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Líquido, mas não tão certo
Por José Nilton Dalcim
8 de outubro de 2020 às 19:50

Rafael Nadal e Novak Djokovic têm gigantesca vantagem sobre seus adversários das semifinais de Roland Garros. Combinados, são 36 títulos e 53 finais de Grand Slam, 16 delas no torneio. Diego Schwartzman e Stefanos Tsitsipas não somam sequer 17% da quantidade de vitórias na carreira do Big 2 e, mesmo juntos, na terra ganharam 123 jogos, não muito longe dos 98 que o canhoto espanhol ganhou apenas em Paris.

Então há um abismo entre os pretendentes à vaga na decisão de domingo. Mas se tudo parece tão líquido e certo, existem dúvidas para apimentar as partidas, que dão largada às 9h45 desta sexta-feira. Nadal acabou de ser derrotado pelo argentino em Roma, não se sente à vontade com a nova bola do torneio e, segundo seu próprio treinador, não está 100% fisicamente, culpa da pandemia. Já Djokovic preocupa pelas dores no pescoço que reapareceram repentinamente no jogo de quarta-feira e limitaram sua performance.

Schwartzman fez um jogo magnífico no Fóro Itálico, onde mesclou paciência com agressividade, ingrediente essencial para ser competitivo diante do espanhol. Foi então sua primeira vitória em 10 confrontos e isso obrigatoriamente dá confiança. Mas melhores de cinco sets são outro jogo de tênis, exigem saber dosar a parte física, estar com a cabeça fria para suportar pressão e frustração, e achar motivações em qualquer coisa. El Peque fez tudo isso com maestria no exigente duelo contra Dominic Thiem, porém cinco horas de tamanho esforço cobram um preço.

Imagino que Nadal entrará com outra postura em quadra e evitará dar espaço a Schwartzman. Penso que tentará ser agressivo, principalmente nos primeiros games de bola nova, que fazem essa Wilson andar mais, e vai explorar isso no forehand do adversário, que é menos sólido que o backhand. Com média de primeiro saque a 160 km/h, o argentino oferece oportunidade para ser atacado logo de cara, mas será que Rafa vai deixar a posição excessivamente recuada de devolução de saque? Thiem, que absurdo, não fez isso.

Djokovic é outro que não pode se dar ao luxo de esperar para ver. Tsitsipas é agressivo, adora a combinação de saque-forehand, faz transições oportunas e voleia bem. Então mantê-lo na defensiva pode ser o caminho ideal, ainda mais porque temos visto o grego pecar pela imaturidade ao se ver apertado. Paralelas dos dois lados, ainda que sejam uma alternativa mais arriscada, podem surtir esse efeito. E se a limitação física continuar, pontos curtos ficarão cruciais.

Se esses quatro tenistas tão especiais jogarem seu melhor, ao menos teremos a garantia de espetáculo e emoção. Ah, e como já sei que muitos irão me perguntar, apostaria 3 sets a 1 tanto para Nadal como para Djokovic.

E mais
– Bruno Soares está em sua segunda final seguida de Slam, a nona da carreira, e agora tem ao menos uma decisão em cada grande torneio. Que feito! Sair do veloz US Open e brilhar no lento Roland Garros é para bem poucos. Já com a volta ao 6º lugar do ranking garantida, ele e o parceiro canhoto Mate Pavic enfrentarão no sábado os atuais campeões, os alemães Krawietz e Mies.
– Iga Swiatek, de 19 anos, não deu a menor chance a Nadia Podoroska e. sem perder set no torneio, tentará dar o primeiro troféu de Slam em simples para a Polônia, algo que escapou de Aga Radwanska em Wimbledon em 2012. Sua aplicação tática é tão notável como sua execução técnica dos golpes. Terminou com goleada de winners: 23 a 6.
– Sua adversária será a norte-americana Sofia Kenin, em busca do segundo Slam da temporada, um feito incrível. Ela foi precisa nas devoluções e nunca deixou Petra Kvitova parada, mas quase permitiu reação no final do segundo set. Apenas dois anos mais velha que Swiatek, a experiência deve pesar em favor de Kenin, mas curiosamente elas só se cruzaram no torneio juvenil de Roland Garros de 2016 e a polonesa ganhou.

