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Força e jeito
Por José Nilton Dalcim
1 de setembro de 2019 às 00:58

Gael Monfils e Andrey Rublev fizeram valer o ingresso da rodada noturna do US Open. O experiente francês, que já fez semi em Nova York, realizou certamente o melhor jogo do torneio até aqui – e um dos mais empolgantes da temporada -, utilizando seu vasto arsenal de golpes e absurdo atleticismo, enquanto o russo marcou a exibição mais animadora entre os representantes da nova geração ao barrar Nick Kyrgios com artilharia pesada.

Aconteceu de tudo entre Monfils e Shapovalov, especialmente porque o canhoto canadense conseguiu dosar a contento a força de seus golpes, o que o tornou muito competitivo. Poderia ter feito 2 sets a 0 quando sacou com 5/4 e esse talvez tenha sido seu erro fatal. Monfils é um tenista espetacular, tanto pela habilidade como pelo empenho, e isso mexe com o público. Parecia ter liquidado a fatura quando abriu 4/1 com duas quebras no quarto set, mas que nada. Shapovalov lutou heroicamente, levou ao tiebreak, salvou match-point e brindou a todos com mais uma série. O francês por fim prevaleceu com quase todos os games disputados no limite. Espetáculo.

Rublev, que já havia deixado pelo caminho Stefanos Tsitsipas em estreia inspirada, foi impecável na determinação de esmurrar a bola o tempo todo, sem dar a menor atenção para o falatório do australiano. Mesmo batendo tão pesado, cometeu apenas 14 erros não forçados. Destaque ainda aos 80% de pontos feitos com o serviço e a frieza com que jogou os dois tiebreaks, especialmente o segundo em que viu Kyrgios abrir 4-0 e saque. O russo desta noite lembrou muito aquele que não deixou Roger Federer respirar em Cincinnati.

O mais interessante é que Monfils e Rublev têm grande chance de se cruzar nas quartas de final. O francês leva favoritismo natural contra Pablo Andujar, que alcança seu melhor resultado de Grand Slam aos 33 anos, ajudado por uma chave muito propícia. Rublev encara o italiano Matteo Berrettini, que tem um tênis variado e ofensivo, mas deixa o emocional interferir muitas vezes.

O sábado teve ainda a confortável vitória de Rafael Nadal sobre o sul-coreano Hyeon Chung, numa partida em que o espanhol foi muito sólido no saque e nas trocas de bola, aproveitando os espaços abertos para contragolpes magistrais. Reencontrará o croata Marin Cilic, estilo completamente oposto ao de Chung. Sacador que prefere a base, mas perdeu 6 dos 8 duelos contra o espanhol. Cilic não chegou bem ao US Open e teve certa dose de sorte ao ver John Isner jogar fora um tiebreak que parecia na mão e lhe daria 2 sets a 1.

O show de Osaka
Embora tenha feito algumas jogadas espetaculares, estava evidente o clima de tensão em cima de Naomi Osaka no duelo diante da menina Coco Gauff, maciçamente apoiada pela torcida. O jogo teve um festival de break-points e quebras, mas deu a lógica e a número 1 perdeu apenas três games.

Osaka imediatamente se sensibilizou ao perceber que Coco caía em lágrimas e teve atitudes magníficas. Trocou palavras carinhosas e pediu para que a adversária participasse da entrevista em quadra, reforçando elogios e o discurso de incentivo. A japonesa quase não segurou a própria emoção ao se referir sobre o papel importante da família de Gauff.

Não vamos esquecer que Naomi é por si também uma tenista muito jovem, de 21 anos, e que sempre se revelou tímida. Aliás, fará outro duelo entre jogadoras de tenra idade, desta vez diante da suíça Belinda Bencic, que já foi prodígio e figurou no top 10. De estilo distinto, Bencic não presa pela potência mas pela aplicação tática e golpes muito bem escolhidos. Promete.

E mais
– Surpresa no US Open: Alexander Zverev não precisou de cinco sets para tirar Aljaz Bedene, mas três dos quatro sets foram ao tiebreak. Até gostei do empenho do alemão, que se jogou na quadra e não baixou a cabeça. A firmeza da base e a raça de Diego Schwartzman são o próximo grande desafio.
– Kiki Bertens foi a quarta top 10 a cair no lado de cima da chave. A culpa foi da experiente Julia Goerges, 30 anos e que já fez semi em Wimbledon. Sua adversária será a croata Donna Vekic.
– Nova geração feminina duela por quartas: Taylor Townsend, depois de tirar Simona Halep, embalou e terá pela frente a canadense Bianca Andreescu. Outra vez Townsend optou pelo jogo de rede: 47 pontos em 75 subidas. Andreescu também nunca havia chegado nas oitavas de um Slam, tirou Caroline Wozniacki e não para de subir de prestígio e de ranking.
– História curiosa marca a americana Kristie Ahn. Por convite, ela voltou a disputar o US Open 11 anos depois da estreia e fez jus: tirou Sveta Kuznetsova e Jelena Ostapenko. Aos 27 anos e 141ª classificada, contou ter ido para universidade e quase esquecido o tênis. Enfrentará Elise Mertens, 25ª do mundo.
– E Carla Suárez levou mesmo multa pesada pelos meros oito games de estreia: US$ 40 mil, cerca de 80% da premiação a que teve direito. Ela já avisou que vai recorrer.

Para a história
Este é o 13º Grand Slam consecutivo em que Nadal atinge pelo menos as oitavas de final. Na rodada anterior, ele não precisou entrar em quadra para enfrentar Thanasi Kokkinakis. Foi a primeira vez em toda sua carreira que se favoreceu de um w.o. em Slam.

