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Para azar de Nadal, a NBA perdeu Kyrgios
Por José Nilton Dalcim
1 de julho de 2014 às 21:04

Se Nicklas Kyrgios tivesse seguido sua maior paixão, provavelmente Rafael Nadal ainda estaria agora sonhando com o tricampeonato em Wimbledon. O que esse australiano, que mistura sangue do pai grego com a mãe malaia, sonhava mesmo até os 14 anos era jogar na NBA, no seu Boston Celtics. Mas teve de optar, e seguiu o sonho da família: “Foi a decisão mais dura que já tomei”.

E que decisão. A partir desta terça-feira, ele deixa de ser uma promessa. Derrotou o número 1 do mundo no mais importante torneio do planeta em plena Quadra Central. A maioria treme só de pisar ali, mas desde o primeiro game ele mostrou uma maturidade assustadora, tal qual eu havia visto no jogo em que salvou nove match-points contra Richard Gasquet.

A euforia dos australianos quanto a seu futuro é plenamente justificável. Há dois meses, ele se tornou o primeiro jogador do país a vencer um torneio sobre o saibro em quatro anos. Desde abril, mora na base montada pela Tennis Australia em Munique e só tem previsão de voltar para casa, em Canberra, depois do US Open. Treinado pro Simon Rea, um dos técnicos oficiais da federação australiana, ele se diz inspirado por Pat Cash, Lleytton Hewitt e… Roger Federer.

O suíço convidou Kyrgios para ajudá-lo na preparação para Roland Garros deste ano. O garoto aproveitou cada minuto e, claro, virou fã: “É incrível como Roger trabalha duro, treina firme e ainda se diverte”, contou ele em entrevista ao Fox Sports. “Ele é o melhor de todos e ainda tenta evoluir a cada dia”. Por essas coisas do destino, Kyrgios está perto de algo inimaginável antes de Wimbledon começar: enfrentar o heptacampeão em plena semifinal.

“Acho que a grama combina muito bem com meu jogo”, avalia. “Sou um bom sacador que gosta de ser agressivo no fundo de quadra. São os dois elementos mais importantes em qualquer tipo de quadra, por isso consigo me dar bem também no saibro. Claro que ainda preciso ficar mais forte, mais resistente e somar experiências”.

O arsenal de Nick não é muito diferente de tenistas altos e esguios do circuito, como Marin Cilic. Usa o saque para tentar definir pontos ou aproveitar a segunda bola, com golpes de base muito consistentes. A diferença em favor do jovem australiano é que ele se desloca bem pela quadra, apesar de seus 1,93m, e os golpes de ataque são carregados de efeito e muito próximos à fita. Às vezes, próximos demais. Contra Nadal, fez bobagens junto à rede, mas já vi uma dezena de partidas dele e posso garantir que ele sabe sim volear, como fez contra Gasquet. Tem um extraordinário backhand cruzado e pode melhorar muito o da paralela.

Porém, toda essa qualidade fica ainda mais impactante quando se vê sua postura dentro de quadra. Aos 19 anos e praticamente saindo do juvenil, é frio nos pontos importantes, não vacila em arriscar um winner, tem incrível coragem quando apertado. Dos nove match-points que evitou contra Gasquet, pelo menos seis foram em bolas ousadas. Ganhou hoje dois tensos tiebreaks contra o melhor do mundo. O primeiro fechou com ace. O segundo, com um forehand cruzado espetacular. Quebrou Rafa no quarto game do quarto set e depois disso sacou três vezes, sem hesitar. Errou uma bola boba quando sacava para fechar a partida, e não se abalou um segundo sequer.

Nick terá menos de 24 horas para comemorar o feito. Já estará na Quadra 1 no final da tarde desta quarta-feira para um desafio completamente diferente: o saque e o forehand avassaladores do canadense Milos Raonic, mais um top 10 no seu caminho. Não dá para prever como o australiano irá reagir, e é claro que Raonic, mesmo em sua primeira grande campanha sobre a grama e vindo de ótima partida contra Kei Nishikori, será o grande favorito. Ao menos, um novo rosto está garantido na semifinal.

Outro duelo definido hoje será todo suíço e, com a queda inesperada de Nadal, deve haver motivação extra para Federer e Stan Wawrinka. Com ótimo aproveitamento do saque e dos voleios, Roger não deu chances a Tommy Robredo, como era de se esperar, e tem muito mais histórico nesse tipo de quadra do que o compatriota. Mas é bom ter cuidado, porque Stan fez uma bela exibição contra López, não permitiu um único break-point, ganhou 22 dos 25 pontos na rede e fez até saque-voleio.

A quarta-feira terá também o que pode ser outro grande jogo do torneio, entre Andy Murray e Grigor Dimitrov, outros dois tenistas de estilo muito apropriado para a grama. É o primeiro grande teste do escocês. Já Novak Djokovic é favorito absoluto para derrotar Cilic pela 10ª vez, ainda que o cabeça 1 deva estar preocupado com as zebras que galopam em Wimbledon nos últimos tempos.

