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Murray já pode pensar no número 1
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2016 às 18:09

Três finais de Grand Slam na temporada e o justíssimo bicampeonato em Wimbledon neste domingo colocam Andy Murray numa posição até inesperada: ele pode definitivamente mirar a liderança do ranking, projetando luta para as últimas semanas de 2016. Desde é claro que mantenha o ótimo momento.

Quem olhar o ranking desta segunda-feira, em que ele aparecerá a longos 4.845 pontos de Djokovic, pode se perguntar: como assim? Muito simples. Olhem o ranking da temporada, que não nos obriga a ficar calculando defesa de pontos. Aí se vê que Murray tem apenas 815 pontos a menos que o sérvio na soma do que ambos fizeram até agora no ano. Portanto, se mantiver campanhas superiores, especialmente no US Open, o escocês terá condições de atingir a ponta do ranking em outubro ou novembro. Quem sabe, justamente no Finals de Londres.

Por enquanto, o importante é que Murray aumenta seu papel na história, algo digno de seu tênis tão vistoso. Ele agora é o 20º profissional a ter pelo menos três Grand Slam na carreira e se iguala a gente importante com dois troféus em Wimbledon, ou seja Jimmy Connors, Stefan Edberg, Rafael Nadal, Roy Emerson e Don Budge.

Desde o salto de qualidade que deu no saibro europeu, era certo de que ele seria um grande nome para Wimbledon e a isso ainda se juntou o retorno de Ivan Lendl. Depois, vieram as quedas de Novak Djokovic e Roger Federer para aumentar sua cotação. Perdeu dois sets na campanha, ambos para Jo-Wilfried Tsonga, porém mostrou qualidades notáveis o tempo todo. A maior delas foi a vontade de ganhar.

Como se imaginava, Raonic conseguiu empurrar dois sets ao tiebreak porém nunca esteve confortável no jogo, forçado a disputar praticamente todos os pontos. Recebeu inúmeras bolas baixas, passadas indefensáveis, devoluções de saque profundas até mesmo quando disparou a 236 km/h. Foi uma aula de como se jogar na grama, coroada com lágrimas. Murray chorou quando perdeu a primeira final para Federer, não segurou lágrimas no histórico título de 2013 e desta vez deixou até Lendl emocionado. Isso deveria valer outro Slam.

História escrita
Com 10 meses e quatro Slam de atraso, Serena Williams controlou os nervos, jogou um torneio estupendo e enfim igualou os 22 troféus de simples de Steffi Graf. Torna-se também a terceira mulher a colecionar ao menos sete conquistas em Wimbledon e uma das quatro únicas a ter hepta em Slam, ao lado de Graf, Chris Evert e Martina Navratilova.

O que mudou em relação à tenista que tremeu no US Open, foi surpreendida na Austrália e jogou tão instável em Paris? A tranquilidade. Serena entrou para cada partida de Wimbledon levando a coisa a sério, dando o máximo desde o primeiro game, gritando menos e jogando mais. E quando reúne tudo isso, seu amplo repertório faz a diferença em cima de qualquer concorrente.

Serena se candidata de vez à alcunha de melhor da história. Sua conta de troféus de Slam subiu para 38, um atrás de Billie Jean. Está distante dos 59 de  Martina Navratilova, porém já tem quatro a mais de simples com chance de ir além. A liderança é de Margaret Court, que ganhou 21 de seus 62 Slam quando pouca gente ia a sua Austrália e levantou ‘apenas’ 11 de simples e 10 de duplas na Era Profissional.

A 75 dias do 35º aniversário, nada indica que Serena esteja satisfeita com seus feitos ou cansada de bater recordes. Daqui a nove semanas, por exemplo, irá tirar também de Graf o maior reinado contínuo (186 semanas). Se mantiver a forma física e a cabeça fresca, ainda será favorita por um bom tempo. Acredito que esteja muito motivada para o ouro olímpico e para recuperar a hegemonia no US Open, o que é péssima notícia para as súditas.

