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Velhos favoritos em Monte Carlo
Por José Nilton Dalcim
9 de abril de 2021 às 19:40

Ainda que a pandemia permaneça um fantasma a assombrar a Europa e o esporte, o calendário do saibro europeu deu largada nos moldes quase normais e o secular torneio de Monte Carlo – que na verdade é disputado em território francês – retomará seu papel de primeiro grande desafio a partir deste domingo. Não terá público, mas reunirá  oito dos top 10 e especialmente Rafael Nadal e Novak Djokovic, que juntos venceram 13 das últimas 15 edições.

É bem verdade que Monte Carlo raramente foi uma referência ideal para Roland Garros. Além de acontecer após longa jornada sobre quadra dura, algumas delas bem velozes, exige que todos se adaptem à superfície considerada a mais lenta de todo o circuito, onde o verão australiano e o calor da Califórnia e da Flórida são de repente substituídos por um clima congelante, como será ao longo da semana, em que se prevê máxima de 15 graus. Mas o Masters do Principado tem importância inquestionável quando se trata de dar confiança e avaliar o que cada um vai precisar evoluir ao longo das próximas semanas.

Impossível tirar o favoritismo inicial de Nadal e Djokovic, mas curiosamante os dois não jogam desde o Australian Open, ambos se preservando por questões médicas. O espanhol saltou Acapulco e Miami e portanto devemos considerar que sua contusão lombar foi realmente grave, já que ele se afastou da liderança e acabou superado por Danill Medvedev no ranking. Nole também precisava cuidar da pequena ruptura abdominal, porém a parada certamente foi bem menos dolorosa para quem saiu de Melbourne com um título tão suado e importante.

Dominic Thiem, ainda o tenista que reúne as maiores qualidades para competir com Rafa e Djoko no saibro, não jogará, porém há esperança de alguns duelos exigentes para os dois. O cabeça 1, por exemplo, pode estrear contra Jannik Sinner e e em seguida ser desafiado por Hubert Hurkacz, justamente os recentes finalistas de Miami. O italiano nasceu sobre o saibro e já ganhou de nomes como Alexander Zverev, Stefanos Tsitsipas e David Goffin, porém o currículo em torneios grandes ainda é pequeno. O polonês deve estar com o moral nas alturas, mas soma apenas 8 vitórias em 22 jogos sobre a terra em eventos de peso, ainda que tenha vencido Andrey Rublev e dado trabalho a Diego Schwartzman em Roma do ano passado.

A reta de chegada de Djokovic poderá cruzar com o próprio Zverev, nome de inegável competência no piso, e na sequência Tsitsipas ou Matteo Berrettini. Nesse quadrante estão alguns nomes que merecem muita atenção: Lorenzo Musetti e sua estreia justamente contra Aslan Karatsev; assim como Felix Aliassime, que acabou de anunciar Toni Nadal como novo treinador e terá como primeiro adversário Cristian Garin, saibrista autêntico. Vai ser divertido. Talento puro, Musetti parece cru demais para aventuras desse porte.

O início da caminhada de Rafa é na teoria muito mais tranquilo. Não imagino que Adrian Mannarino ou Grigor Dimitrov sejam adversários à altura em condições tão lentas. Quem sabe, um qualificado, adversário de Mannarino, possa testar melhor o espanhol na sua estreia. Depois, a lógica aponta Andrey Rublev ou Roberto Bautista nas quartas, novamente dois jogadores que teriam de achar soluções muito perfeitas. Eles têm até títulos na terra, mas em eventos de categoria inferior. Sabem quantos games Bautista tirou de Nadal em três duelos e sete sets sobre o saibro? 14.

O último quadrante é mais aberto. Schwartzman me parece o grande candidato do setor, ainda que não se possa desprezar totalmente Medvedev ou o atual campeão Fabio Fognini. O número 2 do mundo no entanto ainda tem muito a provar no saibro, lugar onde só ganhou 10 partidas de ATP na carreira. Sua isolada campanha nobre foi justamente em Monte Carlo de 2019, em que assombrou ao tirar Djokovic nas quartas antes de parar em Dusan Lajovic. Excepcional na superfície, Fognini anda numa fase muito ruim e levou uma surra em Marbella ontem diante de Jaume Munar.

Jogos imperdíveis de primeira rodada, a ser disputada domingo e segunda, que recomendo: Sinner x Ramos, Musetti x Karatsev, Aliassime x Garin, Ruud x Rune, Khachanov x Djere, Fognini x Kecmanovic, Bautista x Fritz e Davidovich x De Minaur.

