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A moleza vai acabar
Por José Nilton Dalcim
3 de outubro de 2020 às 19:27

Novak Djokovic perdeu apenas 15 games em três jogos, com direito já a dois ‘pneus’, e com essa facilidade toda chegou neste sábado à 11ª participação consecutiva nas oitavas de final de Roland Garros. Mas a moleza deve acabar. Ainda que seja o favorito natural, na segunda-feira terá pela frente Karen Khachanov, o 16º do ranking que já o derrotou com seu estilo mão de pedra.

O saibro de Paris tem propiciado a Khachanov suas campanhas mais expressivas em Grand Slam. Nunca deixou de estar na quarta rodada em quatro participações e no ano passado fez quartas. Não recua da ideia de sempre forçar o jogo. Diante de Cristian Garin, foram 34 winners e 51 erros, números ainda inferiores à rodada anterior frente a Jiri Vesely, em que fez 65 bolas vencedoras e 42 falhas.

E querem saber? Se sonha barrar o número 1, o caminho é esse mesmo. Claro que não pode dar tanto ponto de graça a um adversário mais consistente e no auge de sua confiança, porém terá de correr riscos, evitar os grandes ralis e tomar cuidado com os ângulos porque joga muito perto da linha e não tem toda essa mobilidade lateral.


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É bem provável que Djoko tenha outro adversário gabaritado nas quartas, caso Pablo Carreño consiga acabar com o sonho dourado do quali alemão Daniel Altmaier, que não perdeu set na semana nem mesmo diante do top 10 Matteo Berrettini. No duelo entre espanhóis que gostam bem mais da quadra dura, Carreño superou Roberto Bautista. E todo mundo deve se lembrar que Carreño iria sacar para o primeiro set no US Open quando houve o lance infeliz de Djokovic.

Segundo conta o site da ATP, Altmaier há um ano nem sabia se iria prosseguir na carreira, sofrendo de problemas crônicos no abdome e lesão no ombro. Dono de backhand de uma mão, foi para os challengers assim que a pandemia permitiu e já soma seis vitórias em Roland Garros, perdendo um único set na fase classificatória. O alemão despontou em 2017, ao chegar em quartas de ATP ainda aos 18, mas a temporada seguinte foi limitada pelos problemas físicos.

Outros dois jogos bem interessantes acontecerão no outro quadrante. Mais dois backhands simples se cruzam com Stefanos Tsitsipas e Grigor Dimitrov, dois que não completaram seus jogos deste sábado por desistência dos adversários. Um duelo de tops 20 que nunca aconteceu e isso reforça a imprevisibilidade. Já Andrey Rublev me parece favorito diante de Marton Fucsovics, ainda que o húngaro tenha vencido os dois confrontos no saibro que já fizeram, porém isso antes de 2018.

Fucsovics colocou fim à campanha de Thiago Monteiro, num jogo que teve um primeiro set muito nervoso e também decisivo. Mesmo tendo quebrado o húngaro por duas vezes seguidas no começo do jogo, o brasileiro também não sustentou seu próprio saque, que vinha tão bem nas partidas anteriores.

No fundo, ele não achou respostas adequadas às variações mais frequentes de Fucsovics, que usou até slice de forehand. Também fez boas transições à rede e dominou os dois sets seguintes com maior autoridade. Monteiro deu mais um passo à frente na sua boa temporada e tentará o último suspiro sobre o saibro europeu no ATP italiano da Sardenha no outro fim de semana.

Uma nova finalista em Roland Garros
A queda das campeãs de 2016 e 2017 neste sábado garante uma finalista inédita na parte inferior da chave feminina de Roland Garros. As únicas entre as oito principais cabeças sobreviventes são Sofia Kenin e Petra Kvitova. Mas as ‘zebras’ andam soltas e melhor não apostar.

Talvez inspirada no namorado Stan Wawrinka, a espanhola Garbiñe Muguruza fez um grande esforço para ser eliminada, e conseguiu o objetivo. Depois de perder o primeiro set para Danielle Collins, vinha com amplo domínio até 4/2 e break-point no terceiro set, sempre agressiva. Aí passou a cometer erros inacreditáveis, perdeu a confiança num passe de mágica e não ganhou mais game.

Collins, que é treinada por Nicolás Almagro e tenta reencontrar aquele tênis que a levou à semi da Austrália no ano passado, enfrenta a tunisiana Ons Jabeur. que tirou Aryna Sabalenka em jogo cheio de alternâncias. Quem passar enfrentará Kenin ou a local Fiona Ferro, que tem predicados. Kenin repete as oitavas do ano passado e Ferro, 49ª do mundo, só tinha uma vitória nas cinco presenças anteriores em Roland Garros.

