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Djokovic espanta fantasmas e urubus
Por José Nilton Dalcim
31 de agosto de 2019 às 01:18

O clima era todo de suspense. Novak Djokovic não treinou na quinta ou na sexta, chegou apenas às 19h locais ao estádio, exibiu faixas no ombro esquerdo antes de iniciar o aquecimento leve e até discutiu feio com um espectador mais afoito. Os jornalistas em Nova York apostavam que não ele não entraria em quadra. E se fosse, estaria inteiro? Conseguiria soltar os golpes?

Desde o bate bola, o sérvio mostrou firmeza. Ao longo do primeiro set, deu poucos sinais de estar ainda com algum desconforto, refletidos pela velocidade mais baixa do primeiro saque, em média 181 km/h, e no uso bem mais frequente dos slices de backhand. Em um momento ou outro, fez o gesto típico de quem queria descontrair o ombro.

Mas o importante é que a qualidade estava lá. Sólido no fundo de quadra, com grande variedade de opções táticas, encarou um animado adversário que brigou o tempo inteiro, construiu sete chances de quebra, arriscou mais do que o comum e acabou por valorizar a vitória, bem mais exigente do que indica o placar. Nole jamais pediu atendimento médico e fez jogadas magníficas, com diversos lances de total improviso e perfeição.

Quem gosta de tênis, só pode comemorar a recuperação de Djokovic. Porque no domingo verá o tão aguardado reencontro com o suíço Stan Wawrinka, sempre um tenista capaz de complicar a vida de qualquer dos Big 3. Aliás, Nole e Stan não se cruzaram mais desde a histórica final do US Open de 2016, em que o suíço estava num dia iluminado e conseguiu a virada. O placar geral no entanto é de 19 a 5 para o sérvio, que ganhou outros dois duelos que aconteceram em Flushing Meadows, em 2012 e 2013.

Federer on fire
Ao contrário das duas rodadas anteriores, Roger Federer entrou aceso para a partida diante do britânico Daniel Evans e dominou o jogo em todas as partes da quadra, desde o saque até as devoluções e o trabalho de rede. Selou a rapidíssima vitória de 79 minutos com números expressivos: 48 winners, sendo10 aces; 67% de acerto do primeiro saque e 80% de sucesso; 26 pontos obtidos nas 37 subidas à rede, alguns espetaculares.

Só perdeu o bom humor quando questionado na entrevista oficial sobre o suposto favorecimento apontado por Evans, que reclamou do pouco tempo de descanso, já que havia jogado na véspera devido à chuva de quarta-feira. “Estou cansado disso”, disparou. Interessante também foi sua avaliação sobre o que é jogar no sol da tarde: “O jogo fica muito mais rápido do que à noite. Até mesmo se comparado ao da quadra coberta”.

Será então que ele prefere reencontrar David Goffin fora da sessão noturna? O belga suou para superar Pablo Carreño, tendo salvado três set-points no segundo tiebreak e depois virado 3/5, com mais dois set-points, na outra série. Seu retrospecto contra o suíço é de 8 derrotas em 9 encontros. A se considerar, vive uma fase de ascensão técnica e mental depois do saibro europeu, tendo vencido desde então 18 de seus 24 jogos, a maior parte deles em pisos mais velozes.

Barty e Serena se aproximam do duelo
Com saque afiado, que lhe garantiu 11 aces, Ash Barty passou sem sustos por Maria Sakkari, repetindo Cincinnati dias atrás, e se tornou a única tenista na temporada a estar pelo menos nas oitavas de todos os quatro Grand Slam. Precisará agora encarar a consistência da chinesa Qiang Wang, número 18 do mundo.

Aproxima-se assim o esperado duelo com Serena Williams. A grande estrela da casa atropelou Karolina Muchova, inesperada quadrifinalista de Wimbledon, com uma bela mistura de 20 winners e 15 erros. Nas oitavas, enfrentará pela primeira vez a croata Petra Martic, 22ª do ranking e com história de superações na carreira.