Foi assim que Maria Sharapova se despediu ainda nas quartas de final, uma rodada depois de Serena Williams. A façanha coube à canhota alemã Angelique Kerber, que se defendeu com maestria. Ela volta à quadra hoje para encarar Eugénie Bouchard na esperança de fazer uma semi toda nacional contra Sabine Lisicki, que desafia Simona Halep. Jogos bem imprevisíveis, ainda que eu aposte 60% para Bouchard e Lisicki.

A República Tchca, por sua vez, se garantiu na final e verá o duelo de duas canhotas: Petra Kvitova e Lucie Safarova. A campeã de 2011 nunca esteve tão perto do bi e de uma reviravolta na carreira, que parecia um tanto apagada nos últimos tempos.

Ah, eu já sabia
Por José Nilton Dalcim
26 de maio de 2014 às 19:01

E não deu outra. A maioria já tinha previsto aqui que os dois favoritos que corriam maior risco de levar uma surpresa na primeira rodada de Roland Garros, caso não jogassem um tênis realmente competitivo, eram Stan Wawrinka e Kei Nishikori. Os dois pegaram adversários perigosos e foram uma decepção em quadra, o que se refletiu claramente no placar. O resultado, curiosamente, ajuda tanto Rafa Nadal como Novak Djokovic.

Embora não tenha dado desculpas, é possível perdoar Nishikori um pouco mais. Ele vem da incômoda lesão lombar, ficou de fora de Roma e certamente lhe faltou ritmo. Para piorar, encarou o canhoto Martin Klizan, ex-top 25, que é um jogador que aumenta a potência e a ousadia à medida que vai ficando confiante em quadra. Foi o que vimos no segundo e terceiro sets, em que atropelou o cabeça 9.

Stan foi uma decepção bem maior, não que o espanhol Guillermo Garcia-López tenha poucas qualidades e experiência. Mas é um tenista que deveria sofrer com o saibro pesado desta segunda-feira, marcada pela umidade altíssima, e que nunca passou de uma terceira rodada de Slam. O suíço nunca pareceu à vontade em quadra, nem mesmo quando ganhou o segundo set, e foi deprimente a forma com que andou em quadra no ‘pneu’ do quarto set. De certa forma, a atuação responde às perguntas sobre sua consistência física, técnica e principalmente mental pós-Australian Open. Ou seja, altos e baixos alucinantes.

Os superfavoritos Nadal e Djokovic passearam, tal qual havia acontecido com Roger Federer na véspera. Nole fez  o que quis, foi extremamente espirituoso na brincadeira com o boleiro – garantiu mais alguns torcedores, podem apostar – e Rafa mal teve um treino decente contra o quase aposentado Robby Ginepri. Fica muito mais a expectativa pelo duelo de quinta-feira contra a revelação austríaca Dominic Thiem. Em seu primeiro Slam, se o garoto conseguir três bons sets contra o número 1 já estará de bom tamanho.

Sofrimento – Thomaz Bellucci foi Thomaz Bellucci na estreia contra Benjamin Becker, ou seja, dominou o jogo com seus grandes golpes de base, mas se enrolou todo e colocou uma vitória tranquila sob risco. A se louvar a força mental e bom preparo físico com quem jogou o quinto set.

Será que dá para surpreender Fabio Fognini na quinta-feira? O italiano é mais tenista, sabe que tirar o peso da bola e chamar Bellucci para a frente são ótimas alternativas, mas também sai de sintonia com enorme facilidade. Então, vale torcer. Ok, eu sei, é sofrido, mas vale torcer. Afinal, não estamos em clima verde-amarelo? E vale lembrar: Bellucci derrotou o mesmo Klizan no Brasil Open de fevereiro.

E parabéns ao esforço do BandSports em colocar imagem numa quadra que originalmente não tem sistema de TV. Aliás, fará o mesmo às 6 horas desta terça-feira com Teliana Pereira. Show.

Meninas – O saibro é muito  menos propício a aventuras da nova geração para o tênis feminino, onde a experiência tem peso elevado. Daí vermos a fácil vitória de Venus Williams sobre Belinda Bencic ou o atropelamento de Smantha Stosur sobre Monica Puig. Mas ainda assim temos rostos diferentes, como a já estabelecida Eugênie Bouchard, ou a juvenil Taylor Townsend ou a ascendente Garbine Muguruza, que aliás terá duelo bem interessante contra Serena Williams na segunda rodada.

Façanhas e tabus
Por José Nilton Dalcim
25 de maio de 2014 às 22:25

O mais antigo Grand Slam da Era Profissional começou. Com apenas um cabeça de menor expressão derrotado em 16 jogos que envolveram favoritos e favoritas neste domingo, Roland Garros abriu sua 47ª edição desde que foi o primeiro Slam a admitir a entrada de profissionais e a pagar premiação por vitórias desde maio de 1968, inaugurando o que se chamou ‘Era Aberta’. (Foi na verdade uma jogada de marketing, porque os franceses souberam que Wimbledon iria abrir as portas aos então banidos profissionais e antecipou-se para garantir seu lugar na história).

