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Djokovic abraça a sorte
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2022 às 18:49

Sorte raramente é um fator decisivo num jogo de tênis, ainda mais em nível profissional, mas não há dúvida que o acaso pode dar uma grande ajuda. Quem duvida, basta assistir ao que aconteceu na estreia de Novak Djokovic no caseiro ATP de Belgrado nesta terça-feira.

O número 1 do mundo estava outra vez muito aquém de sua capacidade. Não se achava de jeito nenhum. Lento, impreciso, outra vez muito defensivo, largou diversas vezes o ponto. Pouca coisa funcionava, entre elas o saque. Laslo Djere, um autêntico saibrista, tirava proveito de tudo, incluindo devoluções ofensivas.

A situação estava tão estranha que Djere chegou a ter 6/2, 4/3 e 40-15. Teve então um forehand extremamente fácil, bola lenta, alta, pertinho da rede e o adversário lá do outro lado, indefeso. E ele errou, para alegria do público. Perdeu mais três pontos, permitiu o empate e isso despertou Djokovic.

Mesmo sem ainda mostrar um tênis de real grandeza, Nole começou a acreditar. Mexeu-se melhor, passou a chegar em bolas bem difíceis, enfim comandou alguns pontos e conseguiu levar para o terceiro set. É bem verdade que chegou a dar um segundo saque a incríveis 104 km/h nesse tiebreak.

Achou pouco? Então saiba que tudo se repetiu no finzinho da partida. O terceiro set, mais bem jogado pelos dois jogadores, viu oportunidades para os dois lados. Se Djoko já estava num nível muito superior principalmente de confiança, Djere conseguia arrancar winners notáveis sob pressão. Tudo acabou em novo tiebreak. Djere saiu atrás, mas reagiu e quebrou no sétimo ponto, tendo 4-3, fatídicos 4-3, e ainda por cima com direito a dois serviços.

Saque agressivo cruzado e a bola sobrou de novo, tão fácil, alta e lenta, e o forehand na quadra vazia ficou no meio da rede! Claro que daí em diante Djere passou a errar tudo e Djokovic suspirou aliviado, depois de 3h24 de muito esforço.

Se jogar outra vez nesse padrão tão abaixo de seu potencial, será difícil para Nole superar o garotão Miomir Kecmanovic, mesmo que outra vez o público esteja totalmente do seu lado. Evidente que existirá um grande peso sobre Kecmanovic por reencontrar na mesma Belgrado o grande ídolo nacional e pessoal. Ele aliás foi um dos que insistentemente apoiou Djokovic no caso Australian Open, a quem dedicou cada vitória.

Quem sabe, a sorte esteja mesmo desta vez do lado de Djokovic.

Monteiro se acha no saibro sérvio
O tênis é mesmo um esporte maluco. Thiago Monteiro não conseguiu se soltar nos primeiros torneios de saibro que jogou na Europa, mesmo atuando em nível challenger, e chegou às pressas em Belgrado. Perdeu na semi de Madri no sábado, só pôde viajar no dia seguinte para a Sérvia e entrou em quadra poucas horas depois de desembarcar. Aí furou o quali com duas vitórias difíceis em três sets e obteve vaga para seu oitavo ATP da temporada.

E aí, superando todo o cansaço, mudança de clima e de fuso, ele engatou mais duas vitórias na chave principal, com direito a grande atuação nesta quarta-feira diante do cabeça 8 e também local Filip Krajinovic. 45º do ranking, que se viu perdido no piso lento e não escondeu suas frustrações.

O canhoto cearense está assim nas quartas de final de ATP pela terceira vez neste ano, repetindo Adelaide e Santiago. E poderá enfim voltar ao top 100 caso consiga derrotar o russo Karen Khachanov, ex-top 10 que agora é 26º do mundo. Só que os organizadores não quiseram colaborar com o brasileiro e o colocaram para jogar pelo quinto dia consecutivo no torneio – e o sétimo se considerarmos as duas rodadas de Madri.