E mais
– Aos 20 anos, Alex de Minaur consegue dois feitos: primeira vitória sobre top 10 na 12ª tentativa, ao tirar Kei Nishikori, e primeira vez nas oitavas de um Slam. Foi muito mais sólido: 29 erros diante de 60 do cabeça 7.
– Seu adversário será o búlgaro Grigor Dimitrov, que enfim dá sinais de reação. E olha, embora lucky-loser, o polonês Kamil Majchrzak é um bom jogador de tênis, muito agressivo. Será o primeiro duelo entre De Minaur e Dimitrov.
– Que jogaço entre Daniil Medvedev e Feliciano López. O russo se indispôs com a torcida ainda no primeiro set, fazendo gesto obsceno, mas não perdeu a cabeça e aguentou as 85 subidas à rede do canhoto espanhol, que ganhou 60 desses lances e deu show. Quando começou o torneio, Medvedev dizia que sua dificuldade era ganhar jogos longos e difíceis, então está indo muito bem. Levou uma tremenda vaia no fim do jogo. Vem agora uma surpresa e tanto: o canhoto Dominik Koepfer, alemão saído do quali que bate uma barbaridade na bolinha.
– Karolina Pliskova levou susto quando perdeu o tempo do saque no começo do segundo set e ofereceu incríveis 23 break-points a Ons Jabeur. Será favorita diante de Jo Konta, contra quem tem 6 a 1 nos confrontos diretos.
– A rodada noturna confirmou o interessantíssimo duelo entre Madison Keys e Elina Svitolina, mas as duas tiveram caminhos distintos para a classificação. Keys fez um primeiro set incrível contra Sofia Kenin até cair repentinamente na intensidade e quase se enrolou. Já a ucraniana arrasou Dayana Yastremska. Avizinha-se um duelo de ataque contra defesa, repetindo as oitavas de Melbourne meses atrás, onde deu Svitolina.

Para a história
Faltam duas vitórias para Serena chegar à 100ª no US Open, marca que apenas Chris Evert obteve em Nova York (101). A única outra tenista a ter número centenário em Slam é Martina Navratilova, com 120 em Wimbledon. Serena joga o US Open pela 19ª vez e só não chegou às oitavas na sua estreia, em 1998.

Meninas roubam a cena no US Open
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2019 às 01:13

Se a Next Gen masculina tem sofrido para arrancar grandes resultados dos mais experientes do ranking, principalmente nos Grand Slam, o circuito feminino está repleto de meninas cheias de vontade. E nada melhor do que duas pratas da casa para roubar a cena do US Open: Taylor Townsend e Coco Gauff foram os grandes destaques da quinta-feira em Nova York.

Townsend tem uma história controversa. Tida como grande promessa desde os 15 anos, não conseguia se livrar do excesso de peso e viu retirada a ajuda oficial da USTA por não entrar na considerada forma física ideal. Canhota, ela sempre se virou na base do talento e o que fez contra Simona Halep foi incrível: ao melhor estilo Martina Navratilova, sacou com slices e subiu à rede até mesmo atrás do segundo saque, colocando pressão constante na campeã de Wimbledon, que não achou um jeito de contornar a súbita mudança tática da adversária.

Taylor jamais foi uma tenista de saque-voleio, aliás nem tem um excepcional jogo de rede, mas a ousadia justificou a vitória. Terminou o jogo com 105 subidas, tendo feito apenas 16 no primeiro set mas 63 no terceiro. Não menos curioso: de seus 96 pontos na partida, 63 vieram com voleios ou com a pressão em cima de Halep e apenas 23 com erros não forçados da número 4 do mundo. Townsend enlouqueceu a torcida e analistas, caiu em lágrimas na entrevista em quadra e provou que vale a pena continuar tentando.

Na rodada noturna, Gauff voltou a brilhar, não apenas pelo tênis maduro mas pela postura profissional e jamais deslumbrada, algo difícil para quem tem apenas 15 anos. Fez um pouco de tudo. Ganhou o primeiro set de Timea Babos de forma conservadora, trabalhando cautelosamente os pontos, mas depois da reação da húngara percebeu que teria de arriscar para se antecipar e tomar mais conta dos lances. Sua média de primeiro saque beirou os 170 km/h e saiu de quadra com 83% desses pontos vencidos. Agora, nada menos que Naomi Osaka.