Antes, julgo oportuno fazer um parênteses e contar, aos que talvez não saibam, que o tênis tem origem na França. Os clérigos, baseados nos rituais religiosos dos maometanos, que haviam invadido o Sul do país, adotaram um jogo que primeiro se chamou “La Soule” e depois ganhou sua denominação mais famosa, o “Jeu de Paumme”. Como diz o nome, lançava-se a bola com a palma das mãos, mas logo foi adotado o taco e depois um formato de raquete. Virou uma febre tão grande dentro dos mosteiros que a Igreja Católica o proibiu em 1245. Há uma teoria que acredita que a palavra “tênis” seria oriunda do francês “tenetz” ou “tenez”, expressão que equivale ao “play” de hoje para se iniciar a partida. Não é minha teoria predileta, mas deixemos isso para outra ocasião.

Esta é a 113ª vez que o campeonato é disputado, desde que foi lançado em 1891, apenas 14 anos depois de Wimbledon aparecer. Mas levou tempo para se admitir a presença de estrangeiros, o que só viria a acontecer em 1925. Desde então, o nome oficial se tornou ‘Campeonatos Internacionais da França’, que construiu o complexo de Roland Garros em 1928 para sediar não o torneio, mas a Copa Davis. Tornou-se assim a quarta e última perna dos Grand Slam, que já tinha os EUA e a Austrália, com a exclusividade de ser disputado na terra batida e não na grama. O termo ‘Grand Slam’ na verdade surgiu bem depois, em 1933, retirado do bridge e usado pelo jornalista John Kieran, do New York Times, para definir o feito que Jack Crawford buscava, que era ganhar os quatro campeonatos.

Isto posto, vale listar aqui façanhas e tabus que estão em jogo neste Roland Garros pelas principais estrelas.

Cinco seguidos – Apenas dois profissionais conseguiram cinco Slam consecutivos, algo que Rafa Nadal poderá atingir neste Roland Garros. Eles foram Bjorn Borg, em Wimbledon, e Roger Federer, tanto em Wimbledon como no US Open. Roy Emerson também foi penta seguido na Austrália (era amadora) e o recordista é Bill Tilden, que venceu seis vezes nos EUA na década de 1920.

Maior vencedor – Nadal e Federer lutarão palmo a palmo pela liderança de vitórias em Paris. O espanhol tem 59 (em 60 possíveis), número que Federer alcançou neste domingo ao estrear com fácil vitória sobre Lukas Lacko (mas tem 14 derrotas). Os dois deixaram Guillermo Vilas e suas 58 (com 17 quedas) para trás.

Em dobro – Stan Wawrinka tenta ser apenas o quarto profissional a ganhar os dois primeiros Slam de uma temporada, façanhas obtidas por Rod Laver em 1969 (ganharia na verdade os quatro), Mats Wilander (1988) e Jim Courier (1992).

Absoluto – Em 84 partidas disputadas sobre o saibro em partidas de melhor de cinco sets, Nadal perdeu apenas uma vez, para o sueco Robin Soderling, em Paris de 2009. O espanhol detém também a maior série invicta sobre o saibro, com 81, entre a primeira rodada de Monte Carlo de 2005 e a final de Hamburgo de 2007. No feminino, o feito é ainda mais impressionante: Chris Evert ficou 125 jogos invicta no piso, entre agosto de 1973 e maio de 1979

Inédito – Se Nadal mantiver o amplo favoritismo sobre Robby Ginepri, Roland Garros continuará sendo o único dos Slam em que o campeão do ano anterior jamais perdeu na primeira rodada na edição seguinte. Nos outros três Slam, isso aconteceu no total de quatro vezes.

O rei dos Slam – Federer anotou neste domingo sua 266ª vitória em Slam (contra 42 derrotas), marca insuperável. Na verdade, deixou Jimmy Connors (233-49) bem para trás. Se Nadal vencer nesta segunda, iguala Stefan Edberg, com 178, no sétimo lugar. O espanhol no entanto perdeu apenas 24 vezes. Federer também lidera em Slam consecutivos jogados (agora 58) e chega ao 60º Slam da carreira, empatado com Lleyton Hewitt, 10 atrás de Fabrice Santoro.

Velhos heróis – A edição 2014 de Roland Garros já bateu um recorde: é a que tem maior número de tenistas masculinos na chave principal de simples com mais de 30 anos. São 38 no total, um a mais que em 2012. O mais veterano é o alemão Tommy Haas, com 36 anos e 66 dias. Na chave feminina, em contraposição, são apenas 17, com destaque para os 43 anos de Kimiko Date-Krumm.

O 1 não é tudo – Desde o ano 2000, apenas duas vezes o cabeça de chave 1 conquistou o título masculino: Guga Kuerten, em 2001, e Nadal, em 2011.

Jejuns dolorosos – Potências do tênis, França e EUA amargam a falta de títulos de Slam. Em casa, os franceses não vencem desde 1983 entre os homens e não vê um finalista desde 1988. Já os americanos, que em toda a Era Profissional só conquistaram quatro troféus em Paris, completaram 41 Slam sem conquista no último Australian Open, a maior ‘seca’ de sua história.