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Suor olímpico
Por José Nilton Dalcim
25 de julho de 2021 às 13:55

Chegar às medalhas no Ariake Tennis Park vai ser um ato de heroísmo, ao menos a julgar pelas duríssimas condições climáticas a que os tenistas foram expostos nestes dois primeiros dias de ação em Tóquio.

O forte calor do verão local, associado a intensa umidade, transformou o ambiente numa sauna a céu aberto. E aí vêm complicadores: o início das rodadas às 11h, jogos equilibrados e muita gente disputando simples e duplas. Doze dos 32 jogos de primeira rodada masculina foram ao terceiro set. Haja físico.

Parece então crucial que se poupe ao máximo, mas isso é claro depende muito de quem está do outro lado da rede. Novak Djokovic teve uma estreia fácil, mas agora encara o experiente Jan-Lennard Struff e não dá para economizar. O sérvio viu o russo Andrey Rublev dar adeus precoce nas mãos de Kei Nishikori, mas ainda tem Alexander Zverev e Aslan Karatsev no caminho das medalhas.

Tanto Nole como Daniil Medvedev pediram mudança no horário dos jogos, o que seria plenamente possível numa competição sem venda de ingresso. O russo literalmente suou muito para passar por Alexander Bublik, mas a quadra está a seu perfil, muito veloz de dia. Stefanos Tsitsipas viveu altos e baixos e reencontra Frances Tiafoe, em jogo muito perigoso.

Triste mesmo foi a desistência de Andy Murray. O bicampeão olímpico voltou a sentir a parte muscular, decidiu arriscar só na dupla e seu substituto, o australiano Mel Purcell, sacou muito e tirou Felix Aliassime. O escocês faz parceria com o ótimo Joe Salisbury e os dois tiraram na estreia nada menos que Nicolas Mahut/Pierre Herbert. A escolha de Murray parece esperta.

A chave feminina foi chacoalhada pela inesperada queda de Ashleigh Barty logo na estreia. Culpa de seus 55 erros e da firmeza tática de Sara Sorribes, espanhola muito chata de se encarar se você não consegue ser agressiva. Barty continua viva nas duplas.

Mas o grande nome do torneio olímpico é mesmo Naomi Osaka. A dona da casa recebeu a honraria de acender a pira, num momento mágico para o tênis, para o esporte feminino e para quem luta por igualdades sociais, como é justamente o caso dela. Foi reaparecimento em grande estilo, depois das polêmicas de Paris que a tiraram de dois Grand Slam.

E para não dizerem que ela está sendo privilegiada em seu país, vai jogar de novo no primeiro horário. Claro que, se o sol está a pino, o piso também fica um pouco mais veloz e isso combina muito com suas golpes de força.

E o tênis brasileiro deu agradável surpresa, ainda que apenas a dupla feminina tenha passado da estreia. João Menezes esteve incrivelmente perto de uma vitória espetacular sobre Marin Cilic, em que o mineiro jogou melhor nos dois sets e embalou uma reação na série decisiva que ficou a um mísero ponto de ser histórica. Tomara que Menezes use isso como motivação para o segundo semestre.

Thiago Monteiro fez o que pôde diante de Struff, mas enquanto o alemão aproveitou suas chances de quebra o cearense não foi tão feliz, muito é claro em função do saque aplicado do adversário. Já Marcelo Melo e Marcelo Demoliner perderam num jogo de detalhes contra os croatas Mate Pavic e Nikola Mektic, com pecado mortal ao desperdiçar 5-0 no tiebreak do primeiro set. Para uma parceria formada em cima da hora, é justificável.

Por fim, Luísa Stefani e Laura Pigossi fizeram uma exibição de gala diante das canadenses Gabriela Dabrowski e Sharon Fichman. Enquanto Luísa se virava bem na frente, Pigossi devolveu firme e explorou mais a bola em cima de Fichman. O destaque foi o controle emocional das duas, que perderam chances e mantiveram a cabeça no lugar.

A chance de chegar perto das medalhas é ainda pequena. A próxima rodada será diante das tchecas Karolina Pliskova e Marketa Vondrousova, muito mais experientes ainda que não duplistas de ofício. Mas depois podem aparecer Bethanie Mattek-Sands e Jessica Pegula, e o sarrafo vai subir muito. Vale é claro acreditar.

