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Stan vive dia de Stan
Por José Nilton Dalcim
2 de outubro de 2020 às 18:02

Um primeiro set fulminante diante de um garoto francês que nunca havia vencido em nível ATP até segunda-feira. Parecia que Stan Wawrinka teria poucos problemas para garantir o bombástico encontro com Dominic Thiem nas oitavas de final de Roland Garros. Mas Hugo Gaston, de 20 anos e 1,72m, tinha suas armas. Canhoto de boas pernas, usou bem o saibro pesado, encheu o poderoso adversário de curtinhas e mexeu com a cabeça do campeão de 2015.

Não se pode de forma alguma diminuir os méritos do último e certamente menos cotado francês vivo na chave, mas o fato é que Wawrinka viveu aqueles seus dias. Acima de tudo, pecou por insistentes escolhas mal feitas de jogada. Depois, parecia irritado com a quadra pesada e, mesmo tendo empurrado o jogo ao quinto set, estava cada vez mais lento. Não teve o menor poder de reação e levou um ‘pneu’ do 239º do mundo, que foi às lágrimas.

Quem ficou aliviado foi Thiem. Claro que nunca se deve menosprezar qualquer oponente, mas diante do quadro difícil pela frente é muito menos complicado enfrentar um jogador de pouquíssima experiência. Outra vez, o austríaco começou em velocidade de cruzeiro e viu o competente Casper Ruud abrir 3/1. Nenhum tenista gosta de entrar em quadra tão cedo – 11h locais -, o que muda muito a rotina, e sinto que possa ter sido outra vez o caso dele. Quando se sentiu mais à vontade, dominou.

E olha que Diego Schwartzman também deu um susto, não conseguiu segurar a pancadaria desenfreada de Norbert Gombos e viu o eslovaco sacar para o primeiro set. Conseguiu reagir, levou ao tiebreak e só então tomou rédeas da situação. Seu adversário será o italilano Lorenzo Sonego, uma considerável surpresa, nem tanto pelo estilo porém pela cabeça frágil. Ele no entanto venceu dois tiebreaks de Taylor Fritz, um deles de 19-17, e mereceu.

Passeio de Nadal, firmeza de Zverev
Três jogos e apenas 19 games perdidos é a sossegada contabilidade de Rafael Nadal nesta primeira semana. O italiano Stefano Travaglia nem joga mal no saibro mas, como acontece com todo jogador que enfrenta o terror dos efeitos do canhoto espanhol pela primeira vez, não achou jamais um jeito de devolver com qualidade e dar real trabalho. Gostei de ver Rafa bem mais agressivo que nos jogos anteriores.

Seu adversário de domingo será o norte-americano Sebastian Korda, também sem currículo expressivo, que veio do quali, tirou John Isner e atropelou o especialista espanhol Pedro Martinez. Duvido que o filho de Petr Korda roube set de Nadal.

Muito promissor será o duelo entre Alexander Zverev e Jannik Sinner, aí sim dois jogadores que podem competir melhor com o multicampeão. Sascha aparentemente segue bem a cartilha de David Ferrer. Mostrou-se muito sólido mas também oportuno na variação diante do bom Marco Cecchinato. E Sinner, o italiano de 19 anos, segue fora dos holofotes sem perder um único set. Os dois nunca se enfrentaram, o que dá mais tempero.

Doce vingança
Mais uma grande atuação de Simona Halep. Desta vez, atropelou a mesma Amanda Anisimova que a havia surpreendido nas quartas do ano passado, quando buscava o bi em Paris. A romena não deu brechas e obrigou a jovem norte-americana a arriscar, resultando num caminhão de 30 erros, mais de dois por game.

Encara agora a também jovem Iga Swiatek, porém a polonesa de 19 anos e 53ª do ranking já tem estrada. Tenta atingir as oitavas pelo segundo ano consecutivo, em janeiro esteve na quarta rodada do Australian Open e há poucas semanas ganhou dois jogos em Flushing Meadows. Quem vencer, terá pela frente Kiki Bertens, que não sentiu sequelas da maratona contra Sara Errani, ou a surpresa Martina Trevisan.

