostrado competitivo. São os dois nomes mais experientes do quadrante, um com título, outro com final no torneio. Vindo de campanha excepcional, o russo precisa tomar cuidado com Taylor Fritz na terceira fase. Fabio Fognini e Nikoloz Basilashvili são candidatos a enfrentá-lo em eventuais oitavas, ainda que o italiano veja estreia muito perigosa diante do gigante Reilly Opelka.

A menos que esteja novamente mal treinado, Federer vislumbra uma chave excepcionalmente boa para confirmar sua vaga na semi, onde Lucas Pouille surge como possível oponente de terceira rodada; David Goffin, de oitavas; e Kei Nishikori, de quartas. O japonês anda com cotovelo comprometido e também deu sorte, já que Cristian Garin, Borna Coric e Milos Raonic não assustam.

A escalada de Nadal promete ser curiosa, com adversários muito distintos entre si. John Millman, aquele que tirou Federer em 2018 fica no fundo; Thanasi Kokkinakis é grande sacador, o canhoto Fernando Verdasco adora um quinto set. Daí podem vir John Isner ou Marin Cilic, que não estão em bom momento. Karen Khachanov se candidata a adversário de quartas e aí sim me parece um homem capaz de dar problemas ao espanhol. No ano passado, foram quatro duríssimos sets.

O único quadrante sem Big 3 também se tornou o mais atraente de todos, até porque não dá para cravar Stefanos Tsitsipas, Dominic Thiem, Roberto Bautista ou Nick Kyrgios como favoritos. O grego aliás pegou uma sequência daquelas: estreia contra Andrey Rublev, pode ter Gilles Simon, depois Kyrgios para então cruzar com Bautista. Mas o espanhol também tem primeiro jogo chato diante de MIkhail Kukushkin. De qualquer forma, me parece que o sobrevivente deste grupo todo estará nas quartas, já que Thiem, Gael Monfils e Felix Aliassime estão num nível inferior no momento.

Equilíbrio no feminino
Na tentativa de defender seu título e o número 1, Naomi Osaka até que não se saiu mal no sorteio: Carla Suárez, Belinda Bencic, Kiki Bertens são as cabeças mais lógicas na sua trajetória. Quem pegou uma chave complexa foi Simona Halep, que provavelmente tenha de passar por Barbora Strycova, Bianca Andreescu, Sloane Stephens ou Petra Kvitova rumo à semi.

Embaixo, há também boa expectativa de equilíbrio. Ash Barty ficou no quadrante de Angelique Kerber e Serena Williams, enquanto Karolina Pliskova foi colocada no setor de Madison Keys e Elina Svitolina, que podem duelar entre si nas oitavas. Mas também está por ali Venus Williams, jamais descartável.

Serena x Sharapova
O destino brincou na chave feminina, ao colocar o duelo de campeãs entre Serena Williams e Maria Sharapova logo de cara. Será o 22º confronto entre elas, com placar de 19-2 para Serena, que não perde desde 2004. Jamais haviam se cruzado em Flushing Meadows.

Grandes jogos
A primeira rodada masculina tem alguns jogos que poderiam ser finais de ATP 250, como Tsitsipas-Rublev, Aliassime-Shapovalov, Berrettini-Gasquet, Kyrgios-Johnson, Struff-Ruud, Klizan-Cilic, Fognini-Opelka, Fucsovics-Basilashvili, Fritz-López, Kohlschreiber-Pouille, Pella-Carreño ou Jarry-Raonic. Estou prevendo muito quinto set.

No feminino, me parecem especialmente interessantes Azarenka-Sabalenka, Potapova-Gauff, Riske-Muguruza, Konta-Kasatkina e Kerber-Mladenovic.

Monteiro e Menezes: esperança
Embora o piso sintético não seja seu habitat natural, o canhoto cearense Thiago Monteiro escapou dos cabeças na primeira rodada e tem chance real diante do atleta da casa Bradley Klahn, de 28 anos e atual 108 do mundo, a quem o brasileiro venceu no ano passado. Se avançar, Monteiro deve reencontrar Nishikori, para quem caiu em Wimbledon.

A excelente notícia foram as duas vitórias de virada de João Menezes em seu primeiro quali de Grand Slam, o que prova mesmo seu momento de ascensão técnica e emocional. A vaga será decidida contra o indiano Sumit Nagal, de 22 anos e 190º do mundo, a quem mineiro já derrotou duas vezes em três sets, mas no saibro. O campeão pan-americano já embolsou US$ 32 mil e somou 16 pontos (serão US$ 58 mil e 35 pontos se entrar na chave). Ele só tem 8 pontos a repetir até o fim do ano.

