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Teste de paciência
Por José Nilton Dalcim
23 de maio de 2022 às 18:52

O placar numérico foi elástico, como deveria ser, mas infiel à exigência que o canhoto baixinho Yoshihito Nishioka impôs ao número 1 do mundo em sua estreia de Roland Garros. A paciência para trocar dezenas de bolas e encarar um adversário que devolvia tudo levou Novak Djokovic a estridentes gritos, que ecoaram com mais força no teto fechado da Philippe Chatrier.

No final das contas, foi um excelente teste para o que pode acontecer lá nas quartas de final diante de outro canhoto raçudo mas muito mais perigoso. O importante para Nole esteve nas variadas alternativas que encontrou no plano técnico-tático, com direito a ace de segundo saque, curtinhas milimétricas, voleios aplicados e paralelas afiadas de backhand. Não menos relevante, dominou as frustrações que esse tipo de adversário impõe.

A expectativa em cima de Rafael Nadal não estava no jogo em si, já que o estilo de Jordan Thompson certamente era incapaz de causar dificuldades, mas quanto às condições físicas do espanhol. Ele não mostrou qualquer limitação, flutuou como de hábito pela terra batida e economizou esforço.

Mas houve algo a se observar. Sua atitude mais ofensiva, forçando o primeiro saque – a ponto de acertar só 51% – e buscando definições, com 27 winners e 21 erros, pode ser um sinal de que Rafa vai tentar mesmo pontos mais curtos. Será preciso no entanto observar as próximas rodadas, quando se espera jogos cada vez mais duros.

Na quarta-feira, Djokovic poderá encarar Alex Molcan, o novo pupilo de Marian Vajda, que só estreará na terça por conta da chuva, enquanto Nadal faz duelo de canhotos com Corentin Moutet, que fez um jogo bem animado com Stan Wawrinka e impediu o reencontro entre campeões de Roland Garros. O suíço não decepcionou pelo empenho e qualidade, está comparativamente muito à frente de Dominic Thiem.

As top 10 vão caindo
Nem acabou a primeira rodada feminina e já são quatro das top 10 eliminadas. Depois de Ons Jabeur e Garbiñe Muguruza, a atual campeã Barbora Krejcikova e Anett Kontaveit se juntaram à lista de baixas, mas a rigor não chega a ser uma enorme surpresa.

Apesar de Krejcikova ter vencido o primeiro set com autoridade, a virada da jovem francesa Diane Perry, que joga com backhand simples e muito estiloso, teve muito a ver com a longa inatividade e da falta de confiança nos pontos grandes. Kontaveit, além do histórico apagado em Paris, só tinha três vitórias desde fevereiro.

A super favorita Iga Swiatek não teve a menor dificuldade contra Lesia Tsurenko e o mesmo se espera diante de Alison Riske. Para melhorar seu lado, Liudmila Samsonova, a única que lhe deu real trabalho nas últimas cinco semanas, nem passou da estreia.

Decepção mesmo para a segunda vitória de Amanda Anisimova em cima de Naomi Osaka, porque o jogo foi de nível bem fraco, cheio de erros e decisões ruins. A japonesa, que havia prometido treinar com seriedade para o saibro, colocou 45% do primeiro saque em quadra e só fez nove winners da base. Ficou devendo muito.

E mais

  • Grandes estreias de Norrie, Cilic e Kecmanovic. O cabeça 17 Opelka caiu para Krajinovic e Cressy, na base do autêntico saque-voleio, teve match-point para marcar 3 a 0 sobre Basilashvili antes que o georgiano virasse.
  • Baez passou em quatro sets por Lajovic e pode dar trabalho a Zverev na segunda rodada, ainda mais se as condições estiverem lentas como as de hoje.
  • Raducanu levou um grande susto devido à atuação inesperada da tcheca Noskova e já se confessa feliz por ter vencido um jogo em Paris.
  • Emoções não faltaram na incrível virada da veterana Kerber sobre Frech. As duas correram muito e a polonesa teve dois match-points com saque a favor no finalzinho. A torcida ficou em peso com a alemã.
  • Azarenka e Andreescu flertaram com a derrota. A canadense esteve 6/3, 3/1 e quebra atrás de Bonaventure, enquanto a bielorrussa viu Bogdan sacar para a vitória no segundo set.
Djokovic ou Nadal ou Alcaraz
Por José Nilton Dalcim
19 de maio de 2022 às 19:08

O pior dos quadros previstos se concretizou. Roland Garros de 2022 não poderá ver uma batalha final entre Novak Djokovic, Rafael Nadal ou Carlos Alcaraz porque apenas um deles poderá atingir a decisão ao caírem no mesmo lado superior da chave.

