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Djoko enfim se rende, Stan sonha
Por José Nilton Dalcim
2 de setembro de 2019 às 00:34

Enquanto não encontrou um adversário que exigisse muita força dos seus braços, Novak Djokovic segurou o tranco. Stan Wawrinka no entanto está num outro patamar. O saque e os golpes de base são muito pesados, machucam no impacto e isso me parece foi minando as energias do número 1 até que, no começo do terceiro set, já não era mais possível ser competitivo e ele acertadamente se retirou para não causar ainda mais danos ao ombro esquerdo problemático.

Wawrinka não lhe deu alternativas. Forçou muito o jogo o tempo inteiro e esteve soberbamente eficiente. Cruzou seu espetacular backhand à exaustão e, apesar de Djokovic ter feito ótimas paralelas e suportado trocas de grande intensidade, deve ter feito estragos. O sérvio não sacava o máximo que podia, apesar de ter escapado diversas vezes de apertos com grandes serviços, e chegou a abrir 4/1 no segundo set, dando a impressão que ainda poderia reagir.

Quando Stan recuperou a quebra, a situação ficou delicada. Nole ainda fez 5/4, mas daí em diante se percebia pressa cada vez maior em concluir os pontos. E com ela vieram os erros, a perda do segundo set e o pedido de atendimento médico. Três games depois, com golpes totalmente descalibrados, o sérvio se rendeu ao que parecia inevitável desde a segunda rodada. Ele fez de tudo para se recuperar e esconder a extensão da lesão. O primeiro jogo realmente exigente deixou clara a debilidade física.

Não se pode dizer que Wawrinka venceu apenas porque Nole baixou o rendimento. O suíço jogou em nível muito alto e foi justamente isso o que causou os buracos na defesa sérvia. Na maior parte do tempo, o suíço teve paciência para construir pontos e defendeu-se com maestria em diversas oportunidades. E merece esse sucesso após encarar cirurgia no joelho e lenta recuperação. Enfrentará agora o também fragilizado Daniil Medvedev e tem todo o direito de sonhar em ir mais longe. O bi parece menos improvável.

Os velhinhos seguem à frente
Multicampeões atrás de retomar seus troféus, Roger Federer e Serena Williams não tiveram dificuldade para avançar e marcar novos feitos. Enquanto o suíço somou a 56ª presença em quartas de Grand Slam, ampliando seu recorde absoluto, a norte-americana chegou a 52 e ameaça Chris Evert, apenas dois à frente.

Federer só teve dois ou três games instáveis no começo da partida, sofrendo quebra. Mas David Goffin jamais tomou atitude, manteve-se incrivelmente passivo o tempo todo e só tirou outro saque de adversário, já no 3/1 do segundo set, porque o suíço cochilou. O mérito de Federer foi optar por sufocar o belga o tempo inteiro e obviamente a vantagem no placar lhe deu enorme confiança para jogar muito solto. Agora, reencontra o amigo e ‘freguês’ Grigor Dimitrov, contra quem tem 7 a 0.

Para Serena, no entanto, nem tudo foram sorrisos. Ela torceu o pé direito na metade do segundo set. Em janeiro, aconteceu algo parecido quando ela tinha 5/1 sobre Karolina Pliskova, o que lhe custou a derrota. Desta vez, completou a vitória sobre Petra Martic com 37 a 11 nos winners.

A vitória foi um bom presente de aniversário para a filha Alexis Ilympia, que completa dois anos. Vale lembrar que Serena ainda não conquistou um único título no circuito desde que se tornou mãe.