Masculino: o lado de cima
Os onze jogos da parte superior da chave não realizados na quarta-feira obrigarão seus vencedores a voltar à quadra nesta sexta-feira e alguns terão tarefas indigestas. O local Denis Kudla ganhou o direito de encarar o número 1 Novak Djokovic pelo segundo Slam seguido, tendo vencido apenas oito games em Wimbledon semanas atrás, e o habilidoso Daniel Evans tirou Lucas Pouille e reencontrará Roger Federer com placar de 0-8 em sets.

Stan Wawrinka se candidata a desafiar Nole nas oitavas se superar Paolo Lorenzi, que suou 4h48 para avançar no quinto set. Danill Medvedev cedeu um set, sentiu cãibras e pega outro veteraníssimo, Feliciano López, que ao menos não é de trocar muitas bolas. Claro que fica a expectativa sobre o problema no ombro esquerdo do sérvio, que passou por ressonância e não aparentou problema mais sério. Kudla não tem poder de fogo para incomodar tanto.

Jogo bem interessante envolverá David Goffin e Pablo Carreño, possíveis adversários de Federer nas oitavas, que primam por um jogo compacto na base e um bom trabalho de pernas.

Masculino: a parte inferior
Rafael Nadal nem precisou entrar em quadra e sempre fica a dúvida de quanto isso é realmente bom, ou seja, passar três dias sem competição real logo no início de um Slam. Ele vai pegar o esforçado Hyeon Chung e vislumbra John Isner, já que Marin Cilic continua em momento sofrível. Alexander Zverev manteve o padrão, já soma 10 sets e abre oportunidade para Diego Schwartzman ou até Tennys Sandgren se aventurarem por ali.

O outro quadrante está bem mais empolgante e já reserva Nick Kyrgios x Andrey Rublev e Gael Monfils x Denis Shapovalov nesta terceira rodada, mas ali no meio está também Matteo Berrettini, italiano de grande saque e que, num grupo de gente tão instável emocional ou fisicamente, pode muito bem tirar proveito.

Destaque
É excelente rever Chung em alto nível. O coreano de apenas 23 anos tem vivido tremendos altos e baixos desde que surgiu como grande sensação da nova geração, ainda em 2015. As contusões não o deixaram em paz e ele seguidamente interropeu a carreira para tratar dos mais variados problemas. Fez uma incrível semi no Australian Open do ano passado, superando até Djoko e chegando ao top 20, porém no meio do ano sucumbiu outra vez ao físico, agora panturrilha, lombar e até bolha. Deixou de jogar 11 torneios desde maio e ainda abandonou outro. Retornou agora em janeiro, mas em seguida sentiu as costas. Outra longa parada. Há poucas semanas, recomeçou em challengers. Passou o quali do US Open e terá a terceira chance de encarar Nadal. Em 2017, perdeu as duas sempre em sets diretos, mas levou Rafa ao tiebreak no saibro de Barcelona.

Para a história
– Batido por Chung, o veterano Fernando Verdasco, 35 anos, jogou a 48ª partida que foi até o quinto set, sofrendo a 23ª derrota. Pela sexta vez, levou virada tendo vencido os dois primeiros sets. Ele também ganhou outras seis após ter perdido os dois sets iniciais. Mais cruel ainda, sacou para a vitória com 5/4 no quinto set diante do coreano, fez um game tenebroso e desperdiçou um match-point no 6/5.
– Segundo a ATP, esta é a primeira vez na Era Profissional que o US Open tem três tenistas com 37 anos ou mais na terceira rodada: Federer, López e Lorenzi.

No tranco
Por José Nilton Dalcim
27 de agosto de 2019 às 01:27

Se alguém ainda tinha dúvidas do quanto pesou para Roger Federer a derrota em Wimbledon, a estreia no US Open respondeu tudo. Assim como aconteceu em Cincinnati, há duas semanas, o suíço se mostrou pouco à vontade, apressado e impaciente. O desastre de 2018, quando caiu numa noite de calor infernal para John Millman, não se repetiu porque o indiano Sumit Nagal não tem experiência nem consistência, e permitiu que pouco a pouco o número 3 do ranking pegasse no tranco.