‘O segundo melhor’ desafia Djokovic
Por José Nilton Dalcim
5 de outubro de 2020 às 19:35

Pablo Carreño garantiu logo de cara: só Rafael Nadal joga melhor que ele nas novas condições de Roland Garros. Então ele terá uma oportunidade de ouro para comprovar isso dentro de 48 horas, quando reencontrará Novak Djokovic, o segundo maior postulante ao título.

O duelo também nos remete obrigatoriamente ao US Open de um mês atrás, onde duas coisas inesperadas aconteceram: Carreño iria sacar para vencer o primeiro set quando Djokovic foi desclassificado ao atingir uma juíza de linha com uma bola inapropriadamente arremessada ao fundo de quadra.

Claro que “sacar para ganhar o primeiro set” é pouca coisa numa melhor de cinco sets e quando se têm dois jogadores de currículos tão distintos. Mas não deixa de ser relevante que o espanhol dominava o sérvio num piso que tem sido o autêntico domínio do número 1.

Nos jogos desta segunda-feira, Nole encarou seu primeiro real teste e experimentou um pouco de tudo, incluindo alguns games tensos e serviço quebrado. Optou por um jogo morno no primeiro set, sem forçar as trocas, e encheu o pesado adversário de curtinhas. Até mesmo Djokovic reconheceu depois que exagerou na dose e talvez por isso seja mais econômico na próxima rodada. Khachanov, diga-se, não jogou mal e até me surpreendeu com sua capacidade defensiva.

O espanhol por sua vez fez um pouco de tudo diante da surpresa Daniel Altmaier, que teve o segundo set na mão e portanto a oportunidade de dar outro panorama à partida. Faltou aquele sangue frio e aí perdeu nove games consecutivos. Se Nole treinou drop shots, Carreño se exercitou na rede, com 38 subidas e 26 pontos. Será o padrão para quarta-feira?

Olha aí a nova geração
Outra boa notícia para este Roland Garros que anda pecando pela falta de emoções é o duelo de nova geração entre Stefanos Tsitsipas e Andrey Rublev, que repetem a recente final de Hamburgo, vencida pela russo. Ele também lidera por 3 a 2 no geral e eu o acho mais jogador no saibro do que o grego.

Rublev fez o grande jogo do dia contra Marton Fucsovics, repleto de alternâncias táticas e reviravoltas. O húngaro teve incríveis chances o tempo todo. Ganhou o primeiro set, liderou o segundo – quando sacou para 2 a 0 – e também o terceiro, e por fim teve três set-points para levar ao quinto.

Tsitsipas não foi mal, mas o duelo contra Grigor Dimitrov teve intensos altos e baixos. O búlgaro totalizou 53 erros em três sets, desperdiçou um tiebreak do segundo set com o saque na mão e sempre me parece carecer de postura ofensiva. Ganhou aquele que foi mais atrevido.

Kvitova e Kenin perto do duelo
Ainda sem perder set na campanha, Petra Kvitova não escondeu a emoção ao atingir as quartas de Roland Garros. Foi sempre superior à chinesa Shaui Zheng, sem jamais abrir mão de seu estilo – tomou a iniciativa, fez 23 winners e 29 erros -, algo louvável num piso sabidamente lento.

Agora, enfrenta a ‘trintona’ Laura Siegemund, 66ª do ranking, que nunca foi tão longe num Slam. A alemã gosta do saibro e tem no currículo um notável título em Stuttgart, há três anos, quando fez filinha de top 10, superando Kuznetsova, Pliskova e Halep.