Conclusões de Miami
Por José Nilton Dalcim
5 de abril de 2021 às 15:58

Hora de passar a régua nestes dez dias bem movimentados nos dois torneios realizados no lento piso sintético de Miami. Vou colocar em tópicos para tentar reduzir ao máximo o tamanho do texto e focar nas conclusões mais relevantes.

Justiça no masculino
– É incorreto dizer que a nova geração não aproveitou bem a ausência do Big 3 em Miami. As quartas de final tinham sete jogadores com no máximo 25 anos e a decisão foi a quinta mais jovem em 35 edições de torneio, a de menor soma de idades desde Murray-Djokovic em 2009.
– A decisão totalmente inesperada entre Hurkacz e Sinner reforçou ainda mais essa renovação. A maioria esperava o título do jovem italiano, que marcaria um recorde de precocidade em Masters 1000, mas o polonês mereceu mais. De suas seis vitórias, cinco foram sobre cabeças de chave, duas diante de top 10 e quatro em cima de ‘next gen’, ainda que ele próprio tenha acabado de completar 24 anos.
– Sinner estava badalado demais, com entrevistas e perfis dos mais variados publicados na imprensa internacional. A própria ATP divulgou entrevista muito interessante do treinador Riccardo Piatti, explicando seu trabalho para moldar a parte emocional e competitiva do pupilo.
– O italiano teve 6/5 e saque para fechar o primeiro set, o que teria boa chance de mudar a história da partida, mas falhou justamente na parte mental e daí em diante foi um passeio do polonês. SInner só voltou a jogar bem parte final do segundo set, mas já era um tanto tarde.
– Pela contabilidade geral do torneio, Hurkacz foi o campeão justo, a meu ver. É bem curioso que, com 1,96m, ele se mexa tão bem na base, a ponto de conseguir fugir para bater forehand mesmo sem recuar tanto da linha de base. E isso não é fácil de se fazer contra bolas pesadas de Sinner ou Rublev. Também sacou melhor e variou com subidas espertas à rede, onde se vira muito bem, justamente o que faltaram tanto ao italiano quanto ao russo.
– Com o avanço dos dois no ranking, o top 25 desta segunda-feira tem 12 jogadores com até 25 anos. Mas como o congelamento dos pontos tem dado distorções relevantes, melhor é ver a classificação da temporada: os únicos ‘trintões’ do top 10 são Djokovic e Bautista, enquanto Rublev, Tsitsipas e Hurkacz aparecem entre os cinco primeiros. Sinner é 7º e a sensação Korda, o 15º.
– Zverev e Karatsev foram as decepções. O alemão vinha do título de Acapulco, meteu 6/1 em Ruusuvuori e aí desandou. Karatsev entrou cheio de holofotes e foi atropelado por Korda, sinal claro que terá de aprender a conviver com o favoritismo repentino.

Feminino animado
– O título feminino terminou em ótimas mãos, ainda que a final tenha ficado apagada com a torção de pé de Andreescu. Mas convenhamos: a australiana dava um show de técnica e tática até então, misturando incrivelmente bem efeito, velocidade e altura da bola, algo depois enaltecido pela canadense.
– Barty calou os críticos na hora certa, já que sua liderança no ranking vinha sendo questionada. Vamos lembrar que ela não jogou nada por 12 meses inteiros. Soma agora 10 títulos na jovem carreira e pela primeira vez defendeu um troféu.
– Andreescu por seu lado fez um torneio muito exigente, tanto na parte física como mental, e mostrou o quanto o circuito feminino perdeu por sua prolongada ausência. Garantiu que a lesão não foi séria e que terá chance de voltar com tudo no saibro.
– A reentrada de Barty e Andreescu só ajuda os torneios femininos, que contam com Osaka, Halep, Kenin, Sabalenka, Muguruza e Azarenka, todas de grande potencial. Miami foi recheado de ótimos jogos e ainda destacou o tênis versátil de Sakkari. É um grande momento para as meninas.
– Por fim, Stefani deu mais um passo à frente, lutou por um título de grande peso e avançou no ranking. A perspectiva que me parece essencial é notar que a paulistana tem apenas 23 anos e muito pouco tempo na elite do calendário, onde tudo é muito mais competitivo e difícil. Ela e Carter estão agora em quarto no ranking da temporada e podem sonhar com o Finals.

E, é claro, existe uma pergunta muito pertinente no ar: o quanto esses personagens de Miami poderão brilhar no saibro? É o tema perfeito para o próximo post.