Os números do primeiro set foram tenebrosos: 19 erros em 10 games, apenas 10 winners com 48% de primeiro saque. Demorou 1 hora para Federer enfim jogar num nível decente para o tamanho de seu jogo, mas ainda assim saiu de quadra com sete duplas faltas e apenas 66% de sucesso nas 50 tentativas junto à rede. Totalizou 61 winners e 57 erros, e isso diante do 190º do mundo que dias antes quase se despediu no quali diante de João Menezes.

Tomara que tenha sido o tal resfriado que se comentou nas mídias sociais – nenhum jornalista em Nova York confirmou até agora, 1h20 da manhã – e que Federer consiga se soltar diante do bem mais rodado Damir Dzumhur.

Novak Djokovic também não fez uma apresentação brilhante. Na verdade, me pareceu que o sérvio claramente jogou com o freio de mão puxado diante de Roberto Carballes, procurando fazer o suficiente para uma vitória sem sustos. E conseguiu. Forçou estritamente quando era necessário, não permitiu um único break-point e ainda aproveitou os bons golpes de base do adversário para buscar ritmo. Aliás, o atual campeão garantiu com todas as letras: não viu quadra mais rápida, nem bola mais leve. Tudo absolutamente igual a 2018, exceto claro (e felizmente) o clima bem mais ameno.

A outra expectativa do dia era o reencontro entre Serena Williams e Maria Sharapova, que já foram símbolo máximo do tênis-força feminino. Porém outra vez a russa se mostrou bem pouco competitiva. Teve lá suas chances de apertar, mas não aproveitou os cinco break-points construídos. O placar de duplo 6/1 talvez tenha sido até cruel demais, porém ratificou que o poder de fogo de Serena continua muito superior. Se servir de consolo, Sharapova cometeu apenas três duplas faltas. Riccardo Piatti vai ter muito trabalho para recolocá-la nos trilhos.

Resumo do dia 1
– Três cabeças deram adeus no masculino: Fognini, Pella e Fritz. O italiano se mostrou desanimado diante do sacador Opelka.
– Boas atuações da nova geração. Vitórias de Medvedev, Coric, Garin, De Minar e Kecmanovic, atuações acima da média de Jannik Sinner (tirou um set de Wawrinka) e Zachary Svajda (16 anos, levando Lorenzi ao 5º set).
– Quatro qualis e dois lucky-losers avançaram, entre eles o polonês Kamil Majchrzak, 23 anos, que tirou Jarry no quinto set.
– Thiago Monteiro fez seis games muito animadores, mas aí teve serviço quebrado e perdeu totalmente o rumo, dominado pelo também canhoto Bradley Klahn.
– Kerber e Garcia foram as primeiras cabeças a se despedir. Pliskova passou apertado em dois tiebreaks contra a quali Martincova e Barty levou 1/6 antes de dominar Diyas.
– Sem muita força no masculino, as norte-americanas se saíram bem. Além de Serena, avançaram Keys, Kenin, Venus, Davis e McNally.
– O resultado mais contundente foi o 6/1 e 6/0 que Sakkari deu em cima de Giorgi, vice no Bronx no sábado.

Destaques
– A postura ofensiva de Madison Keys chama a atenção desde Cincinnati. Na estreia do US Open, totalizou 27 winners, sacou acima dos 190 km com média de 170, ganhou 9 de 12 subidas à rede. Promissor.
– Aos 17 anos, Jannik Sinner é mais uma preciosidade do renovadíssimo tênis italiano. Encarou Wawrinka com personalidade, ganhou apenas 12 pontos a menos na partida e foi mais vezes à rede. Precisa trabalhar um pouco mais o forehand para diminuir os erros não forçados e aumentar a potência do saque, já que mede 1,88m.

Para a história
Ao contrário dos outros Slam, o US Open jamais viu um campeão na Era Profissional que tenha vencido todos os sets disputados. O último a conseguir o feito foi o australiano Neale Frase, em 1960.