Elina Svitolina fez outra boa partida e não vê mais cabeças nas duas próximas rodadas. Caroline Garcia, dona de recursos, tremeu de forma irritante antes de vencer outro jogo na Chatrier. Já Nadia Podoroska, de 23 anos, recoloca o tênis feminino argentino nas oitavas, o que não acontecia desde Gisele Dulko em 2011. Venceu já seis jogos, incluindo o quali, e tem chance diante da tcheca Barbora Krejcikova.

Aliás, são três fora do top 100 garantidas nas oitavas: Trevisan (159), Podoroska (131) e Krejcikova (114), com as duas primeiras tendo saído do quali. Krejcikova dedicou a vitória à falecida Jana Novotna, que faria aniversário hoje.

E mais
– Soares e Pavic ganharam a segunda partida e estão nas oitavas de duplas. Agora vêm os sempre perigosos Jean Rojer e Horia Tecau. A chave prevê cruzamento na semi contra os cabeça 1 Cabal/Farah.
– Stefani e Carter também avançaram e irão reencontrar a mesma parceria japonesa que ganharam no US Open, Ayoama/Shibahara. O perigo maior está nas eventuais quartas contra as cabeças 1 Hsieh/Strycova.
– Djokovic tenta a 11ª presença seguida em oitavas de Paris, o que igualaria o recorde atual de Nadal e Federer.
– Bautista e Carreño já fizeram semi de Slam, mas longe do saibro: um em Wimbledon, o outro no US Open.
– Garin pode ser primeiro chileno na quarta rodada de um Slam desde Fernando Gonzalez no AusOpen-2010.
– Dimitrov tenta pela quinta vez chegar enfim nas oitavas de Roland Garros.
– Monteiro perdeu o único duelo para Fucsovics, no saibro de Munique, no ano passado, mas foram três duros sets: 6/7 6/4 6/3.
– Há mais duas meninas fora do top 100 na rodada deste sábado: Irina Bara (142) e Clara Burel (415).
– Kvitova, 11º, e Fernandez, 100º, fazem pouco comum duelo de canhotas em Roland Garros.

Festa e recorde dos italianos
Por José Nilton Dalcim
30 de setembro de 2020 às 20:16

O tênis italiano já teve dias de glórias em Roland Garros. A maioria aqui nem havia nascido nos tempos de Nicola Pietrangeli, talvez nem de Adriano Panatta, mas quem sabe nos de Francesca Schiavone. Nesta quinta-feira, quatro homens – recorde na Era Aberta em qualquer Grand Slam – e uma mulher avançaram à terceira rodada e é bem provável que Matteo Berrettini, o melhor de todos no ranking, se junte a eles.

Marco Cecchinato já brilhou em Paris, há três anos, com uma inesperada semifinal e não vingou. Jannik Sinner tem um potencial notável, indicado pela ATP tempos atrás como dono do backhand mais veloz do circuito. Os dois estão no caminho de Alexander Zverev, que foi levado a cinco sets pelo voleador Pierre Herbert. Cecchinato é o adversário imediato do alemão e é bem provável que Sinner seja o seguinte. Não dá para desconsiderar a hipótese de vermos o garoto de 19 anos e em seu segundo Slam desafiar Rafael Nadal nas quartas.

Aliás, Stefano Travaglia é o próximo na lista de Nadal, que continua em ritmo de treino. Travaglia não é mau jogador no saibro, usa variados recursos como o piso exige. Mas, aos 28 anos, nunca sequer entrou no top 70 e agora, em seu nono Slam, finalmente ganhou dois jogos seguidos. Merece crédito pela vitória suada diante de Kei Nishikori, num jogo de 101 erros não forçados dos quais 50 foram do italiano.