E mais
– Dimitrov fez 3 sets a 0 sobre Alex di Minaur, mas o jogo foi parelho o tempo todo e decidido no oportunismo do búlgaro na hora das quebras. É a primeira vez que Dimitrov está nas quartas dos EUA. Ele tem semi na Austrália-17 e em Wimbledon-14.
– Novamente sob vaias, Medvedev oscilou muito diante do corajoso quali alemão Dominik Koepfer. Russo admitiu estar muito cansado e que tomou analgésico para dor no ombro direito. Aliás, também apresentou proteção na coxa esquerda. Nunca havia ido tão longe num Slam e soma agora 18 vitórias em 20 jogos ao longo de quatro torneios na quadra dura do verão norte-americano.
– Apesar da frustrante derrota, Barty ainda pode recuperar a liderança do ranking. Basta torcer para que Naomi Osaka não seja bicampeã. A australiana cometeu 39 erros não forçados contra 14 da chinesa.
– Aos 27 anos, Qiang Wang jamais havia passado da 3ª rodada de qualquer Slam. Mostrou muita frieza, salvando todos os nove break-points que encarou diante de Barty.
– Adeus a mais um sonho de Karolina Pliskova conquistar seu Slam, mas a esperança de Jo Konta continua. A britânica aliás fez semi em Paris e quartas em Wimbledon deste ano também. Encara agora um pequeno tabu, já que perdeu todos os quatro jogos contra Elina Svitolina
– Muito consistente, ucraniana lucrou em cima dos 40 erros de uma desfocada Madison Keys e chega pela primeira vez nas quartas do torneio. Svitolina vem de semi em Wimbledon.

Para a história
Federer chega a 13 quartas no US Open, igualando-se a Andre Agassi. Dado curioso levantado pela ATP, nenhum tenista ganhou em Flushing Meadows até hoje depois de perder o primeiro set nas duas primeiras rodadas. Suíço fez até agora os dois jogos mais rápidos do Open nesta edição: 1h20 contra Evans e 1h19 frente Goffin.

Djokovic espanta fantasmas e urubus
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2019 às 01:18

O clima era todo de suspense. Novak Djokovic não treinou na quinta ou na sexta, chegou apenas às 19h locais ao estádio, exibiu faixas no ombro esquerdo antes de iniciar o aquecimento leve e até discutiu feio com um espectador mais afoito. Os jornalistas em Nova York apostavam que não ele não entraria em quadra. E se fosse, estaria inteiro? Conseguiria soltar os golpes?

Desde o bate bola, o sérvio mostrou firmeza. Ao longo do primeiro set, deu poucos sinais de estar ainda com algum desconforto, refletidos pela velocidade mais baixa do primeiro saque, em média 181 km/h, e no uso bem mais frequente dos slices de backhand. Em um momento ou outro, fez o gesto típico de quem queria descontrair o ombro.

Mas o importante é que a qualidade estava lá. Sólido no fundo de quadra, com grande variedade de opções táticas, encarou um animado adversário que brigou o tempo inteiro, construiu sete chances de quebra, arriscou mais do que o comum e acabou por valorizar a vitória, bem mais exigente do que indica o placar. Nole jamais pediu atendimento médico e fez jogadas magníficas, com diversos lances de total improviso e perfeição.

Quem gosta de tênis, só pode comemorar a recuperação de Djokovic. Porque no domingo verá o tão aguardado reencontro com o suíço Stan Wawrinka, sempre um tenista capaz de complicar a vida de qualquer dos Big 3. Aliás, Nole e Stan não se cruzaram mais desde a histórica final do US Open de 2016, em que o suíço estava num dia iluminado e conseguiu a virada. O placar geral no entanto é de 19 a 5 para o sérvio, que ganhou outros dois duelos que aconteceram em Flushing Meadows, em 2012 e 2013.

Federer on fire
Ao contrário das duas rodadas anteriores, Roger Federer entrou aceso para a partida diante do britânico Daniel Evans e dominou o jogo em todas as partes da quadra, desde o saque até as devoluções e o trabalho de rede. Selou a rapidíssima vitória de 79 minutos com números expressivos: 48 winners, sendo10 aces; 67% de acerto do primeiro saque e 80% de sucesso; 26 pontos obtidos nas 37 subidas à rede, alguns espetaculares.

Só perdeu o bom humor quando questionado na entrevista oficial sobre o suposto favorecimento apontado por Evans, que reclamou do pouco tempo de descanso, já que havia jogado na véspera devido à chuva de quarta-feira. “Estou cansado disso”, disparou. Interessante também foi sua avaliação sobre o que é jogar no sol da tarde: “O jogo fica muito mais rápido do que à noite. Até mesmo se comparado ao da quadra coberta”.

Será então que ele prefere reencontrar David Goffin fora da sessão noturna? O belga suou para superar Pablo Carreño, tendo salvado três set-points no segundo tiebreak e depois virado 3/5, com mais dois set-points, na outra série. Seu retrospecto contra o suíço é de 8 derrotas em 9 encontros. A se considerar, vive uma fase de ascensão técnica e mental depois do saibro europeu, tendo vencido desde então 18 de seus 24 jogos, a maior parte deles em pisos mais velozes.