Brasil olímpico sem sorte
Por José Nilton Dalcim
22 de julho de 2021 às 14:46

O sonho de enfim ganhar uma medalha olímpica, qualquer que seja, ficou um pouco mais distante para o tênis brasileiro depois do duro sorteio de chaves realizado na noite desta quarta-feira em Tóquio. E isso inclui até mesmo as duplas.

Thiago Monteiro tem chance de passar pelo instável alemão Jan-Lennard Struff – que já é um ‘trintão’ e perdeu dois de três duelos diante do canhoto cearense -, mas a possibilidade de cruzar então com o favorito Novak Djokovic é enorme. O número 1 terá o frágil Hugo Dellien na estreia.

João Menezes também vai encarar um nome de respeito sobre a quadra dura, o croata Marin Cilic, e ainda que consiga superar a barreira terá logo em seguida o vencedor de Pablo Carreño e Tennys Sandgren.

Ok, não esperávamos mesmo muita coisa na chave de simples. As duplas no entanto também pegaram estreias nada animadoras. Marcelo Melo, de última hora parceiro de Marcelo Demoliner devido à incrível crise de apendicite de Bruno Soares no voo para Tóquio, enfrentarão logo de cara a ‘dupla do ano’ Nikola Mektic e Mate Pavic, que ainda por cima acabaram de ganhar Wimbledon.

Já Luísa Stefani e Laura Pigossi, que entraram de última hora, terão pela frente as especialistas canadenses Gabriela Dabrowski e Sharon Fichman. Ironia do destino, Dabrowski será justamente a nova parceria de Stefani durante a lesão de Hayley Carter, repetindo a parceria que foi à final de Ostrava no ano passado.

Claro que sempre existe um lado positivo e, no caso das duplas, é o fato de que uma vitória desse porte logo de estreia irá dar a confiança necessária para um avanço significativo na chave. As mistas ainda não foram definidas e quem sabe, numa chave de 16 participantes, a oportunidade brasileira apareça.

Chaves de simples
Se existe algo a preocupar Djokovic neste começo de torneio olímpico é o clima muito úmido e quente em Tóquio. Não por acaso, ele destruiu raquete em pleno treino. O sorteio no entanto ajudou e o primeiro cabeça no caminho é Alejandro Davidovich. Então é bem provável vermos Nole lá nas quartas sem muito desgaste e aí pode ter Andrey Rublev. No entanto o cabeça 4 tem estreia perigosíssima diante da estrela local Kei Nishikori.

Alexander Zverev está no segundo quadrante e é o candidato natural à semi, mas o alemão nunca é previsível. Num piso veloz, pode se enrolar logo de cara com Yen-Hsun Lu, sofrer mais adiante contra Lorenzo Sonego e aí pegar Aslam Karatsev ou Hubert Kurkcacz nas quartas, que são dois nomes fortes na quadra dura.

O jogo inicial contra Alexander Bublik tende a ser a partida mais dura de Daniil Medvedev na primeira parte do torneio. Aí poderá encarar Pablo Carreño, Felix Aliassime ou até mesmo o bicampeão Andy Murray, adversário de estreia do garoto canadense. Acredito que Carreño seja o adversário natural, e nada fácil, se Medvedev chegar nas quartas.

Por fim, Stefanos Tsitsipas tentará colocar a cabeça em ordem, o que claramente não anda bem depois do vice em Roland Garros. E o destino resolveu atrapalhar: colocou o veteraníssimo Philipp Kohlschreiber de início e acena para o reencontro com Frances Tiafoe na sequência, o homem que varreu o grego de Wimbledon logo na estreia. A caminhada ainda poderá incluir Ugo Humbert. O outro setor está muito mais fraco, liderado por Diego Schwartzman e Karen Khachanov.

Equilibrada, a chave feminina tem olhos em Naomi Osaka, em sua primeira aparição após o polêmico abandono em Paris e com grande pressão por jogar em casa. Desde já, aguarda-se o duelo entre Osaka e Iga Swiatek lá nas quartas. O outro quadrante desse lado inferior está bem imprevisível: Elina Svitolina, Karolina Pliskova, Maria Sakkari. Jennifer Brady e a não pré-classiicada Ons Jabeur são todas boas alternativas.

A líder Ashleigh Barty carrega também dúvidas, aí em cima de seu quadril. Se estiver bem, o mais provável são ótimos duelos contra as atrações de Roland Garros, primeiro Anastasia Pavlyuchenkova e logo em seguida Barbora Krejcikova. Num piso que ajuda muito seu estilo forçado, Aryna Sabalenka se candidata à outra vaga na semi tendo como principais concorrentes Petra Kvitova e Garbiñe Muguruza.

