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Dolorosa sensatez
Por José Nilton Dalcim
7 de julho de 2022 às 18:19

Se perder a chance de disputar um título é cruel, imagine então quando de trata de Wimbledon. Pior ainda, a duas vitórias de seu terceiro Grand Slam da temporada. Não deve ter sido nada fácil para Rafael Nadal aceitar a gravidade de sua contusão abdominal e com isso abrir mão de enfrentar Nick Kyrgios na aguardadíssima semifinal que fariam nesta sexta-feira.

Só posso acreditar que, para chegar a uma decisão tão dura, o canhoto espanhol foi convencido de que o risco de agravar a ruptura muscular de 7 milímetros era grande e colocaria em risco outros dois objetivos importantes: o US Open, que acontecerá dentro de 50 dias, e a grande oportunidade de retornar ao número 1 do ranking. Três meses de afastamento custariam o restante do calendário. Agora, sob tratamento, espera retornar em quatro semanas.

Em sua explicação pública, Rafa se mostrou muito sensato, porque seria bem difícil derrotar adversários do quilate de Nick Kyrgios e muito provavelmente Novak Djokovic nas rodadas finais sem estar 100% fisicamente. Os dois entrariam muito atentos à velocidade mais baixa do saque e são adversários de devoluções agressivas. Ou seja, levariam o espanhol a um desgaste ainda maior para equilibrar a situação. Sem falar que a parte física influi demais na confiança.

Apesar de enfim chegar a sua primeira final de Grand Slam, talvez nem mesmo Kyrgios tenha comemorado muito a forma com que isso aconteceu. Preferiria se impor dentro de quadra. O lado mais positivo é ganhar tempo maior de recuperação para o ombro direito, já que o saque será decisivo caso Djokovic confirme o amplo favoritismo sobre o britânico Cameron Norrie.

Canhoto como Nadal, Norrie tem potência limitada nos golpes, não possui um backhand tão consistente e precisa lidar com a inexperiência. O público a favor pode ser fundamental, mas também um empecilho caso surja aquela ansiedade de ‘fazer bonito’. Seu ponto alto têm sido as paralelas de forehand, através das quais consegue se impor nos pontos e encurtar reação do adversário. Parece pouco provável que consiga derrotar Nole apenas com trocas de bola. A dúvida é se existe para ele um plano B.

P.S.: A ATP lembra que esta foi apenas a segunda vez que aconteceu um WO numa semi de Grand Slam. A outra foi quando Richard Krajicek desistiu contra Jim Courier no Australian Open de 1992. Em Wimbledon, o último WO foi na final de 1931.

Uma nova campeã de Slam
Pela primeira vez na Era Profissional, duas tenistas sem finais anteriores de Grand Slam irão duelar pelo título de Wimbledon. A número 2 do mundo Ons Jabeur cumpriu à risca o que se esperava dela na parte inferior da chave com seu estilo requintado, mas a cazaque Elena Rybakina é uma grata surpresa. Aproveitou a sucessão de surpresas e mostrou um tênis muito competitivo à base de força e precisão, como exigem as quadras de grama.

Para se tornar a primeira africana e de origem árabe a decidir um Slam, Jabeur teve altos e baixos contra a veterana Tatjana Maria, mas por fim fez valer sua excelente movimentação. Dona de dois títulos na grama em sua carreira, esta é quinta final de peso em sua ótima temporada, com títulos em Madri e Berlim e vices em Roma e Charleston. Aos 27 anos, é a mais velha a atingir final de Wimbledon pela primeira vez desde Nathalie Tauziat, em 1998.

Rainha dos aces nesta temporada, agora com total de 217, Rybakina disputa apenas seu segundo Wimbledon. Aos 23 anos, ela tem uma pressão extra a resolver no sábado. Desde seu segundo troféu de WTA, perdeu todas as quatro finais que disputou, incluindo Adelaide em janeiro. Seu desempenho contra Simona Halep nesta sexta-feira foi notável, tomando sempre a iniciativa e explorando o segundo serviço vacilante da campeã de 2019. Vale lembrar que ela nasceu na Rússia, mas está desde criança no Cazaquistão.