Kvitova por sua vez conseguiu uma virada espetacular diante da juvenil Leylah Fernandez, que teve 5/1 e set-point. Sem abrir mão da bola forçada, a tcheca reagiu e venceu nove games seguidos. Vem agora o jogo defensivo da chinesa Shuai Zhang e, se passar, terá uma novidade pela frente: a espanhola Paula Badosa ou a alemã Laura Siegemund, que tiveram vitórias sobre favoritas. Badosa apostou na regularidade, fez 10 erros e viu Jelena Ostapenko falhar 43 vezes. Já Siegemund tem 32 anos e chega à maior campanha em Slam depois de virar em cima da croata Petra Martic.

E mais
– O garoto Hugo Gaston tenta se tornar o tenista de mais baixo ranking a cbegar nas quartas de Roland Garros. Mas o 239º colocado terá diante de si Dominic Thiem. que tenta a quinta presença seguida nas quartas.
– Façanha semelhante aguarda Sebastian Korda, 213º colocado, que não esconde ser fã do seu adversário, Rafa Nadal. O último norte-americano nas oitavas de Paris foi Agassi, em 2003.
– A tarefa também é dura para os italianos Jannik Sinner e Lorenzo Sonego. O primeiro enfrenta Alexander Zverev, o outro cruzará Diego Schwartzman, ambos duelos inéditos.
– Gaston, Korda, Sinner e Altman jogam seu primeiro Roland Garros, igualando 1994, última vez que quatro debutantes foram tão longe no torneio. O último a fazer quartas foi Nadal, em 2005.
– Nadal aliás joga sua 98ª partida em Roland Garros (96-2) e busca a 996ª vitória da carreira, das quais 441 foram no saibro e 278 em Grand Slam.
– Simona Halep é favorita para repetir vitória sobre Iga Switek do ano passado, mas Elina Svitolina perdeu três dos quatro duelos diante de Caroline Garcia. Vem muita tensão por aí. Jogos acontecem protegidos pelo teto retrátil.
– Bruno Soares e Luísa Stefani voltam à quadra para buscar quartas de final nas chaves de duplas.

Stan vive dia de Stan
Por José Nilton Dalcim
2 de outubro de 2020 às 18:02

Um primeiro set fulminante diante de um garoto francês que nunca havia vencido em nível ATP até segunda-feira. Parecia que Stan Wawrinka teria poucos problemas para garantir o bombástico encontro com Dominic Thiem nas oitavas de final de Roland Garros. Mas Hugo Gaston, de 20 anos e 1,72m, tinha suas armas. Canhoto de boas pernas, usou bem o saibro pesado, encheu o poderoso adversário de curtinhas e mexeu com a cabeça do campeão de 2015.

Não se pode de forma alguma diminuir os méritos do último e certamente menos cotado francês vivo na chave, mas o fato é que Wawrinka viveu aqueles seus dias. Acima de tudo, pecou por insistentes escolhas mal feitas de jogada. Depois, parecia irritado com a quadra pesada e, mesmo tendo empurrado o jogo ao quinto set, estava cada vez mais lento. Não teve o menor poder de reação e levou um ‘pneu’ do 239º do mundo, que foi às lágrimas.

Quem ficou aliviado foi Thiem. Claro que nunca se deve menosprezar qualquer oponente, mas diante do quadro difícil pela frente é muito menos complicado enfrentar um jogador de pouquíssima experiência. Outra vez, o austríaco começou em velocidade de cruzeiro e viu o competente Casper Ruud abrir 3/1. Nenhum tenista gosta de entrar em quadra tão cedo – 11h locais -, o que muda muito a rotina, e sinto que possa ter sido outra vez o caso dele. Quando se sentiu mais à vontade, dominou.

E olha que Diego Schwartzman também deu um susto, não conseguiu segurar a pancadaria desenfreada de Norbert Gombos e viu o eslovaco sacar para o primeiro set. Conseguiu reagir, levou ao tiebreak e só então tomou rédeas da situação. Seu adversário será o italilano Lorenzo Sonego, uma considerável surpresa, nem tanto pelo estilo porém pela cabeça frágil. Ele no entanto venceu dois tiebreaks de Taylor Fritz, um deles de 19-17, e mereceu.