Por fim, Sofia Kenin levou um susto mas calou a pequena torcida francesa, ao virar com sobras em cima de Fiona Ferro. Fato curioso, os técnicos das meninas assistiram à partida lado a lado em animado bate papo. A campeã do Australian Open aguarda Ons Jabeur ou Danielle Collins, que tiveram jogo adiado pela chuva.

500 vezes Soares
Dupla alegria para o mineiro Bruno Soares: ao atingir a vitória de número 500 na especialidade, ele avançou para sua terceira semifinal de Roland Garros, cada uma delas com um parceiro diferente. Desta vez, está com o canhoto Mate Pavic.

Se superarem os perigosíssimos colombianos Juan Sebastian Cabal e Robert Farah, o brasileiro se candidatará a um terceiro diferente troféu de Slam, já que tem conquistas na Austrália e nos EUA. Só Maria Esther Bueno tem um cardápio tão vasto , em simples ou em duplas.

Além de Bruno, o ex-parceiro Marcelo Melo também já atingiu tal expressiva marca de vitórias em torneios de primeira linha. ‘Girafa’ está um pouco à frente, com 532.

A moleza vai acabar
Por José Nilton Dalcim
3 de outubro de 2020 às 19:27

Novak Djokovic perdeu apenas 15 games em três jogos, com direito já a dois ‘pneus’, e com essa facilidade toda chegou neste sábado à 11ª participação consecutiva nas oitavas de final de Roland Garros. Mas a moleza deve acabar. Ainda que seja o favorito natural, na segunda-feira terá pela frente Karen Khachanov, o 16º do ranking que já o derrotou com seu estilo mão de pedra.

O saibro de Paris tem propiciado a Khachanov suas campanhas mais expressivas em Grand Slam. Nunca deixou de estar na quarta rodada em quatro participações e no ano passado fez quartas. Não recua da ideia de sempre forçar o jogo. Diante de Cristian Garin, foram 34 winners e 51 erros, números ainda inferiores à rodada anterior frente a Jiri Vesely, em que fez 65 bolas vencedoras e 42 falhas.

E querem saber? Se sonha barrar o número 1, o caminho é esse mesmo. Claro que não pode dar tanto ponto de graça a um adversário mais consistente e no auge de sua confiança, porém terá de correr riscos, evitar os grandes ralis e tomar cuidado com os ângulos porque joga muito perto da linha e não tem toda essa mobilidade lateral.


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É bem provável que Djoko tenha outro adversário gabaritado nas quartas, caso Pablo Carreño consiga acabar com o sonho dourado do quali alemão Daniel Altmaier, que não perdeu set na semana nem mesmo diante do top 10 Matteo Berrettini. No duelo entre espanhóis que gostam bem mais da quadra dura, Carreño superou Roberto Bautista. E todo mundo deve se lembrar que Carreño iria sacar para o primeiro set no US Open quando houve o lance infeliz de Djokovic.

Segundo conta o site da ATP, Altmaier há um ano nem sabia se iria prosseguir na carreira, sofrendo de problemas crônicos no abdome e lesão no ombro. Dono de backhand de uma mão, foi para os challengers assim que a pandemia permitiu e já soma seis vitórias em Roland Garros, perdendo um único set na fase classificatória. O alemão despontou em 2017, ao chegar em quartas de ATP ainda aos 18, mas a temporada seguinte foi limitada pelos problemas físicos.

Outros dois jogos bem interessantes acontecerão no outro quadrante. Mais dois backhands simples se cruzam com Stefanos Tsitsipas e Grigor Dimitrov, dois que não completaram seus jogos deste sábado por desistência dos adversários. Um duelo de tops 20 que nunca aconteceu e isso reforça a imprevisibilidade. Já Andrey Rublev me parece favorito diante de Marton Fucsovics, ainda que o húngaro tenha vencido os dois confrontos no saibro que já fizeram, porém isso antes de 2018.