E mais
– Murray é o oitavo jogador da Era Profissional a disputar as finais dos três primeiros Slam da temporada, repetindo Laver, Borg, McEnroe, Lendl, Courier, Federer e Djokovic.
– Escocês tem agora 172 vitórias de Slam, a 10ª melhor marca desde 1968, e deve chegar logo nas 178 de Edberg.
– Serena atinge US$ 80 milhões na carreira e só está atrás de Djokovic e Federer.
– Esta foi a sexta vez que Serena ganhou simples e duplas no mesmo Slam e, com 14 troféus de duplas, ela e Venus só perdem dos 20 de Navratilova/Shriver. Com 71 títulos de simples e 23 de duplas, faltam seis para o 100º geral.
– Ao atingir 304 vitórias em Slam, Serena está a duas de Navratilova e a três de Federer. Continua a ser a mais velha profissional a conquistar um Slam e a única a ter nove troféus depois dos 30 anos.
– Os títulos de duplas em Wimbledon servem como ótimo avant-première para os Jogos do Rio, com as conquistas das Williams e dos franceses Nicolas Mahut-Pierre Hughes.
– Enquanto Milos tentou o título principal, a esperança Denis Shapovalov faturou o juvenil para festa total do tênis canadense, que ainda tem Felix Auger-Aliassime como sensação de 15 anos e já terceiro do mundo.
– Além do título da russa Anastasia Potapova, destaque para o público na final feminina de sábado, com a Quadra 1 completamente lotada. Deve ter sido a maior audiência para um jogo juvenil da história.

Desafio
Pedro Brandão foi quem mais se aproximou do placar da final e portanto leva o Desafio de Wimbledon. Ele acertou dois sets na ordem exata, optando por 7/5 7/6 7/6. O segundo lugar ficou com Félix, que acertou um set na ordem exata e outro fora de ordem. Os dois receberão camisetas Wilson e devem enviar aqui nome e endereços completos.

Australian Open: feito para você
Por José Nilton Dalcim
17 de janeiro de 2016 às 20:38

Por conta de seu passado, o Australian Open continua a ser o Grand Slam de menor prestígio. Mas a guinada tem sido evidente. Nesta temporada, já deve superar Roland Garros em premiação e ameaça o recorde de público do US Open, já que em 2015 superou pela primeira vez a casa dos 700 mil ingressos vendidos. Os meios de transporte mais modernos e especialmente um calendário de aquecimento estruturado com a ATP têm garantido a presença de todos os melhores do mundo, o que não se via enquanto imperou a grama e a bagunça de datas até 1988.

O grande segredo do torneio, na verdade, é dar uma tremenda atenção ao público, até mesmo o que não está em Melbourne. Quem paga ingresso, vê muito mais do que os jogos programados. Tal qual o US Open, libera a chamada ‘área de treinos’ divulgando com antecedência – no site e num telão – a reserva de quadras das grandes estrelas. Obviamente, não se pode chegar aos tenistas nesse momento, mas diariamente existe um local reservado para que o fã obtenha a sonhada foto e o autógrafo do seu ídolo.

Um festival também acontece no Birrarung Marr, totalmente gratuito, onde existem muitas atividades. Música integra o ambiente: uma banda local toca todo santo dia ao vivo no Grand Slam Oval. E agora são nada menos do que nove restaurantes à disposição, além dos tradicionais fast-foods.

Há incentivo para que todo mundo vá ao Park de bicicleta, mas o transporte público é amplo. Coisas legais: é permitido entrar e sair do complexo a qualquer momento (basta scanear o ingresso na saída) e foram implantadas estações para carregar o celular, que no Australian Open é mais câmera do que telefone. O wi-fi é gratuito e veloz. Como o calor por lá é normalmente grande, bebedouros são vistos por todo lugar.