A única justificativa é que Djoko também jogará nesta quinta contra Kecmanovic – entram às 11h de Brasília, exatamente antes de Monteiro – e como todos estão no lado superior da chave haveria maior equilíbrio. São jogos na verdade adiantados das quartas, já que normalmente a quinta-feira deveria ter apenas o complemento das oitavas. Enfim, vamos para o jogo, que será na gelada noite sérvia, o que não é bom para o estilo forçado e de bolas retas de Khachanov.

Confusão à vista
O All England Club, proprietário e organizador de Wimbledon, reafirmou que irá vetar a inscrição de tenistas russos e bielorrussos. Isso retiraria da chave os tops 10 Daniil Medvedev, Andrey Rublev e Aryna Sabalenka. Como era de se esperar, ATP e WTA reagiram imediatamente e protestaram contra a medida, tomada de forma unilateral, ou seja, sem consulta às duas entidades ou à Federação Internacional, a quem os Grand Slam são subordinados.

Há cheiro de confusão das grandes no ar. Wimbledon já viveu o maior boicote da história do tênis em 1973, quando a ITF impediu que Nikki Pilic disputasse o torneio por ele não ter jogado a Copa Davis e isso gerou a retirada de 81 jogadores da chave.

Louvável derrota
Por José Nilton Dalcim
5 de março de 2022 às 20:21

A entrada de última hora de Alexander Zverev no já forte time alemão reduziu a chance brasileira de chegar pela primeira vez à fase final da Copa Davis, mas a derrota não foi amarga. Longe disso. Todos os brasileiros que entraram no saibro do Parque Olímpico mostraram tênis competitivo e muita garra. Não fosse a distância técnica tão grande para o número 3 do mundo, poderíamos até ter vencido.

Zverev nem jogou tão bem, mas sua vasta experiência em grandes torneios e principalmente o poderoso saque acabam criando um considerável abismo. Na sexta-feira, Thiago Wild encarou bem as trocas, apesar de ter insistido demais em cruzar o backhand, e suas chances esbarraram quase sempre no serviço do alemão. A devolução ainda é um dos pontos que o paranaense pode melhorar muito.

Já no sábado, Thiago Monteiro não se achou no primeiro set e mostrou certa precipitação para trocar direções, mas depois fez uma segunda parcial muito decente. Seus golpes ficaram consistentes e isso induziu Zverev a erros. Faltou aquela profundidade de bola que Monteiro mostrou contra Matteo Berrettini. Ainda assim, chegou a ter set-point.

O canhoto cearense continua com grande volume de jogo e obteve uma de suas melhores vitórias da carreira sobre Jan-Lennard Struff. Estava sob pressão do empate e viu um adversário muito agressivo a partir do segundo set. A parada de poucos minutos colocou sua cabeça no lugar e ele voltou para a série decisiva com aplicação e precisão. Colocou Struff para correr e usou muito bem o forehand.

Como eram esperadas as duas vitórias de Zverev, a dupla teve aquele enorme peso. Não se pode reclamar da atuação da parceria Bruno Soares e Felipe Meligeni. O mineiro talvez pudesse ter acertado duas ou três devoluções que fariam diferença. Meligeni por seu lado se mostrou uma aposta acertadíssima do capitão Jaime Oncins e foi o melhor jogador em quadra. A mescla com a experiência de Soares deu muito certo.

Perdemos, é verdade, porém numa questão de detalhes num terceiro set bem apertado e num jogo de apenas dois break-points convertidos, um para cada lado. Tim Puetz e Kevin Krawietz são dois excelentes duplistas, marcaram a quinta vitória lado a lado e nunca perderam na Davis (oito para Puetz e sete para Krawietz).

Pena que nunca saberemos como teria sido um quinto jogo entre Wild e Struff. O fato é que caímos de cabeça erguida e que isso sirva de grande motivação para todos os envolvidos. Como sempre, haverá quem diga que o tênis brasileiro não tem nível para estar entre os 16 finalistas, mas eu garanto que este grupo não é jamais inferior a Suécia ou Coreia, que se classificaram. Sorte faz parte do jogo.