Fucsovics colocou fim à campanha de Thiago Monteiro, num jogo que teve um primeiro set muito nervoso e também decisivo. Mesmo tendo quebrado o húngaro por duas vezes seguidas no começo do jogo, o brasileiro também não sustentou seu próprio saque, que vinha tão bem nas partidas anteriores.

No fundo, ele não achou respostas adequadas às variações mais frequentes de Fucsovics, que usou até slice de forehand. Também fez boas transições à rede e dominou os dois sets seguintes com maior autoridade. Monteiro deu mais um passo à frente na sua boa temporada e tentará o último suspiro sobre o saibro europeu no ATP italiano da Sardenha no outro fim de semana.

Uma nova finalista em Roland Garros
A queda das campeãs de 2016 e 2017 neste sábado garante uma finalista inédita na parte inferior da chave feminina de Roland Garros. As únicas entre as oito principais cabeças sobreviventes são Sofia Kenin e Petra Kvitova. Mas as ‘zebras’ andam soltas e melhor não apostar.

Talvez inspirada no namorado Stan Wawrinka, a espanhola Garbiñe Muguruza fez um grande esforço para ser eliminada, e conseguiu o objetivo. Depois de perder o primeiro set para Danielle Collins, vinha com amplo domínio até 4/2 e break-point no terceiro set, sempre agressiva. Aí passou a cometer erros inacreditáveis, perdeu a confiança num passe de mágica e não ganhou mais game.

Collins, que é treinada por Nicolás Almagro e tenta reencontrar aquele tênis que a levou à semi da Austrália no ano passado, enfrenta a tunisiana Ons Jabeur. que tirou Aryna Sabalenka em jogo cheio de alternâncias. Quem passar enfrentará Kenin ou a local Fiona Ferro, que tem predicados. Kenin repete as oitavas do ano passado e Ferro, 49ª do mundo, só tinha uma vitória nas cinco presenças anteriores em Roland Garros.

Kvitova por sua vez conseguiu uma virada espetacular diante da juvenil Leylah Fernandez, que teve 5/1 e set-point. Sem abrir mão da bola forçada, a tcheca reagiu e venceu nove games seguidos. Vem agora o jogo defensivo da chinesa Shuai Zhang e, se passar, terá uma novidade pela frente: a espanhola Paula Badosa ou a alemã Laura Siegemund, que tiveram vitórias sobre favoritas. Badosa apostou na regularidade, fez 10 erros e viu Jelena Ostapenko falhar 43 vezes. Já Siegemund tem 32 anos e chega à maior campanha em Slam depois de virar em cima da croata Petra Martic.

E mais
– O garoto Hugo Gaston tenta se tornar o tenista de mais baixo ranking a cbegar nas quartas de Roland Garros. Mas o 239º colocado terá diante de si Dominic Thiem. que tenta a quinta presença seguida nas quartas.
– Façanha semelhante aguarda Sebastian Korda, 213º colocado, que não esconde ser fã do seu adversário, Rafa Nadal. O último norte-americano nas oitavas de Paris foi Agassi, em 2003.
– A tarefa também é dura para os italianos Jannik Sinner e Lorenzo Sonego. O primeiro enfrenta Alexander Zverev, o outro cruzará Diego Schwartzman, ambos duelos inéditos.
– Gaston, Korda, Sinner e Altman jogam seu primeiro Roland Garros, igualando 1994, última vez que quatro debutantes foram tão longe no torneio. O último a fazer quartas foi Nadal, em 2005.
– Nadal aliás joga sua 98ª partida em Roland Garros (96-2) e busca a 996ª vitória da carreira, das quais 441 foram no saibro e 278 em Grand Slam.
– Simona Halep é favorita para repetir vitória sobre Iga Switek do ano passado, mas Elina Svitolina perdeu três dos quatro duelos diante de Caroline Garcia. Vem muita tensão por aí. Jogos acontecem protegidos pelo teto retrátil.
– Bruno Soares e Luísa Stefani voltam à quadra para buscar quartas de final nas chaves de duplas.