Meninas roubam a cena no US Open
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2019 às 01:13

Se a Next Gen masculina tem sofrido para arrancar grandes resultados dos mais experientes do ranking, principalmente nos Grand Slam, o circuito feminino está repleto de meninas cheias de vontade. E nada melhor do que duas pratas da casa para roubar a cena do US Open: Taylor Townsend e Coco Gauff foram os grandes destaques da quinta-feira em Nova York.

Townsend tem uma história controversa. Tida como grande promessa desde os 15 anos, não conseguia se livrar do excesso de peso e viu retirada a ajuda oficial da USTA por não entrar na considerada forma física ideal. Canhota, ela sempre se virou na base do talento e o que fez contra Simona Halep foi incrível: ao melhor estilo Martina Navratilova, sacou com slices e subiu à rede até mesmo atrás do segundo saque, colocando pressão constante na campeã de Wimbledon, que não achou um jeito de contornar a súbita mudança tática da adversária.

Taylor jamais foi uma tenista de saque-voleio, aliás nem tem um excepcional jogo de rede, mas a ousadia justificou a vitória. Terminou o jogo com 105 subidas, tendo feito apenas 16 no primeiro set mas 63 no terceiro. Não menos curioso: de seus 96 pontos na partida, 63 vieram com voleios ou com a pressão em cima de Halep e apenas 23 com erros não forçados da número 4 do mundo. Townsend enlouqueceu a torcida e analistas, caiu em lágrimas na entrevista em quadra e provou que vale a pena continuar tentando.

Na rodada noturna, Gauff voltou a brilhar, não apenas pelo tênis maduro mas pela postura profissional e jamais deslumbrada, algo difícil para quem tem apenas 15 anos. Fez um pouco de tudo. Ganhou o primeiro set de Timea Babos de forma conservadora, trabalhando cautelosamente os pontos, mas depois da reação da húngara percebeu que teria de arriscar para se antecipar e tomar mais conta dos lances. Sua média de primeiro saque beirou os 170 km/h e saiu de quadra com 83% desses pontos vencidos. Agora, nada menos que Naomi Osaka.

Masculino: o lado de cima
Os onze jogos da parte superior da chave não realizados na quarta-feira obrigarão seus vencedores a voltar à quadra nesta sexta-feira e alguns terão tarefas indigestas. O local Denis Kudla ganhou o direito de encarar o número 1 Novak Djokovic pelo segundo Slam seguido, tendo vencido apenas oito games em Wimbledon semanas atrás, e o habilidoso Daniel Evans tirou Lucas Pouille e reencontrará Roger Federer com placar de 0-8 em sets.

Stan Wawrinka se candidata a desafiar Nole nas oitavas se superar Paolo Lorenzi, que suou 4h48 para avançar no quinto set. Danill Medvedev cedeu um set, sentiu cãibras e pega outro veteraníssimo, Feliciano López, que ao menos não é de trocar muitas bolas. Claro que fica a expectativa sobre o problema no ombro esquerdo do sérvio, que passou por ressonância e não aparentou problema mais sério. Kudla não tem poder de fogo para incomodar tanto.

Jogo bem interessante envolverá David Goffin e Pablo Carreño, possíveis adversários de Federer nas oitavas, que primam por um jogo compacto na base e um bom trabalho de pernas.

Masculino: a parte inferior
Rafael Nadal nem precisou entrar em quadra e sempre fica a dúvida de quanto isso é realmente bom, ou seja, passar três dias sem competição real logo no início de um Slam. Ele vai pegar o esforçado Hyeon Chung e vislumbra John Isner, já que Marin Cilic continua em momento sofrível. Alexander Zverev manteve o padrão, já soma 10 sets e abre oportunidade para Diego Schwartzman ou até Tennys Sandgren se aventurarem por ali.

O outro quadrante está bem mais empolgante e já reserva Nick Kyrgios x Andrey Rublev e Gael Monfils x Denis Shapovalov nesta terceira rodada, mas ali no meio está também Matteo Berrettini, italiano de grande saque e que, num grupo de gente tão instável emocional ou fisicamente, pode muito bem tirar proveito.

Destaque
É excelente rever Chung em alto nível. O coreano de apenas 23 anos tem vivido tremendos altos e baixos desde que surgiu como grande sensação da nova geração, ainda em 2015. As contusões não o deixaram em paz e ele seguidamente interropeu a carreira para tratar dos mais variados problemas. Fez uma incrível semi no Australian Open do ano passado, superando até Djoko e chegando ao top 20, porém no meio do ano sucumbiu outra vez ao físico, agora panturrilha, lombar e até bolha. Deixou de jogar 11 torneios desde maio e ainda abandonou outro. Retornou agora em janeiro, mas em seguida sentiu as costas. Outra longa parada. Há poucas semanas, recomeçou em challengers. Passou o quali do US Open e terá a terceira chance de encarar Nadal. Em 2017, perdeu as duas sempre em sets diretos, mas levou Rafa ao tiebreak no saibro de Barcelona.

Para a história
– Batido por Chung, o veterano Fernando Verdasco, 35 anos, jogou a 48ª partida que foi até o quinto set, sofrendo a 23ª derrota. Pela sexta vez, levou virada tendo vencido os dois primeiros sets. Ele também ganhou outras seis após ter perdido os dois sets iniciais. Mais cruel ainda, sacou para a vitória com 5/4 no quinto set diante do coreano, fez um game tenebroso e desperdiçou um match-point no 6/5.
– Segundo a ATP, esta é a primeira vez na Era Profissional que o US Open tem três tenistas com 37 anos ou mais na terceira rodada: Federer, López e Lorenzi.