Passeio de Nadal, firmeza de Zverev
Três jogos e apenas 19 games perdidos é a sossegada contabilidade de Rafael Nadal nesta primeira semana. O italiano Stefano Travaglia nem joga mal no saibro mas, como acontece com todo jogador que enfrenta o terror dos efeitos do canhoto espanhol pela primeira vez, não achou jamais um jeito de devolver com qualidade e dar real trabalho. Gostei de ver Rafa bem mais agressivo que nos jogos anteriores.

Seu adversário de domingo será o norte-americano Sebastian Korda, também sem currículo expressivo, que veio do quali, tirou John Isner e atropelou o especialista espanhol Pedro Martinez. Duvido que o filho de Petr Korda roube set de Nadal.

Muito promissor será o duelo entre Alexander Zverev e Jannik Sinner, aí sim dois jogadores que podem competir melhor com o multicampeão. Sascha aparentemente segue bem a cartilha de David Ferrer. Mostrou-se muito sólido mas também oportuno na variação diante do bom Marco Cecchinato. E Sinner, o italiano de 19 anos, segue fora dos holofotes sem perder um único set. Os dois nunca se enfrentaram, o que dá mais tempero.

Doce vingança
Mais uma grande atuação de Simona Halep. Desta vez, atropelou a mesma Amanda Anisimova que a havia surpreendido nas quartas do ano passado, quando buscava o bi em Paris. A romena não deu brechas e obrigou a jovem norte-americana a arriscar, resultando num caminhão de 30 erros, mais de dois por game.

Encara agora a também jovem Iga Swiatek, porém a polonesa de 19 anos e 53ª do ranking já tem estrada. Tenta atingir as oitavas pelo segundo ano consecutivo, em janeiro esteve na quarta rodada do Australian Open e há poucas semanas ganhou dois jogos em Flushing Meadows. Quem vencer, terá pela frente Kiki Bertens, que não sentiu sequelas da maratona contra Sara Errani, ou a surpresa Martina Trevisan.

Elina Svitolina fez outra boa partida e não vê mais cabeças nas duas próximas rodadas. Caroline Garcia, dona de recursos, tremeu de forma irritante antes de vencer outro jogo na Chatrier. Já Nadia Podoroska, de 23 anos, recoloca o tênis feminino argentino nas oitavas, o que não acontecia desde Gisele Dulko em 2011. Venceu já seis jogos, incluindo o quali, e tem chance diante da tcheca Barbora Krejcikova.

Aliás, são três fora do top 100 garantidas nas oitavas: Trevisan (159), Podoroska (131) e Krejcikova (114), com as duas primeiras tendo saído do quali. Krejcikova dedicou a vitória à falecida Jana Novotna, que faria aniversário hoje.

E mais
– Soares e Pavic ganharam a segunda partida e estão nas oitavas de duplas. Agora vêm os sempre perigosos Jean Rojer e Horia Tecau. A chave prevê cruzamento na semi contra os cabeça 1 Cabal/Farah.
– Stefani e Carter também avançaram e irão reencontrar a mesma parceria japonesa que ganharam no US Open, Ayoama/Shibahara. O perigo maior está nas eventuais quartas contra as cabeças 1 Hsieh/Strycova.
– Djokovic tenta a 11ª presença seguida em oitavas de Paris, o que igualaria o recorde atual de Nadal e Federer.
– Bautista e Carreño já fizeram semi de Slam, mas longe do saibro: um em Wimbledon, o outro no US Open.
– Garin pode ser primeiro chileno na quarta rodada de um Slam desde Fernando Gonzalez no AusOpen-2010.
– Dimitrov tenta pela quinta vez chegar enfim nas oitavas de Roland Garros.
– Monteiro perdeu o único duelo para Fucsovics, no saibro de Munique, no ano passado, mas foram três duros sets: 6/7 6/4 6/3.
– Há mais duas meninas fora do top 100 na rodada deste sábado: Irina Bara (142) e Clara Burel (415).
– Kvitova, 11º, e Fernandez, 100º, fazem pouco comum duelo de canhotas em Roland Garros.

Invicto, Monteiro tenta nova façanha
Por José Nilton Dalcim
1 de outubro de 2020 às 17:20

Seis sets vencidos e nenhum perdido num Grand Slam tão difícil e sob condições diferenciadas são nova demonstração que Thiago Monteiro vive uma temporada de evidente progresso técnico. Depois de tirar o 33 do mundo, o canhoto cearense teve uma atuação muito semelhante diante de Marcos Giron, ou seja, um primeiro set apertado e vencido no detalhe e depois domínio gradativo do jogo até um terceiro set absoluto.