Lorenzo Sonego avança num setor esvaziado da chave e tem chance contra Taylor Fritz, mas dificilmente passará por Diego Schwartzman em eventuais oitavas, ainda que seja um top 50 de 25 anos e com jeito para jogar bem na terra. Saca forte, gosta de atacar mas é muito inconsistente.

Boa surpresa mesmo causou Martina Trevisan, canhota de apenas 1,60m. Passou o quali para jogar seu primeiro Slam aos 26 anos e mostrou eficiência defensiva além de cabeça boa para virar o jogo em cima de Cori Gauff. A tarefa contra a versátil Maria Sakkari não vai ser fácil. Vale lembrar que Monica Seles foi a última canhota a ganhar Roland Garros há 28 anos.

A única marca ruim do tênis italiano ficou por conta de Sara Errani. Não por sua derrota de 3h11, onde lutou bravamente como sempre, mesmo por vezes tendo de sacar por baixo tal a falta de sincronia de movimento. Mas pela ironia e desdém com a adversária, que parecia ter problemas físicos claros. Acusou Kiki Bertens publicamente de fingir contusão, ainda que a holandesa tenha sofrido cãibras e saído da quadra de cadeira de rodas. Não ficou bonito. (Veja aqui as cenas)

Dia agitado
Rafael Nadal brigou mais com as rajadas de vento do que contra o tênis quadradinho de Mackenzie McDonald, cujo maior feito foi tentar um saque por baixo (veja que bizarro), muito mal feito diga-se. Não tenho dúvidas que o espanhol reservou uma quadra para treinar à tarde, porque o jogo não valeu quase nada.

Dominic Thiem quase se enrolou no terceiro set contra Jack Sock, mas evitou o desgaste físico bobo. Vai ter uma terceira rodada interessante contra Casper Ruud, ou seja, dos favoritos é quem vem sendo realmente testado. E não para por aí: é quase certo que nas oitavas surja Stan Wawrinka no caminho e, depois, Diego Schwarztman. Dá para ser pior?

O feminino, ao contrário, viu baixas de peso. Serena Williams nem entrou em quadra devido ao tendão de Aquiles problemático e Vika Azarenka fez um jogo ruim e pouco inspirado. Além do sufoco de Kiki Bertens, sobrou ‘pneu’ para Elina Svitolina.

Tudo aponta cada vez mais na direção da romena Simona Halep, que ficou na Europa e só jogou no saibro desde o retorno do circuito. Amanda Anisimova merece cuidado, mas os golpes retinhos não devem incomodar na lentidão de Paris.

Saiba mais
– Zverev correu risco o tempo todo contra um inspirado Herbert, que foi magnífico nos voleios e nas deixadas mas, como sempre, falhou bisonhamente em lances capitais. O francês que resta agora é o canhoto Hugo Gaston, 20 anos e bom jogador, mas que terá Wawrinka pela frente.
– Além de El Peque, o tênis argentino avança com Federico Coria e Nadia Podoroska, que tiraram cabeças de chave. Guido Pella pode se juntar a eles se vencer Carreño.
– Eugenie Bouchard fez jus ao convite e pela primeira vez desde janeiro de 2017 ganhou dois jogos seguidos de Slam. Ela hoje é 168 do ranking.
– Três qualis estão na terceira rodada masculina: Cecchinato, Martinez e Korda.
– Acorde cedo para torcer por Thiago Monteiro: ele fará o primeiro jogo da quadra 4, portanto às 6h, contra Marcos Giron.
– Dia importante para Djokovic: se vencer Berankis, somará 70ª vitória em Roland Garros, igualando Federer e ficando somente atrás de Nadal.
– Tsitsipas e Rublev, depois das viradas de 0-2, podem precisar de fôlego diante de Cuevas e Fokina.
– Pliskova e Ostapenko fazem o grande duelo feminino da quinta. Tcheca tem 4-2 no histórico.