Sem os top 5, renovado Miami promete
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2021 às 23:39

Miami verá um campeão de Masters 1000 inédito e chega à semifinal sem um favorito claro. Se a experiência joga a favor de Roberto Bautista, o explosivo Andrey Rublev faz um início de temporada muito confiante. Mas ambos estarão diante de adversários para quem perderam em confrontos diretos: Bautista frente o jovem Jannik Sinner e Rublev, do frio Hubert Hurkacz.

Bautista jogou um tênis primoroso na quarta-feira e outra vez barrou Daniil Medvedev, repetindo o que fizera nas quartas de Cincinnati no ano passado. Está na sua quarta semi de Masters e busca repetir a final de Xangai lá de 2016. Não é portanto apenas o mais velho e único ‘trintão’ da reta final de Miami, mas também o de maior currículo. Aliás, um eventual título também o levará de volta ao top 10.

A vitória sobre o número 2 do mundo não coroou apenas sua conhecida solidez na base, mas premiou a versatilidade, algo que claramente falta a Medvedev. O espanhol de 32 anos surpreendeu com trocas para a paralela, deu curtinhas na hora certa e ousou junto à rede, com direito até a saque-voleio.

Seu adversário será o mesmo Sinner que o venceu duas semanas atrás em Dubai com 7/5 no terceiro set. O italiano de 19 anos arrancou a vitória de Alexander Bublik, que teve 4-1 no tiebreak e 3/0 no segundo set e fez uma exibição na base do risco, com devoluções a 160 km/h e saque por baixo. Sinner, que já havia batido Bublik no mesmo Dubai, não escondeu a surpresa com a mudança tática e fez elogio: “Ele é um dos mais talentosos do circuito, tem uma mão incrível”. No jogo de pontos muito curtos, o italiano fez 26 winners, 28 deles de forehand.

A sexta-feira começou com a notável virada de Hurkacz sobre Stefanos Tsitsipas. O grego abriu 6/2, 2/0 e 15-40, dando ideia de que justificaria o histórico de 6-1 nos duelos diretos. Num passe de mágica, no entanto, se perdeu na partida e deu confiança para o polonês investir nos winners (foram 41 a 22), com destaque ao primeiro saque preciso nos momentos mais delicados. Também em sua primeira semi de Masters aos 24 anos, Hurkacz ganhou seus oito jogos na Flórida neste começo de ano – foi campeão de Delray Beach em janeiro – e já tirou três cabeças de Miami, lista que inclui Denis Shapovalov e Milos Raonic.

Ele reencontrará Rublev, mais um que faz a primeira semi de Masters. Hurkacz venceu o único duelo entre eles, no lento saibro de Roma do ano passado, mas é difícil tirar o favoritismo do russo, que ainda não perdeu set em Miami. Teve seu jogo mais duro nesta noite diante de Sebastian Korda, ainda que tenha sacado com 5/3 nos dois sets e aí perdido serviços pela primeira vez no torneio. Para alguém que adora espancar a bola, é notável que ele tenha vencido o primeiro set com apenas três winners e terminado com 15, comentendo apenas 13 erros.

Grande sensação da chave masculina, Korda encarou de frente o número 8, teve pequenas falhas com o serviço devido à afobação e ainda sentiu um problema na virilha que não o impediu de lutar muito e quase levar o segundo set. Sai como real promessa de evoluir rapidamente ao longo da temporada, já que será 64º na segunda-feira e isso lhe dá vaga nos Slam, alguns ATP 500 e qualquer ATP 250.

Rio Open só em 2022
Mais uma notícia ruim para o tênis brasileiro, ainda que totalmente esperada. O Rio Open não vai mesmo acontecer em 2021 em função do agravamento da pandemia no país. Os organizadores pensavam ainda em conseguir uma data em julho e com isso ainda aproveitar a autorização de captação de verba, que tinha esse prazo.

Mas o quadro sanitário continua imprevisível – espera-se um abril ainda pior do que março -, o país está isolado do cenário internacional e ainda haveria grande chance de o torneio ter de acontecer sem público, o que inviabilizaria contratos publicitários essenciais. Tudo muito triste.

E mais
– Desde 2010, esta será apenas a segunda vez que Miami terá um campeão inédito, repetindo John Isner de 2018. Nesse longo período, Djokovic ganhou cinco vezes e Federer, duas.
– Nos últimos 26 Masters 1000 disputados desde Roma de 2017, o circuito viu 13 campeões fora do Big 4: Zverev (3), Dimitrov, Sock, Del Potro, Isner, Khachanov, Thiem, Fognini e Medvedev (3).
– Antes de Sinner, sete outros adolescentes atingiram a semifinal de Miami. Desse total, cinco foram número 1 do mundo: Agassi, Hewitt, Nadal, Murray e Djokovic. Os outros foram Aliassime e Shapovalov.