Por fim, se você como eu está bem longe de Melbourne, poderá se deliciar com mais uma grande sacada: pela primeira vez, há equipamento de transmissão de imagem em todas as quadras e o site oficial promete mostrar absolutamente tudo, até mesmo primeiras rodadas da chave juvenil, de duplas mistas, das lendas ou de cadeirantes. Está ficando muito fácil se apaixonar pelo Australian Open

Saiba mais

– Djokovic tenta igualar o recorde geral de Roy Emerson com o sexto troféu. O sérvio já lidera entre os profissionais, já que todos os troféus de Emerson foi como amador. Apenas Nadal (9), Sampras (7), Federer (7) e Borg (6) ganharam pelo menos seis vezes um mesmo Slam desde 1968.

– Nadal tenta ser o primeiro homem da Era Profissional, e apenas o terceiro da história, a somar pelo menos dois títulos em cada Grand Slam. Até hoje, apenas Emerson e Rod Laver chegaram a tanto. Também está a duas vitórias do 200º triunfo de Slam e a cinco dos 203 de Sampras.

– Federer tenta o 18º Slam, o que igualaria Chris Evert e Martina Navratilova e o deixaria atrás dos 21 de Serena Williams e dos 22 de Steffi Graf entre os profissionais. Ele também precisa de três vitórias para ser o primeiro homem a atingir 300 triunfos de Slam. O suíço joga o 65º Slam seguido e o 67º da carreira, três atrás do recordista Santoro.

– Murray tenta ser o primeiro profissional a vencer na Austrália depois de perder quatro vezes na final.

– Hewitt encerrará a carreira com o recorde de 20 Australian Open disputados, ou seja três a mais que Federer entre os tenistas em atividade. Connors jogou 22 US Open e 21 Wimbledon, enquanto Agassi apareceu em 21 US Open.

– A chave masculina tem 41 nomes acima dos 30 anos, novo recorde para qualquer Slam, superando os 40 do US Open do ano passado.

– Onze profissionais conquistaram seu primeiro Slam na Austrália, entre eles Connors (1974), Edberg (1985), Djokovic (2008) e Wawrinka (2014).

– Dos quatro países que sediam Slam, a Austrália é agora quem sofre o maior jejum, já que o último homem da casa a vencer lá foi Mark Edmondson, em 1976. Nesse longo período, apenas Hewitt (2005) e Pat Cash (1987-88) chegaram à final.

– Edberg foi o único campeão juvenil a vencer também entre os adultos. A chave deste ano tem Baghdatis, Monfils, Young, Tomic, Bhambri, Vesely, Kyrgios e Zverev como vencedores do torneio juvenil.

– Stepanek, 37 anos e 65 dias, é o mais velho participante, enquanto Taylor Fritz, 18 anos e 95 dias, é o mais jovem. Ambos furaram o quali. No feminino, Venus é mais velha, aos 35 anos e sete meses, e Kimberley Birrell a mais jovem, aos 17.

– Dos 128 participantes de simples, apenas 16 homens são canhotos.

– Espanha e França têm cinco cabeças de chave cada um. Há 15 espanhóis na chave masculina, apenas um a mais que os EUA e a dois da França. Mesmo com convites, Austrália só chegou a 9. A Argentina colocou 6. No feminino, os EUA lideram fácil, com 16 inscritas.

– Serena é a única profissional a ganhar o Australian Open seis vezes. A primeira delas foi em 2003.

– Schiavone perdeu no quali e não conseguiu igualar a marca de 62 Slam consecutivos que pertence a Ai Sugiyama.

– Nadal-Verdasco é o maior clássico da primeira rodada. Será o 18º duelo entre eles. Nadal lidera amplamente, com 15-2.

– Djokovic não perde para um tenista abaixo do 74º posto desde a derrota para Malisse no torneio de Queen’s em 2010.