A hora dos saibristas
Por José Nilton Dalcim
27 de setembro de 2020 às 20:10

A combinação tão diferente deste Roland Garros não está agradando a maciça maioria dos jogadores, desde os favoritos até os que estão lá atrás no ranking, mas o tênis talvez ganhe algo interessante com quadra pesada e bola lenta: a volta dos autênticos saibristas.

Alguns homens merecem uma observação mais apurada, além é claro dos três grandes candidatos ao título. Quem viu a desenvoltura de Andrey Rublev em Hamburgo e de Jannik Sinner em sua estreia em Paris devem ter percebido que os garotos se viram bem nessas condições, digamos, mais radicais, que exigem um tripé complexo formado de potência, perna e paciência.

E é fácil incluir aí o rodado Diego Schwartzman e ter certa esperança que Alexander Zverev se inspire em David Ferrer. A potência que sobra ao alemão falta para o argentino, mas podemos dizer exatamente o inverno das pernas. Se El Peque tem paciência e solidez, Sascha possui boa mão para a transição cuidadosa para os voleios. Ele aliás cravou 10 aces.

É possível que eu esteja com otimismo exagerado, mas gostei do que esses jogadores mostraram neste domingo de garoa fina irritante, em que também economizaram energia. Poderíamos incluir nessa lista de saibristas autênticos Stan Wawrinka e Marco Cecchinato.

O suíço teve pouco trabalho com um Andy Murray claramente sem armas no saibro úmido, mas sempre fica a dúvida de quanto Stan está com físico e com cabeça para a tarefa tão difícil que é construir pontos nessa lentidão toda. O italiano nunca mais foi o mesmo depois da semi de três anos atrás, mas é um típico jogador para esse novo Roland Garros.

Os primeiros jogos femininos também me agradaram porque mostraram algumas variações táticas interessantes, com apostas óbvias nas curtinhas, pouca importância ao primeiro saque e a evidência de que é possível sim machucar com um topspin mais profundo.

Simona Halep ganhou 10 games seguidos, Victoria Azarenka foi firme da base e Elise Mertens se mexeu muito bem. Mas isso não é lá muito novidade. São três nomes para ir muito longe nesse lado superior da chave.

Duas outras tenistas que encantaram pela ousadia. A adolescente Cori Gauff não se afastou tanto da linha e manteve seu padrão bem ofensivo diante de uma Johanna Konta que foi semi no ano passado. E Caroline Garcia comprovou que, apesar de tudo, é plenamente possível jogar na rede.

Foi um primeiro dia divertido.

Saiba mais
– Nishikori bateu Evans e manteve sua notável performance em jogos que vão a cinco sets. Foi o nono consecutivo que venceu. Em Roland Garros, sua marca agora é de 6 em 7. Na carreira, ganhou 24 de 30.
– Venus só venceu um jogo em oito torneios na temporada e sofreu a terceira queda na estreia de Paris. Nos seis últimos Slam disputados, só avançou uma rodada.
– Halep festejou em quadra seu 29º aniversário. Consciente das limitações do piso, colocou 81% do primeiro serviço em quadra.
– Nadal enfrenta Gerasimov, 83º do ranking. A única vez que perdeu para um tenista de ranking semelhante no saibro foi em 2004.
– Cilic e Thiem são o 149º e o 150º campeões de Slam da história e se cruzaram semanas atrás no US Open, com vitória do austríaco em 4 sets.
– Medvedev tenta sua primeira vitória em quatro participações em Roland Garros contra Fucsovics, contra quem penou para ganhar em Monte Carlo de 2018.
– Monfils joga sua 50ª partida em Roland Garros contra Bublik, que soma apenas 4 vitórias no saibro em torneios de primeira linha (e 2 delas em Hamburgo da semana passada).
– Serena encara Ahn, que exigiu no recente US Open: 7/5 e 6/3. Será a partida de número 408 em Slam para Williams.