Ou seja, ‘Ceará’ está não apenas com físico em dia, mas também confiante e focado. E o primeiro saque tem feito diferença. Chegou a acertar 83% no set inicial e terminou com média de ótimos 79%, acima dos já bons 68% da estreia. O forehand agressivo permite que busque a definição e já soma 62 winners no torneio.

Caso consiga superar o húngaro Marton Fucsovics, aquele que tirou Daniil Medvedev na estreia jogando muito bem, Thiago será o primeiro brasileiro nas oitavas de um Grand Slam em exatos 10 anos, ou seja, desde Thomaz Bellucci em Roland Garros de 2010. Mas não devemos esperar facilidade.

Dois anos mais velho, Fucsovics chegou a 31 do mundo no ano passado e disputou duas vezes as oitavas do Australian Open, além de ter ido à terceira do recente US Open. É bem versátil. Campeão juvenil de Wimbledon – e depois número 1 da categoria – somou títulos de challenger no saibro antes de ganhar também na terra seu único ATP até agora, em Genebra-2018. Além de Medvedev, bateu Stan Wawrinka e Grigor Dimitrov, quando ambos eram top 3, e também já venceu Berrettini, Goffin, Khachanov, Shapovalov e Fognini.

A vitória no sábado pode levar Monteiro a seu melhor ranking da carreira, bem perto do 65º posto. Com o descongelamento gradual do ranking a partir de janeiro, é garantia de disputar todos os grandes torneios pelo menos até o final de março.

Financeiramente, também ajudará. Thiago já garantiu o prêmio bruto de 126 mil euros, que poderá ser de 189 mil com a vaga nas oitavas. Mas é bom lembrar que a retenção na fonte na França nunca é inferior a 30% e que o treinador ainda pega outros 10%. De qualquer forma, nada desprezível.

Quem vencer, enfrentará nas oitavas Andrey Rublev ou Kevin Anderson, de estilos e experiências completamente distintas. O garoto russo, que faturou em Hamburgo seu terceiro troféu do ano, já disputou nove sets e se mostrou irritadiço na vitória sobre Alejandro Fokina. O grandão sul-africano é um jogador sempre agradável de se ver. Tirou seguidamente os sérvios Laslo Djere e Dusan Lajovic e tentará chegar pela quinta vez nas oitavas de Paris.

A quinta em poucas palavras
– Como se esperava, Novak Djokovic passeou de novo e chegou ao histórico 70º triunfo em Roland Garros. Agora, só ele e Federer possuem ao menos 70 vitórias em cada Slam. Em sua semana de nível challenger, encara agora o colombiano Daniel Galan, que perdeu no quali e entrou de ‘lucky-loser’.
– As oitavas prometem ser bem mais trabalhosas, seja Cristian Garin ou Karen Khachanov. Agora são cinco sul-americanos na 3ª fase, somando-se Schwartzman e Coria.
– Bautista e Carreño farão imprevisível duelo espanhol, o nono no total. São 4 vitórias para cada lado e 1 a 1 no saibro. O sobrevivente deve enfrentar Berrettini, que viu Struff ser surpreendido pelo quali Altmaier, que não tem nada de excepcional.
– Tsitsipas se recuperou bem e atropelou um irreconhecível Cuevas. Tem ótima chance contra Bedene e aguarda Dimitrov ou Carballes. O espanhol venceu jogo maluco de 5h contra Shapovalov, que não soube vencer tendo sacado duas vezes para a vitória. Mereceu ser eliminado.
– E Ostapenko atropelou a cabeça 2 Pliskova, com placar de 27 a 9 nos winners! Encara a espanhola Badosa, que tirou a instável Stephens.
– Tudo indica que a letã cruzará com Kvitova nas quartas. A canhota está se virando no piso lento, mas tem de tomar cuidado com a leve e defensiva Leylah Fernandez, de 17 anos.
– Kenin não vê cabeças a sua frente nas duas próximas rodadas, mas não anda jogando bem. Cuidado com a local Fiona Ferro.
– Depois do sofrimento de estreia, Muguruza resolveu rápido contra a irmã gêmea Pliskova, deve passar por Collins e cruzar com Sabalenko ou Jabeur. Continuo achando a campeã de 2016 como a mais cotada para estar na final.
– Thiem-Ruud é a melhor promessa da sexta-feira, seguida por Zverev-Cecchinato. Nadal pega o cansado Travaglia e é aposta certa, assim como Schwartzman, Wawrinka e Sinner.
– Halep enfrenta a mesma Anisimova que a tirou das quartas em 2019 e Svitolina joga contra Alexandrova pela primeira vez.