Bia derruba campeã. E pode mais.
Por José Nilton Dalcim
2 de julho de 2019 às 20:04

Vencer Sloane Stephens na quadra dura foi um grande resultado, superar a experiência da top 20 Samantha Stosur quando ainda embalava no circuito valeu demais. Porém, nada se compara ao que Bia Haddad Maia fez nesta terça-feira num dos grandes estádios de Wimbledon, diante de uma adversária de currículo nobre e apenas dois anos mais velha do que ela própria.

Com controle emocional e fidelidade tática, Bia parou uma campeã de Grand Slam dentro do seu território, onde Muguruza fez final em 2015 e levantou o troféu duas temporadas depois. Encarar adversárias de tamanho gabarito geralmente é um processo. A canhota paulista já pegou Venus WIlliams em Miami, Simona Halep em Wimbledon, Karolina Pliskova e Angelique Kerber em Melbourne. Sofreu derrotas duras, ameaçou outras vezes. Aprendeu sempre.

Há de se salientar ainda que a grama é um desafio para todo mundo, quem dirá então para os sul-americanos. Vale lembrar que Bia conseguiu uma quadra emprestada em São José dos Campos para a difícil preparação. Graças a seu talento, fez ótimas partidas em Ilkley e no quali de Wimbledon, entrando assim na terceira semana de sucesso sobre o piso natural do tênis. Novamente, não é acaso. Desde o ano passado, tenho chamado a atenção para o crescimento do seu tênis sobre a quadra sintética e mais velozes do circuito.

Com o volume de jogo que mostrou, onde se destacam o saque afiado na hora certa e paciência para achar os buracos no lado adversário, Bia entra como favorita diante da britânica Harriet Dart, 22 anos e 182ª do ranking, e assim tem uma chance real de desafiar a número 1 do mundo na terceira rodada, a habilidosa Ashleigh Barty, uma das grandes candidatas ao título. Quem sabe, lá na mágica Quadra Central. Bia merece.

Thiem e Shapovalov engrossam a lista
A dificuldade de adaptação e o currículo de Sam Querrey foram demais para Dominic Thiem, e o vice de Roland Garros passou em branco pela fase de grama. Nenhuma surpresa. Pior mesmo foi a queda em sets diretos de Denis Shapovalov para Ricardas Berankis, que um dia foi revelação e nunca embalou. Mal acabou a primeira rodada e a nova geração não para de decepcionar, embora restem ainda esperanças como Felix Aliassime, Karen Khachanov ou Alex de Minaur.

Roger Federer deu um susto ao perder o primeiro set para o desconhecido Lloyd Harris, e culpou a lentidão da quadra por seu início ruim, sem tempo ideal de bola (ninguém treina na Central). Aos poucos, se achou e aí dominou totalmente. Vai pegar agora Jay Clarke, 20 anos e queridinho local.

Rafa Nadal também preocupou quando permitiu que o baixinho Yuichi Sugita tivesse 0-40 para 0/3. Assim que achou o ritmo, atropelou, mesmo com índice apenas razoável de primeiro saque. Agora, começam seus desafios: o desafeto Nick Kyrgios, que foi tratado do quadril e jogou cinco sets, e provavelmente Jo-Wilfried Tsonga antes de Marin Cilic.

Thiago Monteiro fez um jogo bem decente contra Kei Nishikori e quase arrancou um set, deixando escapar 3-1 no tiebreak. O cearense precisou jogar bem fora de suas características e não decepcionou. Ainda não foi desta vez que voltou ao top 100, mas ficou grudado e provavelmente mais confiante.

Altos e baixos
Bia foi a grande surpresa da rodada feminina, que viu vitórias tranquilas de Barty, Kiki Bertens e Petra Kvitova, um jogo tenebroso de Angie Kerber e uma Serena Williams sofrível. Aos menos, 13 das 16 principais cabeças superaram a rodada de estreia.

Operada do ombro direito em fevereiro, Maria Sharapova disputou apenas seu terceiro jogo desde janeiro. Sacou para o que deveria ser uma vitória tranquila com 5/3, mas não conseguiu. Por fim abandonou quando já perdia por 0/5 no set final para Pauline Parmentier. Deverá continuar no amargo 80º posto do ranking.

Dupla do barulho
Andy Murray achou a parceira perfeita para sua aventura na chave de mistas: nada menos que Serena. Mais uma atração garantida para o torneio. Os campeões olímpicos também venceram Wimbledon na mesma edição de 2016. Serena afirmou que admira demais o escocês e lembrou que ele tem historicamente se mostrado solidário ao esforço de crescimento do tênis feminino.