Voltaremos a jogar em setembro pelo Grupo Mundial I, o que significa que precisamos ganhar para ter outra chance no qualificatório de 2023. É preciso ainda esperar o fim da repescagem deste fim de semana e o novo ranking, na segunda-feira, para sabermos os possíveis adversários. Isso é decidido em sorteio, assim como quem será o mandante.

Várias potências superaram a rodada deste final de semana e estão garantidas na fase final da Davis, a de grupos, em setembro: Alemanha, Espanha, França, Itália, EUA, Austrália e Argentina. Também jogarão Holanda, Cazaquistão, Bélgica, além das já citadas Coreia e Suécia. Esses países se juntam a Croácia, vice de 2021, e às convidadas Sérvia e Grã-Bretanha. A Rússia, atual campeã, está provisoriamente vetada por conta da invasão à Ucrânia e seu lugar será definido até lá.

As chances de surpreender a Alemanha de novo
Por José Nilton Dalcim
3 de março de 2022 às 21:25

A situação é um tanto semelhante à de 1992, quando também escolhemos o saibro do Rio de Janeiro em meio ao duro verão para encarar um time de largo histórico na Copa Davis e que alinhava um jogador de alto nível, então Boris Becker. O time nacional não era espetacular, mas contava com o experiente Luiz Mattar, o ascendente Jaime Oncins e a dupla confiável de Cássio Motta e Fernando Roese.

Nesta sexta e sábado, voltamos a encarar o favoritismo dos alemães com time que conta com Thiago Monteiro em boa fase e um talento como Thiago Wild para encarar o número 3 do mundo Alexander Zverev e o instável Jan-Lennard Struff. Há também algumas importantes diferenças. Em que pesem os currículos desiguais, Sascha joga muito melhor no saibro do que Becker. E não existem mais os cinco sets, que poderiam ‘fritar’ a cabeça adversária como Nico fez com Becker a ponto de o fazer desistir do dia de jogos decisivos.

Temos chance? Com certeza. Será difícil obviamente ganhar de Zverev e para isso precisaremos contar com um apuro tático excepcional e um dia não muito inspirado do alemão. Diante do excepcional sacador e sem ter devolução de grande eficiência, Wild primeiro e depois Monteiro terão como meta essencial evitar quebras porque a recuperação tenderá a ser bem difícil. Há um buraco a explorar ali no lado direito, especialmente se colocarem Zverev em movimento. E, é claro, chamar Sascha para a frente.

Mas a chave está mesmo em Monteiro ganhar do Struff no segundo jogo desta sexta-feira. Os dois se conhecem e o canhoto cearense ganhou dois dos três duelos sobre o saibro. Ex-top 30, Struff está num momento ruim. Só venceu um de seus seis jogos nesta temporada, fez uma única semifinal de ATP nos últimos oito meses mas não pode ser nem de longe menosprezado. Em Roland Garros do ano passado, como exemplo, bateu Carlos Alcaraz em sets diretos.

Se conseguirmos chegar empatados no domingo, a dupla será fundamental e aí fica a maior dúvida. O capitão Jaime Oncins ousou, substituiu Marcelo Melo por Felipe Meligeni, que vem do título em Santiago ao lado de Rafael Matos, e aí será preciso ver qual o entrosamento que será obtido com Bruno Soares, o vice do Rio Open 12 dias atrás. Por enquanto, a Alemanha escalou os especialistas Tim Puetz e Kevin Krawietz, mas não ficarei surpreso se Zverev entrar de última hora.

Torcida não ganha jogo, mas será bem legal ver o Parque Olímpico cheio para motivar da forma correta o Brasil. A vitória vale um lugar de muito prestígio – e ótima premiação – na fase de grupos da Final da Davis, em setembro, quando provavelmente os confrontos serão sobre piso sintético coberto.

Nos demais 11 classificatórios deste fim de semana, espera-se vitórias sem sustos de França sobre Equador, Espanha contra Romênia, EUA frente a Colômbia, Argentina contra os tchecos e Austrália sobre os húngaros. Emoções maiores podem pintar nos duelos Finlândia-Bélgica, Holanda-Canadá, Eslováquia-Itália e Noruega-Cazaquistão. Sem grandes estrelas, Suécia joga em casa contra o Japão e a Coreia encara a Áustria.