Barty e Serena se aproximam do duelo
Com saque afiado, que lhe garantiu 11 aces, Ash Barty passou sem sustos por Maria Sakkari, repetindo Cincinnati dias atrás, e se tornou a única tenista na temporada a estar pelo menos nas oitavas de todos os quatro Grand Slam. Precisará agora encarar a consistência da chinesa Qiang Wang, número 18 do mundo.

Aproxima-se assim o esperado duelo com Serena Williams. A grande estrela da casa atropelou Karolina Muchova, inesperada quadrifinalista de Wimbledon, com uma bela mistura de 20 winners e 15 erros. Nas oitavas, enfrentará pela primeira vez a croata Petra Martic, 22ª do ranking e com história de superações na carreira.

E mais
– Aos 20 anos, Alex de Minaur consegue dois feitos: primeira vitória sobre top 10 na 12ª tentativa, ao tirar Kei Nishikori, e primeira vez nas oitavas de um Slam. Foi muito mais sólido: 29 erros diante de 60 do cabeça 7.
– Seu adversário será o búlgaro Grigor Dimitrov, que enfim dá sinais de reação. E olha, embora lucky-loser, o polonês Kamil Majchrzak é um bom jogador de tênis, muito agressivo. Será o primeiro duelo entre De Minaur e Dimitrov.
– Que jogaço entre Daniil Medvedev e Feliciano López. O russo se indispôs com a torcida ainda no primeiro set, fazendo gesto obsceno, mas não perdeu a cabeça e aguentou as 85 subidas à rede do canhoto espanhol, que ganhou 60 desses lances e deu show. Quando começou o torneio, Medvedev dizia que sua dificuldade era ganhar jogos longos e difíceis, então está indo muito bem. Levou uma tremenda vaia no fim do jogo. Vem agora uma surpresa e tanto: o canhoto Dominik Koepfer, alemão saído do quali que bate uma barbaridade na bolinha.
– Karolina Pliskova levou susto quando perdeu o tempo do saque no começo do segundo set e ofereceu incríveis 23 break-points a Ons Jabeur. Será favorita diante de Jo Konta, contra quem tem 6 a 1 nos confrontos diretos.
– A rodada noturna confirmou o interessantíssimo duelo entre Madison Keys e Elina Svitolina, mas as duas tiveram caminhos distintos para a classificação. Keys fez um primeiro set incrível contra Sofia Kenin até cair repentinamente na intensidade e quase se enrolou. Já a ucraniana arrasou Dayana Yastremska. Avizinha-se um duelo de ataque contra defesa, repetindo as oitavas de Melbourne meses atrás, onde deu Svitolina.

Para a história
Faltam duas vitórias para Serena chegar à 100ª no US Open, marca que apenas Chris Evert obteve em Nova York (101). A única outra tenista a ter número centenário em Slam é Martina Navratilova, com 120 em Wimbledon. Serena joga o US Open pela 19ª vez e só não chegou às oitavas na sua estreia, em 1998.

Meninas roubam a cena no US Open
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2019 às 01:13

Se a Next Gen masculina tem sofrido para arrancar grandes resultados dos mais experientes do ranking, principalmente nos Grand Slam, o circuito feminino está repleto de meninas cheias de vontade. E nada melhor do que duas pratas da casa para roubar a cena do US Open: Taylor Townsend e Coco Gauff foram os grandes destaques da quinta-feira em Nova York.

Townsend tem uma história controversa. Tida como grande promessa desde os 15 anos, não conseguia se livrar do excesso de peso e viu retirada a ajuda oficial da USTA por não entrar na considerada forma física ideal. Canhota, ela sempre se virou na base do talento e o que fez contra Simona Halep foi incrível: ao melhor estilo Martina Navratilova, sacou com slices e subiu à rede até mesmo atrás do segundo saque, colocando pressão constante na campeã de Wimbledon, que não achou um jeito de contornar a súbita mudança tática da adversária.

Taylor jamais foi uma tenista de saque-voleio, aliás nem tem um excepcional jogo de rede, mas a ousadia justificou a vitória. Terminou o jogo com 105 subidas, tendo feito apenas 16 no primeiro set mas 63 no terceiro. Não menos curioso: de seus 96 pontos na partida, 63 vieram com voleios ou com a pressão em cima de Halep e apenas 23 com erros não forçados da número 4 do mundo. Townsend enlouqueceu a torcida e analistas, caiu em lágrimas na entrevista em quadra e provou que vale a pena continuar tentando.