Fique acordado
A largada do torneio olímpico será às 23h de sexta-feira, percorrendo a madrugada de sábado, e assim deve ser durante toda a competição, já que não estão previstas rodadas noturnas locais. Os organizadores também ignoraram a divisão das chaves e colocaram logo no primeiro dia tanto Djokovic como Medvedev, além de Osaka e todos os brasileiros, em simples e duplas.

Medvedev insiste e resiste
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2021 às 17:44

Jogo de tênis em cinco sets é sempre algo muito especial. Quem está na frente nunca pode entrar no clima do ‘já-ganhou’ por melhor que esteja atuando, quem está atrás  precisa acreditar, insistir, persistir. Daniil Medvedev jamais havia virada uma partida depois de perder os dois primeiros sets, entrou em quadra com o pobre histórico de uma vitória em oito vezes que chegou ao quinto set, porém não desistiu e foi premiado por uma reação completamente inesperada.

Marin Cilic fez dois sets primorosos, surrando a bola, máxima precisão no saque e no forehand, ótimas transições à rede, trocas espertas de direção. Somava então 30 winners e 84% de pontos vencidos com o primeiro saque. Bastou no entanto perder o saque no quinto game do terceiro set para o jogo sofrer mudança radical. Perdeu completamente a confiança, seus golpes morriam na rede, o saque não machucava mais, Medvedev comandava as trocas.

Perdeu quatro serviços consecutivos, um absurdo na grama, e aí é difícil segurar Medvedev.  Quando sacou com 5/0 no quinto set, o russo somava apenas 11 erros não forçados nos três últimos sets e cedido oito pontos quando cravou o primeiro serviço. Deu uma pequena ‘viajada’ na hora de fechar, o público se empolgou, mas o russo acabou com a festa. Não menos surpreendente, Cilic é o quarto tenista que mais ganhou quinto sets na Era Profissional, atrás somente de Djokovic, Federer e Sampras.

Enfrentará na segunda-feira o polonês Hubert Hurkacz, que nunca chegou tão longe num Grand Slam. Ele aliás não perdeu set em Wimbledon até agora, depois de cair nas estreias de Stuttgart e Halle. O campeão de Miami é um tenista de jogo sólido, saque bom e excelente movimentação, que permite buscar sempre uma bola firme de forehand. O duelo é inédito e os nervos podem, pesar.

Primeira meta cumprida
Não fosse o vacilo no final do terceiro set, Roger Federer teria passado com louvor pela terceira rodada de Wimbledon. De qualquer forma, ainda sem mostrar um tênis espetacular, cumpriu seu primeiro objetivo que era entrar na segunda semana, o que faz pela 18ª vez no torneio. Terceiro mais velho a estar nas oitavas de Wimbledon, atrás de Pancho González (41) e Ken Rosewall (40), tem uma chance concreta de dar mais um passo adiante frente ao italiano Lorenzo Sonego. O número 27 jamais havia ganhado jogos em Wimbledon antes deste ano e as únicas oitavas anteriores foram em Paris-2020. Aliás, foi no saibro francês onde cruzou pela única vez com Federer, em 2019, e não deu o menor trabalho.

Mas o suíço ainda mostra buracos no seu jogo. Norrie não é bobo na grama, onde explora bem o fato de ser canhoto, mas está longe de ser uma ameaça. Federer foi bem no primeiro set, escapou de um break-point no segundo e também prevaleceu. Em ambos, sacou bem na hora certa, errou pouco e mal foi à rede. Teve chance de ouro de simplificar o terceiro set, mas foi passivo nos break-points e pagou caro, com um game pavoroso de serviço.

A coisa foi se complicando, o britânico acreditou mais e a torcida veio com ele. Federer quebrou, mas permitiu reação em seguida. O jogo estava enroscado, bolas escapavam, mas enfim o suíço devolveu bem e fechou em seguida. Na ponta do lápis, foi uma atuação mediana, com 48 winners e 33 erros, 74% dos pontos vencidos com o primeiro saque e 30 de 38 lances positivos junto à rede. Ao menos, fica a impressão que dá para fazer bem mais.