Jabeur e a primeira cazaque finalista de Slam da história já se enfrentaram três vezes e a cabeça 3 ganhou duas delas, todas na quadra dura. Fato curioso é que, mesmo que levante o troféu, a tunisiana cairá para o quinto lugar do ranking.

O mestre dos cinco sets
Por José Nilton Dalcim
5 de julho de 2022 às 18:59

Ganhar uma partida no quinto set exige duas habilidades óbvias: apuro físico e capacidade emocional. Obter viradas após perder os dois primeiros sets dobra a importância do controle mental. Não é à toa, portanto, que Novak Djokovic seja um verdadeiro mestre nessa difícil arte.

A reação espetacular obtida contra Jannik Sinner nesta terça-feira foi sua sétima virada após estar dois sets atrás, três delas em Wimbledon. A primeira pouca gente viu, na segunda rodada de 2005 contra Guillermo Garcia-López, mas a outra foi importante, aquela incrível reação diante de Kevin Anderson rumo ao título de 2015.

Outras três aconteceram em Roland Garros, duas no mesmo torneio do ano passado em cima de Lorenzo Musetti e na histórica final diante de Stefanos Tsitsipas. Não menos inesquecível foi a semi do US Open de 2011 diante de Roger Federer.

Wimbledon é mesmo muito especial para o sérvio. Ele tem 10 a 1 em cinco sets no torneio, com única derrota para Maric Ancic em longínquio 2006. E todo mundo se lembra muito bem da mais marcante de todas elas, a da final de 2019 diante de Federer, em que evitou dois match-points no saque do adversário.

Djokovic venceu todos os últimos oito jogos em que foi levado ao quinto set e seis vieram para jogadores mais jovens e alguns com muito menos idade, como Sinner, Alexander Zverev, Tsitsipas (duas vezes), Musetti e Taylor Fritz.

No geral, tem agora 37 vitórias em 47 jogos que foram a cinco sets na carreira, segunda maior marca da Era Profissional em termos absolutos, atrás somente das 42 de Ilie Nastase. Ele no entanto possui o maior percentual de sucesso entre os que jogaram ao menos 40 cinco sets (78,3%) e é o terceiro entre os que fizeram ao menos 30, atrás de Bjorn Borg e Kei Nishikori.

Ouso dizer que o confronto destas quartas de final contra Sinner esteve quase sempre em suas mãos. Quando foi perfeito, abriu vantagem, 4/1 logo de cara. Ao estranhamente perder consistência a partir de um game horroroso, o italiano reagiu e obteve larga margem.

Mas aí o sérvio reencontrou seu padrão de saque e principalmente devolução, diminuiu drasticamente os erros e então a distância ficou patente. Nem diria que Sinner jogou mal nos três últimos sets, mas evidentemente não conseguiu acompanhar o hexacampeão e se obrigou a ousar mais, onde então acumulou escolhas ruins ou execuções imperfeitas, seja nas curtinhas, voleios e até smashes.

Djokovic afirmou que já passou tantas vezes por esses apertos que aprendeu a manter a frieza e a acreditar, dizendo a si mesmo que sempre é possível. Isso certamente não soa como boa notícia para o britânico Cameron Norrie, que passou o segundo sufoco em uma semana antes de achar o caminho para derrubar um inspirado David Goffin.

O canhoto de 26 anos esteve duas vezes atrás do placar, com 33 erros nos três primeiros sets, até que enfim acertou mais as paralelas e colocou o belga em situação defensiva. Claro que as pernas também foram decisivas. Goffin vinha da batalha de 4h36 diante de Frances Tiafoe e parecia mais lento no set final, ainda que o britânico mereça créditos por jogar com coragem em momentos cruciais.