Na rodada noturna, Gauff voltou a brilhar, não apenas pelo tênis maduro mas pela postura profissional e jamais deslumbrada, algo difícil para quem tem apenas 15 anos. Fez um pouco de tudo. Ganhou o primeiro set de Timea Babos de forma conservadora, trabalhando cautelosamente os pontos, mas depois da reação da húngara percebeu que teria de arriscar para se antecipar e tomar mais conta dos lances. Sua média de primeiro saque beirou os 170 km/h e saiu de quadra com 83% desses pontos vencidos. Agora, nada menos que Naomi Osaka.

Masculino: o lado de cima
Os onze jogos da parte superior da chave não realizados na quarta-feira obrigarão seus vencedores a voltar à quadra nesta sexta-feira e alguns terão tarefas indigestas. O local Denis Kudla ganhou o direito de encarar o número 1 Novak Djokovic pelo segundo Slam seguido, tendo vencido apenas oito games em Wimbledon semanas atrás, e o habilidoso Daniel Evans tirou Lucas Pouille e reencontrará Roger Federer com placar de 0-8 em sets.

Stan Wawrinka se candidata a desafiar Nole nas oitavas se superar Paolo Lorenzi, que suou 4h48 para avançar no quinto set. Danill Medvedev cedeu um set, sentiu cãibras e pega outro veteraníssimo, Feliciano López, que ao menos não é de trocar muitas bolas. Claro que fica a expectativa sobre o problema no ombro esquerdo do sérvio, que passou por ressonância e não aparentou problema mais sério. Kudla não tem poder de fogo para incomodar tanto.

Jogo bem interessante envolverá David Goffin e Pablo Carreño, possíveis adversários de Federer nas oitavas, que primam por um jogo compacto na base e um bom trabalho de pernas.

Masculino: a parte inferior
Rafael Nadal nem precisou entrar em quadra e sempre fica a dúvida de quanto isso é realmente bom, ou seja, passar três dias sem competição real logo no início de um Slam. Ele vai pegar o esforçado Hyeon Chung e vislumbra John Isner, já que Marin Cilic continua em momento sofrível. Alexander Zverev manteve o padrão, já soma 10 sets e abre oportunidade para Diego Schwartzman ou até Tennys Sandgren se aventurarem por ali.

O outro quadrante está bem mais empolgante e já reserva Nick Kyrgios x Andrey Rublev e Gael Monfils x Denis Shapovalov nesta terceira rodada, mas ali no meio está também Matteo Berrettini, italiano de grande saque e que, num grupo de gente tão instável emocional ou fisicamente, pode muito bem tirar proveito.

Destaque
É excelente rever Chung em alto nível. O coreano de apenas 23 anos tem vivido tremendos altos e baixos desde que surgiu como grande sensação da nova geração, ainda em 2015. As contusões não o deixaram em paz e ele seguidamente interropeu a carreira para tratar dos mais variados problemas. Fez uma incrível semi no Australian Open do ano passado, superando até Djoko e chegando ao top 20, porém no meio do ano sucumbiu outra vez ao físico, agora panturrilha, lombar e até bolha. Deixou de jogar 11 torneios desde maio e ainda abandonou outro. Retornou agora em janeiro, mas em seguida sentiu as costas. Outra longa parada. Há poucas semanas, recomeçou em challengers. Passou o quali do US Open e terá a terceira chance de encarar Nadal. Em 2017, perdeu as duas sempre em sets diretos, mas levou Rafa ao tiebreak no saibro de Barcelona.

Para a história
– Batido por Chung, o veterano Fernando Verdasco, 35 anos, jogou a 48ª partida que foi até o quinto set, sofrendo a 23ª derrota. Pela sexta vez, levou virada tendo vencido os dois primeiros sets. Ele também ganhou outras seis após ter perdido os dois sets iniciais. Mais cruel ainda, sacou para a vitória com 5/4 no quinto set diante do coreano, fez um game tenebroso e desperdiçou um match-point no 6/5.
– Segundo a ATP, esta é a primeira vez na Era Profissional que o US Open tem três tenistas com 37 anos ou mais na terceira rodada: Federer, López e Lorenzi.