Assim, logo de início, já fica a expectativa pelo 10º duelo entre o sérvio e o canhoto espanhol no saibro parisiense, um histórico que tem sete vitórias de Nadal. Seis delas aconteceram antes das quartas de 2015, quando enfim Nole quebrou o tabu. Rafa se vingaria com vitória acachapante na final de 2020, mas levou virada na semi do ano passado e então Djokovic se tornou o único a ganhar duas vezes dele em Roland Garros.

A primeira pergunta é: qual a chance desse encontro não acontecer? Vale lembrar que isso era esperado tanto em Madri como em Roma, mas Carlos Alcaraz atrapalhou na Caixa Mágica e Rafa sucumbiu às dores no Foro Itálico.

Djoko não tem adversários até as oitavas e aí me parece difícil que Grigor Dimitrov ou Diego Schwartzman endureçam. Nadal pode ter velhos conhecidos no caminho, como Stan Wawrinka e Fabio Fognini, mas talvez só Felix Aliassime seja barreira mais relevante, logo ele que agora é treinado pelo tio Toni. Claro que tudo depende de Rafa estar totalmente recuperado e dosar energia. Portanto, eu diria que há prognóstico de pelo menos 75% de vermos o 59º duelo entre os dois maiores recordistas de Slam em atividade.

Há enorme expectativa pela atuação de Alcaraz e isso por si só já é algo a ser administrado pelo garotão. Ele pode ter revanche na terceira rodada com Sebastian Korda, que jogou muito na inesperada vitória de Monte Carlo, e seria bem curioso cruzar nas oitavas com Dominic Thiem. O austríaco teria de ganhar de Hugo Dellien e teoricamente de Karen Khachanov e Cameron Norrie. Nada impossível.

O alemão Alexander Zverev corre totalmente por fora nesse fortíssimo lado superior da chave e tem que tomar certos cuidados, já que pode enfrentar Dusan Lajovic ou Sebastian Baez, Alejandro Davidovich Fokina e depois John Isner ou Taylor Fritz antes das quartas contra Alcaraz. Jogar longe dos holofotes surge como ótimo handicap para ele nesta altura do campeonato.

A segunda metade da chave ficou obviamente menos vistosa e reforça a oportunidade de Stefanos Tsitsipas repetir a final do ano passado. A estreia contra Lorenzo Musetti requer toda a seriedade do mundo, mas daí em diante parece impossível evitar que enfrente Casper Ruud nas quartas, ainda que Alex de Minaur e Hubert Hurkacz tenham feito atuações muito decentes no saibro europeu.

O quarto semifinalista tende a ser uma novidade do nível Andrey Rublev ou Jannik Sinner, dois jogadores que já fizeram quartas em Paris há dois anos. Eles ficaram no mesmo quadrante e são de longe os mais cotados para duelar entre si na quinta rodada.

E aí podem jogar contra Pablo Carreño, outro quadrifinalista de 2020 e nome forte num setor que tem Daniil Medvedev, Marin Cilic e Miomir Kecmanovic. No ano passado, o Urso fez uma bela campanha e atingiu quartas num piso que não gosta, mas parece bem difícil repetir isso com só um jogo feito no saibro desde então. Já o sérvio é uma excelente aposta para quem gosta do inusitado. Aos 22 anos, ele já disputará seu quarto Roland Garros. Eu ficaria de olho.

A previsão do feminino deixo para o próximo texto, mas já adianto que gostei muito do sorteio para Bia Haddad Maia, que estreia contra uma qualificada e tem Garbiñe Muguruza em péssimo momento no caminho, podendo repetir a grande vitória de Wimbledon em 2019.

Melancolia para Rafa, história para Bia
Por José Nilton Dalcim
12 de maio de 2022 às 20:42

Não bastasse Novak Djokovic estar recuperando a cada dia sua grande forma e ao mesmo tempo ter surgido um audacioso Carlos Alcaraz decididamente perigoso, Rafael Nadal ganhou nova preocupação, e talvez esta ainda maior. Apenas cinco jogos depois da parada forçada para tratar de uma fratura na costela, o problemático pé esquerdo voltou a limitar o espanhol e contribuiu sobremaneira para sua eliminação nas oitavas de final de Roma, onde defendia o título do ano passado.