Norrie, que jogou tênis universitário no Texas, aprendeu a esperar seu momento. Só no ano passado enfim ganhou seu primeiro ATP, mas foi logo o 1000 de Indian Wells. Esperou mais 11 meses para atingir o sonhado top 10 e agora chega na semifinal de Wimbledon, repetindo Andy Murray, Tim Henman e Roger Taylor na Era Aberta.

O único duelo entre Djokovic e Norrie aconteceu na fase classificatória do Finals de Milão, em novembro, com fáceis 6/2 e 6/1 para o sérvio. Uma coisa é certa: o britânico precisará de toda a energia da Central na sexta-feira.

Jabeur repete Djokovic
Embora num grau inferior, a tunisiana Ons Jabeur traçou caminho semelhante ao de Djokovic para atingir sua primeira semifinal de Grand Slam e a 10ª vitória seguida nas quadras de grama. Perdeu o primeiro set para a tcheca Marie Bouzkova, mas quando encontrou seu tênis a história mudou como por encanto e ela atropelou a inexperiente adversária com apenas dois games perdidos nos 14 finais.

Favorita ao título desde a queda de Iga Swiatek, Jabeur parece que enfim está se acostumando a lidar com os holofotes e isso tem muito a ver com seu primeiro grande título, obtido em Madri. Embora não tenha ido bem em Paris, ganhou na grama de Berlim e isso recuperou sua confiança para Wimbledon.

Primeira mulher africana a disputar uma semi de Grand Slam desde a sul-africana Amanda Coetzer, em Roland Garros de 1997, ela terá agora pela frente a sensação do torneio, a alemã Tatjana Maria, veterana de 34 anos e número 103 do mundo. No duelo de gerações com a compatriota Jule Niemeier, Maria também mostrou sangue frio ao reagir de 4/2 no terceiro set.

Com um jogo muito propício à grama, Tatjana tem uma história de amor ao esporte. Interrompeu duas vezes a carreira para ter filhas, a segunda delas há pouco mais de um ano. Nunca esmoreceu e hoje viajava o circuito com as meninas, dividindo a atenção entre a maternidade e os treinos.

“Muita gente não acreditou em mim. Mudei meu backhand depois que Charlotte nasceu (em 2013) por sugestão do meu marido e voltei ao top 50. Há 15 meses, tive outra filha e certamente parecia impossível retornar ao top 100”, contou Maria, que disse ainda não acreditar na semi alcançada. “Acho que o segredo foi ter sempre colocado a família no primeiro plano, isso me tornou feliz e tirou a pressão do tênis”.

Sinner se reinventa e desafia máquina sérvia
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2022 às 21:05

Provável grande rivalidade de futuro bem próximo, Jannik Sinner me surpreendeu na merecidíssima vitória sobre Carlos Alcaraz. Não por sua qualidade, já bem conhecida, mas por ter ousado na postura tática e ter executado o plano com acuidade ferrenha do começo ao fim. Arriscou o saque, forçou devolução, mexeu-se muito bem, deu curtinhas e foi 40 vezes à rede. Um cardápio bem mais completo do que costuma fazer.

Alcaraz jogou abaixo do seu potencial? Não há dúvida, e ele enfatizou isso mais de uma vez nas explicações oficiais, quando argumentou que o saque e a devolução estiveram abaixo do necessário e deixou escapar muitas chances. Não é a primeira vez que Carlitos desse um degrau em jogo grande. Vimos isso também em Roland Garros contra Alexander Zverev, com enredo bem parecido. Ele aliás reconheceu que entrou nervoso ao ver a imponência da Quadra Central, que como se vê continua a ser um mito também para a novíssima geração.

Com quartas de final de Grand Slam agora em três diferentes pisos – e pela segunda vez na temporada -, Sinner garante que isso é reflexo de sua evolução física, ainda que tenhamos visto nos últimos meses abandonos ou quedas abruptas, algo que me preocupa para quem tem 20 anos. E ele próprio admite sua surpresa com a campanha neste Wimbledon, já que nunca havia vencido partida sobre a grama até a estreia.