– O adversário de pior ranking a derrotar Federer na Austrália foi Clement, então 54º, no torneio do ano 2000.

Federer faz oitava troca. E talvez a pior.
Por José Nilton Dalcim
9 de dezembro de 2015 às 19:25

Há duas verdades possivelmente absolutas sobre Roger Federer. Pode sem dúvida parecer o trabalho mais fácil para qualquer treinador, mas no fundo deve ser a tarefa mais difícil para o mais experiente técnico.

Teoricamente, é uma incrível vantagem você tentar propor alternativas táticas para um jogador de tão vastos recursos técnicos, capaz de fazer praticamente tudo com uma raquete e uma bola de tênis, seja em que piso for. Mas ao mesmo tempo, o que se pode ensinar a um jogador do tamanho de Federer? Pior ainda: até que ponto um megacampeão como ele estará disposto a ouvir críticas e conselhos?

Ao entrar em sua 19ª temporada como profissional, Federer acaba de anunciar a oitava troca no comando. E talvez tenha sido a pior delas, em termos práticos. Vamos a um rápido histórico.

O australiano Peter Carter foi quem conduziu Roger em seus dois primeiros anos de circuito, na famosa transição, entre 1998 e 1999. Aí veio a opção dolorosa porém acertadíssimo pelo sueco Peter Lundgren – o suíço sofreu por ter de se separar do amigo Carter, que ainda por cima morreria alguns anos depois -, o responsável pelo grande salto de sua carreira. Entre 2000 e 2003, Lundgren encorpou o jogo de Federer, conseguiu colocar sua cabeça no lugar e lhe deu enfim o Grand Slam tão cobrado.

Com o fim do relacionamento, Federer preferiu ficar sozinho e só voltou a ter um técnico fixo em 2006 e 2007, optando pelo australiano Tony Roche. Foi o auge total, transformou-se num tenista quase imbatível. A saída em 2007 deu lugar ao amigo de adolescência Severin Luthi, que permanece no time até hoje, num cargo entre conselheiro, mentor e confidente. Nos três anos seguintes, Roger agregou por curto período o espanhol Jose Higueras, em 2008. com quem pretendia evoluir no saibro. O fruto foi colhido na temporada seguinte com o troféu em Roland Garros.

Perdendo espaço para a nova geração – além do nêmesis Rafael Nadal, apareciam agora Novak Djokovic e Andy Murray como fortes adversários -, a saída foi chamar Paul Annacone em 2010. O competente americano ficou conhecido por dar o último Slam a Pete Sampras e de certa forma cumpriu a missão, ao levar o suíço ao histórico título de Wimbledon de 2012, quebrando todas as marcas e recuperando a liderança do ranking. Durante 2013, a dupla decidiu tentar a troca de raquete, mas muitos problemas físicos contribuíram para um ano sem graça.

Em outubro daquele ano, Federer anunciou o rompimento com Annacone, mas dois meses depois contratou Stefan Edberg, para o que deveria ter sido um período de trabalho. Primeiro como amigos, depois como parceiro de treinos e por fim como guru. O novo sueco na vida de Federer recuperou sua confiança, o levou de volta à rede, lhe deu talvez seu mais alto padrão técnico já visto.

O que será agora com Ivan Ljubicic? O croata tem vasto currículo como top 10, possui a preferência pelo estilo agressivo e acabou de passar dois anos como orientador de Milos Raonic. E o problema é justamente esse. Vimos muito pouco progresso no canadense nesse tempo todo, com pequeno desconto para suas contusões. Mas nada de um jogo de rede vistoso, que combinaria com seu fantástico saque e grande forehand. Não se viu o dedo do técnico croata em quase nada, exceto pequena melhora no backhand, que era um grande golpe de Ivan (que usa uma mão).

Minha impressão é que pela primeira vez Roger deu um passo para trás na troca de treinador. O que, aos 34 anos e num circuito extremamente vigoroso, pode ser uma notícia ruim.