Rafa já deixou claro que é uma lesão crônica, portanto não há tratamento possível. Resta conviver com isso. Como já explicou antes, nem é uma questão de economizar calendário ou treinos. A dor de repente aparece e o atrapalha. Foi exatamente o que aconteceu nesta quinta-feira diante de Denis Shapovalov. Depois de um primeiro set avassalador, veio uma queda no começo da outra série e uma ligeira recuperação, mas já se percebia que aquele Nadal não era o mesmo, mais atrasado para arrancar e muito errático. Ainda saiu com quebra no terceiro set, porém não sustentou e daí em diante foi dominado por um adversário que soube conduzir o momento de forma taticamente esperta.

Eis que o ‘rei do saibro’ passa a ser uma grande incógnita para Roland Garros. Agora, nem é mais uma questão de discutir quem é mais favorito mas de perguntarmos o quanto ele conseguirá se recuperar nos 10 dias que faltam para o Aberto francês e em que medida sua confiança estará abalada. Porque, como todos sabemos, a parte atlética é componente essencial de seu plano de jogo. Será que Nadal se submeterá a infiltrações sucessivas para sua cabeça não desviar o foco? É de se esperar que seus adversários, desde a primeira rodada, ganhem inesperado ânimo. O clima desta noite na entrevista oficial do espanhol era melancólico e ele chegou a insinuar a aposentadoria.

Enquanto isso, Djokovic fez um treino de luxo contra Stan Wawrinka, que apesar de alguns ótimos lances mostra-se obviamente muito longe de estar competitivo num nível alto. No jogo que vale a permanência como número 1, enfrentará pela primeira vez Félix Auger-Aliassime, o novo pupilo de Toni Nadal, que não tem no saibro seu piso mais favorável. Mas será interessante ver se o canadense trará alguma coisa diferente para a quadra, já que a princípio trocar pancadaria da base pouco o beneficiará.

Se vencer, Nole poderá chegar no sábado em condição de anotar a histórica 1.000ª vitória da carreira contra Shapovalov ou Casper Ruud, duelo que revive a final de Genebra do ano passado vencida em dois sets pelo norueguês. Ele aliás precisa desesperadamente de uma grande campanha em Roma para sepultar as últimas semanas e chegar renovado a Paris.

O lado inferior da chave verá o segundo duelo entre Alexander Zverev e Cristian Garin e um imperdível reencontro entre Stefanos Tsitsipas e Jannik Sinner, o terceiro que acontecerá em Roma, com uma vitória para cada lado. Se o alemão leva certa favoritismo devido ao momento instável do chileno, ainda inseguro com o cotovelo, não dá para apostar no grego depois dos altos e baixos contra Grigor Dimitrov e Karen Khachanov. O italiano receberá apoio maciço da torcida mas nunca fez uma semi de Masters sobre o saibro. No ano passado, ganhou só um jogo em cada um deles e agora já fez quartas em Madri e oitavas em Monte Carlo.

Iga sobra na turma
O torneio feminino continua sendo um grande desfile de Iga Swiatek. É bem verdade que sofreu no começo do jogo contra Vika Azarenka, mas a partir do momento em que cortou os erros a polonesa deu outro grande espetáculo, com golpes muito agressivos tanto na cruzada como na paralela. A número 1 está claramente sobrando na turma e é de se esperar que some a 26ª vitória e quinta semi consecutivas contra Bianca Andreescu.

Tenho gostado também de Aryna Sabalenka. Sempre correndo riscos, mas menos ansiosa e se perdoando mais. Terá agora um teste de fogo diante de Amanda Anisimova, para quem perdeu todos os quatro confrontos, incluindo sobre o saibro. Não temos imperdível será a embalada Ons Jabeur contra Maria Sakkari, duas jogadoras de potencial comprovado mas que ainda pecam no emocional. Por fim, Paula Badosa causou nova decepção, foi incrivelmente instável e parou em Daria Kasatkina, que enfrentará a surpresa Jil Teichman.

O grande momento de Bia
Há uma enorme chance de Bia Haddad Maia chegar ao 50º lugar do ranking caso vença nesta sexta-feira a francesa Elsa Jacquemot, 229º do mundo, nas quartas de final do WTA 125 de Paris. As projeções apontam que ela totalizará 1.120 pontos e não poderá ser superada por concorrentes em ação nesta semana.

Caso isso aconteça, Bia será a quinta profissional brasileira a atingir o prestigiado grupo, juntando-se a Maria Esther, Niege Dias, Teliana Pereira e Patrícia Medrado. A última vez que um tenista nacional entrou de forma inédita no top 50 foi em 2015, com a mesma Teliana. O eventual título da canhota paulista em Paris a levará ao 41º posto.

Torçamos