O desafio contra Novak Djokovic é obviamente enorme. O italiano vem de incrível atuação defensiva contra John Isner, o que não é fácil na grama, e agora mostrou diferentes armas para desestabilizar Alcaraz. Se conseguir juntar as duas habilidades, ou seja achar o difícil equilíbrio entre defesa e ataque a partir do saque e da devolução, a chance aumenta.

Ainda que tenha já perdido dois sets nesta campanha, Djokovic está de fprma clara à frente de todos seus concorrentes. O segredo principal é a profundidade de suas bolas, algo extremamente difícil de se safar num piso tão traiçoeiro. O tempo de reação é curto, a bola quica mais baixo do que o normal e ainda pode haver os inevitáveis desvios.

O holandês Tim Rijthoven fez o que pôde e confirmou seu potencial, mas ficou patente a dificuldade que se encontra diante das bolas tão próximas da linha que Djokovic tem sido capaz de executar, tanto de forehand como de backhand e quase sempre na devolução de segundo saque, o que cria uma pressão sufocante. Resta ao adversário torcer para que venham mais erros. Por enquanto, não aconteceu. Mesmo com esse grau de exigência, foram apenas 19 falhas do sérvio em 221 pontos disputados.

Jogo a jogo
Goffin contra Norrie e a torcida
– Jogo também espetacular envolveu David Goffin e Frances Tiafoe. O belga repetiu a vitória de Roland Garros de semanas atrás com ambos se empenhando por 4h37 numa batalha recheada de pontos espetaculares. Goffin, que sofreu no ano passado diferentes problemas físicos, repete as quartas de 2019 e fará duelo de ex-top 10 diante do canhoto Cameron Norrie, que só tinha três vitórias em Wimbledon e agora se juntou a Andy Murray como único jogadores da casa nas quartas do torneio desde 2004.

Jabeur segura cabeça – Maior favorita do seu lado da chave para ir à final, a tunisiana Ons Jabeur viveu altos e baixos, ficou contra a parede no final do primeiro set mas sempre achou boas soluções para superar a lutadora Elise Mertens. O saque foi um problema constante. Ela terá a vantagem da experiência dinate da tcheca Marie Bouzkova, de 23 anos, que tem golpes respeitáveis de base e exigirá todo cuidado.

Festa alemã – A mamãe Tatjana Maria, 34 anos, e a debutante Jule Niemeier, 22 e apenas no segundo Slam da carreira, tentarão resgatar a tradição alemã em Wimbledon, marcada por títulos inesquecíveis de Graf, Becker, Stich e Kerber. Depois de tirar Maria Sakkari, Tatjana enlouqueceu Jelena Ostapenko com seu estilo pouco usual, com backhand simples e muito slice de forehand, golpes que funcionam na grama. Salvou dois match-points e era o retrato da felicidade. Niemeier joga pertinho da linha, também usa bons slices e gosta de colocar a adversária para correr.

Fim e começo – Rafael Matos e o parceiro espanhol David Vega foram muito bem e tiraram set dos cabeças 1 antes da despedida. Bia Haddad e a polonesa Magdalena Frech não foram páreo e depois ela e Bruno Soares amargaram dura virada dos bons Peers/Dabrowski. O destaque brasileiro do domingo foi o carioca de 15 anos João Lourenço, que jogou muito solto e tirou o cabeça 13.

100 anos – A festa que marcou o centenário da mudança de sede do All England Club reuniu um painel notável de campeões e, para quem acompanha o tênis dos velhos tempos, emocionou rever tantos rostos que fizeram a história da Quadra Central, especialmente Chris Evert, Billie Jean, Rod Laver e Roger Federer, sob comando de John McEnroe. Ponto alto foi o aplauso de pé para Sue Baker, campeã de Roland Garros e semi de Wimbledon que irá se aposentar dos comentários na BBC depois de 30 anos.