Um novo semifinalista
Se apenas Federer já foi à penúltima rodada no seu quadrante, o outro semifinalista da parte inferior da chave será inédito. Na verdade, os quatro sobreviventes sequer chegaram nas quartas de Wimbledon até hoje, três deles ainda podemos chamar de ‘nova geração’. e dois são top 10. Matteo Berrettini está jogando um tênis primoroso, explorando saque, forehand e slices, e terá pela frente a surpresa Illya Ivashka, mero 79º do ranking e que só havia vencido um jogo de Slam na carreira antes desta semana. A melhor vitória do bielorrusso foi diante de Jeremy Chardy.

Alexander Zverev e Felix Aliassime sempre estão devendo algo devido ao enorme potencial e assim têm uma chance incrível neste Wimbledon. O alemão foi ao menos quartas em seus três Slam mais recentes e encarou teste real diante de Taylor Fritz. Mostrou certa frustração até a metade do segundo set. Aí conseguiu empatar e ficou bem mais consistente. Cravou 19 aces e 9 duplas faltas, mantendo o padrão de forçar sempre.

O canadense por sua vez foi dominado por um Nick Kyrgios inesperadamente consistente, mas o australiano passou a sentir o abdômen já no final do primeiro set e não aguentou muito mais. O recorde de Felix contra Zverev é negativo: três derrotas sem ganhar set, tanto no saibro como na dura, incluindo aquela amarga queda na final de Colônia no ano passado quando buscava de novo seu primeiro ATP.

Feminino: força muito jovem
A já experiente Cori Gauff, 17 anos, e a sensação britânica Emma Raducanu, de 18, provocam saborosa renovação na chave feminina de Wimbledon. Sem perder set até agora, Coco até não sacou tão bem, mas superou a eslovena Kaja Juvan com sobras e agora desafia a campeã de 2018 Angelique Kerber, que virou com autoridade contra Aliaksandra Sasnovich. A alemã, de 33, tem quase o dobro da idade.

Raducanu é agora a esperança nacional em simples. Tenista de mais baixo ranking da chave, entrou como convidada e tem mostrado um tênis muito competente sobre a grama, batendo na bola com vontade e precisão. Tirou Sorana Cirstea, que vinha da vitória sobre Vika Azarenka, ergueu a torcida e o momento Cinderela pode seguir contra a australiana Ajla Tomljanovic. Vale conferir a história dessa sorridente tenista no blog do Mário Sérgio Cruz.

Ashleigh Barty se atrapalhou no final do jogo, porém confirmou o amplo favoritismo e agora é a única top 10 no lado de cima da chave. E confirma o aguardado duelo de campeãs de Paris frente à tcheca Barbora Krejicikova, que precisou lutar muito frente à letã Anastasija Sevastova. Quem vencer, terá vantagem natural contra Karolina Muchova ou Paula Badosa, ainda que a tcheca já tenha estado nas quartas de Wimbledon há dois anos.

E mais
– Depois de uma ótima sexta-feira, o tênis brasileiro sofreu três derrotas no fechamento da primeira semana. A mais dolorosa foi a de Soares, que não embalou ao lado de Murray e só ganhou cinco jogos desde a semi do Australian Open.
– Matos e Monteiro deram trabalho aos atuais campeões Cabal/Farah e o gaúcho deve subir para o 83º posto do ranking após seu primeiro Slam.
– Stefani encarou a parceiia Carter, mas ao lado de Demoliner parou na segunda rodada das mistas.
– Federer atingiu a 1.250ª vitória da carreira e agora faltam 24 para igualar Jimmy Connors. Também precisa fazer mais 33 jogos para chegar aos 1.557 do norte-americano.
– Esquentou o clima na coletiva feminina. Tomjlanovic não gostou da postura e declarações de Ostapenko, que em quadra teria dito para a adversária que ‘você foi pior’ e na entrevista afirmou: ‘se jogasse 50%, teria vencido’. A letã tem sido sempre criticada por suposto menosprezo às adversárias.
– No espaço de dois dias, Medvedev e Rublev se tornaram o sexto e o sétimo russos a ter oitavas em todos os Slam. Safin e Kafelnikov foram únicos a chegar a um título.
– Berrettini marcou a 100ª vitória da carreira em 158 tentativas, sendo 21 delas na grama (8 neste ano).
– Esta é a primeira vez que dois canadenses chegam nas oitavas de um mesmo Wimbledon na Era Aberta e a primeira que isso acontece com dois italianos desde 1955.